A VERDADE SOBRE A AVIAÇÃO BRASILEIRA II

Fonte: Jornal de Turismo

“Cláudio Magnavita


Medidas podem redesenhar o quadro das empresas aéreas. Veja como
poderá ser o este novo cenário

Dentro de 50 dias o cenário da aviação comercial brasileira
deverá mudar. As restrições impostas pelo Conselho Nacional de
Aviação Civil (Conac) fará retornar o modelo que existia no final
dos anos 80 e no início dos anos 90, o que representa um reajuste do
atual cenário e o surgimento de oportunidades de mercado que não
estavam previstas ou até mesmo planejadas há duas semanas.

Em todas as pesquisas de marketing no setor aéreo, dois itens são
sempre apontados como prioritários: segurança e pontualidade. Nos
últimos 12 meses, a aviação comercial começou a perder esta
referência. O mais assustador é que este sentimento, que é
motivador central do usuário do transporte, acabou migrando de forma
paradoxal para o ônibus. Na cabeça do passageiro, principalmente
para distâncias suportáveis, como Rio-São Paulo, viajar de
ônibus virou sinônimo de sair na hora certa e chegar com
segurança. Isso pode ser detectado no crescimento de 148% no
tráfego de passageiros entre as duas maiores cidades brasileiras nos
últimos 30 dias.

As restrições impostas às operações em Congonhas nos
próximos dias, que obrigam à operações ponto a ponto e à
redução do tamanho das aeronaves, mudará drasticamente o perfil do
usuário do aeroporto e, por outro lado, promoverá uma
modificação radical na atuação de mercado, que passará a ser
dividido em cinco fatias: transporte de longo curso (vôos
intercontinentais), internacional regional, transporte nacional, ponte
aérea e aviação comercial. A transferência do tráfego
doméstico para Cumbica, a exigência de aeronaves e tripulações
reservas mexerá profundamente no custo das empresas, fazendo subir o
valor operacional. O que terá reflexo inclusive na valorização das
ações, que após o acidente em Congonhas já assinalavam uma
perda de 10%.

Na prática, retorna o modelo de duas décadas atrás, quando
Cumbica foi inaugurado, em 20 de janeiro de 1985, e todos os vôos
nacionais foram transferidos para o primeiro terminal. Só que em 1985
o tráfego internacional estava na mão de empresas de bandeira
brasileira e hoje o cenário é bem diferente.

ROTAS INTERNACIONAIS DE LONGO CURSO – A crise da Varig acabou
transferindo para as companhias estrangeiras o fluxo de passageiros
estrangeiros. Focadas em São Paulo, com exceção da TAP, as
européias e norte-americanas souberam ocupar rapidamente a lacuna de
mercado, não só aberto pela paralisação dos vôos da Varig,
mas ainda no início do processo de deterioração de serviços.
Hoje, British, American, United, Delta, Air France e JAL oferecem um
produto muito superior, tanto na qualidade das suas aeronaves, quanto no
conforto da executiva. Foram colocados em operação no Brasil
aviões maiores e com equipamentos de última geração. A
absorção no tráfego internacional de business foi intenso e São
Paulo (capital e interior), chegando a representar 65% do faturamento
das internacionais. A TAM, para ocupar o mercado, chegou a incorporar um
MD-11 que tinha pertencido à própria concorrente, despadronizando
a sua frota de Airbus. As nacionais, além de terem o mercado nas
mãos das estrangeiras, são obrigadas a pesados investimentos para
terem um produto competitivo. Este é um segmento que será
beneficiado com conexões da transferência de vôos, que ganharam
maior alimentação. O governo peca em achar que irá forçar, nos
novos acordos bilaterais, as estrangeiras a escolherem outros aeroportos
além de Cumbica, já que foram congeladas as atuais posições.
Quem quiser voar para o Brasil terá de escolher outro destino.
Poderá trazer benefício para o Rio, já que os dois terminais
estão sub-utilizados. O projeto original do Galeão prevê dois
novos terminais, além dos dois já inaugurados.

ROTAS INTERNACIONAIS REGIONAIS- Mercado caracterizado pelos vôos
dentro da América do Sul e operados com aeronaves menores. É o que
menos sofre alteração, já que as ondas de conexão já operam
com vôos alimentados pelas rotas de longo curso, principalmente
realizando transporte da Europa e dos Estados Unidos para a Argentina.
Os vôos para Caracas, Bogotá, Lima, Santiago, Buenos Aires e
Montevidéu já estão sendo disputados pela TAM e Varig/Gol. Um
mercado liderado pelas nacionais, que hoje possuem mais fôlego
financeiro e operacional do que as concorrentes do continente.

