MIDIATIZAÇÃO

Ao contrário dos demais textos, onde interpretei algumas das aulas da disciplina Mídia e Sociedade ministradas pelo prof. dr. Antônio Fausto Neto do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da UNISINOS, desta vez irei colar alguns fragmentos do artigo entitulado “Cidadania Midiatizada, Cidadão Planetário“, escrito pelo prof. dr. Valdir José Morigi, do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Informação da UFRGS e da doutoranda pelo mesmo programa Rosane Rosa, publicado nas páginas 81 a 93 da revista científica “Comunicação e Espaço Público”, ano VII, nºs 1 e 2, de 2004.

O último parágrafo da pág. 82 e o primeiro parágrafo da pág. 83 dizem o seguinte:

“A mídia é a ‘vitrine’ que se constitui em uma nova forma para os campos se representarem, mas também para serem representados, submetendo-se a um tratamento técnico-estético. Conectar-se a essa realidade a partir dessa ‘vitrine’ implica a necessidade de uma mudança de ‘lente’ para um novo foco, alterando o modo de olhar e apreender o mundo. Isto significa compreender este espaço como um ambiente de tensões, conflitos, confrontos e negociações de sentidos. Nesse contexto, torna-se fundamental para os cidadãos perceberem as mudanças históricas, socioculturais, e as regras do consumo nas quais a palavra-chave é a publicização, regida pela midiatização.

As produções de sentidos capitaneadas pela racionalidade técnica, visando o consumo, são de natureza complexa. Essa ‘vitrine’ seleciona e expõe o que deve ser conhecido e apreendido coletivamente; e esse agendamento social não significa uma imposição, o que seria de uma ordem simplista. Ao contrário, a mídia se constitui na representante paradigmática lógica do modelo mercadológico, pois constrói, a partir de mecanismos de identificação do sujeito, um modelo ideal de cidadão afinado como ‘consumidor’ do qual este se sente participante desse espaço público.”

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O SABER COMUNICACIONAL: HABERMAS

Pelo que pude deduzir da explicação do prof. Fausto a respeito do conceito de saber comunicacional em Habermas é que este tipo de saber parece ser um dos – senão “o” – fatores determinantes  para as rupturas na simetria da relação horizontal de uma sociedade.

Antes da imprensa, as sociedades eram intro-determinadas, isto é, tinham autonomia para definir suas éticas, suas especialidades e os seus respectivos fins (fim no sentido de objetivo, meta). As comunidades mal e porcamente permeadas por aquilo que não era efetivamente mídia mas, sim, um arremedo de processo midiático, efetuavam suas trocas através de hierarquias simétricas.

Entende-se por hierarquia simétrica um processo social no qual as trocas econômicas (compra, venda, empréstimos, escambo) e simbólicas (serviços, idéias, ideologias, crenças, preconceitos, conhecimento técnico, teórico e empírico) ocorriam através de um processo horizontal, onde as figuras do intermediário e do mediador eram raras, pois a comunicação era direta, pessoal, face a face.

À medida que os meios sociotécnicos de suporte, armazenagem, reprodução e difusão da informação foram evoluindo, a necessidade do contato direto face a face foi diminuindo. Na mesma balada, todas as trocas passaram a depender cada vez menos do tempo cronológico e do compartilhamento simultâneo do mesmo espaço físico por parte dos indivíduos que têm algo a trocar.

Surgem aí as sociedades extro-determinadas, que não têm mais atonomia para reger seus destinos produtivos e afetivos, sofrendo cada vez mais a ação da decisão externa por parte de intermediários e mediadores.

A partir da percepção da existência dos campos sociais, percebeu-se que as diferenças entre os saberes dos campos, suas disciplinas e suas regras eram muito parecidos, com diferenças muito sutis entre os mesmos campos estabelecidos em lugares diferentes – o que reforça ainda mais a autonomia e a identidade de cada campo social.

E cada campo social pinça elementos de diversas sociedades para seus saberes, disciplinas e regras, que serão compartilhados pelo mundo.

Mesmo concorrentes entre si, determinados campos sociais interagem e concordam entre si na apreensão de um tema advindo de outros campos.

Por exemplo: o aborto, tema caro ao campo da Medicina, também é discutido pelos campos político, jurídico e religioso. Se cada um desses campos possui, digamos, quatro diferentes objetivos na pauta referente ao tema, certamente irão concordar em alguns desses objetivos e gerar objeções nos pontos discordantes.

