ESQUERDA, MÍDIA DEMOCRÁTICA E SOLIDARIEDADE EM COMA

Estou ficando cansado: como sempre, tudo vai acabar em pizza. Ainda por cima, tudo o que o Governo Federal tem investido no RS vira crédito da governadora e do prefeito da capital.

Até o FSM e o OP ficaram no crédito do secretário Busatto… Enfim, as notícias de fonte confiável não são nada boas.

Vou continuar lutando. Mas o sentimento que eu tenho vai me consumir um bom tempo de depressão e de impotência através das vias comuns de busca por uma mídia mais aberta.

Escrevi em um comentário para o Agente 65 o que a maioria da esquerda e dos movimentos que lutam pela democratização nos meios de comunicação não acreditam: que a mídia manipula a informação e não a mente das pessoas. Que as pessoas têm livre arbítrio para escolher sobre o que ler, o que ouvir, o que assistir, sobre o que comentar, com quem discutir. Influência não é dominação, subjugação nem tampouco a mera crença per se.

De acordo com o que o Agente escreveu, concordo que as pessoas em geral são movidas por incentivos e por vantagens. Ninguém mais acredita ou espera almoço grátis. Todo trabalho que envolve solidariedade, conselhos e mutirões não possui o menor valor no meio urbano, exceto para quem vive em situação de exclusão absoluta da cidadania.

O problema mais grave é que quem se enterra e enterra a natureza enterra a gente junto.

Então, deixa eu ser egoísta e “cansado” um pouco pra dizer o seguinte: por que diabos eu preciso ajudar quem não quer se ajudar, ser ajudado, me ajudar, te ajudar, nos ajudar, ajudar a todos?!

Quantas vidas foram perdidas durante a ditadura militar em vão?! Quantas pessoas foram presas, demitidas, discriminadas, perseguidas em vão?! De que adianta lutar pela democratização nos meios de comunicação se a maioria dos interessados diretos, que são os próprios jornalistas, é extremamente covarde porque crê no conceito de liberdade bom para seus patrões e não para a sociedade?!

O sociólogo italiano Domenico De Masi diz que o otimismo é a forma mais generosa de inteligência. Só que, depois de levar tanta paulada, a gente cansa, porra!!!

Como é que eu vou ser otimista em relação às pessoas “de bem” – que são, na verdade, as que reúnem, ao mesmo tempo, os melhores e os piores valores da sociedade contemporânea através de atitudes enlouquecedoramente contraditórias e ilógicas?!

Meu pai dizia que não se deve querer mudar o mundo, pois ninguém consegue sozinho. Ele também dizia que o mundo sempre melhora, sim. Porém, que demora séculos para que o povo possa usufruir dos benefícios. Que nada é imediato, que quase nada se resolve em uma ou duas gerações. E que a gente deve lançar nossos filhos no mundo em melhores condições do que aquela que fomos lançados por ele e pela mãe.

Só que eu quero ser capaz de provocar alguma mudança pra melhor, por mínima que seja. E adoraria não apenas deixar isso para as gerações futuras, mas que pudesse eu usufruir um pouco disso. Queria muito que a sociedade como um todo fosse mais solidária, mais saudável, mais crítica, mais observadora.

Mas eu não vou estar vivo pra ver isso.

Sei que vai aparecer um novo Olívio e que vai aparecer um partido de esquerda decente. Mas somente enquanto for pequeno. No momento em que crescer, a coisa vai degringolar. Thomas Locke já dizia que o homem é mau por natureza. Senão, por que precisaríamos de cadeados em nossas portas?

Os direitistas, os maniqueístas, os mais simplistas e aqueles que não me conhecem diriam que eu estou me entregando para a direita, desistindo de lutar ou que os cadeados são para aqueles que não querem ser salvos e tampouco salvar ninguém mais a não ser a sua própria pele. Os cadeados não são contra os miseráveis e nem contra a violência urbana mas, sim, contra os donos do poder, que dispersam os seus valores de cima para baixo.

Esta entrada não é nada acadêmica e não incentiva ninguém a deixar de ser de esquerda. Tampouco é uma declaração de omissão ou de entrega dos pontos. Mas reflete um momento no qual não se vê nenhuma luz no horizonte.

A única possibilidade que vejo é a da internet se dispersar e tomar conta do país. Quando 85% do país estiver coberto de acesso à rede; quando 99% das crianças estiverem freqüentando as escolas; quando menos de 5% da população estiver desempregada (e, dentre os empregados, 80% estiverem trabalhando de carteira assinada ou forem autônomos regulamentados), aí, sim, o país vai deslanchar em termos de opinião plural, de democratização dos meios de comunicação, etc.

Do contrário, todas as mudanças serão lentas e graduais. Mas lentas demais a ponto de eu não estar mais aqui para vê-las.

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