ROTAS NACIONAIS – Este será um ponto franco, já que as atuais
frotas das empresas brasileiras foram estruturadas para aeronaves de 180
lugares, como os 737-800 e os Airbus 320. São aviões de grande
capacidade e perdem a alimentação do tráfego de ponte aérea,
que estava funcionando em um aeroporto único. Na década de 80,
esse mercado era dividido entre três empresas. A Transbrasil, com uma
forte atuação no Nordeste, a Vasp no Norte, parte do Nordeste e
Centro-Oeste e a Varig no Sul. A grande questão é se para rotas
entre São Paulo e o Nordeste, as aeronaves não estarão
superdimensionadas. A malha intermediária, fora dos horários de
conexões das internacionais, que dependem de um tráfego normal,
raramente consegue ocupação superior a 60% com uma oferta de assento
atual. É um segmento que sofrerá a concorrência do ponto a
ponto que será praticado em Congonhas. Uma empresa que atue em quatro
segmentos de mercado (com exceção do regional) terá de ter quatro
gestões diferentes de frota, cada uma dimensionada para o mercado. Ao
lado deste tráfego nacional deverá ser somado os vôos charters,
que passarão a sair exclusivamente de Cumbica, sendo vetado em
Congonhas.

ROTAS PONTO A PONTO- O tráfego de Congonhas terá de ser
obrigatoriamente realizado por aviões que partem e retornam ao mesmo
destino. Um conceito de ponte aérea e com aviões dedicados.
Durante a crise dos últimos meses, a Nova Varig foi campeã de
pontualidade por ter adotado este esquema em Congonhas. Dois 737-300
dedicados à rota CGH-BSB-CGH. Dois voando entre CGH-POA-CGH. Quatro e
às vezes até seis na Ponte Aérea para o Santos Dumont. Os
vôos permitem conectividade entre eles, ou seja, o passageiro
desembarca do Santos Dumont e segue para Porto Alegre, Curitiba, Belo
Horizonte, Florianópolis ou até Brasília. O limite de peso
estabelecido de 59 toneladas restringe este mercado para os 737-300,
Airbus 319, Fokker 100 e para os Embraer 190. A TAM poderá rever a
devolução dos seus F100 que poderá voltar a ser o jato de
Congonhas. Na aposta das companhias em aviões grandes, no caso da Gol
os 737-800 e da TAM os A320, cria-se uma frota majoritariamente
inadequada para este aeroporto central. No caso da empresa de low-cost,
como a Gol, este perfil de operação não segue a linha de
aproveitamento de rotas multi-destinos, com vôos que começavam no
Norte e iam até o Sul do País. Um agravante é o erro de
Congonhas não ter capacidade de ter em seus fingers para os 737-800
Next Generation. Os aviões com a ponta da asa maiores não cabem
entre uma posição e outra e são obrigados a pararem sempre na
área remota ou apenas na posição 12. O investimento foi realizado
sem planejar os aviões de nova geração. É neste nicho que
poderá surgir uma empresa que poderá ter até 20% do mercado. As
encomendas do Embraer 190, realizadas pela BRA, deixam a empresa pronta
para este segmento, da mesma forma que a OceanAir, com os Fokker 100. Os
acionistas da Gol poderão focar esta operação com a bandeira
Varig, transferindo rapidamente a frota dos 737-700 e dos 737-300 que
ainda usa. A empresa poderá ganhar um espaço de mercado usando a
força da marca e da fidelização do Smiles no tráfego executivo,
que tem todo o perfil. Tanto que a empresa já tinha a sua rota
doméstica dentro deste padrão, ou seja, a Varig é a única
empresa que não precisará esforço operacional para se
transformar rapidamente na empresa de Congonhas. Por ironia do destino,
poderá usar a mesma fórmula que deu origem à TAM para se
reerguer mais rapidamente do que se poderia prever. Comprada para ser a
empresa de longo curso do acionista, poderá ocupar este nicho de
mercado que não constava no planejamento original. A empresa ganha
folgadamente no quesito pontualidade e segurança na visão do
passageiro, principalmente do passageiro de negócios.

