MST: OU SE MIDIATIZA, OU SERÁ ETERNAMENTE CRIMINALIZADO

Infelizmente, não adianta nada invadir terras ociosas e improdutivas, viajar centenas de quilômetros marchando com crianças, idosos e um monte de material para montar barracas, nem tampouco gastar dinheiro com ônibus para transportar pessoas e caminhões para carregar equipamento pesado. O resultado dessas manifestações é cada vez mais inócuo e as conseqüências são autofágicas.

Cada vez mais, reivindicações com um objetivo legitimamente humano deixam de ter valor social relevante. Seu reconhecimento é mínimo e os riscos são cada vez maiores. O Eugênio postou no Dialógico um artigo (v. Marcha do MST) sobre a ameaça de chacinas com a conivência da polícia gerida pela extrema direita guasca, que permite as movimentações de jagunços, leões-de-chácara ou capangas da pior espécie contratados pela maior corja deste Estado, que é (salvo raras e honrosas exceções) a dos estancieiros.

Caso isso se concretize, temo por uma chacina que deixará Eldorado dos Carajás no chinelo. É uma marcha rumo ao suicídio ou, enquanto puder resistir, uma forma de alimentar o sistema vendo na mídia apenas imagens editadas de meia dúzia de sem-terra matando capangas pagos enquanto o discurso dirá que foram estancieiros mortos e jamais dirão que terá sido um jagunço morto para cada dez sem-terra.

A sociedade não está e nunca estará nem aí para qualquer movimento social que seja incompetente em articular sua visibilidade através da mídia. Diga-se de passagem, ser incompetente não significa ter que ser dono de um veículo ou fazer como o PCC fez, isto é, seqüestrou um funcionário da Globo a fim de apropriar-se de um espaço na mídia: significa adquirir a capacidade discursiva de fazer suas demandas serem tão sensíveis à sociedade que tornar-se-á impossível à Grande Mídia deixar de falar sobre o Movimento ou criminalizá-lo o tempo inteiro.

Não importa se for uma marcha do MST, uma greve do CPERS, a destruição de mudas de eucalipto de uma dessas multinacionais do deserto verde pelo MPA e pela Via Campesina ou uma manifestação qualquer da CUT, ou uma invasão urbana dos Sem-Teto: como a sociedade civil só se faz notar e só consegue debater através da ágora midiática, toda e qualquer passeata, greve, marcha ou invasão, desde a midiatização da sociedade, tais tipos de manifestação não tem mais como serem aceitas pela sociedade, em função de vários fatores:

PRIMEIRO: porque quase nenhum cidadão irá parar de fazer o que está fazendo para informar-se com os manifestantes sobre suas reivindicações e qual o verdadeiro objetivo do movimento.

SEGUNDO: porque vivemos em uma sociedade de fluxo. Então, tudo o que atrapalhar, frear, esgoelar, ou parar o fluxo de veículos, de pessoas e de informação será visto como um empecilho, um engodo, algo cuja conotação será sempre negativa.

TERCEIRO: porque os movimentos sociais ainda não se tocaram que, além de não conseguirem adesões junto à classe média rural ou urbana, hoje em dia não é mais uma questão de tentarem se defender ou de chamar a atenção agir contra a lei: estar à margem da sociedade e estar à margem da lei é inadmissível de acordo com o que é veiculado na mídia. Se quiserem sair na mídia, precisam agir de acordo com a lei e sem interromper o fluxo.

QUARTO: nenhum movimento social parou para pensar que o tipo de resistência a um sistema desigual e a forma de reivindicar atenção às demandas de uma determinada classe ou categoria devem ser sempre análogos e simultâneos ao uso sociotécnico da mesma forma de informação, comunicação e produção de sentido utilizados pelo poder dominante.
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Isso posto, é fundamental que os movimentos sociais sejam dotados de câmeras de vídeo, câmeras fotográficas digitais e computadores que, mesmo que não sejam caros nem de última geração, que pelo menos sejam capazes de editar e de publicar esse material na internet.

Os contatos dos movimentos sociais no meio urbano precisam se intensificar dentro de empresas e associações de classe com o objetivo de apresentar esse material sob a forma de palestras e cursos de desenvolvimento sustentável, ecologia, agricultura de subsistência e cooperativismo FORA DA SUA REDE DE CONTATOS HABITUAL, a começar pelas escolas públicas. É a partir das crianças e dos adolescentes que uma imagem poderá ser reconstruída de uma forma positiva e simpática, buscando uma reinserção na sociedade da qual hoje vivem à margem.

