Desculpem pela demora. Antes de mais nada, muito obrigado pelo debate! ;)
O Zeno disse: “E a mídia cria moda e nos obriga a aderirmos ou seremos questionados e julgados pelos colegas e os que nos rodeiam, como quando escutamos alguma piadinha que degrada nossa nação e engolimos a seco com uma risadinha medíocre, para evitar-mos o vexame ou passar-se por ridículo.”
A mídia traduz uma intenção de vender produtos próprios também atravessada pelos objetivos comercais de seus patrocinadores. Apesar de ela buscar os objetivos acima através do máximo de esfoço técnico, mesmo com pesquisas de mercado e com milhares de experiências práticas de tentativa de indução ao consumismo, muitas vezes o público (telespectador, ouvinte, leitor, interagente) interpreta a mensagem de uma maneira completamente diferente. Pode haver rejeição, protesto ou um consumo apenas parcial em relação à expectativa ou da própria mídia, ou da agência de publicidade, ou do patrocinador. Portanto, ela TENTA ditar normas e padrões de comportamento, ideológicos e de consumo; ela TENTA nos obrigar a sermos questionados.
A mídia representa os donos do poder financeiro, político, coercitivo e simbólico como se fosse um megafone ou um tradutor das demandas desse poder. Mas ela não é “o” poder em si – nem quanto observada isoladamente a partir dos seus enunciados e dos seus processos de produção, nem quando atravessada pelas demandas de seus mantenedores e de seu público.
Ela tem a capacidade de repercutir e de gerar discussão. Sua atuação, quando tecnicamente atual e simbolicamente eficiente, parte do pressuposto de que não deve lançar idéias diretamente à população mas, sim, organizar um grupo de assuntos ou de notícias que seus patrocinadores e o senso comum consideram relevantes, a fim de “levar a crer que…”.
Portanto, o processo é muito mais sutil e articulado entre meios e veículos diferentes.
Emendo no que o Paulo Vilmar escreveu: “A mídia como um todo é um tanto vago como silogismo”. Faltou eu explicar que esse “como um todo” significa todos os meios de comunicação de massa e aqueles que ainda não são massivos (partindo do pressuposto de que a internet ainda não é mídia de massa), independentemente de serem comprometidos com as oligarquias internas e externas, se são alternativos, se são legais, se são ilegais ou se fazem parte de uma rede de veículos.
A crítica maior dá-se sobre a chamada Grande Mídia ou mídia corporativa, isto é, sobre os grupos de veículos que estão sob o guarda-chuva de grandes conglomerados empresariais. Todavia, se formos falar como eu falei na mídia como um todo, isso significa os processos que nos atravessam no nosso cotidiano, independentemente de quem seja o emissor. Independentemente do tamanho do veículo ou do grupo, de quem são seus donos, de quem são os seus mantenedores e da natureza do conteúdo veiculado, a técnica discursiva e a finalidade do equipamento disponível (mesmo que este seja mais modesto e de menor alcance), são exatamente os mesmos.
Por falta de democratização suficiente dos meios aqui no Brasil, o pensamento quase único da mídia corpporativa é uma característica ocidental e capitalista. Contudo, em Cuba também há pensamento único e falta de democracia dos meios. Em países pobres com poucas opções de veículos de comunicação, seja por amadorismo, seja por não haver como incentivar o consumo por não haver mercado, a falta de assunto, o aculturamento e o amadorismo até mesmo dos produtores de mídia disponíveis também tendem a oferecer um pensamento único.
Reitero o que disse para o Zeno: a mídia (novamente como um todo, cada qual com a sua demanda comercial e social, cada qual com a agenda voltara para seu próprio segmento de público e de patrocínio), mesmo aquela com a qual simpatizamos e em quem tendemos a acreditar, também busca manipular. E pode não ser maquiavelicamente. Afinal de contas, ela precisa de adesões às suas demandas para manter-se social, profissional e economicamente ativa e viável.
Mas presta bem atenção ao seguinte conjunto de palavras: BUSCAR, ALMEJAR, OBJETIVAR e TENTAR persuadir, manipular e convencer não necessariamente significa que consiga.
Sem internet, Chiapas é uma grande prova disso. Com internet, no contexto brasileiro, muitas pessoas até mesmo com pouco dinheiro no bolso, emprego humilde que estão subindo um degrau na escala social a partir de iniciativas como os programas Primeiro Emprego, Bolsa Família, Projeto Pescar, ProUni e outros percebem que têm voz através de listas de e-mail, comunidades no Orkut e blogs. Elas não são jornalistas, sociólogas, historiadoras, professoras e tampouco detetives experimentados. No entanto, dispõem agora de uma poderosa ferramenta à sua disposição para darem a sua opinião pessoal sobre qualquer assunto.
Isso significa que elas observam que o Brasil de sua vivência nas ruas, no lazer e no trabalho é um Brasil diferente daquele Brasil enunciado pela mídia corporativa. E contestam os críticos e repórteres de maior exposição com a maior facilidade.
Pessoas da classe C no Nordeste brasileiro interessadas em observar e em contestar a situação exposta pelos meios massivos agora conseguem disseminar, em rede, o seu ponto-de-vista. É uma rede ainda modesta, porém seu alcance preocupa, concorre, desmistifica, desmascara a mídia corporativa.
