MIDIATIZAÇÃO, MOVIMENTOS SOCIAIS, PÓS-MODERNIDADE E DEMOCRATIZAÇÃO: O PAPEL DA NOVA ESQUERDA

A mídia como um todo não manda nada. A mídia como um todo não tem um poder maquavélico, alquímico, lobotomizante ou hipnotizante de dominar, manipular, e nem tampouco de persuadir a todos do jeito que quiser.

Parece contraditório? Parece uma defesa da mídia? Não! De forma alguma: apenas sabe-se hoje com toda a certeza de que o receptor, por menos escolaridade que possua e por mais distante da vida urbana que esteja, ESTÁ LONGE DE SER UM ATOR PASSIVO. Afinal de contas, cada indivíduo, independentemente dos grupos sociais aos quais pertença e que necessariamente moldam e são moldados pela sua personalidade e são determinantes e determinados pela sua visão de mundo, age e pensa de acordo com seus próprios interesses.

Mesmo quando se manifesta a fim de ver suas demandas coletivas supridas, pensa, antes de tudo, individualmente. Afinal de contas, é preciso ter orgulho, satisfação e receber alguma vantagem para motivar-se a atuar socialmente. A vantagem, diga-se de passagem, não precisa ser financeira nem de atribuição de poder: basta que seja capaz de elevar a sua auto-estima ou de dar-lhe o prazer de sentir-se útil e reconhecido por causa disso.

O que a mídia corporativa tem é a autonomia de exercer de modo vicário sua principal função: ir até o centro de cada um dos demais campos sociais (jurídico, médico, religioso, político, científico) para traduzir a linguagem meramente compreensível apenas entre os pares dentro de cada um desses campos para traduzi-la em uma linguagem simples, coloquial, utilizando-se de uma gramática audiovisual peculiar, com o objetivo de tornar a produção, a atividade, os  objetivos e as demandas dos demais campos sociais conhecida para toda a sociedade laica.

A mídia corporativa está longe de ser o tal “quarto poder” que muitos atribuíam a ela: afinal de contas, possui brechas, furos e lacunas bastante significativas dentro do seu próprio ambiente interno de produção, perceptíveis até de maneira gritante quando se observa com atenção não as palavras ditas ou escritas, as caras e bocas feitas, a entonação da locução, o ritmo da edição de imagens ou o ângulo que é mostrado pelas câmerasa diferença entre o que diz a manchete e o conteúdo da matéria mas, sim, quando se observa O QUE NÃO FOI DITO.

Toda a informação por detrás das câmeras, dos microfones e dos teclados possui significados muito importantes: o que está PARCIALMENTE escondido; o que aparece de maneira opaca e desfocada possui, mesmo que adormecido ou latente dentro de si,   o poder de desmistificar e de alterar toda a lógica de produção midiática, oferecendo uma fagulha capaz de alterar a sua estrutura de funcionamento mas, principalmente, o direcionamento da sua agenda discursiva.

Portanto, a mídia corporativa é um ator industrial repleto de contradições que podem ser exploradas, tornando explícitas as suas inúmeras fragilidades.

A estrutura macroeconômica que sustenta a mídia corporativa é formada pelos mantenedores do sistema capitalista industrial taylorista-fordista atravessado pela lógica neoliberal e, mais recentemente, pelas formas de trocas de informações e de bens simbólicos e não físicos. São três formas de capitalismo concorrencial, individualista e competitivo que se misturam e correm em paralelo.

A mídia corporativa não sobrevive sem audiência. A baixa qualidade intelectual e o fraco papel social da maior parte da programação da TV aberta tende a ser assim mesmo enquanto as notícias forem confundidas com o espetáculo e o espetáculo for misturado com a notícia (v. Guy Debord, A Sociedade do Espetáculo). Segundo essa forma de viabilidade financeira, o que importa e o que vale não é a programação em si mas, sobretudo, os intervalos comerciais e o merchandising divulgado dentro do espaço do próprio programa. Logo, a maioria dos programas da TV aberta não passa de uma mera justificativa para atrair anunciantes. O poder da técnica serve tão-somente para despertar atenção, desejo, interesse e gerar ação por parte dos consumidores – a tradicional técnica publicitária conhecida como “fórmula AIDA” é, desde que notícia deixou de ser informação e desde que o espetáculo deixou de ser um mero espetáculo, uma reles mercadoria. Dessa forma, o jornalismo corporativo é puramente comercial.