É preciso mostrar que os integrantes dos movimentos sociais não são bandidos. É preciso mostrar por que, fundamentados na história e na sociologia, a situação deles chegou ao ponto onde está. E é preciso sobretudo MOSTRAR À SOCIEDADE O QUE ELES FAZEM: o que e como plantam; o que e como vendem; como estudam; como celebram suas festas; como se reúnem; o que lêem.

Além de ensiná-los a usarem o You Tube e a redigirem blogs, é preciso que eles passem a fazer movimentos bastante significativos, tais como:

a) Visitar escolas públicas para apresentarem-se e divulgar todo esse material;

b) Visitar parques públicos nos finais de semana sem vestir vermelho, sem levar foices, enxadas ou facões, sem invadir, sem fazerem cara de tristes, de famintos, de coitadinhos, de revoltados ou de desconfiados. Não podem atacar e nem ficar na defensiva: devem, sim, apresentar-se sempre com um sorriso franco, um brilho no olhar, uma vontade sincera de abraçar e de apertar a mão de desconhecidos mesmo que façam cara feia ou lhes digam barbaridades. Devem se dispersar ao invés de aglomerarem-se todos juntos, para não parecer um movimento ameaçador.

É distribuir panfletos, cantar, apresentar os maravilhosos hortifrutigranjeitos que vendem. É oferecer como cortesia a quem parar para conversar e para ler seus panfletos um delicioso naco de carne, hospitaleiro e integrador.
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Em suma: não é mais possível utilizar velhos ícones da luta de classes. O debate e o diálogo se fazem de forma sensível, não mais buscando o conflito. E é encontrando brechas no sistema de mídia (internet, apresentação de vídeos com matérias da TV intercaladas com vídeos brutos captados pelo próprio movimento no mesmo dia em que as matérias contrárias tiverem sido veiculadas) que se forma uma opinião capaz de subverter a ordem sem tomar o poder e sem modificar o sistema.

Os oprimidos não podem aceitar o poder hegemônico que os exclui e não podem repetir a mesma lógica de inclusão que se espera de qualquer pessoa pobre. Ao mesmo tempo, não pode querer assumir o poder, pois, com o tempo, tornar-se-á tão totalitário quanto os detentores do poder vigente.

É como o Eduardo Guimarães propõe com o MSM (Movimento dos Sem Mídia): as manifestações têm uma posição clara, não buscam impedir as pessoas de trabalhar ou de circular e não buscam calar a mídia.

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QUEM NÃO É MIDIATIZADO NÃO EXISTE II

CLÁUDIA CARDOSO: “Hélio, e nada garante que o Rossetto possa agir diferente, em outra ocasião!!! Estamos mal parados!”

“A bem, da verdade, os partidos políticos, em tese, deveriam orientar seus filiados a cancelarem assinaturas, bem como participar, como cidadãos e cidadãs, de todas as manifestações em prol de uma mídia democrática. Porque, enquanto instituição partido político, TODOS (os) de esquerda têm medo de enfrentar os donos do poder. E as razões são várias, nem vale a pena repeti-las.”

RODRIGO CARDIA: “E eu votei no Beto na última eleição… Só espero que o Olívio não invente de elogiar a RB$. Aí sim eu ficarei totalmente desamparado.”

MIGUEL GRAZZIOTIN: “Do PC do B, que tem uma visão estalinista, ou seja, tudo pelos cargos, sabe que a RBS SERÁ fundamental para as opções eleitoreiras de poder. Nao veremos a Manuela NUNCA contra a RBS, e aí vemos que suas convicçoes politicas sao do tamanho das suas aspiraçoes politicas.Nao falo isto feliz, nao esperava muito do PC do B, e a postura “pelega” da Manuela me desiludiu…
Falo mais dela do que do Beto, pois este eu ja conhecia…”

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Eu acho que o Rossetto aparece menos justamente porque não gosta de beijar a mão da Grande Mídia. Todavia, analisando de cabeça fria a matéria da Zero Hora com os políticos de esquerda babando o ovo dos 50 anos da RBS, é preciso aguardar mais um pouco para sabermos até onde as respostas dadas podem ser consideradas oportunismo, deslumbramento ou sabujismo. Acho que mais outros virão…

Pra investigar, nada melhor do que alguém com tempo pra “bater ponto” na Usina da RBS (ex-Gasômetro – snif!) pra ver se algum vereador ou deputado de esquerda vai aparecer por lá abanando o rabo.

