BLOGS DE ESQUERDA x BLOGS DE DIREITA

Considero como blogs de esquerda aqueles publicados por indivíduos ou por grupos de pessoas cujas afinidades e cujo foco conteudístico tenham como base as seguintes características:

- Proposição e descrição de exemplos empíricos de políticas e de iniciativas solidárias, voltadas para a inclusão social, gerando riqueza a partir da descentralização de responsabilidades e do empoderamento dos novos produtores-consumidores conscientes de que os recursos da Terra são limitados e esgotáveis;

- Crítica da ação da mídia corporativa através do reconhecimento dos atores sociais que financiam a indústria de bens de consumo simbólicos e comunicacionais, observação da operacionalização de seus agendamentos e divulgação de informações que gerem diferença na ação do receptor e em emissões diferenciadas, a partir do conhecimento de um pensamento diferente sobre às mesmas pautas através de uma agenda alternativa de prioridades, focada não no consumo mas, sim, no social;

- Crítica do sistema político, econômico e social vigente e análise do modus operandi da sociedade de consumo desenfreado;

- Crítica dos papéis do Estado, da iniciativa privada, dos partidos políticos e das demais entidades da dita sociedade civil organizada, bem como das leis que perpetuam a manutenção do status quo.
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Há dezenas de pequenos blogs não-financiados pela mídia corporativa, por empresas, cooperativas, partidos e ONGs que seguem as características acima. Seu objetivo principal é desconstruir o pensamento hegemônico, a fim de encaminhar a sociedade rumo a interesses coletivos que suplantem o egoísmo e a ignorância resultantes das práticas sociais cotidianas gerenciadas pelo capitalismo industrial e globalizado.

Contudo, tal comportamento emergente de comunicação e sociabilidade em rede apresenta uma audiência muito baixa em comparação à audiência dos blogs dos colunistas dos grandes grupos de mídia. Estes últimos, diga-se de passagem, são muito bem pagos para sustentar o sistema industrial de produção, distribuição, consumo, ação e reação a partir de produtos comunicacionais. O efeito desse discurso é o de preservar o poder nas mãos do estamento dominante, em um trabalho técnico que busca evitar questionamentos ou estranhamentos.

Aparentemente, a polarização entre poucos blogs com muita audiência voltados à manutenção do status quo versus muitos blogs com pouquíssima audiência que procuram mudar o “estado das coisas” surte um efeito muito pequeno na maneira de pensar de indivíduos e de coletividades. Até prova em contrário, a maioria dos posts relacionados, dos links referenciados e dos comentários publicados em ambos os pólos parece fornecer conteúdo aceito e partilhado por leitores que comungam das mesmas idéias. Portanto, pouco alteram o conhecimento e a ação social em ambos os lados da moeda.

Então, a discursividade parece ser plenamente eficiente para gerar concordância, ao invés de prooduzir diferença. Dessa forma, o status quo se mantém quase inalterado, pois a mesma discursividade parece ser pouco eficiente em transformar o pensamento de quem possui valores atrelados ao lado oposto.

O sociólogo Milton Bins certa vez disse em aula: “o líder carismático de uns não passa de um reles bocó para outros”. Isso me faz pensar no mecanismo da indústria da mídia de escolher âncoras, repórteres, narradores, comentaristas e articulistas que não apenas possuem competência técnica e discurso alinhado com os interesses da corporação e de seus financiadores, mas também apresentam atributos físicos (olhar, corte de cabelo, traje, empostação de voz, trejeitos) que intensificam a credibilidade da mensagem através do carisma.

O carisma do comunicador é construído através de uma indústria gigantesca que busca atingir a todos os segmentos da sociedade alcançando os mais remotos rincões por todas as mídias possíveis: rádio, televisão aberta, jornal, revista, televisão por assinatura, cinema e publicidade. Cada mídia trabalha sua agenda em diversos subgêneros voltados para nichos sociais de interesses diversos dentro dos gêneros ficção, notícia e entretenimento. A imagem dos profissionais é divulgada, repetida e mitificada, de tal forma que torne-se cada vez mais difícil crer na palavra de alguém que esteja de fora do circuito dominante da comunicação.

De maneira superficial, parece que a dificuldade maior dos blogueiros de esquerda é a de ultrapassar os limites do seu pequeno grupo social em função da falta de unicidade discursiva, da falta de conhecimento de padrões técnicos de jornalismo e publicidade e da falta de dinheiro e de técnicas de divulgação.
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