ROTAS REGIONAIS – O surgimento de novos horários em Congonhas,
trará de volta a aviação regional que utiliza aeronaves de pequeno
porte: os F50, Embraer, ATRs, que enfrentavam dificuldades para
conseguir slots em Congonhas, ocupados anteriormente pelas gigantes do
setor. Trata-se de uma aviação que estava obstruída neste
aeroporto e poderá ser uma grata surpresa. O mesmo poderá ter
reflexo no novo Santos Dumont, liberado para aviões de 50 lugares. A
própria Gol tem projeto para a sua empresa regional, que deverá
ser colocado em prática. A Total Linhas Aéreas é a única que
está pronta para começar a operar com os ATRs em Congonhas,
inclusive com o ATR 170, que permite até 70 passageiros. A noticia
das mudanças de Congonhas foram efusivamente festejadas por este
segmento. (CM)

Problemas à vista

1. Liberação dos espaços sob-júdice no Aeroporto de Cumbica
para ampliar a capacidade de atendimento, que já estão
congestionados. Hoje a TAM e Gol possuem menos balcões do que
necessitam para o atual volume de passageiros. Se for colocado em
prática, o crescimento do tráfego deverá ser de 40%.

2.Congestionamento nos finais de semana, devido à concentração dos
vôos charters, que eram feitos em Congonhas, exatamente porque
sábado e domingo é reduzido o volume do passageiro corporativo.
Aproveitava-se uma ociosidade das posições de atendimento.

3.Agilização dos serviços de Policia Federal (imigração) que
é hoje um dos grandes gargalos de Cumbica. Existem casos que entre
controle de passaporte e alfândega o passageiro perde até duas
horas, o que inviabiliza as conexões domésticas, geralmente
programadas para 60 ou 90 minutos a partir do momento de desembarque.

4. Em Cumbica, sobram pista e pátio para aeronaves e faltam
condições nos dois terminais que estão colapsados por falta de
posições de atendimento e serviços básicos.

5. Já estava em fase de redação o edital para o terceiro terminal
de Guarulhos. Com área pronta e custos já orçados. Para a obra
começar, só falta iniciar o processo de licitação, que
deverá praticamente dobrar a capacidade dos terminais, devido às
novas tecnologias e projeto.

6. Sistema de interligação do metrô ao terminal de Guarulhos, que
a exemplo dos aeroportos internacionais facilitaria o acesso. Hoje, um
táxi dos Jardins para o Terminal chega a custar mais do que algumas
passagens promocionais.

7. Antes da criação da Infraero, o Galeão era gerido pela Arsa,
uma estatal independente e que poderia servir de modelo para a gestão
atual do próprio Galeão e de Guarulhos. Eles passariam a ser
novamente empresas desdobradas da Infraero. Caberia à estatal os
aeroportos menores e menos lucrativos.

8. O anunciado terceiro aeroporto de São Paulo é obra para no
mínimo seis anos, ou seja, o abacaxi será entregue ao próximo
governo.”

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A VERDADE SOBRE A AVIAÇÃO BRASILEIRA I

“O enxame de Congonhas — uma obra do “mercado” míope e da
impotência do poder concedente de vários governos BASTIDORES
DA CRISE EM GONGONHAS