Quanto ao tio Olívio, o político mais digno, sereno e honesto da história do RS, infelizmente, ele perdeu para aquela que fala “o meu palácio” por não dominar as técnicas discursivas e enunciativas da mídia.

Não adianta espernear: as pessoas não sabem ler nem escrever direito. Mal e porcamernte interpretam o contexto, quanto mais o significado de um vocabulário rebuscado. Como o espaço midático é a nova ágora, Olívio infelizmente não tinha a menor chance contra ela. Na época, eu não tinha conhecimento disso. Hoje, estou plenamente convencido.

Olívio Dutra, aos 65 anos, não tem mais gás nem vontade de aprender a se comunicar para o atual público conforme a dinâmica da sociedade atual. O discurso de Olívio infelizmente só é capaz de atingir a uma pequena parcela dos eleitores de algumas clareiras em pequenas cidades agrícolas onde não haja latifúndios nem consumo massivo de rádio, jornal ou televisão. Foi um grande governador que não soube se defender, pois a ala mais honesta e menos suscetível a mostrar o “cofrinho” quando se abaixa do PT gaúcho é a mais xucra em termos de assessoria de comunicação.

O Tio Olívio precisa se preocupar mais em arrumar a casa. Como presidente regional do partido, é necessário trabalhar arduamente para eliminar o imaginário da classe mérdia em relação ao PT.

Sobre a Manuela, acho que o comentário do Miguel resume tudo e também remonta a um post antigo meu sobre o fato de ela saber lidar com a linguagem da mídia: ela é plenamente consciente de que precisa E MUITO tentar amansar e obter respaldo do PRBS, pois é muito ambiciosa e seus planos não podem morrer na casca. Ela só faz sentido como novidade caso consiga ser sempre a precoce. Se ela perder a aura de menina-prodígio e de namoradinha do Brasil, passará a ser apenas mais uma dentre tantas coadjuvantes ao invés de ser a protagonista.

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QUEM NÃO É MIDIATIZADO, NÃO EXISTE I

Precisei ler um pouco o que já havia lido e escrito em outros posts e em alguns trabalhos do mestrado. Precisei esfriar a cabeça, a fim de poder argumentar racionalmente sobre os políticos de esquerda gaúchos que foram beijar a mão da RBS.

Comecemos pelos comentários recebidos:

GILMAR CRESTANI: “Só não concordo que Tarso tenha sido ou ainda seja alguém capaz de representar minimamente a esquerda ou mesmo o Partido dos Trabalhadores. Tarso não passa de um “quinta coluna”, que foi negociar pessoalmente com Sirotsky um “tratamento mais soft” na campanha para o Governo do Estado. Todo mundo sabe que Tarso fez o que pôde para prejudicar Olívio Dutra. Enquanto outras administrações municipais eram “Populares”, a dele era “Tarso”. Lembro que no encontro com a Wrana Panizzi a respeito do episódio da manipulação das pesquisas pela CEPA, a magnífica Reitora ponderou a respeito do outro instituto também da UFRGS (se não me engano tem a ver com o Hélgio Trindade). aquele que manipulou para provar que somente Tarso, e não Olívio, teria condições de derrotar Antônio Britto.”

AGENTE 65: “A cada dia nos aproximamos da possibilidade não retornarmos à prefeitura e nos inviabilizar para suceder a Tia Yeda. Discordo um pouco da opinião, pois reduz a eleição ao jogo de cena, acordos e acertos entre os partidos e o problema é BEM maior. O PT não tem mais trabalho de base, suas principais cabeças ou estão no parlamento ou em cargos federais. A executiva do partido é ridícula e inoperante, o partido está esfacelado e isolado politicamente. Não há como ganhar a eleição sem fazer uma autocrítica das razões pelas quais perdemos, sem um programa de governo consistente e sem uma política de alianças que aproxime parceiros COM votos. A política suicida de disputarmos sozinhos tem nos premiado com sucessivas derrotas e assim permanecerá se não percebermos que é preciso quebrar o bloco hegemônico que nos é contrário. O outro lado vai ganhar de novo!
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Algo que faço cada vez mais raramente é assistir ao Programa do Jô. Casualmente, assisti no dia em que o Tarso foi o único entrevistado fora a atração musical e que não houve a tradicional bancada do pensamento único das “meninas do Jô”. Foi no dia em que Renan Calheiros fora julgado e absolvido. Tarso elogiou muito a inteligência de Jô Soares que, pra mim, é um cara que, embora seja inteligentíssimo, tem um ego gigantesco e procura exagerar nas suas demonstrações de cultura, bem como adora zoar com entrevistados cujo assunto não domina nem um pouco ou quando o entrevistado é muito humilde. Tarso elogiou também a abertura de espaço dada à opinião “plural” pelo programa (apesar das ‘meninas’ e do peessedebismo light do gordo), num expresso ato de beija-mão da vênus platinada.

