
Hoje, 23/01, é o 68º aniversário do fim do lendário Mathias Sindelar, o maior jogador austríaco de todos os tempos.
Sindelar nasceu em Kozlov, perto de Jihlava, na província tcheca da Morávia – então parte do Império Austro-Húngaro – no dia 10/02/1903 (mesmo ano do Grêmio e do meu avô, Edegar Paz Padilha).
Ele foi um atacante muito habilidoso, rápido e tão leve que seu apelido era “homem de papel” (der papierene, em alemão). Além dos dribles e da conclusão fria e precisa, uma de suas principais habilidades era a de, apesar do seu porte franzino (dizem que era mais fracote do que Zico na adolescência ou do que Robinho antes de ir para a Espanha), escapar facilmente do bote dos zagueiros grandalhões.
Sindelar fez parte da seleção austríaca que encantou o mundo na década de 1920 até o início da década de 1930, chamada de Wunderteam (Time Maravilhoso, em alemão). Em um dos últimos grandes momentos dessa seleção magnífica, a Áustria foi 4ª colocada na Copa de 1934, na Itália, quando perdeu de maneira suspeita para os anfitriões nas semifinais.
Pouco depois, a Alemanha nazista anexou a Áustria, forçando os remanescentes daquela equipe a representarem a seleção alemã. Segundo informações fonecidas pelo apresentador Dudu Monsanto no programa Pontapé Inicial da ESPN Brasil, houve um amistoso entre Alemanha x Áustria, orquestrado para dar a impressão de que os austríacos deveriam aceitar a “unificação” numa boa. Por debaixo dos panos, diz-se que os austríacos estavam proibidos de marcar gols e que deveriam facilitar a vida dos atacantes alemães.
Parece que a Alemanha venceu por 2×1, mas o gol de Sindelar foi considerado uma afronta, mais ou menos do nível das medalhas obtidas pelo velocista estado-unidense Jesse Owens na Olimpíada de Berlim, em 1936, diante do ditador alemão de origem austríaca Adolf Hitler.
O melhor amigo de Sindelar, Gustav Harmann, após pôr a porta abaixo, encontrou-o morto no apartamento da companheira Camilla Castagnola, uma italiana. Ela ainda respirava, porém morreu sem voltar à consciência. Os corpos estavam nus e havia taças de vinho na sala.
A fonte não-informada pesquisada por Eduardo Monsanto diz que Sindelar cometera suicídio porque seria judeu e jamais aceitara o nazismo. Como o regime ditatorial anti-semita da Alemanha de então não permitia enterro com honras de chefe de Estado para suicidas e para prisioneiros de guerra, supõe-se que alguém tenha pago um perito para que este declarasse morte acidental.
Duas outras hipóteses de suicídio ou de assassinato foram lançadas ao vento. A primeira, em matéria do jornal austríaco Kronen Zeitung dizia que “tudo aponta para que este grande homem tenha sido vítima de assassinato por envenenamento”.
A outra hipótese foi levantada pelo escritor Friedrich Torberg: em um de seus poemas, Torberg afirma que “Sindelar matou-se porque sentia-se ‘sem dono’ por conta da ‘nova ordem’ (o regime nazista sobre a Áustria)”.
Na Wikipedia, o verbete Mathias Sindelar fala em suicídio. Desafiando os competentes repórteres, apresentadores, comentaristas e produtores do melhor canal de esportes da América Latina, a ESPN Brasil, acredito mais na versão do comentarista alemão Uli Hesse-Lichtenberger, do ESPN Soccernet europeu, em artigo publicado em 18/07/2003, onde ele fornece dados mais precisos e detalhados sobre os últimos anos da vida do craque austríaco.
Antes de entrar em Lichtenberger, eu já achava muito estranha a possibilidade de suicídio, pois não haveria o menor sentido em Camilla matar-se junto. Primeiro, porque não acredito que, em pleno século XX, uma história de amor a la Romeu e Julieta fizesse sentido. Segundo, porque só mesmo sendo um insano psicótico para premeditar a cena usando a namorada para “enganar a torcida” dessa forma.
