O QUE KAKÁ NO REAL MADRID TEM A VER COM O GRÊMIO?!

O Real Madrid, clube mais rico e mais vitorioso da história do futebol mundial, tem por hábito buscar a recuperação de uas más fases a partir de demonstrações pesadíssimas do seu poderio econômico.

Além de ter trazido os dois últimos jogadores escolhidos como melhores do mundo na festa anual da FIFA, o brasileiro Kaká (2007) e o português Cristiano Ronaldo (2008), o presidente Florentino Pérez (o mesmo que trouxera Ronaldo, Zidane, Beckham e Figo na geração vitoriosa de 2002 conhecida como “Os Galáticos“) fez um mise-en-scène impressionante na apresentação do melhor jogador da Seleção Brasileira desde 2006.

Destaco, de toda a festa, a foto acima: os espetaculares departamentos de Marketing e de Comunicação do Real Madrid enfileiraram as NOVE taças da UEFA CHAMPIONS LEAGUE na passarela que acolheu Kaká. Além disso, o presidente de honra e maior jogador da história do clube, o argentino ALFREDO DI STEFANO, estava lá, prestigiando o maior orgulho do futebol brasileiro contemporâneo.

Voltando à nossa realidade, é preciso que o Grêmio abra bem seus olhos e trate de fazer o dever de casa: a cada contratação DE-CEN-TE (ou, seja, não é pra apresentar os dispensáveis Ruy e Alex Mineiro que se monta uma estrutura dessas), deve-se pôr todas as LIBERTADORES, a COPA INTERCONTINENTAL (que significava, de fato, o título mundial em função do contexto do futebol de então), os BRASILEIRÕES e as COPAS DO BRASIL como corredor e vitrine para a nova esperança que se apresenta. De quebra, que traga-se sempre que possível RENATO PORTALUPPI para apresentá-lo:

“GRÊMIO, FULANO. FULANO, GRÊMIO. SE FIZERES 30% DO QUE EU FIZ PRA ESSA GALERA AÍ, ELES NUNCA IRÃO SE ESQUECER DE TI. GARANTO QUE NEM NO FLAMENGO A TORCIDA SERIA CAPAZ DE TE APOIAR COMO A NOSSA GERAL”.

É como a piada da linguiça: para a mídia de massa, o maior dentre os embutidos postos à mesa impõe mais respeito sim, senhor. Além disso, serve como estímulo e pressão positiva sobre o novo jogador, pois deixa às claras o que dirigentes, comissão técnica e torcida de um clube de tradição esperam de seu desempenho dentro E FORA de campo.

Caso essa simples medida tivesse sido tomada há mais tempo, garanto que muitos dissabores e muito dinheiro posto fora teriam sido evitados.

RUINDADE DO GRÊMIO REFLETE RUINDADE DO FUTEBOL BRASILEIRO

Não tem a desculpa do fator local, do foco na Libertadores, do time reserva e nem do cansaço da viagem: ninguém pode dar jeito desse plantel fraquíssimo.

Enquanto o Grêmio for um clube endividado e preocupado com os especuladores imobiliários e com o desmanche consentido do Plano Diretor de Porto Alegre em função da Arena, seremos pobres.

Isso não é pessimismo nem cabeça quente: só lembro de times piores do que este na Série B de 1992 e nos que caíram em 1991 e em 2004.

Tá certo que os tempos são outros e que não se pode comparar alhos com bugalhos. Mas eu gosto de por as coisas nos seus devidos lugares: muitos pensam que “medíocre” significa “abaixo da média” só porque se trata de uma palavra “estranha”. Porém, medíocre não é nem acima, nem abaixo da média – é exatamente algo que está na média. Logo, o plantel do Grêmio é ruim, mesmo.

Nunca entendi a idolatria pelo “capitão” Tcheco: sou como o pessoal do Impedimento, que diz que um cara instável emocionalmente e de pouquíssimo brilho técnico não pode ser capitão de time grande.

Cada vez mais me convenço de que Celso Roth estava corretíssimo em relação a Douglas Costa. Não temos laterais (no máximo dos máximos um, Joílson) e o problema do Grêmio não é o 3-5-2 nem o 4-4-2 mas, sim, a necessidade de inventar por causa da tremenda falta de opções.

Muitos podem discordar de mim. Mas eu não passo a mão, não puxo o saco e não faço média.

