Mídia de Contraponto: Perspectivas Sofríveis

Em linhas gerais, a Grande Mídia não é pura nem necessariamente “de direita”, apesar de não ser nada “de esquerda”. Também não dá mais pra pensar que a mídia influencia e manipula total e irrestritamente as pessoas ou porque são iletradas, ou porque são socialmente inconscientes: ela influencia e é influenciada por todos os atores sociais, até mesmo quando levanta suas bandeiras a favor do poder.

A Grande Mídia reflete um pensamento que é, sim, conservador, porque a esmagadora maioria da população, seja ela culta ou inculta, rica ou pobre é conservadora.

Sua agenda contraditória e predominantemente de direita não é necessariamente reacionária ou revanchista: primeiro, ela procura homogeneizar a informação mediada para que a maior quantidade possível de pessoas seja capaz de compreender e de interpretar a mensagem.

Segundo, o público não é exatamente manipulado nem persuadido a agir ou a pensar de determinada forma: não há imperativo. Há sugestões deixadas no ar para que a audiência reflita (porém sem nenhuma profundidade) sobre a pauta agendada.

Raríssimas pessoas procuram saber se existe ou aonde está o contraponto desse agendamento proposto. Quando o encontram, decepcionam-se e não voltam mais, pois o fluxo social e urbano pós-industrial é muito dinâmico. Com isso, programas longos, falas arrastadas e cheias de jargões classistas ou acadêmicos jamais prenderão a atenção das pessoas em geral.

E isso independe do peso do bolso, do grau de letramento ou da maior ou menor consciência social e preparo humanista do indivíduo: se o vocabulário não for atual; se a edição não for dinâmica; se a trilha sonora não estiver adequada; se o design dos cenários estiver “fora de moda” e se as vinhetas e legendas forem de baixa qualidade e de fluxo lento, por mais útil e profunda que seja a informação que temos a oferecer, até mesmo o nosso próprio público irá cansar e nos abandonará rapidamente.

A priori, o papel da mídia consiste em mediar e tornar pública a existência e a co-relação de forças entre todos os campos sociais. Para tanto, ela se apropria dos símbolos de cada campo (indústria, agricultura, política, saúde, educação, esportes, justiça, etc.) para transformá-los em uma linguagem inteligível para que o máximo possível de leigos possam compreender as demais forças.

Simultaneamente, a própria mídia vira uma força que é influenciada e pautada pelas demandas desses campos.

A agenda da mídia é contraditória, pois precisa contemplar a muito mais “gostos” além daqueles que a patrocinam. A visão que ela passa é, sim, editada e manipulada. Contudo, aborda muitas questões sociais além do discurso pró-banqueiros, pró-latifundiários, criminalizador dos movimentos sociais. Há, sim, demandas sociais apresentadas como serviços capazes de verdadeiramente ajudar a quem mais precisa.

Um grande exemplo da contradição: um monte de gente acha lindo o biodiesel, mas ele é apenas mais uma monocultura vendida por uns tostões, que irá custar muito caro aos bóias-frias e fará dos pequenos produtores escravos desse sistema assim como os fumicultores de Santa Cruz do Sul e de Venâncio Aires o são da Souza Cruz e da Philip Morris.

Da mesma forma, a mídia não é hipócrita nem mentirosa quando fala sobre o efeito estufa, sobre a poluição, etc. Todavia, não fala nada sobre o deserto verde nem sobre a seca dos mananciais em função dos arrozeiros da Metade Sul.

Enfim… Por conta de tantas contradições e em função de uns passarem a posse do meio técnico (emissoras e seu patrimônio físico) para os outros, quem não é visto, não é lembrado. E quem é mal apresentado, é desconhecido, ignorado e criminalizado.

A idéia do Jean de distribuir cotas a quem se dispusesse a investir em uma rádio não funciona, assim como o custo operacional de um jornal é altíssimo.

O discurso não pode ser à base do conflito de classes. Da mesma forma, o fluxo midiático (ritmo de interpretação, de associação cognitiva, de fixação da mensagem) não contempla atores reflexivos sem capacidade de síntese e de impacto através de um vocabulário laico.

Portanto, a maioria dos advogados, sociólogos, filósofos e outros entes importantes na esquerda precisariam, antes de tudo, serem TREINADOS para a linguagem midiática.

Prova disso é a baixíssima audiência da TVE.

Um conceito nunca percebido pela esquerda é o do poder simbólico da Grande Mídia, que é imensamente mais alto do que o seu poder financeiro: não adianta montar uma emissora pra sentar o pau nos âncoras e comentaristas da RBS se quase ninguém vai acreditar neles.

É mais ou menos assim: “se esse cara estivesse falando a verdade, estaria trabalhando na RBS”. “Se isso fosse verdade, por que só esse canal está falando isso?”

Quem não é exposto pela Grande Mídia não existe. Essa exclusão é tão grave quanto o analfabetismo, a fome e a exclusão digital, pois passa pela percepção do senso comum da inexistência, da ignorância, da criminalização e da marginalização dos campos sociais que não são sequer citados.

O poder simbólico da Pequena Mídia identificada com os partidos de esquerda e com o movimento sindical é irrisório. Primeiro, porque as maiores freqüências de rádio, as maiores antenas de TV, os satélites de maior alcance e os maiores parques gráficos JAMAIS serão vendidos para entidades ou pessoas de fora do clubinho da Grande Mídia; segundo, porque, mesmo sem combinar nada entre eles, todos articulam uma agenda parecida e não vão querer concorrer com o contraditório, que é o que decisivamente faz uma sociedade evoluir.

A ditadura Vargas fez o estrago liberando o país para o Assis Chateaubriand montar os Diários Associados e a ditadura militar espraiou a Globo do Oiapoque ao Chuí em troca da sua conivência.

Outro problema sério: o PT sabe que não pode desaparecer da mídia. Conseqüentemente, ou escancara as pernas para ela como fez o Tarso quando questionado pela Folha sobre a democratização dos meios de comunicação e sobre como ele via a visão da Grande Mídia sobre o governo, ou se deslumbra e desata a falar, falar, falar, como fazem a Maria do Rosário, o Paulo Paim e até cenas ridículas como a da Esther Grossi, quando deputada federal, cantando parabéns para a RBS com um bolo cheio de velas que ela mesma havia feito.

Embora veja na TV digital uma saída para as comunidades, todo mundo vai continuar assistindo o JN, as novelas e o Faustão, pois a qualidade técnica e o tipo de discurso laico irão permanecer por muito tempo.

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