Logo, ao invés de uma informação capaz de gerar o novo, de questionar, de ajudar a fazer a diferença na sociedade, é quase inexistente na TV aberta, nas rádios AM e nos jornais dos grandes conglomerados midiáticos. Afinal de contas, nem os seus patrocinadores (bancos, agronegócio, multinacionais, grandes empresas da nova economia de fluxo digital) e, menos ainda, seu próprio discurso, pode ser contradito ou questionado. Do contrário, os patrocinadores vão-se embora e a sua credibilidade escorre ralo abaixo.

A mídia corporativa é, mais do que qualquer outra coisa, uma indústria que depende severamente de seus financiadores. Há uma classe empresarial oligárquica e hegemônica disposta a tudo para não largar o osso. No momento em que suas práticas forem denunciadas em um amplo espectro, suas idiossincrasias irão alcançar a todos os rincões do país e a máscara finalmente irá cair. Repito: não é preciso ser branco, alto, poliglota nem ter pós-graduação para perceber que há algo de podre no Reino da Dinamarca… Desde que se saiba aonde fica esse reino, quem é o seu rei, quem são os seus ministros e a história do reino.

O problema maior está em quem ainda não se deu conta disso e se considera tanto súdito quanto herdeiro ao trono e faz parte de uma massa ou de oportunistas pouco espertos, ou de inocentes úteis.

A microestrutura financeira, comercial, produtiva, negocial e social que compõe a mídia corporativa nada mais é do que um componente da macroestrutura de manutenção do status quo. Os verdadeiros donos do poder são aqueles que conseguem fazer a mídia divulgar a sua agenda de valores morais, com o objetivo (nem sempre cumprido, pois, como já dissemos, a mídia de massa é extremamente falível) de ver suas demandas serem aceitas pela maioria.

Logo, a luta fundamental da pós-modernidade não implica mais em correr o risco de perder a vida e nem tampouco de torrar uma gigantesca quantidade de energia na direção errada, isto é, rumo a não apenas ver as demandas sociais deixarem de ser cumpridas como de vê-las serem sepultadas.

Alguém já parou para perceber por que a classe média odeia manifestações com faixas, cartazes e megafones?! Por que o MST não consegue o que quer? Porque os professores não conseguem o que precisam? Por que os operários também não conseguem? Da mesma forma, ninguém entendeu por que nos raros espaços da mídia onde já houve programação operária ou classista criada pelas minorias para os seus próprios pares nunca funcionou?!

Em primeiro lugar, vivemos em uma sociedade de fluxos, onde a informação possui mais valor de mercado do que um bem industrializado: é a era dos bens simbólicos, que transformou a mídia nascida no século XX e transformada no século XXI através da internet em um eco global, de alcance ubíqüo e onipresente.

O dinheiro é eletrônico e é imediatamente transferido de Porto Alegre a Tóquio com o simples digitar da tecla enter; a informação na internet está em um lugar e está em todos os lugares ao mesmo tempo; a ruua deixou de ser um lugar de convívio, de troca, de afeto e de debate político para ser um mero espaço do fluxo e de rápida contemplação, pois a paisagem urbana privilegia o tráfego de automóveis, que não pode parar nunca, em detrimento das pessoas. O fetiche da máquina (o automóvel) faz com que muitos a percebam como uma prótese, como uma extensão de seu próprio corpo. A violência urbana faz do veículo motorizado um casulo, uma carapaça, de onde seus felizes proprietários sentem-se protegidos e isolados da miséria e da violência.

As festas da adolescência refletem o momento atual através das relações meramente teatrais de sedução instantânea e efêmeras, raramente voltadas a algum desdobramento emocional ou social contínuo. Vive-se o aqui e o agora do presenteísmo: como pensar no futuro se, devido à incerteza em relação à profissão que o jovem deverá seguir, à dificuldade de sonhar e ao baque que leva ao perceber a abissal dificuldade em ter 5% desses sonhos realizados, está cercado por todos, comunica-se com todos, sabe de tudo um pouco (mas não domina quase nada) ao passo que, na verdade, vive um profundo vazio na mais absoluta solidão?

O fluxo do trânsito, a competitividade, o stress, o desemprego, a violência, a fome, a doença, a saturação de notícias e a enorme dificuldade de conviver mais vezes e com mais tempo com as pessoas que se gosta contribuiu para a MIDIATIZAÇÃO da sociedade.

Isso significa que toda a sociedade atual é atravessada pela mídia. Seja ela corporativa ou alternativa; gere ela diferença ou não; seja no meio urbano ou rural, não importa: nós fazemos e somos feitos pela mídia. Nós criamos e somos criados pela mídia. Nós determinamos e somos determinados pela mídia.

