Fonte: Jornal de Turismo
“Cláudio Magnavita
Medidas podem redesenhar o quadro das empresas aéreas. Veja como
poderá ser o este novo cenário
Dentro de 50 dias o cenário da aviação comercial brasileira
deverá mudar. As restrições impostas pelo Conselho Nacional de
Aviação Civil (Conac) fará retornar o modelo que existia no final
dos anos 80 e no início dos anos 90, o que representa um reajuste do
atual cenário e o surgimento de oportunidades de mercado que não
estavam previstas ou até mesmo planejadas há duas semanas.
Em todas as pesquisas de marketing no setor aéreo, dois itens são
sempre apontados como prioritários: segurança e pontualidade. Nos
últimos 12 meses, a aviação comercial começou a perder esta
referência. O mais assustador é que este sentimento, que é
motivador central do usuário do transporte, acabou migrando de forma
paradoxal para o ônibus. Na cabeça do passageiro, principalmente
para distâncias suportáveis, como Rio-São Paulo, viajar de
ônibus virou sinônimo de sair na hora certa e chegar com
segurança. Isso pode ser detectado no crescimento de 148% no
tráfego de passageiros entre as duas maiores cidades brasileiras nos
últimos 30 dias.
As restrições impostas às operações em Congonhas nos
próximos dias, que obrigam à operações ponto a ponto e à
redução do tamanho das aeronaves, mudará drasticamente o perfil do
usuário do aeroporto e, por outro lado, promoverá uma
modificação radical na atuação de mercado, que passará a ser
dividido em cinco fatias: transporte de longo curso (vôos
intercontinentais), internacional regional, transporte nacional, ponte
aérea e aviação comercial. A transferência do tráfego
doméstico para Cumbica, a exigência de aeronaves e tripulações
reservas mexerá profundamente no custo das empresas, fazendo subir o
valor operacional. O que terá reflexo inclusive na valorização das
ações, que após o acidente em Congonhas já assinalavam uma
perda de 10%.
Na prática, retorna o modelo de duas décadas atrás, quando
Cumbica foi inaugurado, em 20 de janeiro de 1985, e todos os vôos
nacionais foram transferidos para o primeiro terminal. Só que em 1985
o tráfego internacional estava na mão de empresas de bandeira
brasileira e hoje o cenário é bem diferente.
ROTAS INTERNACIONAIS DE LONGO CURSO – A crise da Varig acabou
transferindo para as companhias estrangeiras o fluxo de passageiros
estrangeiros. Focadas em São Paulo, com exceção da TAP, as
européias e norte-americanas souberam ocupar rapidamente a lacuna de
mercado, não só aberto pela paralisação dos vôos da Varig,
mas ainda no início do processo de deterioração de serviços.
Hoje, British, American, United, Delta, Air France e JAL oferecem um
produto muito superior, tanto na qualidade das suas aeronaves, quanto no
conforto da executiva. Foram colocados em operação no Brasil
aviões maiores e com equipamentos de última geração. A
absorção no tráfego internacional de business foi intenso e São
Paulo (capital e interior), chegando a representar 65% do faturamento
das internacionais. A TAM, para ocupar o mercado, chegou a incorporar um
MD-11 que tinha pertencido à própria concorrente, despadronizando
a sua frota de Airbus. As nacionais, além de terem o mercado nas
mãos das estrangeiras, são obrigadas a pesados investimentos para
terem um produto competitivo. Este é um segmento que será
beneficiado com conexões da transferência de vôos, que ganharam
maior alimentação. O governo peca em achar que irá forçar, nos
novos acordos bilaterais, as estrangeiras a escolherem outros aeroportos
além de Cumbica, já que foram congeladas as atuais posições.
Quem quiser voar para o Brasil terá de escolher outro destino.
Poderá trazer benefício para o Rio, já que os dois terminais
estão sub-utilizados. O projeto original do Galeão prevê dois
novos terminais, além dos dois já inaugurados.