Quando estava na 7ª série, disse a meu grande amigo Márcio De Camillis que eu não deixaria de ir aos jogos do Grêmio nem que ele caísse para a Segunda Divisão. Pois eu ainda não conheci um gremista que não tenha sido conselheiro ou parente de conselheiro que tenha ido a TODOS os jogos nas DUAS segundas divisões.

Vou ao Olímpico desde 1979, quando tinha 6 anos. Desde 1981, fora os meses em que morei no Rio de Janeiro (entre junho de 2000 e março de 2001), tenho uma assiduidade MÉDIA de 95% de presenças no estádio. Nunca xingo o time, nunca vaio o técnico e puxo o bonde. Muitos agregados (amigos próximos ou quase-parentes) que não teriam o porquê serem gremistas ou, então, que viraram a casaca, o fizeram por gostarem muito de mim e por sentirem-se contagiados pela minha paixão.

Eu vi o Flamengo de Zico, o Grêmio de Renato, o São Paulo de Cilinho, o Flamengo de Carlinhos, o São Paulo de Telê, o Cruzeiro de Ênio Andrade, o Grêmio de Felipão e o primeiro Palmeiras de Luxemburgo. De 39 edições do Brasileirão, sou testemunha atenta de 29.

RACISMO NOS CLUBES: DISCUTINDO PROCESSOS E NÃO PESSOAS

Todo clube social é excludente e possui uma origem racista. O Inter, o Grêmio, o Leopoldina Juvenil, o União, a Sogipa e tantos outros possuem, em parte de seus fundadores e conselheiros atuais herdeiros desses fundadores, um ranço racista.  Tolerar, conviver junto e aproveitar-se das qualidades e dos benefícios que funcionários e jogadores negros oferecem não é o mesmo que buscar tratá-los de forma igual.

Quem não é, não sabe o que quem é sente quando é agredido. No episódio que recente que está tirando o Grêmio para Cristo, digamos que Maxi López possa até não ter dito o que disse com uma conotação racista. Digamos também que  Elicarlos não tenha tentado fazer um bolo pra provocar a expulsão do adversário. Como defesa anti-repulsa ao Grêmio e anti-racista ao nosso atacante, a palavra de uma professora de espanhol do Instituto Cervantes, que é uruguaia e cita um dicionário de insultos argentinos. Como justificativa (seja contra ou a favor de Maxi), no calor do jogo, se diz tudo, assim como tem gente que se aproveita da lei provocando situações de má fé.

Embora não creia que o Grêmio deva dar satisfações a quem quer que seja por não ter sido um ato institucional, definitivamente, nosso clube não é o mais racista, nem o precursor do racismo, nem o incentivador do racismo no futebol, seja dentro ou fora dos gramados. E o fato não teve respaldo nem endosso da direção ou dos atletas.

Quanto a acusar ou não a mídia corporativa especializada, além de não entender nada sobre o assunto e de procurar especialistas voltados à defesa do status quo, ela ora bate, ora assopra, segundo os interesses comerciais de seus anunciantes. Não tenho achado que seu trabalho neste momento seja necessariamente antigremista nem colorado. Basicamente, vejo a ignorância em relação a uma questão socialmente complexa e delicada.

Quanto ao Inter, não adianta ter o rótulo de popular e ter um saci como mascote porque o tratamento dispensado aos negros é igual.

Em qualquer clube (seja de futebol, de bocha, de botão ou de chá), pode até nem se falar nisso nas reuniões do CD. Mas dentro de grupos políticos, em conversas informais puxadas por amigos de tempos, isso pode acontecer, seja como piada, seja como tentativa de valorizar o seu argumento e de minimizar a importância do que o outro falou usando racismo, sexismo, etc. como uma forma de justificar o injustificável.

De maneira geral, a forma carinhosa ou até mesmo os insultos trocados por jogadores antigos eram tirados de letra porque, além do peso dos insultos ser menor, o nível de escolaridade era bem superior ao atual. Havia famílias mais estruturadas e menos fragmentadas em todos os estamentos, havia muito menos desemprego e a concentração de renda era muito menor. hoje em dia, tudo – absolutamente tudo – o que é discutido por leigos, isto é, segundo a forma que o senso comum encontra de afirmar a sua visão limitada sobre qualquer assunto, é dicutido na base da ponta de faca.