Ora, como o espaço político da rua e da praça não é mais o espaço político, como o homem é um ser político e a política jamais irá deixar de existir em nenhuma instância da vida, nossas demandas, nossas agendas e nossas pautas também são as pautas da mídia. E nossas discussões não mais travadas com complexidade nem com conhecimento de causa suficiente no ambiente público presencial são agora travadas com maior profundidade através da internet e em diversos relances editados com o intuito de manter o status quo de seus patrocinadores na tela da TV.

A TV está nos quartos, nos bares, nos carros. Sofremos milhares de impactos publicitários e lemos, mesmo sem perceber, centenas de manchetes por dia. Todos, sem exceção, temos uma opinião formada (e deformada) através da superficialidade e da parcialidade excessiva com a qual a mercadoria chamada notícia nos é ofertada.

No mundo inteiro, em qualquer idioma e em qualquer classe social, a média da população lê cada vez menos livros, brinca cada vez menos na rua e sente-se capaz de dissertar professoral e doutamente sobre qualquer assunto, sem o necessário embate entre visões antagônicas. Ao contrário do que se imaginava, a mídia corporativa não possui o poder de alienar ou de persuadir. A verdadeira questão é a seguinte:

- COMO CAPTAR, MULTIPLICAR E MANTER RECURSOS CAPAZES DE MANTER NO AR UMA ESTRUTURA MIDIÁTICA ALTERNATIVA, SEJA ELA MASSIVA OU SEGMENTADA PARA CENTENAS DE PEQUENOS GRUPOS SOCIAIS DE NATUREZA DIFERENTE?

A discussão sobre a validade das concessões do espectro eletromagnético é muito menor do que a discussão sobre como fazer funcionar e manter viva e crescente uma estrutura paralela. Se tentarem frear a mídia corporativa já estabelecida, ela receberá cada vez mais recursos de seus mantenedores e mudará de discurso para algo mais contundente e messiânico do que aquilo que temos hoje disponível.

Não é fechando a Globo, a RBS, os grupos Folha e Estado, a Band, o SBT, a Record e todos os seus milhares e milhares de afiliados que irá se resolver, através da censura ou do freio de mão puxado, o problema da desinformação e da visão hegemônica não-voltada para o social.

A discussão do FNDC é contraproducente na medida em que, ao invés de agir diretamente sobre o que fazer com o espectro eletromagnético quando ele ficar livre da mídia corporativa assim que o período de transição da TV analógica para a TV digital estiver terminado. Com a tecnologia disponível para a TV digital, pode-se tudo, sem restrições. Não existe tecnologia nem investimento errado feitos pelo Governo Federal. Não é a escolha do padrão de codificação, decodificação, compressão ou de transporte do sinal que define se é mais caro ou mais barato, nem tampouco se a informação vai ser mais ou menos plural: a questão da democratização é tão-somente JURÍDICA e não técnica. O debate deve ser, portanto, político e politizado exclusivamente no que tange às restrições impostas pela lei. Deve-se lutar para alterar a lei, de forma que a população e a chamada mídia pequena possam pproduzir e emitir conteúdo com liberdade, sem nenhum empecilho imposto pela demanda dos atores que controlam a mídia hegemônica.

A parte técnica não tem nada a ver com “abrir as pernas” para o Japão ou para a Globo, nem tampouco com o poder ou a influência do ministro Hélio Costa, ex-funcionário da Globo. O FNDC, levando a discussão para essa direção apenas por puro preconceito ignora que está dificultando a captação de verbas por parte das universidades, a fim de que os laboratórios de computação e de engenharia possam criar, inovar e agilizar a implantação da TV digital no país através de hardware e software 100% nacional.

Nas reuniões do FNDC, falou-se até que os laboratórios da PUCRJ e até de outras universidades estivessem recebendo dinheiro da Globo, o que não é verdade. Boatos tornados públicos em fóruns nacionais fazem com que o Governo acredite neles e corte verbas, até prova em contrário.

Isso posto, a medida do Governo Lula de criar a TV Pública através dos ex-funcionários da Globo Franklin Martins e Tereza Cruvinel é legítima e interessante, pois o Governo entra como um ator com uma capacidade de investimento muito grande e poderá produzir com muita qualidade técnica e discursiva informações totalmente diferentes do PUM – Pensamento Único da Mídia (corporativa).

Esse é o primeiro passo para que associações de bairro, entidades de classe, sindicatos, empresas e centenas de produtores independentes sintam-se encorajados a produzir conteúdo para a TV digital em canais próprios, já que, de início, todos esses atores estariam alijados do processo em função da sua reduzida capacidade de investimento.