Cláudio Magnavita
A mão de ferro colocada pelo Conselho Nacional de Aviação Civil
(Conac) no dia 20 de julho trouxe de volta ao cenário a figura do
poder concedente, que durante quase 15 anos entrou em processo de
profunda hibernação. É só recapitular o que aconteceu na
aviação brasileira nos governos Collor, FHC e no atual. Pactuados com
a busca de uma solução de mercado, o Governo Federal foi abrindo
mão do seu papel de regulamentador e de agente ativo neste processo.
Entregou a aviação a própria sorte e a uma sangrenta “lei de
mercado”, que estabeleceu como norte da sua bússola, o lucro,
fazendo apodrecer todo um sistema que garantiu ao País, durante
décadas, as suas ligações, já que apesar das suas dimensões
continentais continua desprovido de modais ferroviários, marítimos
e até rodoviários.
O poder concedente começou a perder credibilidade quando no governo
Sarney acertou mortalmente as empresas com um insano congelamento
tarifário, que fazia os aviões, mesmo lotados, voar com
prejuízo. No governo Collor, o balcão de negócios estabelecido
na vizinhança do Planalto para privatizar a Vasp e distribuir rotas
internacionais sem nenhum critério permitiu o desembarque das
gigantes aéreas estrangeiras, que hoje dominam o mercado emissivo de
São Paulo, ou sejam, centralizaram “acertadamente” o foco
onde havia dinheiro, desprezando o Galeão e o resto do País. A
evasão de divisas, que saem do País nas asas da internacionais,
foi o pedágio que a nação pagou para fazer crescer a Vasp e mexer
nos acordos bilaterais. O governo Itamar brecou a Vasp, mas privilegiou
o modelo que começa a se formar em Congonhas e que foi desdobrado
pelo seu sucessor.
O que de mais injusto está ocorrendo é tentar colar no atual
governo a responsabilidade da super-utilização de Congonhas. Essa
é uma herança que o governo Lula recebeu em 2003 do governo
Fernando Henrique Cardoso. Como o País tem memória curta é
fácil a manipulação dos fatos para atingir verdadeiramente outros
objetivos. Infelizmente, a aviação está sendo tratada como
munição de um jogo político, onde o colapso de um sistema sem dono
devido à ausência contínua do poder concedente é utilizado
como calcanhar de Aquiles de um administração que até então
parecia blindada nos seus índices de popularidade.
É só assistir às formas que tentam associar uma frase infeliz
da ministra Marta Suplicy, dita em um outro cenário, com o acidente
em Congonhas. O mesmo ocorreu com uma frase do ministro Guido Mantega,
que falou do crescimento do setor e uma do presidente da Anac
(Agência Nacional de Aviação Civil), Milton Zuanazzi, com igual
teor. É uma tentativa sórdida de cruzar fatos distintos e atingir
eleitoralmente personalidades públicas. O pior é que parece não
existir nada que detenha essa onda de manipulação política da
realidade. Nem mesmo uma reação judicial em defesa da verdade.
Quando o Aeroporto de Cumbica, em Guarulhos, hoje Aeroporto Governador
André Franco Montoro, foi inaugurado, em 1985, os vôos a jato que
estavam concentrados em Congonhas foram todos transferidos para Cumbica.
Operava-se no aeroporto central somente os Eletras da Ponte Aérea, os
Fokkers 27 da TAM e da Rio-Sul e os Bandeirantes de várias regionais,
além da aviação executiva. Quando chegou o primeiro Fokker 100 da
TAM, o MRA, os vôos não poderiam ser maiores do que mil
quilômetros. Para ir para Brasília tinha-se que pousar em
Ribeirão Preto. O avião foi batizado como o “jato de
Congonhas” e o próprio aeroporto, dois anos depois, estava sendo
chamado de “Tamgonhas”. E isso logo ali atrás, no início
dos anos 90. Até então, o poder concedente existia e o aeroporto
central operava como coadjuvante. Fechando os olhos para o perigo O
que aconteceu no final dos anos 90 e já na gestão de FHC merece
uma reflexão. Os interesses comerciais das empresas aéreas foram
colocados acima dos planos e dos alertas de seguranças que
justificaram a construção de Cumbica e a retirada das operações a
jato de Congonhas.
A própria TAM cresceu a partir de uma operação com uma aeronave
de 108 lugares, birreator, recebidas com carência de leasing
operacionais e permitiam, com uma tarifa muitas vezes superior à das
concorrentes (uma ida a Brasília custava em 1994 duas vezes o valor
de uma passagem de São Paulo para Buenos Aires). Operando
exclusivamente no aeroporto central, com um avião econômico,
sobravam passageiros que não se importavam em pagar caro pelo
conforto que teriam de aeroportos centrais vazios e que chegavam a ter
de pianistas a harpas paraguaias na sala de embarque, com serviço de
bordo já começando em terra.
Com o caminho do pote de ouro descoberto, todo mundo lutou para entrar
neste paraíso. A Ponte Aérea trocou, com certo esforço e