Embora o PT gaúcho não costume ser afeito à exposição na mídia, hoje em dia é absolutamente inaceitável que os membros de administrações petistas ou os candidatos apareçam na TV de maneira carrancuda, prontos para se defender de ataques antes mesmos de serem atacados. A postura não pode, nunca mais, ser arisca. Sou veementemente contra beija-mão, mas também sou contra se negar a comparecer, pois não há mídia alternativa, tempo ou dinheiro disponíveis para campanhas políticas presenciais.

É preciso, mais do que nunca, não demonstrar medo ou raiva de Lasier Martins, Osíris Marins, Rosane de Oliveira, Armando Burd, Diego Casagrande, Rogério Mendelski e José Barrionuevo. Sabemos que as perguntas deles serão bolas quicando para os debatedores de dirreita e que eles irão apelar para argumentos de criminalização dos movimentos sociais ou que atentem contra crenças impostas à população pelo clero e pelas oligarquias agrárias, sempre reforçadas por essa mídia sabuja. Todavia, é preciso trabalhar com uma assessoria de imprensa capaz de fazer com que os candidatos de esquerda saibam desvencilhar-se dessas armadilhas.

Embora o Agente 65 credite a falta de interesse ou de atuação do governo junto às instituições formadoras do partido (comunidades eclesiais de base, MST, CPERS, CUT, etc.) porque grande parte de suas lideranças foi levada para trabalhar pelo próprio governo em Brasília, já cansei de assistir a eventos do MST e do MPA nos quais é visível a existência e a formação de novas lideranças. Ao mesmo tempo, ele também diz que não há mais trabalho de base do PT, pois suas principais cabeças ou estão no parlamento. Nesse ponto, concordo plenamente. No entanto, não creio que movimentos sociais com um volume de integrantes tão expressivo sinta-se perdido quando algumas de suas antigas lideranças foram cooptadas pelo Governo Lula.

A questão é mais profunda: trabalho com a hipótese de que o aumento da criminalização dos movimentos sociais e a sua cada vez menor exposição na mídia (mesmo que seja de forma negativa, são menos vistos do que antigamente) resulta da sua próopria incompetência técnica no uso dos meios sociotécnicos por pura ignorância (o que pode ser corrigido com cursos como os que o Guga e a Têmis oferecem através da Catarse nas periferias e como o que a minha colega de mestrado Paola Nazário também ministra junto a alguns assentamentos do MST) e de um misto de má vontade, medo e repulsa de tudo o que represente “mídia” para a esmagadora maioria dos movimentos sociais. Nesse sentido, insisto no que respondi ao Gilmar acima: assessoria de comunicação profissional e muito bem paga. Sem dinheiro não há qualidade.

Lula só foi eleito porque se midiatizou: passou a adotar uma eloqüência mais argumentativa do que panfletária, mais serena e senhora do assunto do que raivosa e uma disposição para a diplomacia maior do que a disposição para o confronto. O fato de ter tomado posse no Jornal Nacional e de o debate do 2º turno de 2006 na Globo ter dado total controle da situação ao apresentador William Bonner é simbólico, pois demonstra o poder da ágora televisiva, da qual, infelizmente, não há mais como escapar. O PT precisou pagar caro a Duda Mendonça para preparar Lula midiaticamente.

Todavia, isso não funcionou aqui em Porto Alegre em 2004, pois Raul Pont parece ter sido mais natural no 1º turno com os jingles e com o roteiro do programa eleitoral montado pelo pessoal daqui (Giba Assis Brasil, Flávia Seligman, Alfredo Barros, Carlos Gerbase e outros cineastas e produtores vinculados à Casa de Cinema de POA) do que no 2º turno, com a equipe de Duda Mendonça, que desconhecia totalmente a cultura local.

