O mundo começou a respeitar e a admirar a seleção masculina de futebol profissional da República de Camarões exatamente na Copa do Mundo de 1982, na Espanha.
Naquela ocasião, embora infelizmente não tenham passado da primeira fase no grupo 1 (que foi o mais difícil daquele mundial), voltaram para casa invictos – feito inédito e jamais repetido por nenhuma outra seleção africana. Desde os poderosos Leopardos do Zaire, que venceram duas CANs consecutivas e tiveram forte apoio do seu ditador no final dos anos 60′s até meados dos 70′s, não havia surgido nenhuma seleção forte na África negra.
A imagem que o Zaire deixara na Alemanha em 1974 foi péssima: goleados por sonoros 9×0 pela Iugoslávia (entraram em campo de má vontade em função de um desentendimento sobre a premiação), perderam todos os jogos – inclusive para o Brasil, por 3×0, com um gol do ponta-direita Valdomiro Vaz Franco, do tradicional adversário.
Mas Camarões e Argélia, os representantes do continente na Espanha, surpreenderam o mundo e só não passaram à segunda fase por detalhe.
Os Leões não venceram nenhum adversário. Porém, deixaram claro que jogavam bonito, lembrando muito os bons tempos românticos do Brasil. Parecia que venceriam a todos, mas perdiam gols fáceis na cara por falta de experiência e de competitividade. Por outro lado, encararam de igual para igual um Peru amadurecido, porém com alguns remanescentes do escrete que fora a sensação da Copa de 70 e de 78 (como o grande Oblitas) reforçado com jogadores menos antigos como Barbadillo, que jogou no Avellino da Itália; também encararam legal a boa Polônia, na última Copa do careca Lato (autor do gol que derrotou o Brasil na decisão do 3º lugar em 1974) e na segunda do sensacional Zbigniew Boniek, craque da Juventus junto com o ícone francês Michel Platini (que disputou as Copas de 78, 82 e 86 e foi o presidente do comitê organizador do Mundial de 1998 na França)…
…Sem contar na Itália, que sagrar-se-ia tricampeã dentro de poucas semanas.
Depois de dois empates em 0×0, não fosse o pecaminoso escorregão de um dos maiores goleiros que este mundo já viu (N’Kono), Camarões teria classificado em 2º lugar no grupo pelo saldo de gols e iria defrontar-se com Brasil e Argentina. O campeão teria sido outro. E o 1×0 virou 1×1.
Fazer o que? Caso o regulamento tivesse sido o mesmo de 1986 a 1998, Camarões teria classificado-se para as oitavas-de-final como um dos quatro melhores terceiros colocados entre os seis grupos. Mas a Copa do sorridente mascote Naranjito reservou apenas o reconhecimento e a simpatia pelos Leões.
A Polônia foi o único time a vencer uma partida nesse grupo: aplicou retumbantes 5×1 nos peruanos. Assim como em 1974 na Alemanha, também chegaram às semifinais na terra de Velázquez, Gaudí, Picasso e Dalí. Naquela oportunidade, bateram os brasileiros; em 1982, contudo, perderam a chance de chegar à final em uma revanche vencida pela mesma Itália que haviam enfrentado na primeira fase (desta feita, muito mais inspirada). Na decisão do terceiro lugar, caíram diante da encantadora França de Trèsor, Bossis (que bela dupla de zaga!), Platini e Six.
O técnico francês de Camarões não gostava muito de substituir suas peças. Jamais saberemos se ele não tinha confiança no taco de seus bancários ou se ele era econômico em seus critérios… Vejamos como ele montou o time:
Camarões 0×0 Peru: N’Kono; Kaham, N’Djeya, Onana, M’Bom e Aoudou; Kundé, M’Bida e Abega; Milla (Tokoto 89′) e N’Guea (Bahoken 73′)
Camarões 0×0 Polônia: N’Kono; Kaham, N’Djeya, Onana, M’Bom e Aoudou; Kundé, M’Bida e Abega; Milla e N’Guea (Tokoto 45′)
Camarões 1×1 Itália: N’Kono; Kaham, N’Djeya, Onana, M’Bom e Aoudou; Kundé, M’Bida e Abega; Milla e Tokoto.
Thomas N’Kono, Jules Onana, Émile Kundé e Roger Milla também jogaram em 1990 na Itália. O eterno reserva de N’Kono, Joseph-Antoine Bell, foi o titular em 1994, nos EUA. N’Kono era convocado regularmente desde 1975 e Bell desde 1976. O craque dessa seleção de 1982 era o meia Abega.
Dos 22 convocados, apenas seis jogavam fora do país: N’Kono (Africa Sports – CIV), Tokoto (Jacksonville – USA), Caham (Stade Quimperois – FRA), Milla (Bastia – FRA), Bahoken e Aoudou (Cannes – FRA).
O Canon Yaoundé tinha seis convocados e o Union Douala, com quatro, formavam a base do time.
Curiosidade: no album de figurinhas da Copa de 82 do chiclé Ping Pong, a bandeira de Camarões era um dos cromos mais dificeis e os nomes dos jogadores N’Doumbe Lea e Tokoto foram impressos como Dumbe Lea e Okoto, respectivamente.
BONS TEMPOS!!! :”(
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[...] 1982, passei a simpatizar muito com as seleções africanas. Já postei sobre Camarões e Argélia daquela época e lembro bem de Marrocos 1986, Camarões 1990, Senegal 2002 e Gana 2006 [...]