arrepio da Boeing, os Eletras pelos 737-300. A Rio-Sul trouxe os Boeings
737-500 e instalou as suas salas de embarque com serviços e
degustação de salgadinhos.
Foi exatamente o Governo FHC que abriu a porteira e subverteu a
ordenação disciplinar que havia colocado Congonhas em regime de
pão e água. A explosão da operação de Congonhas não
ocorreu no primeiro governo Lula e, sim, no primeiro governo de FHC, que
durante oito anos liberou Congonhas a toda sorte de sacrilégios.
Desafiando a lógica e o bom senso, as duas únicas pistas foram
entregue a operações maciças, que incluíam os velhos 737-200 da
Vasp, da Transbrasil, da Varig, da Rio-Sul e, já no segundo governo
tucano, a novíssima Gol, que montou toda a sua operação a partir
dos slots milagrosamente conseguidos em Congonhas. Foi o primeiro caso
de uma low cost que nasceu com seis Boeings 737 ganhando espaço no
aeroporto mais nobre da aviação.
É exatamente neste período, no início dos anos 2000, que
Congonhas explode. Slots a cada minuto, congestionamento para pousar e
decolar e colapso de uma malha aérea construída na absoluta
omissão de um poder concedente, que se recolheu na sua autoridade e
deixou que os interesses comerciais passassem a reger a nossa
aviação.
Ao mesmo tempo que fazia isso, os mesmo interesses comerciais,
batizados de “soluções de mercado”, deixavam a Transbrasil, a
Vasp e a Varig esfacelar como empresa, sem nenhum aceno efetivo de
solução por parte do Governo Federal.
Os mesmos interesses comerciais que levaram o governo tucano a
entregar Congonhas à própria sorte, pareciam engessar qualquer
solução governamental. Mesmo depois do 11 de Setembro, quando os
Estados Unidos salvaram a sua aviação com uma injeção de US$ 11
bilhões, aqui as companhias tradicionais eram ignoradas. No final do
Governo FHC, uma manobra de bastidores até hoje não explicada,
colocou o seu ex-chefe da Casa Civil, Clóvis Carvalho, e o economista
Mendonça de Barros como conselheiros da Varig, numa operação
avalizada descaradamente pelo Unibanco (que zerou a sua exposição na
empresa neste período). No caso de uma vitória da campanha
presidencial de José Serra, essa manobra resultaria na
substituição do Ícaro por um tucano na fuselagem da companhia. Foi
a única vez que o poder concedente apareceu, exatamente para dar uma
pane seca na empresa e o garrote vil dos outros credores estatais e
encastelar os seus prepostos no comando da aérea. Só isso, em um
país de primeiro mundo, seria foco de uma bombástica CPI. A
demorada gestação da Anac No apagar das luzes do governo FHC, foi
passado para o novo governo um outro modelo, que geraria um novo marco
regulatório da aviação comercial. Tratava-se da criação da Anac
(Agência Nacional de Aviação Civil), que teve o seu modelo
exaustivamente debatido e discutido em audiências e que contou como
seu relator o então deputado federal Leur Lomanto (hoje um dos
diretores da Anac). Na prática, toda a gestação da criação da
Anac congelou qualquer intervenção do poder público. Teoricamente,
o novo modelo já estava pronto, fruto de dezenas de audiências e
de um trabalho intenso pela sua criação, que, aliás, foi o assunto
que mais ocupou os pensamentos do comandante Rolim Amaro nos seus
últimos dias. Ele morreu pensando prioritariamente na indústria
como um todo e cada vez menos na sua empresa. Sabia que o modelo que
havia vindo a reboque da história da TAM havia gerado um Frankstein e
que era preciso trazer de volta a figura do poder concedente,
principalmente quando viu surgir no seu quintal uma equação de
sucesso bem azeitada politicamente como a Gol.
O governo Lula teve a chance de corrigir os erros dos seus sucessores,
mas como fez em outros casos delicados, preferiu nos seus primeiros
quatro anos manter o modelo herdado do que meter a mão em cumbuca e
ser penalizado por agir errado. Se deu certo na economia, podia ter dado
certo na aviação, só não imaginavam o tamanho da bomba
relógio armada pelo antecessor. Aos militares, no comando do DAC,
cabiam apenas esperar o processo de transferência de comando, já
que estavam impedidos de pensar a longo prazo, uma vez que a passagem de
comando para o poder civil ocorreria a qualquer momento e qualquer
ação de longo prazo poderia ser vista como intromissão. Souberam
disciplinadamente esperar e passar o comando, como de fato ocorreu de
forma comedida. A Anac foi criada e o novo modelo nasceu em plena crise
e paralisação da Varig, passando pelo acidente da Gol e caos dos
controladores. Nasceu como Geni e leva pancadas de todos os lados sem
ter como reagir.
O governo Lula não foi, porém, um período monástico. É
só avaliar a inédita politização da Infraero, que já havia
começado de forma tímida no final da gestão de FHC, com uma
