Até que enfim! Depois de duas eliminações consecutivas (FA Cup e Community Shield) e da conseqüente “freguesia” adquirida junto ao Arsenal, finalmente uma vitória maiúscula, consistente e incontestável do Liverpool: 2×0 ante o vice-líder e atual bicampeão Chelsea.
Dos quatro maiores times da Inglaterra nos últimos 10 anos, certamente Liverpool e Chelsea são os dois mais criticados pelo Blackão. Já que fomos severos demais com os Reds da terra dos Beatles em vários posts recentes, listemos, pois, as maiores falhas dos Blues do norte de Londres nesta temporada.
Apesar do gigantesco aporte de investimentos do proprietário do clube (o jovem bilionário russo Roman Abramovich), o plantel do Chelsea está longe da perfeição. A prova disso é a total desconfiança do bem-sucedido porém arrogante técnico português José Mourinho em relação aos seus zagueiros reservas: na impossibilidade de contar com o capitão John Terry e com o açougueiro holandês Boulahrouz, Mourinho, ao invés de escalar seus reservas de ofício, optou por puxar para o miolo de zaga o bom lateral-direito Paulo Ferreira e o ótimo volante ganês Michael Essien.
No papel, tal formação – apesar de pouco treinada – teria qualidade suficiente para manter quase o mesmo nível de proteção ao goleiro Peter Cech, que voltou inteiro do traumatismo craniano sofrido há três meses atrás na 8ª rodada contra o Reading. Todavia, os dois estavam mais perdidos do que cego em tiroteio.
Paulo Ferreira tem um reserva que, na minha opinião, deveria ser o titular da posição: o camaronês Geremi Njitap. Ferreira costuma ficar mais atrás, apoiando esporadicamente. Geremi é o contrário: apesar de eu achar que ele pode ser muito mais útil do que o patrício do treinador (pra mim, isso caracteriza ‘bruxaria’), ajudando o marfinense Didier Drogba a ser cada vez mais artilheiro da Premier League, Mourinho tem sua convicção diferente da minha e é ele quem manda.
Essien, por sua vez, é muito mais jogador do que o volante reserva francês Diarra (que não é o mesmo do Real Madrid, ex-Olympique Lyonnais). Definitivamente, ainda falta feijão para ele conseguir entrosar-se com o experiente compatriota Claude Makélélé. O ganês chuta muito bem de fora da área e é uma fortaleza na marcação do meio de campo. Atrás, não deu certo.
Do meio para a frente, o Chelsea tem enfrentado dificudades impensadas por Mourinho para esta temporada. Os meias abertos pela esquerda (Joe Cole) e pela direita (Frank Lampard) tinham um entrosamento que vinha desde as categorias de base do West Ham United. Apesar da qualidade do alemão Michael Ballack, Lampard caiu muito e Cole saiu do time.
O sacrificado Joe Cole também foi sacado do onze titular porque o lateral esquerdo ex-Arsenal de mesmo sobrenome Ashley Cole embolava com o meia, pois tem o costume de subir para o apoio.
Na frente, o goleador da Premier League, Didier Drogba, está jogando cada vez mais. No entanto, o Chelsea tinha uma mecânica muito mais dinâmica do meio para a frente nas duas últimas temporadas.
O bom atacante pela esquerda, o holandês Arjen Robben, também foi prejudicado pela falta de Joe Cole. Seja para suprir a falta de Cole, seja para preencher o espaço na meia esquerda quando Ballack e Lampard embolam, quem tem sido regular sem ser genial é o bom Wright-Phillips.
Até agora, o marfinense Kalou ainda não me convenceu. É um menino de 20 anos, que está começando a ser utilizado na seleção africana como dupla de ataque juntamente com o consagrado Drogba. Contudo, ainda precisa comer muito feijão pra começar a impressionar.
Após os defeitos do Chelsea que, apesar dos pesares, ainda briga pelo título (apesar de já estar a seis pontos do líder Manchester United), passemos ao Liverpool.