Embora todos os quatro campos queiram obter vitórias simbólicas, financeiras e sociais através de uma pauta comum, os pontos divergentes dessa pauta não deixam de representar a busca individual de cada campo para ver qual deles sairá mais poderoso num duelo de força.

Assim, um campo emerge através da disseminação de seus temas através da competência discursiva do campo dos mídia.

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O CAMPO MIDIÁTICO II

Conforme o último post, os outros campos sociais (justiça, religião, ciência, política, medicina, etc.) só existem em relação à sociedade em função da mediação efetuada pelo saber técnico (competência discursiva) do campo dos mídia.

O discurso ritualizado e especializado de cada campo funciona apenas para seus próprios pares. Seu alcance social depende completamente da sua tradução através do uso de uma linguagem mais palatável e da dinâmica de sua edição. O novo discurso – agora mediado – é, tanto quanto possível, universalizado, para a compreensão da maioria dos leigos.

Portanto, o campo midiático é quem, de fato, leva os saberes, as realizações, as aspirações e as reivindicações dos campos sociais para a esfera pública e para a política.

Independente, autônomo, ritualizado, especializado, institucionalizado e com uma missão vicária reconhecida por todos: eis o campo dos mídia. Um campo de auxiliaridade, onde, à medida que a tecnologia dos meios de comunicação é ampliada, os campos sociais apropriam-se de seus elementos.

Quem não é visto, não é lembrado; quem não se comunica, se trumbica: frases feitas que nunca significaram tanto em outros tempos.

Isso posto, partirei, para a mediatização a partir do próximo post.

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O CAMPO MIDIÁTICO I

Depois de quatro posts explicando o que são campos sociais, chegou a vez de entrarmos no principal campo da sociedade contemporânea, responsável pela elevação da Comunicação ao status de ciência social aplicada.

O campo midiático vai até as ciências humanas seculares (Antropologia, Filosofia, Psicologia e Sociologia) buscar conceitos que tensionam seus objetos de estudo (a operação das sociabilidades contemporâneas através da imbricação da sociedade com o meio técnico da qual fazem uso para comunicar-se e gerar riqueza, interferindo nas relações afetivas, comerciais e, sobretudo, sociais).

O campo dos mídia reúne para si a tarefa de oferecer uma competência técnica discursiva. Tem o trabalho de colocar na esfera pública aquilo que é da ordem dos outros campos.

A competência técnica discursiva do campo midiático consiste na organização da fala de todos os demais campos que, sob esta perspectiva, são meramente teleológicos ou, seja: possuem competências restritas apenas a si próprios.

O campo dos mídia adquire autonomia por conta da especificidade da sua competência, que não encontra similaridade em nenhum outro campo social:

- O CAMPO MIDIÁTICO TEM A COMPETÊNCIA DE ORGANIZAR OS DEMAIS CAMPOS.

Por conta dos efeitos de sentido da comunicação mediada, todos os outros campos sociais reconhecem na mediação o acesso da sociedade às suas especificidades e devem, ao campo dos mídia, o fato de suas epsecificidades tornarem-se reconhecíveis e inteligíveis para toda a sociedade midiatizada.

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CAMPOS SOCIAIS IV

RECONHECIMENTO SIMBÓLICO DOS CAMPOS SOCIAIS

As identidades de um campo social são reconhecidas através de insígnias, índices, símbolos e emblemas. Há incontáveis exemplos. Entre eles:

- A letra grega psi, que representa a Psicologia;

- As patentes do exército, da marinha e da aeronáutica, que mostram a hierarquia do campo militar (soldado, cabo, sub-tenente, etc.);

- A fala e o gestual ritualístico e decorado do padre no batismo, no casamento, na comunhão, na extrema unção, na missa, etc.
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PUBLICITAÇÃO DOS CAMPOS SOCIAIS

A sociedade moderna é organizada a partir da fragmentação dos saberes. A vida anteriormente baseada em poucas profissões, todas de natureza técnica e sem a devida institucionalização sob a forma de campos sociais, era mais simples.

No entanto, os interesses ocasionados a partir da institucionalização dos campos sociais e a enorme fragmentação dos saberes torna a sociedade bastante ampla e dispersa.

Assim, para que todos saibam da existência, das características, da especificidade, da importância, da necessidade e atribuam a missão vicária de um campo, tudo o que é inerente a si precisa tornar-se público. Toda a sua singularidade precisa ser anunciada. Sua autonomia precisa ser explicitada, explicada, divulgada…

…Enfim, COMUNICADA.

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