La Furia, a seleção espanhola, teve raríssimos momentos de glória na história das Copas. Sua geração de ouro atuou entre as Copas de 1950 e 1962. Foi o Real Madrid mais estupendo de todos os tempos: o pentacampeão europeu de 1956 a 1960.
O clube branco da capital, infelizmente, teve sua biografia manchada por ter sido utilizado pela ditadura do período Entre-Guerras como ponto de afirmação demagógica-nacionalista do regime do general Franco.
Mas, após a II Guerra Mundial, estava abarrotado de craques estrangeiros como o argentino Alfredo Di Stefano (hoje presidente de honra dos Merengues) e o gênio húngaro Ferenc Puskas, o Major Galopante, já falecido. Até a década de 1980, o ótimo atacante da própria Espanha, Gento, era provavelmente o maior craque já produzido na Ibéria.
Bem, esse preâmbulo histórico serviu para introduzir o que realmente interessa: apesar da Espanha ter-nos dado jogadores prodigiosos como os goleiros Arconada (anos 80′s) e Zubizarreta (anos 90′s); o zagueiro Fernando Hierro (meados dos 80′s até início do século XXI); o volante Caminero (fim dos 80′s a meados dos 90′s), o habilidoso meia Michel (anos 80′s) e o goleador impiedoso Emilio "El Buitre" Butragueño (anos 80′s), os valores surgidos logo após essas duas boas gerações na segunda metade dos anos 90′s e na primeira metade da década de 2000 têm sofrido a pressão enorme de terem que representar uma nação de 60 milhões de habitantes tão fanática pelo esporte bretão quanto brasileiros, argentinos, mexicanos, gregos, portugueses, italianos, ingleses, holandeses, japoneses e alemães.
O peso de reino latino com uma das maiores economias do planeta, pólo importador dos melhores craques brasileiros e argentinos (ao lado de Itália e Alemanha) desde os anos 50′s do século passado e, acima de tudo, o imenso sucesso e a monumental fama de seus dois maiores clubes (que estão seguramente entre os cinco maiores do planeta, Real Madrid FC e FC Barcelona) funciona como uma insuportável panela de pressão sobre os atletas nativos.
O Real conta hoje com os astros internacionais Cicinho, Roberto Carlos, David Beckham,
Júlio Baptista, Zinedine Zidane, e Robinho. Para tanto, abriu mão de escalar alguns jogadores da própria Furia como titulares ou, em outros casos, até foram negociados para que pudessem jogar em outros clubes.
Para corroborar com a minha argumentação, a prova da mediocridade técnica e emocional da seleção da Espanha passa pelo desânimo dos jogadores locais ao serem preteridos pelo clube mais famoso do mundo, detentor de nove títulos da UEFA Champions League. O Real conta com o fraquíssimo Michel Salgado, um eterno "bruxo" que virou sinônimo de móveis e utensílios da família merengue – pelo visto, vai para a sua terceira Copa consecutiva como titular. Óbvio que ele tem serviços prestados, eventualmente faz gols de fora da área, mas não marca ninguém e não tem um cruzamento preciso. Logo, está lá muito mais porque é taticamente obediente e um homem maduro do que por um suposto talento. Todo grande time precisa de carregadores de piano para as estrelas brilharem. Mas Salgado não chega nem a isso.
O Real também teve o jovem zagueiro Sergio Ramos convocado pelo selecionador nacional Luís Aragonés. Ele é um defensor alto e magro. Embora não seja descoordenado, tampouco pode ser considerado veloz. Tem impulsão, sim, mas não demonstra vigor nem imposição junto aos atacantes adversários quando está no ar. E, por baixo, bem… Tá certo que a tarefa de marcar Ronaldinho e Eto’o no clássico vencido pelo Barça por 3×1 na última Liga (que termina amanhã com o ‘amistoso de luxo’ para entrega das faixas tanto do bi da própria liga como da Champions para o Barcelona pelos bascos do Athletic Bilbao) é sempre das mais inglórias até para os melhores defensores da Terra (John Terry que o diga). Mas é muito fácil passar por Ramos assim, de vereda.
Os outros dois convocados do Madrid são velhos conhecidos dos dois últimos mundiais. E, embora , respectivamente, com 25 e 29 anos, apesar de terem tanto um passado monstruoso na seleção e no próprio clube, o predestinado goleiro Iker Casillas (que só foi titular e teve uma campanha brilhante em 2002 graças ao corte do excelente Santiago Cañizares do Valencia por lesão) e o eterno capitão Raúl González valem, hoje, muito mais pelo potencial do que pelo atual real para o resto do grupo.
Já o arqui-rival blaugrana da Catalunya possui, no momento, jogadores jovens e em forma para comandarem a defesa e o meio-campo rojos na Alemanha: o motorzinho Xavi, um volante de passes precisos que joga em velocidade e dá um primeiro combate mais leal do que vigoroso; o capitão do Barça, zagueiro que, a exemplo de Xavi, também vai para a sua segunda Copa, Carles Puyol, duro e bem posicionado, com um grande espírito de liderança, porém sem muita estatura e com problemas para acompanhar alas e ponteiros velozes e habilidosos por baixo.
