GRÊMIO, CONTEXTO, TÉCNICO, PLANTEL, FINANÇAS, 2009

Talvez eu seja um dos raros gremistas que nunca nutriu nenhum sentimento negativo em relação ao técnico Celso Roth, embora admita que suas convicções teimosas e o seu tempo no mercado tornam qualquer campanha imprevisível, já que é comum ele acertar quando menos se espera que ele acerte ou, pelo contrário, que Roth erre quando a maioria acha que ele iria acertar.

O Paulo Vinicius Coelho (é sem acento, mesmo), o PVC da ESPN Brasil e colunista da Folha, pra mim, é o melhor comentarista do país porque ele trabalha sempre baseado em estatísticas. O cara é uma enciclopédia ambulante da história e das escalações de todos os times lendários do país, não apenas os do eixo Rio-São Paulo. Ele deve ter uma biblioteca monstruosa e uma quantidade de contatos gigantesca, além de uma memória privilegiadíssima.

Ano passado, ele falou duas coisas que me marcaram bastante:

1) Roth nunca fez uma campanha pior do que 58% em nenhum campeonato que tenha participado. Isso garante vaga na Sul-Americana e, dependendo da temporada, pode também garantir um 4º ou 5º lugar e vaga na Libertadores. Quando seus times não chegaram a essas posições, foi porque ele chegou no meio da temporada pra apagar algum incêndio, isto é, pra salvar do rebaixamento;

2) O São Paulo tendia a dar poucas chances para o Goiás na última rodada porque jogava pelo empate e jogaria pela 11ª vez com o mesmo trio de zagueiros (Rodrigo, Miranda e o outro não lembro) que não havia perdido nenhuma partida. E, até aquele momento, o São Paulo não dava mostras de nervosismo, pois seu número de cartões e de expulsões estava abaixo da média.

Parece bobagem, já que o futebol é apaixonante justamente por ser um dos raros esportes em que o favorito nem sempre ganha (os outros considero os esportes a motor, que dependem de máquina e clima). Contudo, esse detalhe, que parece uma preocupação “americanizada”, é superimportante, pois determina uma TENDÊNCIA MUITO FORTE, com uma margem de acerto muito alta (acima de 80%).

Então, eu parei totalmente de ouvir rádio, só dou uma passada de olhos no Correio do Povo e não assisto mais a programas de debates entre comentaristas gaúcho. Sinceramente, eles são muito amiguinhos de alguns dirigentes (Fernando Carvalho, que os recepcionava com churrascos em seu escritório) e jogadores e “inimiguinhos” de outros (Celso Roth, por não submeter-se com sangue de barata às suas inquisições inócuas) pra serem levados a sério. Podem até ser senhores de respeito e profissionais tecnicamente corretos. Porém, a postura, o vocabulário, o tipo de análise e, finalmente, o fato de defenderem e valorizarem o Gauchão, que não leva nem os times do interior a lugar algum, me afastam desse tipo de discussão.

Se era pra trocarmos de técnico, isso teria que ter sido feito no verão, logo após o término do Brasileirão. Mas era justo que se tentasse manter Roth, apesar do time ter entregado o título, em função de sua posição inédita e da melhor campanha do GRÊMIO em um Brasileirão de pontos corridos. Dada a supremacia econômica do São Paulo, do Palmeiras, do Cruzeiro e do Internacional; ao trabalho profissional realizado pela parceria do Fluminense com a Unimed; à estabilidade nas contas do Santos e, finalmente, ao fato de que o Flamengo (mesmo em crise) possui um plantel parelho com o do GRÊMIO, considero que fizemos milagre em função da nossa penúria financeira, que nos impede de contratarmos jogadores experientes, porém não-bichados; com boa qualidade técnica E atitude. Por isso, nosso capitão é uma pessoa boa, porém instável emocionalmente e ele transmite um certo medo ao restante do grupo.