Ela detém o capital e é balizada pelo poder. Por enquanto, ainda vence mais do que perde. Mas é justamente a midiatização, isto é, a discussão social e política não através da ágora da praça pública mas, sim, através da informação mediada, que diminui a lacuna entre o reconhecimento e o desconhecimento daquilo que a própria mídia deixa subentendido na opacidade da sua produção.
Finalmente, a própria agenda da Grande Mídia também contempla demandas sociais, mesmo que através de meios que distorçam os fins de quem vai até ela reivindicar algo. O Diário Gaúcho e alguns quadros do Jornal do Almoço, assim como o Altas Horas, o Telecurso e o Globo Rural, embora ideologizados, maniqueístas ou simplistas, de uma certa forma substituem funções que deveriam ser exercidas tanto pelo poder público como pela iniciativa privada em geral: “cidadania a gente vê por aqui”.
Com isso, não quero dizer que defendo, que gosto, que acredito, que aceito o modelo hegemônico assim como ele nos é apresentado desde o primeiro quarto do século XX. No entanto, não é possível afirmar categoricamente e tampouco ignorar tão-somente pela nossa preferência ideológica de esquerda que a Grande Mídia, por pior que seja, possui ALGUNS repentes elogiáveis.
Outro exemplo: até mesmo ALGUMAS personagens e ALGUMAS temáticas propostas pelas telenovelas apresentam um caráter humanista e social bastante didático dentro da proposta regularmente simplista e maniqueísta que, surpreendentemente são – sem sombra de dúvida – política e ideologicamente despretensiosas.
Vejam só o nível de politização e de cultura do povo cubano em relação ao brasileiro médio e o sucesso absurdo que a novela Escrava Isaura fez na ilha. Descontextualizando da realidada brasileira, o que parecia ter objetivos mercadológicos e políticos no nosso país possui uma leitura completamente diferente justamente na única república 100% socialista e fechada do ocidente.
Da mesma forma, é inegável que muitos programas no rádio e na TV e a hierarquia do layout em revistas e jornais produzidos pela mídia corporativa supervalorizem ou subvalorizem agendas completamente diferentes. Que o poder da mídia (como um todo) está não apenas na tradução da linguagem dos demais campos sociais para uma linguagem inteligível editada a fim de produzir um determinado sentido, mas também em determinar por si a maior parte da agenda.
Apesar disso, ela possui pés de barro e, em várias situações, é simplesmente impossível negar, ignorar, minimizar ou esconder demandas do público que não sejam demandas da mídia nem dos patrocinadores. Do contrário, ficará claro até mesmo para o mais miserável dos analfabetos que essa mídia hegemônica não possui credibilidade.
A audiência, o receptor, o interagente, o público, o ouvinte, espectador ou leitor não é, nem em condições extremas de coronelismo, miséria e doença, tão “tapado” como a gente possa pensar.
Muita gente cai no conto da mídia corporativa. Mas é como dizia aquele presidente dos EUA (Foi Roosevelt? Ajuda, por favor!): “NÃO SE PODE ENGANAR A TODOS O TEMPO INTEIRO”.
Todavia, vejo com maior gravidade o caso da classe média urbana dos grandes centros, pois ela parece ser (não conheço nenhum estudo que indique esse fato – é apenas intuição minha) influenciada pela marca e pelo carisma até mais do que a metade da população que sobrevive com apenas R$800,00 ou menos por mês.
Afinal de contas, a classe média é crítica e seletiva com a mídia corporativa em vários pontos, mas é mais alienada e mais verborrágica do que ricos e pobres na defesa e na crença de uma agenda que só satisfaz àqueles aos quais gostariam de fazer parte.
Finalizando para o Paulo Vilmar, por favor, não façamos confusão quanto à importância dos autores clássicos. Eles são pilares do pensamento sociológico, filosófico, psicológico, histórico, geográfico, lingüístico e cultural a partir da modernidade. Muitas formas de interação humana permanecem pouco diferentes. Todavia, são incapazes de dar conta de uma série de fenômenos sociais e comunicacionais da sociedade em rede na pós-modernidade (ou Era Pós-Industrial, como queiras).
Em parte, acho que isso responde um pouco também à suposta contradição que a Cláudia verificou no post anterior sobre o tema. Mas a resposta sobre os problemas do FNDC com a academia é mais extensa e mais complexa. Fica para o próximo post, que não será hoje nem amanhã em função dos meus compromissos. ;)
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Tags: midiatização, democratização, mediação
Hélio!
Não confundi e entendo que você também não confundiu a questão da importância de nossos filósofos para entendermos e situarmo-nos no presente. Apenas salientei o ítem, porque está frase faz a festa dos teóricos do centro à direita. Claro que no caso deles é para negar tudo. Mas, as vezes, esta frase pode levar a dedução de que devemos esquecer tudo que foi escrito e isso me arrepia. Se a esquerda consegue ser crítica e formular novas propostas é exatamente porque nosso pensamento evolui desde a base, da semente lançada pelos nossos filósofos e pensadores. é com o olhar deles que olhamos o horizonte.
Não esqueça de postar sobre o debate da Saideira!
abraço…