administração civil e seguiu de forma mais exposta com a nomeação
de ex-governador de Pernambuco e ex-senador, Carlos Wilson, para
presidir a estatal. Pela primeira vez um governo colocava um político
em uma área que até então era preservada em nome da
segurança nacional. Wilson tem sido poupado pelos problemas de
saúde que enfrenta, mas todos reconhecem o ônus desta
politização, que tem o mesmo peso e dolo do que está ocorrendo
agora no Banco do Brasil e na Caixa Econômica.
Foi um período doloroso na vida da estatal, com um crescimento
cosmético e uma absoluta miopia na questão da segurança, como
denunciou o brigadeiro Edilberto Teles Sirotheau Corrêa, ao se
desligar da Superintendência de Segurança Aeroportuária da
Infraero no final de abril de 2005. Na ocasião, ele fez um alerta
publico em uma carta de demissão, com tons de clarividência e que
infelizmente se confirmaram.
Num outro espasmo de existência de poder concedente, o então
ministro da Defesa, embaixador José Viegas, embarcou numa corretagem
que através de uma medida provisória costurada na Casa Civil pela
assessora jurídica do ministro José Dirceu, a advogada Denise
Abreu, e pelo então assessor do Viegas, Alex Romera (ambos hoje na
Anac) promoviam a liqüidação judicial da Varig e dividia o
espólio da empresa para a TAM e a Gol, tudo com o beneplácito do
presidente da Infraero. A nomeação de José Alencar para o
Ministério da Defesa deu um ponto final nesta loucura.
Ao tomar as rédeas do processo e trazer de volta a figura do poder
concedente, o governo coloca no seu colo um problema que ganhou
dimensões catastróficas com o acidente do vôo 3054. Ordem na
casa A sua intervenção, sabiamente atropelando o senil ministro da
Defesa Waldir Pires, coloca ordem na casa e enquadra as empresas
aéreas em uma realidade que, em grande parte, foi criada por elas
mesmas ou em cumplicidade do próprio poder concedente, o que pelo
atual modelo de governança da Anac seria impossível principalmente
pelas relações incestuosas do currículo de alguns dos dirigentes.
Essas pessoas isolaram teimosamente, e até com ar de afronta, as
tentativas do presidente da Agência, Milton Zuanazzi, em colocar
ordem na casa. Com espírito público e uma correção absoluta da
vida pública, Zuanazzi tem sido crucificado injustamente desde o
primeiro momento por ter se colocado em defesa do País e distante dos
interesses das aéreas, que não ficaram felizes quando souberam que
ele seria o presidente em detrimento dos dois candidatos que abertamente
receberam o apoio delas. É só ver os diferentes embates
públicos que teve como o Sindicato Nacional das Empresas Aéreas
(Snea), que reúne as companhias, e de forma mais clara na sua luta
que teve para tentar salvar a Varig, enquanto a concorrência e alguns
colegas de diretoria se aliavam para defender o atestado de óbito da
companhia gaúcha. Enfrentar inimigos externos já é difícil,
quanto mais inimigos internos e que destoam da sua rigidez de
caráter.
Nesta definição de uma nova operação para Congonhas, o governo
Lula não precisou inventar nada. Trouxe de volta apenas o modelo do
início dos anos 1990 e que foi abandonado criminosamente pelos
governos da época, como se vê agora pelas 200 vitimas fatais deste
recente episódio e pelas 99 vitimas do vôo 402, em 1996.
A Comissão Parlamentar de Inquérito do Congresso tem que colocar
o foco na origem do problema e responsabilizar aqueles que deixaram que
o Aeroporto de Congonhas deixasse, no final dos anos 90, de ser
coadjuvante e virasse o centro nevrálgico da aviação brasileira.
Permitir que toda aviação comercial do Brasil tivesse como ponto
focal um aeroporto central com duas pequenas pistas e sem áreas de
escape é criminoso. É subverter qualquer planejamento estrutural.
Como também é um crime imputar este modelo a um governo que o
herdou. É como se propositadamente todos os retrovisores fossem
arrancados para que ninguém tivesse condições de olhar para
trás.
O ressurgimento da figura do poder concedente é uma boa noticia e o
fortalecimento da Anac se torna necessário e isso passa pelo
fortalecimento do seu diretor presidente que tem dado lições de
moralidade e nunca se furtou a desagradar o lobby das companhias.
Um novo cenário será surpreendentemente traçado para a
aviação comercial, que passará por uma reformulação completa.
Até o final do ano, teremos um cenário bastante diferente, mas que
já pode ser projetado. Cláudio Magnavita é presidente da
Associação Brasileira de Jornalistas de Turismo (Abrajet), membro do
Conselho Nacional de Turismo, diretor do Jornal de Turismo e
apresentador da TVJB. Se todas medidas do Conac forem implantadas
teremos um novo perfil na aviação comercial BASTIDORES DA CRISE DE
CONGONHAS