Insisto mais uma vez: aquele time campeão da Série B não teria mantido o GRÊMIO na Série A. O nível de exigência é muito diferente. Prova disse é que o pessoal da ESPN Brasil (principalmente os chefes de reportagem e principais comentaristas, PVC e Mauro Cezar Pereira – é com Z, mesmo) não duvidam, porém acham difícil que o Corinthians seja capaz de classificar-se à Libertadores 2010. Se nada mudar na janela de verão (europeu), com muita garra e uma dupla iluminada (Ronaldo e Dentinho), eles deverão garantir uma vaga na Sula. Pra Libertadores, o furo fica bem mais embaixo.

Não tenho o hábito de cuspir no prato em que comi. Eu relembro a história, reverencio ídolos, reconheço o trabalho competente que deu saudade e valorizo muito a contribuição de quem já passou pelo nosso GRÊMIO. De qualquer forma, apesar da regularidade e de uma certa surpresa com o 3º lugar em 2006 recém voltando da Série B, o GRÊMIO tinha, sim, um plantel um pouco mais qualificado do que os de 2007 (vice-campeão da Libertadores) e, mais ainda, do que em 2008. Hugo e Diego Souza entrariam com um pé nas costas nesse time, além de Pereira ser um jogador regular que não poderia ter sido excluído do clube. Lucas, Carlos Eduardo… Comparem: Roth só tem de melhor do que Mano à sua disposição os dois laterais.

E, de maneira geral, a maioria de nossos jogadores não tem COJONES pra chamar a responsabilidade pra si. Quando o fazem, o fazem com medo de errar. A única frase do prof. dr. Luxerlei Vanderburgo que considero interessante é: “O MEDO DE PERDER TIRA A VONTADE DE GANHAR”.

Por fim, como já falei em um recente post em vídeo, apesar das proporções serem quase incomparáveis (um técnico e 60% de um plantel tricampeões brasileiros, muito dinheiro e muito poder político), a campanha do São Paulo no Paulistão é praticamente igual à do GRÊMIO e nunca ninguém falou em mandar técnico e jogadores embora. Não se enganem: o SPFC põe muito dinheiro fora com contratações caras que não dão certo. Além disso, o Muricy já cansou de ser muito mais estúpido com a imprensa do que o Roth e já cometeu erros crassos em jogos.

Isso posto, por mais que eu queira, não vou cobrar da direção nem do plantel ou do técnico algo que, quase com certeza, infelizmente eles não tem condições de proporcionar à torcida do GRÊMIO em 2009: uma vaga à Libertadores 2010.

Contudo, mesmo que se mude de técnico após uma eliminação na Libertadores 2009 (a não ser que cheguemos pelo menos à final), irei torcer até o fim, elogiando o que tiver que elogiar e criticando o que tiver de criticar.

Ainda assim, em função de alguns jogos na altitude e da dificuldade de ganhar fora de casa, o percentual médio de Roth (58%) é mais do que suficiente para ser campeão da Libertadores – e bem.

Com tudo isso, não quero defender demais a quem não precisa de advogado de defesa, nem atacar com exagero e má vontade a quem não cometeu erros suficientemente graves para merecer ser tratado dessa maneira. Ao mesmo tempo, o fato de eu insistir na falta de atitude deste plantel (o que provavelmente irá levar o GRÊMIO a uma ‘cucana botafoguização’) e na penúria financeira (na qual ninguém mais fala) tem como objetivo evitar que a torcida se iluda. O trabalho é o POSSÍVEL, de acordo com nossos bolsos quase raspados. A farra da ISL quase acabou com o clube, que ainda demorará cerca de uma década de trabalho quase perfeito fora de campo para se estabelecer no mesmo patamar do SPFC, do Cruzeiro e dos fragários.

Por hora, o melhor que temos a fazer é apoiar, alentar, torcer, valorizar, respeitar. Mas, acima de tudo, criticarmos com uma certa compreensão desse contexto desfavorável. No fundo, o que eu quero não é me conformar mas, sim, SER SURPREENDIDO NOVAMENTE.