A exemplo do Arsenal, os Red Devils também tiveram um péssimo início de temporada. Talvez o pior resultado tenha sido a derrota no derby para o Everton, por 2×0, onde o meio-campo produziu muito pouco e, conseqüentemente, a bola quase não chegou ao ataque. Agora, apesar da diferença teoricamente imbuscável em relação aos dois primeiros colocados, o Liverpool, que estava pintando como uma decepção até a 10ª rodada da Premier League, de uma hora para outra, desandou a vencer quase todos os jogos. Nas últimas 12 partidas, o Liverpool está invicto e levou apenas um mísero golzinho.
Ainda não mudei de opinião em relação ao técnico espanhol Rafa Benítez: acho que, apesar de ter levado o Valencia a uma final da Champions, seus times costumam amarelar nas decisões. Taticamente, ele é um maestro da zaga (vide a tradição valenciana e a magnífica performance atual da zaga vermelha). Porém, só agora parece que algumas individualidades começam a render um futebol agradável de se ver.
Benítez acertou atrás ao retirar dois jogadores que são bons e têm bastante experiência por sangue novo. O lateral esquerdo norueguês Riise e o zagueiro Hyypia, da Finlândia. O brasileiro Fábio Aurélio, velho conhecido do técnico dos tempos de Valencia, está jogando muito bem: é mais veloz e cruza melhor do que Riise, apesar deste último chutar melhor de fora da área e possuir maior força física. No lugar de Hyypia, Daniel Agger mostra-se mais ágil e menos lento.
Completando o setor, o titular do English Team Jamie Carragher na zaga e o lateral direito Finnan. Esse é
um jogador pra lá de comum – diria até que não é grande coisa melhor do
que o gremista Patrício.
Pelo meio, os volantes que sabem marcar com lealdade e sair jogando com
categoria: o espanhol Xabi Alonso e o ídolo da torcida e capitão da
equipe, Steven Gerrard. Curiosamente, o futebol de Gerrard tem
aparecido menos em 2006/2007 do que nas duas temporadas anteriores.
Mesmo assim, o time como um todo cresceu. Particularmente neste derby
contra o Chelsea, o deslocamento de Riise para a meia esquerda deu
resultado, pois sua força física foi capaz de deter os avanços do ótimo
Lampard. No lado direito, o reserva de luxo Jermaine Pennant acabou
sendo um dos nomes do jogo. Pennant fez o golaço da vitória contra o Chelsea – recebeu na meia-direita, matou no peito e deu um voleio
que bateu no travessão e encobriu o goleiro Petr Cech. Um gol para a torcida extravasar toda a sua emoção, depois de tantos anos sem conseguir vencer os azuis de Londres.
Mas foi o primeiro gol, logo aos 8′, que mostrou a diferença entre um time que está bem entrosado e outro que ainda precisa encontrar a sua melhor forma depois de algumas alterações importantes: o gigante Peter Crouch aparou um lançamento de mais de 40m de Finnan, que encontrou a cabeça do centroavante. Inteligente, cabeceou entre os dois zagueiros azuis, que foi por onde o holandês Kuyt entrou como um raio em diagonal da esquerda para a direita. O ex-atacante do Feyenoord saiu da marcação de Paulo Ferreira com uma matada de cabeça para o miolo da grande área onde, livre e antes de Essien chegar, bateu forte, à meia altura, noc anto direito de Cech.
O 2×0 foi um placar justíssimo por tudo o que o Liverpool produziu na frente e por tudo o que interceptou atrás. Depois de duas derrotas para o Arsenal (ambas com time misto e em competições ‘mata-mata’), não duvido que os Red Devils da terra do Beatles ainda consigam tirar os cinco pontos de diferença que os separam do Chelsea, pois seus reservas (ou nem tão reservas assim) Mark González, Craig Bellamy e Harry Kewell não deixam a peteca cair do meio para a frente.