Infelizmente, 53,6% da população gaúcha aceitou virar laboratório de práticas neoliberais dando uma guinada à direita provavelmente ainda mais forte do que a de 1994.
Não sou sociólogo para encontrar uma explicação exata para o fato, mas não há motivo racional nem cultural plausível para que eu acredite na hipótese de que o gaúcho é sempre contra o poder central, nem tampouco que deliberadamente evita repetir a mesma pessoa novamente ou o mesmo partido por dois mandatos consecutivos.
Aposto mais no ataque sistemático, irresponsável e anti-jornalístico da Grande Mídia através de uma agenda que ressaltou o preconceito anti-esquerdista dos municípios mais afastados das maiores cidades do Estado, influenciados também pelo lado nazi-fascista e não pelo lado empreendedor e cooperativista das nossas origens européias.
Nossa população do estamento A obviamente plantou o ódio e o terror, mas se absteve de dar as caras, usando a velha tática de apelar para o conservadorismo ao velho estilo Tradição, Família e Propriedade (TFP) ou, no mundo urbano, “Deus, Pátria e Família”. De folhetos apócrifos emitidos pela pelega Força Sindical contra Olívio Dutra até o terrorismo do novo vice-governador eleito que fez questão de falar mais alto e de não completar com “do Brasil” ao referir-se à candidata a vice de Olívio, Jussara Cony, do PC do B.
Yeda Crusius é conhecida no meio acadêmico como autoritária. Ser autoritária é exercer o poder de maneira centralizadora e anti-democrática, concedendo a palavra apenas para os financiadores que a alimentam e que receberão dela verbas públicas como moeda de troca. Isso é muito diferente da tola justificativa de auto-defesa que utilizou no Correio do Povo desta segunda-feira, quando diz que quem a considera “mandona” o faz por preconceito, já que ela é mulher.
Gostaria MUITO de saber o que impede as forças do campo democrático e popular de trabalharem forte a fim de garantir pelo menos um diretório do PT em cada um dos 444 municípios do Estado. O Partido dos Trabalhadores sequer tem um diretório a cada dois municípios. Isso reduz significativamente a possibilidade de crescer, de aparecer, de formar novas lideranças e, sobretudo, de ter a chance de desmistificar os preconceitos contra o socialismo, contra a cidadania, contra a inclusão social, contra o negro, contra os GLTBs e – mesmo tendo eleito uma mulher paulista pela 1ª vez – obviamente também contra a mulher, embora em menor grau.
Sem nenhuma maldade e sem rogar mau-agouro, apesar de todos os governos de qualquer tendência realmente investirem alguma coisa no social, a direita sempre investe uma insignificante migalha do orçamento. Com ajuda da Grande Mídia, um beneficio direitista que atinja efetivamente apenas 10 mil pessoas parece ter atingido 10 milhões.
Por ora, não nutro a menor esperança de que, só por ser mulher, só por ser economista, só por ser professora, só por nunca ter exercido nenhum cargo executivo, só porque seu partido nunca foi o mandatário-mor do Estado, só porque tem o apoio dos ricos, a situação vai melhorar.
Há uma questão gravíssima, que é uma nova doação paquidérmica de dinheiro público para uma grande empresa que trabalha como gafanhoto: limpa a lavoura e vai embora, que é a Aracruz Celulose.
No dia 09/10/2006, às 12:30h, assistirei a um documentário sobre o chamado “deserto verde”: as plantações de eucalipto para a fabricação de papel sugam toda a água e uma porção de nutrientes do solo. Gozado: a implantação da fábrica será na metade sul do RS, justamente a região mais pobre do Estado, que já sofre com um princípio de desertificação em alguns pontos perto da fronteira com o Uruguai.
Quero só ver o tamanho do incentivo fiscal e o tempo que vai durar a praga de gafanhotos…