Como parte integrante de uma sociedade multifacetada e envolta nas mais diversas contradições, o Grêmio não pode ser visto como a única nem como a maior coisa da vida de um torcedor. O Grêmio, como uma instituição composta por pessoas extremamente diferentes, não poderia ser diferente de ninguém: nem melhor, nem pior. A crítica que faço ao Grêmio não é prioritariamente voltada ao Grêmio nem ao Maxi mas, sim, ao gaúcho como um todo: infelizmente, vivemos no lugar mais racista e reacionário do país.

O GRÊMIO E SUA GOVERNANÇA AMADORESCA

Essa de “exército de ferro, exército espartano com a alma castelhana” inventada pelo Pedro Ernesto Denardin é uma construção midiática sensacionalista que forjou uma maneira de pensar o clube como se bastasse ter jogadores baratos e brigadores pra se montar um time. Os resultados comprovam que, infelizmente, o futebol contemporâneo não permite mais competir em pé de igualdade com clubes ricos.

Hoje, o Grêmio é um clube rico em história. Contudo, o que muitos consideram como um valor atávico, intrínseco e naturalizado do nosso tricolor não passa de uma mera construção baseada em coincidências.

A primeira delas conta que o técnico precisa ser gaúcho pro time conquistar campeonatos de nível nacional e internacional. Nunca pararam pra pensar que eestão embutidos dois problemas graves nessa máxima? a) Tal pensamento desestabiliza a confiança e o apoio a um profissional de fora. Resultado: ele acaba ficando menos tempo aqui porque não recebe suporte suficiente para compreender a cultura da instituição e tampouco um plantel minimamente confiável; e b) Sempre que se contrata um treinador gaúcho de competência duvidosa, ele também acaba tendo uma sobrevida que perdoa demais uma série além do tolerável de resultados esquálidos obtidos sob a sua coordenação.

Outra mera coincidência é a de que, para se ganhar uma Libertadores, é necessário ter um “xerife” de origem castelhana: o mais “macho”, o mais forte, aquele que distribui mais pontapés, o mais malandro. De León era bandido?! Arce era mal encarado?!

A terceira grande bobagem tida como virtude: costuma-se dizer que basta termos um centromédio “espanador” e “macho”. Tirando Lucas Leiva e o atual ocupante da posição Adilson, me digam, depois de Dinho (que batia, sim, mas passava que era uma beleza) um outro centromédio que soubesse jogar bola e eu dou um Sonho de Valsa de presente. Nessa posição, é CRUCIAL saber retomar a bola e tocá-la para o armador ou, então, lançá-la para o ataque sem rompantes de Prof. Pardal. Onde se começa a impor o ritmo de jogo e onde se começa a proteger a zaga não se pode contar apenas com a virilidade. Finalmente, mais do que no miolo de zaga ou na armação, a pior posição para se ter um titular expulso ou lesionado é a de centromédio.

Pois bem: tais mitos foram repetidos à exaustão por muitas gestões sem nenhuma comprovação estatística ou científica de sucesso CONTINUADO. A curto prazo, essas escolhas obtiveram resultado. Contudo, trata-se de um modelo que desgasta-se rapidamente. Portanto, a qualidade técnica e a atitude são os fatores que realmente importam na montagem de um plantel vitorioso.

Meu medo no início da temporada está se concretizando: na base da garra sob a  tentativa de montar um time de qualidade juntando um bando de jogadores ruins e sem atitude, a botafoguização do Grêmio é iminente. Com Ruy, Túlio e outros “símbolos” de uma torcida há muito carente, o alvinegro carioca desperdiçou muitas chances de obter uma vaga à Libertadores ou de decidir uma Copa do Brasil nos últimos quatro anos em função da base emocionalmente instável que ora trabalha no Olímpico.

Como já falei no post anterior sobre a questão Maxi López, um olheiro experiente e poliglota com uma rede social ampla (técnicos, dirigentes, jogadores e jornalistas) é um cargo importantíssimo que não pode mais ser negligenciado justamente por poupar muito mais tempo e dinheiro do que se possa imaginar.

Logo, não vou me enganar e nem ao gremista que me dá o privilégio de ler meus textos: o plantel é fraco demais. Ponto. Como diria Mino Carta, é sabido até pelo mundo mineral que o clube está estendendo a latinha na calçada e que, salvo momentos esparsos de contratações baratas e certeiras, essa medida tem que ser vista como um paliativo e não como uma política permanente. Ela é o possível apenas neste triste período pós-ISL tdo qual talvez ainda levemos mais uma década  inteira até podermos nos equiparar a um São Paulo, Cruzeiro ou Inter em termos de frequencia e continuidade no pódio.