ROTAS INTERNACIONAIS REGIONAIS- Mercado caracterizado pelos vôos
dentro da América do Sul e operados com aeronaves menores. É o que
menos sofre alteração, já que as ondas de conexão já operam
com vôos alimentados pelas rotas de longo curso, principalmente
realizando transporte da Europa e dos Estados Unidos para a Argentina.
Os vôos para Caracas, Bogotá, Lima, Santiago, Buenos Aires e
Montevidéu já estão sendo disputados pela TAM e Varig/Gol. Um
mercado liderado pelas nacionais, que hoje possuem mais fôlego
financeiro e operacional do que as concorrentes do continente.
ROTAS NACIONAIS – Este será um ponto franco, já que as atuais
frotas das empresas brasileiras foram estruturadas para aeronaves de 180
lugares, como os 737-800 e os Airbus 320. São aviões de grande
capacidade e perdem a alimentação do tráfego de ponte aérea,
que estava funcionando em um aeroporto único. Na década de 80,
esse mercado era dividido entre três empresas. A Transbrasil, com uma
forte atuação no Nordeste, a Vasp no Norte, parte do Nordeste e
Centro-Oeste e a Varig no Sul. A grande questão é se para rotas
entre São Paulo e o Nordeste, as aeronaves não estarão
superdimensionadas. A malha intermediária, fora dos horários de
conexões das internacionais, que dependem de um tráfego normal,
raramente consegue ocupação superior a 60% com uma oferta de assento
atual. É um segmento que sofrerá a concorrência do ponto a
ponto que será praticado em Congonhas. Uma empresa que atue em quatro
segmentos de mercado (com exceção do regional) terá de ter quatro
gestões diferentes de frota, cada uma dimensionada para o mercado. Ao
lado deste tráfego nacional deverá ser somado os vôos charters,
que passarão a sair exclusivamente de Cumbica, sendo vetado em
Congonhas.
ROTAS PONTO A PONTO- O tráfego de Congonhas terá de ser
obrigatoriamente realizado por aviões que partem e retornam ao mesmo
destino. Um conceito de ponte aérea e com aviões dedicados.
Durante a crise dos últimos meses, a Nova Varig foi campeã de
pontualidade por ter adotado este esquema em Congonhas. Dois 737-300
dedicados à rota CGH-BSB-CGH. Dois voando entre CGH-POA-CGH. Quatro e
às vezes até seis na Ponte Aérea para o Santos Dumont. Os
vôos permitem conectividade entre eles, ou seja, o passageiro
desembarca do Santos Dumont e segue para Porto Alegre, Curitiba, Belo
Horizonte, Florianópolis ou até Brasília. O limite de peso
estabelecido de 59 toneladas restringe este mercado para os 737-300,
Airbus 319, Fokker 100 e para os Embraer 190. A TAM poderá rever a
devolução dos seus F100 que poderá voltar a ser o jato de
Congonhas. Na aposta das companhias em aviões grandes, no caso da Gol
os 737-800 e da TAM os A320, cria-se uma frota majoritariamente
inadequada para este aeroporto central. No caso da empresa de low-cost,
como a Gol, este perfil de operação não segue a linha de
aproveitamento de rotas multi-destinos, com vôos que começavam no
Norte e iam até o Sul do País. Um agravante é o erro de
Congonhas não ter capacidade de ter em seus fingers para os 737-800
Next Generation. Os aviões com a ponta da asa maiores não cabem
entre uma posição e outra e são obrigados a pararem sempre na
área remota ou apenas na posição 12. O investimento foi realizado
sem planejar os aviões de nova geração. É neste nicho que
poderá surgir uma empresa que poderá ter até 20% do mercado. As
encomendas do Embraer 190, realizadas pela BRA, deixam a empresa pronta
para este segmento, da mesma forma que a OceanAir, com os Fokker 100. Os
acionistas da Gol poderão focar esta operação com a bandeira
Varig, transferindo rapidamente a frota dos 737-700 e dos 737-300 que
ainda usa. A empresa poderá ganhar um espaço de mercado usando a
força da marca e da fidelização do Smiles no tráfego executivo,
que tem todo o perfil. Tanto que a empresa já tinha a sua rota
doméstica dentro deste padrão, ou seja, a Varig é a única
empresa que não precisará esforço operacional para se
transformar rapidamente na empresa de Congonhas. Por ironia do destino,
poderá usar a mesma fórmula que deu origem à TAM para se
reerguer mais rapidamente do que se poderia prever. Comprada para ser a
empresa de longo curso do acionista, poderá ocupar este nicho de
mercado que não constava no planejamento original. A empresa ganha
folgadamente no quesito pontualidade e segurança na visão do
passageiro, principalmente do passageiro de negócios.
