Infelizmente, não adianta nada invadir terras ociosas e improdutivas, viajar centenas de quilômetros marchando com crianças, idosos e um monte de material para montar barracas, nem tampouco gastar dinheiro com ônibus para transportar pessoas e caminhões para carregar equipamento pesado. O resultado dessas manifestações é cada vez mais inócuo e as conseqüências são autofágicas.
Cada vez mais, reivindicações com um objetivo legitimamente humano deixam de ter valor social relevante. Seu reconhecimento é mínimo e os riscos são cada vez maiores. O Eugênio postou no Dialógico um artigo (v. Marcha do MST) sobre a ameaça de chacinas com a conivência da polícia gerida pela extrema direita guasca, que permite as movimentações de jagunços, leões-de-chácara ou capangas da pior espécie contratados pela maior corja deste Estado, que é (salvo raras e honrosas exceções) a dos estancieiros.
Caso isso se concretize, temo por uma chacina que deixará Eldorado dos Carajás no chinelo. É uma marcha rumo ao suicídio ou, enquanto puder resistir, uma forma de alimentar o sistema vendo na mídia apenas imagens editadas de meia dúzia de sem-terra matando capangas pagos enquanto o discurso dirá que foram estancieiros mortos e jamais dirão que terá sido um jagunço morto para cada dez sem-terra.
A sociedade não está e nunca estará nem aí para qualquer movimento social que seja incompetente em articular sua visibilidade através da mídia. Diga-se de passagem, ser incompetente não significa ter que ser dono de um veículo ou fazer como o PCC fez, isto é, seqüestrou um funcionário da Globo a fim de apropriar-se de um espaço na mídia: significa adquirir a capacidade discursiva de fazer suas demandas serem tão sensíveis à sociedade que tornar-se-á impossível à Grande Mídia deixar de falar sobre o Movimento ou criminalizá-lo o tempo inteiro.
Não importa se for uma marcha do MST, uma greve do CPERS, a destruição de mudas de eucalipto de uma dessas multinacionais do deserto verde pelo MPA e pela Via Campesina ou uma manifestação qualquer da CUT, ou uma invasão urbana dos Sem-Teto: como a sociedade civil só se faz notar e só consegue debater através da ágora midiática, toda e qualquer passeata, greve, marcha ou invasão, desde a midiatização da sociedade, tais tipos de manifestação não tem mais como serem aceitas pela sociedade, em função de vários fatores:
PRIMEIRO: porque quase nenhum cidadão irá parar de fazer o que está fazendo para informar-se com os manifestantes sobre suas reivindicações e qual o verdadeiro objetivo do movimento.
SEGUNDO: porque vivemos em uma sociedade de fluxo. Então, tudo o que atrapalhar, frear, esgoelar, ou parar o fluxo de veículos, de pessoas e de informação será visto como um empecilho, um engodo, algo cuja conotação será sempre negativa.
TERCEIRO: porque os movimentos sociais ainda não se tocaram que, além de não conseguirem adesões junto à classe média rural ou urbana, hoje em dia não é mais uma questão de tentarem se defender ou de chamar a atenção agir contra a lei: estar à margem da sociedade e estar à margem da lei é inadmissível de acordo com o que é veiculado na mídia. Se quiserem sair na mídia, precisam agir de acordo com a lei e sem interromper o fluxo.
QUARTO: nenhum movimento social parou para pensar que o tipo de resistência a um sistema desigual e a forma de reivindicar atenção às demandas de uma determinada classe ou categoria devem ser sempre análogos e simultâneos ao uso sociotécnico da mesma forma de informação, comunicação e produção de sentido utilizados pelo poder dominante.
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Isso posto, é fundamental que os movimentos sociais sejam dotados de câmeras de vídeo, câmeras fotográficas digitais e computadores que, mesmo que não sejam caros nem de última geração, que pelo menos sejam capazes de editar e de publicar esse material na internet.
Os contatos dos movimentos sociais no meio urbano precisam se intensificar dentro de empresas e associações de classe com o objetivo de apresentar esse material sob a forma de palestras e cursos de desenvolvimento sustentável, ecologia, agricultura de subsistência e cooperativismo FORA DA SUA REDE DE CONTATOS HABITUAL, a começar pelas escolas públicas. É a partir das crianças e dos adolescentes que uma imagem poderá ser reconstruída de uma forma positiva e simpática, buscando uma reinserção na sociedade da qual hoje vivem à margem.
É preciso mostrar que os integrantes dos movimentos sociais não são bandidos. É preciso mostrar por que, fundamentados na história e na sociologia, a situação deles chegou ao ponto onde está. E é preciso sobretudo MOSTRAR À SOCIEDADE O QUE ELES FAZEM: o que e como plantam; o que e como vendem; como estudam; como celebram suas festas; como se reúnem; o que lêem.
Além de ensiná-los a usarem o You Tube e a redigirem blogs, é preciso que eles passem a fazer movimentos bastante significativos, tais como:
a) Visitar escolas públicas para apresentarem-se e divulgar todo esse material;
b) Visitar parques públicos nos finais de semana sem vestir vermelho, sem levar foices, enxadas ou facões, sem invadir, sem fazerem cara de tristes, de famintos, de coitadinhos, de revoltados ou de desconfiados. Não podem atacar e nem ficar na defensiva: devem, sim, apresentar-se sempre com um sorriso franco, um brilho no olhar, uma vontade sincera de abraçar e de apertar a mão de desconhecidos mesmo que façam cara feia ou lhes digam barbaridades. Devem se dispersar ao invés de aglomerarem-se todos juntos, para não parecer um movimento ameaçador.
É distribuir panfletos, cantar, apresentar os maravilhosos hortifrutigranjeitos que vendem. É oferecer como cortesia a quem parar para conversar e para ler seus panfletos um delicioso naco de carne, hospitaleiro e integrador.
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Em suma: não é mais possível utilizar velhos ícones da luta de classes. O debate e o diálogo se fazem de forma sensível, não mais buscando o conflito. E é encontrando brechas no sistema de mídia (internet, apresentação de vídeos com matérias da TV intercaladas com vídeos brutos captados pelo próprio movimento no mesmo dia em que as matérias contrárias tiverem sido veiculadas) que se forma uma opinião capaz de subverter a ordem sem tomar o poder e sem modificar o sistema.
Os oprimidos não podem aceitar o poder hegemônico que os exclui e não podem repetir a mesma lógica de inclusão que se espera de qualquer pessoa pobre. Ao mesmo tempo, não pode querer assumir o poder, pois, com o tempo, tornar-se-á tão totalitário quanto os detentores do poder vigente.
É como o Eduardo Guimarães propõe com o MSM (Movimento dos Sem Mídia): as manifestações têm uma posição clara, não buscam impedir as pessoas de trabalhar ou de circular e não buscam calar a mídia.
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