O Grêmio não vai à Libertadores em 2010. O Grêmio não vai passar pelo Cruzeiro. E não é porque eu não quero, nem porque eu sou vidente: é porque depende da sorte e não de sua competência. Mas eu não deixo de ir aos jogos. Por que? Porque, ao invés da “imortalidade” e do “alento custe lo que custe”, eu adoro correr o risco de ter dito uma grande besteira, de estar redondamente enganado, de ver o time, o técnico e a direção me fazerem morder a língua.

Enfim: pensamentos mágicos não são de agora. E não são coisa do presidente Duda, assim como segui-los não representou nenhum sucesso absoluto da gestão Odone. Em 1983, tínhamos pratas da casa (dentre os quais o maior gênio da história do futebol mundial) e craques experientes. Em 1985, tínhamos pratas da casa excepcionais, dois jovens talentos desperdiçados por Vasco e Flamengo (o que é cada vez mais comum naquela “zona” que se chama futebol carioca) e um técnico que dispensa maiores apresentações.

De lá pra cá, se tem gastado muito por jogadores bons a razoáveis que não deram certo no exterior, que ficam somente uma temporada por aqui. Isso nos obriga a remontarmos o plantel para a temporada seguinte. Porém, a falta de um especialista faz com que as negociações sejam lentas e evitam que o Grêmio consiga encontrar todas as opções disponíveis em função do seu escasso orçamento.

Enfim… Nos vemos obrigados a conviver com uma entressafra de idéias e de pessoas dentro de um contexto de penúria financeira. O Grêmio da primeira década do século 21 repete o Inter da década de 1990 e o Inter atual repete o Grêmio da primeira metade da década de 1980 e da segunda metade da década de 1990 porque, lá, houve uma verdadeira renovação. Quem havia ouvido falar de Vittorio Piffero, Fernando Carvalho ou de uma gestão de marketing composta por um vice-presidente e por mais seis ou sete diretores especializados há 10 anos atrás como protagonistas do clube vizinho?

O Grêmio, infelizmente, ainda vive ou de dinastias, ou de agregados dessa dinastias. A pretensa “democracia representativa” é tão farsesca e hipócrita dentro do clube que todo associado interessado em ser conselheiro é praticamente obrigado a rezar a cartilha desses clãs sob pena de não obter apoio para nada.

O Grêmio é um grande PMDB. Quando digo isso, não é necessariamente porque as pessoas sejam predominantemente incompetentes, porque apelem para conchavos e para o “jeitinho” ou porque sejam parentes de velhos conselheiros. Apesar desse fator ser clientelista, paternalista e oportunista, o que mais pesa nessa questão é a falta de objetivos, de plataformas, de metas e de conhecimento técnico qualificado. Quando falo em conhecimento qualificado, não me refiro a advogados, engenheiros, médicos, administradores, comunicadores e economistas mas, sim, de uma visão holística do clube. O que quero dizer com isso? Que uma doença financeira não pode ser curada com uma medida profilática voltada exclusivamente ao simplismo do binômio receita/despesa e do corte de gastos desimportantes mas, sim, a partir da conscientização e do culturamento de funcionários pagos, de dirigentes abnegados e de dirigentes profissionalizados acerca do que é e do que significa o Grêmio. Isso existe, mas precisa ser intensificado e naturalizado.

Ao mesmo tempo, a terceirização de diversos setores para não onerar o pagamento de impostos é uma das maiores mentiras do neoliberalismo econômico: na maioria das empresas públicas ou privadas com no mínimo 30 anos de atuação no mercado, tem-se a média de aumento de gastos na ordem de quase 300% com o custeio de serviços externos em detrimento da montagem de equipes funcionais especializadas dentor do próprio clube. Não, a intenção não é a de criar um cabide de empregos nem de desconfiar da competência dos contratados externos: isso, sim, é economia E investimento, já que o terceirizado, mesmo que seja gremista, não terá a obrigação nem o sentimento de ser e de fazer parte da instituição: quando sua tarefa terminar, é tchau e bênção.

Enquanto isso não mudar, as oscilações e os riscos tenderão a ser maiores do que as estabilidades e os ganhos.