
Selo da Copa 2014 no Brasil seguindo a programação visual da FIFA
No momento em que a desgovernadora cara-de-pau ergueu aquele fake da Copa FIFA junto de Fogaça (que terá oito anos de desgoverno), Fortunati (que terá 10 anos de prefeitura) e do bom dono de restaurante, folclórico, conservador e oportunista Gaúcho da Copa, somente eu ouvi a minha própria voz berrar “LADRA!” bem alto por três ou quatro vezes. Todavia, ao contrário das visões dos jornalistas André Machado (RBS) e Marco Weissheimer (AGÊNCIA CARTA MAIOR), cheguei ao local 40 minutos antes e permaneci por mais 15 ou 20 minutos após o anúncio de Porto Alegre e não ouvi vaia alguma.
Por outro lado, não havia defronte ao palco (circo) armado as três mil pessoas que Zero Hora disse que havia: o público seguramente não superava algo entre 2000 e 2500. Os aplausos e a vibração foram poucos, mas bem maiores do que o silêncio que não se traduziu em vaias por parte dos transeuntes. os portoalegrenses mais empolgados eram disparado os mais humildes entre todos os presentes.
Ninguém contrariou meus brados. Porém, só recebi apenas uma comedida concordância de uma senhora.
Cidadãos de todas as idades e predominantemente dos estamentos B, C e D vindos das mais diversas regiões da capital estavam no Parque Farroupilha durante as horas que cercaram o anúncio da óbvia escolha de Porto Alegre como uma das 12 sedes da Copa do Mundo de 2014. Como sempre, prevalecia mais a classe C, os moradores dos bairros cercanos ao parque e as pessoas da classe D vindas sobretudo dos bairros e dos municípios limítrofes da capital ao norte.
A Redenção, sempre tida como o mais simpático, mais central, maior e mais antigo parque da capital bovina, é o termômetro da politização e do interesse solidário e cidadão do Rio Grande do Sul. A localização e a história privilegiada desse parque atraem e repercutem uma série de práticas sociais. A amplitude dessa repercussão no Parque Farroupilha é maior do que a repercussão que se costuma nas demais áreas públicas de lazer e desporto contidas neste estado sulino.
Constato tristemente que a crise política, moral, econômica e educacional do RS contemporâneo não é causada somente ou primordialmente pelos protagonistas decanares dos poderes financeiro, coercitivo e político ora em voga nessa região do Brasil: a responsabilidade vai desde os raros empresários honestos que não sonegam impostos, pagam salários justos, oferecem benefícios e assinam a carteira de seus funcionários até o pedinte doente e analfabeto porém educado e pacífico.
Não se pode creditar única e exclusivamente ao poder econômico o ao não-cumprimento das leis antitruste brasileiras contra a concentração dos meios de comunicação de massa nas mãos daqueles poucos sempre mancomunados com entes da política partidária e do controle patronal. A técnica do discurso simples e editado objetiva positivar os valores interessantes aos patrocinadores da mídia corporativa e negativar os valores antagônicos a esses interesses. No entanto, a ignorância, o consumismo, o egoísmo e a não-percepção da sociedade como um campo de colaboração e de convivência em rede iniciou-se muito tempo antes.
O cansaço e a preferência por não reivindicar “para não se incomodar” resulta da divisão dos três lugares (1º casa; 2º trabalho-escola; 3º lazer - sendo que os terceiros lugares presenciais e os terceiros lugares online proporcionam diferentes discursividades) trazida pela industrialização massiva sob o método da linha de montagem taylorista-fordista do início do século XX. A passividade e o não-envolvimento com questões coletivas de grande escala são fruto do desmanche do ensino público gratuito e de qualidade proporcionado pela ditadura militar. O consumismo e o oportunismo barato, por sua vez, são frutos da exponencialização das características anteriores ocorrida em função do neoliberalismo.
Ocorre então a desorientação das gerações anteriores em função da dissociação entre o espaço e o tempo: tais características já eram observadas durante a primeira metade do século XX por alguns pensadores. Ainda de maneira incipiente e em uma escala muito menor do que a escala com a qual tais heterotopias e heterocronias (Foucault, também discutido posteriormente por Bergson) ora são percebidas, começou ali a ocorrer o que hoje verifica-se em um sentido muito mais dramático.