ROTAS REGIONAIS – O surgimento de novos horários em Congonhas,
trará de volta a aviação regional que utiliza aeronaves de pequeno
porte: os F50, Embraer, ATRs, que enfrentavam dificuldades para
conseguir slots em Congonhas, ocupados anteriormente pelas gigantes do
setor. Trata-se de uma aviação que estava obstruída neste
aeroporto e poderá ser uma grata surpresa. O mesmo poderá ter
reflexo no novo Santos Dumont, liberado para aviões de 50 lugares. A
própria Gol tem projeto para a sua empresa regional, que deverá
ser colocado em prática. A Total Linhas Aéreas é a única que
está pronta para começar a operar com os ATRs em Congonhas,
inclusive com o ATR 170, que permite até 70 passageiros. A noticia
das mudanças de Congonhas foram efusivamente festejadas por este
segmento. (CM)
Problemas à vista
1. Liberação dos espaços sob-júdice no Aeroporto de Cumbica
para ampliar a capacidade de atendimento, que já estão
congestionados. Hoje a TAM e Gol possuem menos balcões do que
necessitam para o atual volume de passageiros. Se for colocado em
prática, o crescimento do tráfego deverá ser de 40%.
2.Congestionamento nos finais de semana, devido à concentração dos
vôos charters, que eram feitos em Congonhas, exatamente porque
sábado e domingo é reduzido o volume do passageiro corporativo.
Aproveitava-se uma ociosidade das posições de atendimento.
3.Agilização dos serviços de Policia Federal (imigração) que
é hoje um dos grandes gargalos de Cumbica. Existem casos que entre
controle de passaporte e alfândega o passageiro perde até duas
horas, o que inviabiliza as conexões domésticas, geralmente
programadas para 60 ou 90 minutos a partir do momento de desembarque.
4. Em Cumbica, sobram pista e pátio para aeronaves e faltam
condições nos dois terminais que estão colapsados por falta de
posições de atendimento e serviços básicos.
5. Já estava em fase de redação o edital para o terceiro terminal
de Guarulhos. Com área pronta e custos já orçados. Para a obra
começar, só falta iniciar o processo de licitação, que
deverá praticamente dobrar a capacidade dos terminais, devido às
novas tecnologias e projeto.
6. Sistema de interligação do metrô ao terminal de Guarulhos, que
a exemplo dos aeroportos internacionais facilitaria o acesso. Hoje, um
táxi dos Jardins para o Terminal chega a custar mais do que algumas
passagens promocionais.
7. Antes da criação da Infraero, o Galeão era gerido pela Arsa,
uma estatal independente e que poderia servir de modelo para a gestão
atual do próprio Galeão e de Guarulhos. Eles passariam a ser
novamente empresas desdobradas da Infraero. Caberia à estatal os
aeroportos menores e menos lucrativos.
8. O anunciado terceiro aeroporto de São Paulo é obra para no
mínimo seis anos, ou seja, o abacaxi será entregue ao próximo
governo.”
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