Enfim, é preciso saber jogar contra o sistema sem desfazer a ordem do sistema. É lutar pelas suas demandas dentro da lei, sem interromper o fluxo e preparando-se para atuar commo formiguinhas utilizando as brechas que o próprio sistema hegemônico deixa em seu muro. É saber encontrar os rastros dessas brechas para antevê-las e surpreender.

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Política, Midiatização, Blogs e Ação Social

Embora a midiatização pareça demasiadamente frankfurtiana e determinista de acordo com os apocalípticos e o Santo Graal para os integrados, nem a mídia é suficientemente eficaz para manipular e persuadir o pensamento e a visão do receptor-consumidor, nem esse consumidor-receptor é suficientemente passivo e incapaz de pensar de uma maneira avessa àquela produzida pela mídia.

Importa muito o velho mote “quem não é visto, não é lembrado”. Muitas vezes, a frase pronta “falem mal, mas falem de mim” acaba sendo preponderante entre os políticos. Por outro lado, eles são capazes de mudar de opinião como quem muda de calça ou, pelo menos, de omitirem suas verdadeiras impressões sobre algo ou sobre alguém somente para chegar a seu objetivo. Voltemos mais uma vez a Maquiavel: “os fins justificam os meios”.

Ora, se a mídia alternativa não tem poder de alcançar à maioria da população porque apenas seis grupos de comunicação controlam algo entre 70% e 80% dos meios de produção e de difusão midiáticos porque recebem um montante percentualmente equivalente da totalidade do bolo publicitário nacional, seu poder de barganha é imensamente superior. Dessa forma, não basta grupos minoritários que pensem diferentemente do discurso único (ou quase único) desses seis grupos majoritários terem dinheiro para comprar mais veículos de comunicação, pois a rede de contatos e a competência administrativa, contábil e técnica da mídia hegemônica tende a fazer com que essa mesma mídia hegemônica cresça ainda mais e torne a mídia pequena cada vez menor.

Falamos acima sobre meios de comunicação de MASSA (rádio, televisão, jornal). As revistas, por sua vez, são segmentadas e têm menor capacidade de uniformização desse discurso único, embora façam parte desse atravessamento de meios auto-referentes e de citações constantes de seus pares.

Quando o assunto é internet (web sites, mensageiros instantâneos, fóruns, listas de e-mail, sites de relacionamento, etc.), não só este meio ainda não pode ser considerado massivo em função da ainda incipiente capacidade da população em geral adquirir o meio técnico (computador e provedor de acesso) como também pela necessidade de um enorme contingente de pessoas precisar aprender a utilizar este meio técnico.

A interatividade é a principal característica inerente a este meio: as pessoas trocam informações e mudam de ambiente informacional a todo instante, sem nenhuma amarra física ou limitação técnica que a obrigue a manter-se engessada a um único canal, a uma única revista, a uma única rádio. Como qualquer um pode publicar qualquer coisa na internet, a informação, embora muitas vezes repetitiva, ou mal redigida, ou inverídica, ou incompleta, também possui oásis de racionalidade e de debate através de uma visão contrária à da Grande Mídia através de blogueiros cuja opinião é responsável e muito bem fundamentada. Essa particularidade é quase impossível de se encontrar na mídia de massa.

No início, o que parece ser apenas uma experiência de postagem, de publicação ou de um teste de como o internauta se vê adicionando links, fotos, vídeos, citações de outros sites e expressando a sua própria opinião vai tomando a forma de uma rede de blogs que fazem com que até mesmo um blogueiro leigo em um determinado tema aprenda a debatê-lo com maior conhecimento de causa, ponderação, energia e maturidade ao referenciar e ser referenciado na sua interação com outros blogueiros.

Embora a tendência seja a de que os leitores mais assíduos e os comentaristas mais freqüentes serão pessoas que pensem de maneira parecida e que pessoas que jamais pisaram em uma faculdade de jornalismo sejam capazes de editar, manipular, mediar e censurar, parte-se do pressuposto de que, quando se é independente e se está atrás de informações que PRODUZAM DIFERENÇA na sua própria vida e na vida de muito mais pessoas, a abertura de espaço para o contraditório seja maior.

Mais rica e gratificante é a experiência quando o blogueiro consegue comparar o que é publicado pela Grande Mídia em relação às enormes variações que costuma observar na ocorrência de fatos semelhantes àquilo que é veiculado no seu dia-a-dia.

Quando se chega a esse ponto, o blogueiro finalmente percebe que ele também é um emissor (embora já o seja há muito tempo): ele forma opinião a partir da sua própria opinião. E ele tem o poder de difundir uma opinião diferente daquela que é meramente repetida por quem acredita em tudo o que vê, ouve e lê na mídia tradicional.