No fundo, o Governo Lula não é tão vendido, influenciável ou neoliberal como se pensava que fosse. O que diferencia-o do resto da esquerda latino-americana é que falta pulso e contundência e há excesso de concessões e de diplomacia. Mas talvez porque o Brasil é o maior país, o mais desigual e aquele que contém a pior oligarquia do continente e porque pretende-se, pela primeira vez na história e ao menos em alguns setores da economia, plantar algo a ser colhido a longo prazo, independentemente de quem estiver no poder daquia 10 ou 20 anos.

Dito isto sobre movimentos sociais, midiatização e democratização dos meios de comunicação no Brasil, ao contrário do que o Miguel Graziotin entendeu no post anterior, aquilo que Negri e Hardt falam sobre resistência pós-moderna não tem nada a ver com observar passivamente ou ser 100% polido e diplomático.

O mundo é bem diferente do que era nos tempos de Paulo Freire, Piaget e Marx. O que mudou na forma de resistência é o discurso, isto é, a favor de nossa demanda, mas não somos contra ninguém. E isso se faz de forma descentralizada, em rede, através da internet: comunidades no Orkut, torpedos via celular, listas de e-mail, fóruns de discussão, BLOGS principalmente.

Se não houver internet disponível, a alternativa é agir como em Chiapas, no México: panfletos e diálogo com as pessoas.

Mas não aquele diálogo com cara de sofrimento, com jeito de coitado, muito menos com expressão de inconformismo ou de raiva: afinal de contas, é a luta por um DIREITO e para SUPRIR UMA DEMANDA, não é a luta contra alguém ou contra alguma instituição em si.

Todas essas ferramentas baseadas no AFETO, na EMPATIA e em um discurso NÃO-INTRUSIVO (isto é, mostra-se que existe, mas não se obriga a ser ator quem não quiser ser), além de oficinas, cursos, palestras, mesas de debates (o MST parece estar fazendo isso por onde quer que a sua marcha passe; porém, não deveria prejudicar o fluxo nas estradas e tampouco invadir sem se constituir em uma associação ou em uma ONG legalizada, com estatuto e com advogados).

Além disso, o MST tem um site, que deve ser muito mais divulgado. É impossível conversar com quem olha com ódio oou faz ameaças. Mas aqueles que desconfiam da intenção dos movimentos sociais apenas porque ouvem falar através de boatos e também da mídia corporativa podem, sim, através de um trabalho que poderia englobar visitas de famílias de classe média aos assentamentos com direito a churrasco e a umas 2h de vídeos das atrocidades que os latifundiários e que a polícia fazem com os manifestantes, além de uma mesa de debates.

Feito isso, a própria classe média deverá se encarregar de escrever em blogs e de duvidar da mídia corporativa: “O QUE EU VI LÁ NÃO FOI O QUE ELES MOSTRARAM NA TV. PÔ, A TV MENTE!!!”

Esta última frase resume toda a seqüência de movimentos da economia, da técnica, da política e da sociedade rumo a algo que ainda não temos certeza de como irá ser, mas que certamente transformará o Brasil em um lugar melhor para se viver.

A esquerda ortodoxa é muito pessimista e só pensa no confronto cru, onde sempre perdeu porque acostumou-se a atirar no próprio pé dentro da casa do adversário sem sequer perceber. Criou preconceitos e atitudes mecânicas, segue recitando mantras e suas atitudes não encontram eco na sociedade. Com isso, desconhece as sutilezas não do oponente mas, sim, em si mesma que poderiam ser utilizadas a seu próprio favor. Como tudo o que enxerga através de seus arreios é burguês ou neoliberal, não percebe que é preciso trabalhar as idiossincrasias do modelo hegemônico pescando-as não no discurso mas, sim, no que ficou opaco. Por isso, seu discurso se perdeu no tempo, assim como o discurso da direita que, por sua vez, oferece todas essas opacidades.

Para finalizar, a direita pescou na esquerda a opacidade por debaixo do seu discurso e antecipou-se a ele décadas atrás, determinando o tipo de subjetividade que prevalece na classe média nacional.

As referências da nova esquerda não devem mais ser os filósofos e os sociólogos de 200 anos atrás. Estes são importantes como alicerces teóricos, mas não como referenciais práticos ou da experiência atual.

Hoje, a direita é que parece estar mais engessada na condução de suas práticas e no seu modus operandi técnico. Se a atuação de resistência da esquerda deixar de reagir à imagem e semelhança da atitude da direita, então teremos um mundo mais interessante para viver.

Do contrário, mesmo que a educação e o empreendedorismo cresçam no Brasil, a única coisa que irá mudar de fato será o poder de compra e a auto-satisfação individual das pessoas. A mentalidade continuará sendo a mesma.

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