Segundo as fontes não-declaradas de Lichtenberger, Sindelar foi para Viena aos três anos de idade porque seu pai buscava uma condição melhor de vida. Ele nascera na Morávia, região tcheca onde havia muitos judeus pobres. Viena foi um centro de prosperidade para imigrantes judeus vindos de vários pontos da Europa Oriental e a esmagadora maioria dos imigrantes judeus pobres morava no bairro operário ironicamente chamado Favoriten. O craque começou como quase todos os boleiros pobres ou, seja, jogando na rua, na sua vizinhança pobre. De maneira geral, a gênese social de grande parte dos judeus na Europa foi severamente sofrida.
Contudo, seus pais eram católicos.
Sindelar jogou praticamente toda a sua carreira no clube Austria Wien, que era conhecido como um clube judeu. Ora, caso ele fosse judeu, teria que se esconder ou sumir do mapa, como o fizeram seus companheiros de time verdadeiramente judeus. Até onde se sabe, Sindelar jamais foi perseguido. Ele apenas mostrou-se descontente com a anexação da Áustria pela Alemanha e ponto final.
Cinco meses antes da tragédia, em setembro de 1938, Sindelar comprou a cafeteria da qual sua namorada Camilla Castagnola tornou-se a proprietária de fato. O ex-dono da cafeteria era um judeu falido de nome Leopold Drill. Sindelar, ao contrário do que a maioria dos germânicos fazia com os judeus pobres, estranhamente pagou pelo estabelecimento comercial um valor justo. Em tese, este seria um motivo para que a SS perseguisse o ex-jogador e/ou sua companheira. Mas não houve nada disso.
Não fazia o menor sentido preseguirem Sindelar ou Castagnola, pois ela era italiana. Como se sabe, a Itália fascista de Benito Mussolini era mais do que amiga da Alemanha nazista de Adolf Hitler.
Outro atenuante para o casal era o fato de que nenhuma fonte aponta se eles demonstraram alguma atitude filantrópica a favor dos judeus a la Schindler ou não. Portanto, apesar da truculência daqueles tempos difíceis, não havia prova alguma contra ou a favor deles. Impossível nos tempos de hoje não existir nenhum indício a favor ou contra a dupla. Logo, todo mundo é inocente até prova em contrário.
Caso Sindelar quisesse se matar por razões futebolístico-ideológicas, seria mais coerente tê-lo feito ainda no auge de sua carreira. Na data de sua morte, o ex-craque estava prestes a completar 38 anos de idade.
Convenhamos: aos 38 anos, praticamente nenhum jogador tem mais pernas para agüentar o futebol competitivo, profissional, em alto nível. Isso nunca foi normal, apesar dos exemplos de Roger Milla, Manga, Zico, Pelé, Bobby Charlton, Arthur Friedenreich, Romário e outros. Sindelar largou a bola antes que ela o largasse – essa que foi a verdade.
Aquele grande time austríaco de uma década antes já estava velho e fora dissolvido pelos nazistas (até aí, nada a ver com anti-semitismo). Outra informação fornecida pelo colunista alemão do ESPN Soccernet dá conta da radical mudança tática criada por um novo técnico austríaco (Karl Rappan) que já estava sendo copiada por todo o continente europeu: o velho e ultra-ofensivo 2-3-5 dava lugar agora ao WM, o chamado “ferrolho suíço”. Tal sistema mais a idade avançada e a dissolução daquele time sensacional determinaram o final da carreira de Mathias Sindelar e era isso.
Voltando ao caso da intoxicação do casal, uma das duas chaminés do apartamento apresentava defeito. Dias antes, os vizinhos já haviam reclamado da fumaça tóxica (gás carbônico ou CO2) emitidos pelo sistema de emissão de gases do apartamento da namorada do ídolo.
Ora, ora… Depois de uma empolgante noite de amor entre um atleta e uma italiana caliente regada a um bom vinho, é natural que os amantes desfaleçam exaustos. Tal estado de torpor infelizmente não permitiu que eles despertassem e abandonassem o ambiente intoxicado imediatamente.
Encerrando este post com futebol do bom e do melhor, a grande lembrança de Sindelar foi a de um gol de placa que ele fez contra a Inglaterra em 1932. Apesar da derrota, o fato foi chamado pela imprensa inglesa de “o gol do século na partida do século”.
Enfim, um homem comum e uma mulher comum sofreram um acidente bobo, porém nada incomum.
Não seria mais fácil lembrarmos do craque “as he was” ao invés de acreditarmos em uma lenda urbana criada para espetaculizar os fatos?!