Logo, torna-se necessário repercutir presencialmente através de mobilizações que atraiam pessoas insatisfeitas com a Grande Mídia, buscando ver seus anseios e suas expectativas por uma comunicação plural e transparente atendidas.

É a exposição presencial na Grande Mídia a responsável pela visibilidade de um movimento social iniciado a partir dos blogs. Os blogs, em si, trocando posts, links, referências e idéias semelhantes, não produzem diferença, apesar de oferecerem uma informação genuinamente contraditória, capaz de faze o cidadão pensar.

Para agir, é preciso desafiar e resistir dando a cara para apanhar. Não há outra saída se o objetivo é produzir diferença.

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Inquietações sobre Política no Brasil

Política requer assertividade. Política requer conhecimento de causa sobre um determinado assunto ou uma rede de contatos fiel, solidária, confiável e sempre presente, capaz de debater e de levar as demandas nas quais acreditamos para o conhecimento de uma parcela maior da sociedade, com o objetivo de obtermos adesão e aprovação às nossas reivindicações. Política requer engajamento, mesmo que este engajamento não seja permanente.

Todavia, política não exige cumprimento de promessas, compromisso incondicional com causa, com classe ou com ideologia alguma e tampouco exige coerência e firmeza. Afinal de contas, mesmo aqueles indivíduos supostamente mais “retos” são capazes de vergar a espinha ou de fazer outros vergarem se os fins justificarem os meios. De maneira geral, seja na esquerda, seja na direita, o que importa é ser visto como o representante mais legítimo e mais capaz de atender a um determinado grupo ou a uma determinada causa.

Dadas essas visões estritamente pessoais a respeito da política como um todo, me interessa acompanhar, verificar, comparar e participar de processos políticos. A boa política é aquela que atinge o seu objetivo, seja ele pessoal ou coletivo.

No entanto, eu, Hélio, acredito que deveRIA ser objetivo sine qua non da existência da política o cumprimento de promessas, a transparência nas propostas, a prestação de contas freqüente e sistemática para o eleitorado e, acima de tudo, buscar suprir prioritariamente as demandas daqueles que mais precisa, pois são estes os menos preparados para darem-se conta de como conduzir suas próprias vidas de maneira que a sua realização pessoal venha a partir da concretização da sua parte dentro de uma coletividade ampla e, de preferência, não-classista.

Todavia, nenhum político jovem, inexperiente ou advindo de um determinado conjunto de entidades sociais, empresariais, governamentais ou de outras naturezas classistas e comunitárias tem condições de abraçar a totalidade ou a maioria do eleitorado. Isso vale tanto para ser síndico de um prédio como para ser presidente da república; para ser líder de turma no colégio como para ser presidente da FIFA. Estabelece-se aí a distinção e a segmentação que sustentarão através da competência do discurso que o candidato domina justamente por fazer parte desse meio ao qual deverá, em primeira instância, declarar-se representante único e legítimo.

Seja por uma questão meramente mercadológica (o mais bonito, o mais rico, o mais bem relacionado, o mais bem vestido, o mais forte fisicamente, o mais famoso, o de maior exposição midiática, o que consegue trazer consigo a maior quantidade de verbas para a campanha, etc.), seja por meritocracia (ir crescendo dentro do partido em função de sua coerência e OBEDIÊNCIA ao programa) ou, ainda, por oportunidade (estar no lugar certo, na hora certa e com as pessoas certas), a retórica e o jogo de cena da midiatização fazem com que seja cada vez mais natural o político ser vendido como um produto.

O espaço público não é mais a praça, o palanque, a rua nem tampouco o estádio. O espaço público, de discussão política, é, de fato, a tela da televisão, o alto-falante do rádio, o texto e as fotos de jornais, revistas, outdoors, camisetas, panfletos e web sites.

Todo o conteúdo emitido pelos políticos é editado pela mídia de maneira que o enunciado venha a traduzir a visão dos mantenedores e fundadores de uma visão social e mercadológica hegemônica abarcada pelos patrocinadores dessa mídia.

Embora isso pareça demasiadamente frankfurtiano e determinista, nem a mídia é suficientemente eficaz para manipular e persuadir o pensamento e a visão do receptor-consumidor, nem esse consumidor-receptor é suficientemente passivo e incapaz de pensar de uma maneira avessa àquela produzida pela mídia.

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