A Itália não perde há 16 jogos e classificou-se com uma facilidade nada usual em seu grupo nas eliminatórias européias. O esquema de jogo do técnico Marcello Lippi (várias vezes campeão do calcio italiano pela Juventus) é apelidado de “árvore de Natal”.
Antigamente, os italianos preferiam esquemas defensivos baseados no Catenaccio pós-Copa de 1938 e no ferrolho suíço de 1954. Provavelmente, essa preferência explique por que os meias e os atacantes de maior brilho na Juventus, no Torino, no Milan, na Internazionale, na Fiorentina, na Roma, na Lazio, na Sampdoria, no Parma, no Napoli e na Udinese (apenas para citar os clubes que mais cederam atletas à Azzurra na história das Copas) tenham desempenhado menos na seleção italiana do que em seus clubes através dos tempos.
Mais adiante, a evolução tática mais marcante na “Bota” (como o veterano, simpático e competente comentarista ex-Band – atualmente na ESPN Brasil – Silvio Lancellotti carinhosamente chama a Itália de seus ancestrais) foi o 4-4-2 avançado do técnico Arrigo Sacchi (que, posteriormente, foi mal-sucedido na Squadra Azzurra apesar de tê-la levado a uma digna derrota por pênaltis na final de 1994 contra o Brasil) no grande Milan papa-tudo do final da década de 1980, quando contava com o talento do atacante pela direita Donadoni (pra mim, quase tão bom quanto os ídolos Roberto Baggio e Francesto Totti e melhor do que o romano Graziani tricampeão em 1982) e do trio holandês que fazia toda a diferença: Rijkaard (hoje técnico do Barcelona, bicampeão espanhol recém coroado na Champions League), Gullit (um monstro de meia-atacante) e Van Basten (técnico da jovem seleção da Holanda).
Até os atuais 21 minutos do primeiro tempo – quando a Itália já vence os anfitriões por 1×0, gol do matador milanista Gilardino escorando cruzamento pela esquerda do bom ala Grosso aos 10 – vejo uma Squadra Azzurra jogando com uma linha de três zagueiros “zagueiros” (Zaccardo pela direita, Cannavaro pelo meio e Materazzi pela esquerda), uma segunda linha de quatro que sabem sair jogando e também reforçam bastante a marcação (os volantes Gattuso pela esquerda e Pirlo pela direita mais os dois alas Grosso pela esquerda e Camoranesi pela direita), dois meias-atacantes competentes (o experiente artilheiro juventino Alessandro Del Piero pela esquerda e o ídolo Francesco Totti da Roma pela direita), finalizando a formação com o “matador” Gilardino lá na frente.
As três linhas aproximam-se bastante, o que facilita bastante a retomada da bola. A Itália é veloz e joga preferecialmente através de toques curtos nos contra-ataques, quando conta como um esquadrão ofensivo de alas que cruzam muito bem, meias que entram pelo meio chutando forte de fora da área, mas carece de um bom cobrador de faltas.
A Itália é favorita porque tem muita qualidade e um grupo bastante equilibrado. O que falta à Azzurra é a retomada da criatividade e da impetuosidade de Totti. Caso ele esteja fisicamente inteiro – pois volta de uma grave lesão – pode até ser o craque da Copa, caso os italianos voltem da Alemanha com o tetra.
A iniciativa, em situação normal, não é mais do adversário mas, sim, da própria Itália que, sob o comando de Lippi, não tem mais dado prioridade ao antigo mantra de “defender primeiro e contra-atacar depois”.
Contudo, contra adversários inexperientes que adoram jogar-se ao ataque como a maioria dos africanos (menos Gana, seu difícil rival no grupo E) ou contra inimigos fortes demais (como o Brasil, a Argentina, a França e a Inglatera, por exemplo), o congestionamento no meio-de-campo e os lançamentos para Totti, Del Pieri e Gilardino deverão funcionar como nunca.
Bem dizendo, é o abafa criado por Manos Menezes para este Grêmio do Brasileirão 2006. Porém, aplicado com (muito) mais qualidade no passe, alta velocidade e posicionamento rigoroso dos zagueiros e dos volantes.
A melhor forma de atuar contra um adversário como a Itália é ter laterais bons no apoio e jogadores que chutem muito bem de fora da área. Fora essas duas recomendações, vale ainda o contra-veneno do “abafa” no meio, só que o lançamento precisa ser feito em menos toques do que os azzurri utilizam nos seus ataques.