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APESAR DOS PESARES, DEFENDO O GOVERNO LULA ATÉ O FIM!

Ou Lula é medroso, ou tem algum podre que o mantém chantageado pela mídia, ou, simplesmente, se tocou de que o Brasil não tem volta e se jogou nas cordas.

Falta aquela coragem chavista no Brasil. E o PT tornou-se um partido tão fisiológico quanto os outros, pois não explicita à sociedade sua vontade nem a necessidade urgente de fazer uma reforma política que evite a obrigação de ter que se juntar à corja para preservar a governabilidade da nação.

Nelson Jobim foi a gota d’água, que só serviu para comprovar que nenhum partido político presta, pois a política não se faz mais através dessa instância, pois não existe mais espaço público físico e, sim, através da mídia.

Se os movimentos sociais seguirem apoiando partidos ou se não tiverem a competência, o interesse e nem estiverem cientes da necessidade de dialogar com a sociedade prioritariamente através da mídia, nunca terão suas necessidades satisfeitas.

Como já cansei de dizer aqui (e pouquíssima gente leu), nenhuma greve, nenhuma operação-tartaruga, nenhuma barreira na estrada, nenhuma invasão de terra ou de prédios abandonados chama a atenção da sociedade positivamente. Nenhum movimento que atrapalhe o fluxo faz com que aqueles que não gostariam de ter o seu fluxo interrompido parem para observar, discutir, aprender e aderirem à mobilização.

Esqueçamos os partidos políticos como o fim maior de nossas lutas. Eles são um mal infelizmente necessário, aos quais precisamos chegar, de uma forma ou outra, como fonte institucional de reivindicações.

Até bem pouco tempo atrás, eu ainda pensava que o PT merecia ser visto com atenção e com carinho porque eu tenho 34 anos e votei em Lula aos 16. Porque Porto Alegre governada pelo PT sempre foi menos pior do que agora. Porque o Governo Olívio foi calhordamente achincalhado, humilhado, discriminado e, comparando com todos os outros governos desde que me entendo por gente, foi o menos pior.

Embora veja como uma medida emergencial e simbólica de inclusão social, o Bolsa Família é paternalista e quase esmoleiro, apesar de exigir algumas contrapartidas de seus beneficiários e de o Brasil possuir apenas 5% de sua população de aproximadamente 180 milhões de habitantes recebendo míseros R$800,00 ou mais.

Todavia, não posso admitir que o Governo Lula não divida o país em 80 e poucas regiões, a fim de fazer o SEBRAE, o SENAC, o SESI, o SESC e todos os ministérios em conjunto com as respectivas secretarias estaduais e municipais trabalharem para o verdadeiro desenvolvimento sustentável de cada região, respeitando a biodiversidade, a cultura, a etnia, a religiosidade, o relevo, o clima e, sobretudo, a verdadeira vocação de cada uma dessas regiões.

Não posso admitir que o Governo Lula não intervenha, através do Ministério das Comunicações nem do Ministério das Minas e Energia com mais poder e autonomia do que as ridículas agências reguladoras. As privatizações foram cartelizadas e envolveram lobby e bilionários jabás para políticos e empresários de direita.

O próprio PT se perdeu ao permitir que o “Campo Majoritário” ditasse as regras ao invés de haver uma discussão verdadeira entre todas as suas tendências.

Um gravíssimo problema do PT no governo também foi o de sempre, apesar de a direita ter feito sempre a mesmíssima coisa ou, seja, de nomear companheiros apenas por eles serem partidários e não por serem técnicos e especialistas capacitados em alguma área.

No sentido da administração e da gestão, embora não se deva manter em postos-chave funcionários públicos ou CCs de pensamento oposto às diretrizes de governo, também não é possível partidarizar a máquina para acomodar correligionários ou leigos, ou incompetentes. Finalmente, não dá para proteger correligionários mal-intencionados: a expulsão do partido e o julgamento criminal do indivíduo devem ser sumários.

Depois de pagar o FMI, como é que o governo não foi capaz de intervir junto aos seus credores da dívida interna, já que a externa está bem resolvida, a fim de esticar prazos e reduzir juros para investir PESADO em saúde, educação, infra-estrutura, turismo e previdência?!

O significado de Nelson Jobim no Ministério da Defesa é muito forte: representa um baque no que ainda poderia ser considerado um governo de esquerda ou de centro-esquerda. O antigo ministro da Justiça de FHC, que ajudou na privataria assim como o procurador-geral da república Geraldo Brindeiro (o famoso ‘engavetador-geral’), está de volta ao poder – um poder ansiado pelas oligarquias interessadas em privatizar os aeroportos.

Eu não tenho como provar, mas acho que não é possível duvidar de que os militares organizaram, orquestrados pela direita, as operações-tartaruga e todos os problemas ocorridos no SINDACTA. Esse é um crime que a Polícia Federal pode tão-somente investigar, mas não tem poder de prisão. As verbas do PAC estão aí para serem distribuídas. E o desenvolvimento da infra-estrutura de transportes, logística e turismo do país NUNCA passou pela sustentabilidade.

O arrego dado para o agronegócio, para os banqueiros que os financiam e para as multinacionais dessa indústria com a permissão da transgenia proibida na maior parte da Europa transformou o Brasil em uma monocultura da soja no campo alimentício e em uma roça de cana no setor energético, enquanto o câncer e a obesidade vão crescendo na população. Nossa alimentação tem piorado horrores.

