Cá com meus botões, penso que educação e ensino não são exatamente a mesma coisa, mas podem andar juntos. Meu saudoso pai foi engenheiro de minas e metalurgia formado pela então URGS (hoje UFRGS). Ele fez carreira na antiga VFRGS (Viação Férrea do RS, depois encampada pela semi-extinta RFFSA). Tinha uma sabedoria conservadora: adorava Getúlio e Jango, foi discriminado pela ditadura mas, infelizmente, nunca pôde ser considerado de esquerda, embora não compactuasse com a direita, mesmo que a tenha apoiado por causa do bombardeio midiático e ideológico que sofreu durante décadas a fio.
Sua criação foi muito pobre e, por herança genética de seu pai, trouxe consigo fortes traços de um comportamento muito rude, embora humano e justo. Apesar de tudo, tanto a família de onde nasceu quanto a que deixou para sucedê-lo sempre foram unidas, honestas e cortesas.
Era muito autoritário. Porém, por ser muito mais novo do que os outros, por ter sido adotado e também por ter tido a sorte de ter nascido num período em que a sua condição financeira era bem melhor do que quando teve meus três irmãos 12 anos antes (em um espaço de apenas três anos e meio da mais velha à mais nova, passando pelo segundo), peguei um período onde ele estava muito mais manso.
Para a minha sorte, ele também adorava documentários e esportes. Adorava política, ainda que por vias tortas. Lia demais, apesar de não ter tido um bom mentor que o indicasse as leituras mais adequadas sobre os mesmos temas. Ajudou mais de 6000 aposentados e pensionistas da VFRGS como vice-presidente da AFARGS (Associação dos Ferroviários Aposentados do RS) de 1984 a 1986 e, daí até 2002, quando faleceu, como presidente.
Como bons geminianos, apesar das discussões ferrenhas até com gritos e olhares feios de ambas as partes, nos dávamos muito bem, nos respeitávamos e nos admirávamos muito. Com a morte do velho, acho que isso se perdeu de maneira geral na família – e quem mais perdeu fui eu, sem sombra de dúvida. Afinal de contas, perdi toda e qualquer possibilidade de um debate político e social em alto nível dentro da família, nem que fosse com apenas 30% de opiniões e valores compartilhados.
Talvez ele tenha feito até demais por mim em certo tipo de situação para me ajudar, assim como não percebeu que não fez quase nada justamente em outros momentos que, hoje em dia, refletem diretamente em dificuldades emocionais e profissionais que enfrento diariamente. Mas tudo foi com a melhor das intenções.
Geminianos são curiosos: adoram saber de tudo um pouco. Mesmo os menos falantes, falam pelos cotovelos através de suas canetas ou teclados. Não gostam de ficar sem assunto, muito menos que não dêem bola para o que eles falam. Mesmo os mais tímidos são extremamente cativantes.
Ele nunca entendeu minha escolha profissional. Ao invés de Jornalismo, preferia que eu tivesse feito Direito. Quando troquei de curso para Publicidade, deu a maior força, mas entendia muito pouco e não demonstrava muita curiosidade pelo meu ofício. Quando decidi chutar o pau da barraca e ir de mala e cuia para o Rio de Janeiro, me deu apoio total e irrestrito. Quando decidi me separar e voltar com o rabo entre as pernas derrotado profissionalmente e como um “ilustre desconhecido” para a “terrinha”, fui recebido quase com honras de chefe de Estado.
A sensibilidade dele tinha muito a ver com o que hoje eu sei que me dá mais prazer em fazer: ler, estudar, pesquisar, comunicar, escrever, falar, contar histórias, debater, aconselhar, demonstrar, criticar. Sugeriu que eu tentasse ser diplomata. Não faz parte de meus planos imediatos, mas também não nego a hipótese. Não como negava antigamente.
No mais, ele acertou em cheio: eu tinha tudo pra ser um excelente professor universitário. E o comecinho da minha ainda tortuosa caminhada acadêmica, como professor de Comunicação Visual, Projeto Gráfico em Propaganda e Processos de Produção Gráfica em 2002/2 e 2003/1na FABICO/UFRGS, ele ainda acompanhou: sempre que eu ia até a cama dele dar-lhe um beijo, ele dizia “tchau, teacher!”.
Para os cariocas, tudo o que é bom, se não for “maneiro” é “muito foda” ou, então, “gostoso”: então, outra lembrança “gostosa” é que, quando eu estava no 2º ano do 2º grau no IPA, fazia teatro. Depois do sucesso da minha esquete no ano anterior (na qual representava um soldado espartano voltando da guerra e louco de tesão pela esposa que estava fazendo greve de sexo até que o conflito terminasse), fui o protagonista da nova peça.
Qual o meu papel na fase adulta?
- Professor.
O filósofo de formação e jornalista por atuação (quando ainda nem existia uma faculdade de jornalismo no RS), o comentarista esportivo Ruy Carlos Ostermann, certa vez escreveu que o ser humano não é unívoco. Concordo plenamente. Afinal de contas, todos os indivíduos, independentemente da necessidade de sobrevivência e da maior ou menor capacidade de adaptação e de improvisação, sempre tem várias qualidades físicas e intelectuais diferentes, das quais pode se aproveitar para servir à sociedade e, sobretudo, satisfazer à sua auto-afirmação como um ser único.
Dentre tantos momentos negativos, de baixa auto-estima, de crenças que me impediam de agir com independência e autonomia (algumas ainda impedem – mas estou trabalhando para que elas sejam abandonadas), de falta de força de vontade e de traçar metas e cumpri-las, creio que, finalmente, me encontrei.
Posso ser um ótimo professor, escritor, jornalista, palestrante, diplomata e até mesmo político. Professor e escritor, parecem ser os caminhos mais próximos. Palestrante, já fui, eventualmente – e adoraria sê-lo outras vezes. Político? Quem sabe… Mas primeiro preciso aprender a ter nervos de aço e a preservar a saúde do meu fígado, além de ser (muito) mais esperto pra conhecer as pessoas certas, no lugar certo e na hora certa. Do contrário, prefiro continuar como militante das causas nas quais acredito, sempre voltado para a esquerda, porém sem filiação partidária, apesar da minha simpatia e do meu envolvimento como militante do PT.
Diplomata? Cultura eu adquiro. Discernimento, idem. Patriotismo, também. A prova é duríssima e exigiria dedicação exclusiva. Não, não é o momento. E nem sei se, um dia, será.
A caminhada começa no dia 12/03/2007. Até 31/12/2008, espero estar com meu título de mestre, a fim de poder ser oficialmente contratado como professor-pesquisador por alguma boa universidade, a fim de adquirir minha independência fazendo o que mais gosto e – pasmem – ainda recebendo dinheiro por isso! :D
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