Dos listados por Aragonés vindos do maior clube do planeta (mais de 110 mil sócios – esta é a potência chamada FC Barcelona), contudo, o melhor é o outro volante – Andrés Iniesta. Apesar da posição mais defensiva do que ofensiva e de ele não ser o principal armador da equipe, Iniesta tem uma inquietação ágil, uma velocidade não estabanada. Sua competência é de reação imediata, porém sem uma impulsividade desmedida. Ele é tudo o que, aqui no Brasil Subtropical, acham que o colorado e ex-gremista Tinga é. Iniesta tem lugar em qualquer time do planeta, até mesmo na Seleção Brasileira, pois tem uma técnica e uma resistência física maiores do que as de Gilberto Silva e Edmílson, por exemplo. Ele é o que mais se aproxima e tende a ter um futuro mais brilhante do que o do hoje quase aposentado Claude Makelélé, ex-Real Madrid, hoje no bicampeão inglês Chelsea.
Do meio para a frente, finda a dependência da antiga dupla madridista Raúl-Morientes (hoje bem no Liverpool/ENG, porém deixado de fora do Mundial), Aragonés parece ter sido sábio ao reformular a Furia tomando como base os zagueiros de clubes que eventualmente ganham a Liga mas que costumam estar um pouco afastados do olho do furacão como Deportivo La Coruña e Valencia, além das revelações das últimas duas Ligas de España e vice-campeões mundiais Sub-20 vindos do Atlético Madrid, do Athletic Bilbao e da menina dos olhos de toda a península, o pequeno e valente Osasuna, de Pamplona,
quarto colocado na Liga, que disputará a terceira fase preliminar da UEFA Champions League em 2006/2007. Lugar especial entre os 23 também para algumas revelações do competente e tradicional Betis. Fico surpreso com a falta de convocados do atual campeão da Copa da UEFA, o Sevilla FC, rival do Betis, que tem um meia-direita que também faz as vezes de um ala anos-luz melhor do que Michel Salgado.
Um clube emergente com dinheiro no bolso praticamente sem representação é o Villareal: as apostas do Submarino Amarelo foram feitas em uma legião estrangeira que comporta uma constelação de jogadores argentinos, um atacante e um zagueiro uruguaios (fora da Copa) e um meia-atacante boliviano (igualmente eliminado do Mundial). Vai o brasileiro naturalizado espanhol Marcos Senna, um atacante forte com chute potente, que sabe vir de trás. É uma espécie de Júlio Baptista que, no Brasil, não faria a menor falta.
O meio-campista mais vezes convocado para a seleção espanhola, o valenciano Ruben Baraja, e o carismático atacante Fernando Morientes – mais eficiente na própria seleção do que no clube – foram ausências muito sentidas por seus colegas de clube também espanhóis e, ao contrário de seus respeitados e admirados colegas, estão na Copa. Contudo, acho válido apostar em Iniesta e Fabregas no meio e reforçar a defesa com a munição nativa que nem Real Madrid, nem Barcelona podem proporcionar ao treinador nacional. Na cabeça de alguns, pode ser que antigüidade e tradição sejam critérios relevantes. No entanto, o selecionador é Aragonés e foi ele quem escolheu. Afinal de contas, a palavra final é sempre a convicção de um único homem por país, independentemente da mídia, do presidente da república ou da opinião dos "medalhões" ainda em atividade.
Normalmente, a Espanha costuma classificar-se com facilidade para todas as Copas do Mundo desde 1978. Mesmo quando precisa encarar a repescagem, como aconteceu nesta ocasião, tem a sorte de pegar um adversário bastante inferior. Todavia, o peso do futebol espanhol no mundo não dá a esses 23 escolhidos em ao seu treinador o luxo de voltarem satisfeitos com uma participação apenas discreta na Alemanha em junho.
GOLEIROS: 1.Casillas (Real Madrid), 19.Cañizares (Valencia) e 23.Reina (Liverpool/ENG);
DEFENSORES: 2.Salgado (Real Madrid), 3.Del Horno (Chelsea/ENG), 4.Marchena (Valencia), 5.Puyol (Barcelona), 12.Antonio Lopez (Atletico Madrid), 15.Sergio Ramos (Real Madrid), 20.Juanito (Betis) e 22.Pablo (Atletico Madrid);
MEIAS: 6.Albelda (Valencia), 8.Xavi (Barcelona), 10.Reyes (Liverpool/ENG), 13.Iniesta (Barcelona), 14.Xabi Alonso (Liverpool/ENG), 16.Marcos Senna (Villareal), 17.Joaquín (Betis) e 18.Fabregas (Arsenal/ENG);
ATACANTES: 7.Raul (Real Madrid), 9.Torres (Atletico Madrid), 11.Garcia (Liverpool/ENG) e 21.Villa (Valencia/ESP)