Brasília sabe muito bem que o eucalipto é um mal para o pequeno agricultor, para o clima e para a sobrevivência de diversas espécies de vegetais e animais. Que essa indústria criminalizou índios e quilombolas no Espírito Santo e está plantando às margens de rios e mananciais, sugando a água preciosa para a sobrevivência das pessoas aqui no Rio Grande do Sul. Eles também estão entrando no Rio de Janeiro.

E o Governo também não poderia ter embarcado na cantilena do Pan. Eu sou desportista, acho que todas as crianças, homens, mulheres e idosos precisam de saúde, bem-estar e recreação e que as profissões de professor de educação física, fisioterapia, psicologia, nutrição e fisiologia deveriam estar entre as mais valorizadas em uma nação que deseja ser considerada de ponta.

A educação tem melhorado. Mas é um projeto de longuíssimo prazo, que não se sabe se será mantido e tampouco melhorado por quem quer que venha depois de Lula.

Por mais que eu defenda a liberdade de expressão e a gigantesca necessidade de termos uma verdadeira democracia na qual todos os setores da sociedade saibam em quem e para que estão votando e que, uma vez eleitos, os políticos sejam devidamente cobrados pela sua população; por mais problemas que o Governo Lula apresente em termos sociais e políticos, ainda assim, é menos pior do que o que tivemos até hoje neste país.

Voto no PT porque, simplesmente, não há outra alternativa. O PT é ruim. Mas todas as outras opções são muito piores em termos humanos.

Defendo este governo não porque ele é bom – pois ele não é bom. Defendo-o porque sou contra golpes de qualquer natureza. Defendo-o porque 61% dos brasileiros aprovou seu primeiro mandato e endossou a sua permanência para seguir trabalhando.

Todavia, falta coragem. Falta atitude. Falta postura. Falta combatividade. Falta inteligência. Falta reagir.

Eu não tenho mais tempo para esperar. Por isso, não acredito mais no Brasil, pois o poder da direita é infinito.

Oxalá um dia ainda possa estar vivo para morder minha língua. Não vou desistir da utopia por um Brasil justo. Mas, sinceramente, não creio que ele vá existir.

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SAÍDA DO MINISTRO VALDIR PIRES DENUNCIA COMPLÔ CONTRA O GOVERNO LULA


Ao sair, Pires diz que querem atingir Lula – Terra – política

Entrevista fundamental do brilhante jornalista Bob Fernandes do Terra Magazine  com o ex-ministro da Justiça Valdir Pires.

Percebam a gravidade e a confirmação de tudo o que tantos blogueiros têm discutido há meses nas palavras do ex-ministro:

Presidente, há uma sanha para atingi-lo. Novamente se movem para
atingir o senhor e seu governo, é a mesma sanha de sempre, e desta vez
me usam para este fim.

Diziam que eu tenho 80 anos e que, portanto… eu tenho 80 anos de luta
pelo Brasil e de dignidade. Eu tenho 80 anos e há mais de 50 vivo e
acompanho essa luta de perto, de dentro. Uma luta para construirmos
instituições que tornem a vida do nosso País justa e decente. O Brasil
tem uma posição cada vez mais importante no diálogo pela preservação da
civilização humana, para o fortalecimento das instituições que
construam a paz.

“Há hoje um desafio posto para o mundo inteiro, num tempo em que já não
há a Guerra Fria, mas não há paz, pelo contrário. Neste cenário, ainda
que seja um dos raros países a assinar o compromisso de não utilização
de armas atômicas, o Brasil não pode renunciar à conquista das
tecnologias mais modernas. Sei que é uma preocupação das Forças
Armadas, e preocupação justa, com nossas responsabilidades no Atlântico
Sul e com a preservação da Amazônia.

“Com essa eleição que não querem terminar nunca, com essa sanha que
retorna a cada episódio, ainda que sob o disfarce de crítica a isso ou
àquilo, ainda que sob o disfarce das boas intenções. Deixo o ministério
honrado, mas me preocupa essa insânia que não aceita a decisão do povo,
que não respeita de verdade as instituições democráticas.


Mais do que em qualquer outra época da história do Brasil, as lebres precisam ser levantadas, antes que seja irreversível o quadro de fritura do Governo Lula e das esquerdas no Brasil para os próximos 30 ou 40 anos, tornando o nosso rico e enorme país em um lugar miserável e desprezível.

Leia a entrevista na íntegra aqui.

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A AVIAÇÃO E A POLÍTICA BRASILEIRA

O jornalista Laerte Braga escreveu um artigo bastante lúcido sobre o tema:

“…Por qualquer ângulo que se veja, por quantos
pontos se levante, o modelo político e econômico está falido e não
existe remédio capaz de dar jeito.

E por aí vai…

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