A inadaptação à velocidade das mudanças de discurso e de valores da pós-modernidade que ocorre com a esmagadora maioria das pessoas nascidas nas gerações anteriores àquela que já utilizava o computador e a internet resulta na incompreensão da sociedade tal qual ela se apresenta na atualidade. Esse desencaixe (Giddens) desconsidera que o trabalho e o ativismo da atualidade podem ser feitos a partir de um tom menos grave e mais lúdico.
Portanto, a dinâmica social é muito mais complexa do que se possa imaginar. Como já escrevi em vários posts anteriores, insisto na defesa da percepção da importância das redes sociais. As redes sociais mostram relações pessoais, lúdicas, comerciais, políticas e econômicas que afetam a toda a humanidade. Queiram ou não, tudo está interligado. E, concordando ou não com os caminhos que o nosso ambiente tem tomado na sua caminhada, concordando ou não com os formadores de opinião de cada campo social (midiático, médico, jurídico, político, industrial, esportivo, artístico, militar ou religioso), todos somos responsáveis por tudo o que ocorre de positivo ou de negativo.
Se as coisas não ocorrem como os valores da esquerda gostariam que acontecesse, ela é responsável pelo seu atraso e pela sua ignorância. Por isso, quem quer fazer e quem quer acontecer dá muito mais importância ao estabelecimento de relações solidárias e temáticas com indivíduos de origens heterogêneas do que compartimentando a sociedade em bons e maus.
Independentemente do fato de aqui ainda haver um nível escolar um pouco menos pior do que o do resto do país e de haver uma diversidade étnica maior, o Rio Grande do Sul tornou-se a vanguarda do atraso não por causa direta ou primeira da RBS, dos latifundiários, dos banqueiros e dos “cordéis de fora” como dizia meu pai: o RS é atrasado e bovino porque existem os hipócritas e os ignorantes que propagam o discurso do “caminho do meio” e o resto são maniqueístas que, seja de esquerda ou de direita, ao invés de trabalharem por uma política de estado que concentre esforços na inclusão permanente da maioria da população, trabalham para privilegiar única e exclusivamente aqueles que rezam a sua cartilha.
Postos os fatos e determinados sejam os atores que estarão no centro das decisões, o que importa é fiscalizar, informar-se, participar, envolver-se. O futuro da cidade, não foi nem nunca será aquele que os partidarizados, sindicalizados e atrasados “proletários” desejam. E tampouco será aquele que os igualmente atrasados ricos conservadores, excludentes e intolerantes e a sua medíocre claque famosa por comer galinha e arrotar faisão desejariam que fosse. Dessa forma, a realidade que se desenha está mais próxima das aspirações destes últimos do que dos primeiros.
Consequentemente, as redes de afeto e de cooperação que determinam as articulações, a forma e o tamanho das forças que compõem a pressão por determinadas demandas precisam necessariamente atravessar e ser atravessadas por protagonistas que seguem ambas as matrizes ideológicas. Afinal de contas, é importante salientar que há, tanto na esquerda quanto na direita, uma cooperação conservadora e repleta de trocas de favores entre seus protagonistas mais bem-relacionados com o dinheiro, com os negócios, com a política e com a comunicação. Há, tanto na esquerda quanto na direita, uma maioria de excluídos das decisões que, menos conservadores e mais abertos, encontram pontos em comum que podem ser resolvidos a partir de uma união de forças.
Não dá mais pra confundir política com partido. Não dá mais pra dizer que a esquerda é “do bem” e que a direita é “do mal”. Ao mesmo tempo, não há heróis nem vilões, não existe ninguém insubstituível e tampouco deve-se depender de uma liderança centralizada.
A competência profissional, a inteligência emocional e o poder decorrem da comunicação. A comunicação eficiente decorre da sensibilidade e do aprofundamento das redes sociais de cada indivíduo ou coletividade. E não é ignorando ou detratando comportamentos típicos da mídia, dos empresários ou de políticos tradicionais que se irá solucionar os problemas. Afinal de contas, tudo o que está posto sempre foi e sempre será assim no decorrer da história da humanidade.
Tanto os otimistas como os intelectuais puristas dirão que não se pode ser determinista nem tampouco inteligente tentar convencer a si e aos outros de que não existe mudança ou que existiriam certas características inerentes a uma suposta natureza humana. Talvez seja um tiro no pé eu me expor publicamente com um pensamento aparentemente conformista, conservador e até mesmo ditatorial dependendo da falta de sensibilidade e de conhecimento do interlocutor. No entanto, o que eu busco aqui é apenas mostrar que, como a maioria tem feito até agora, as medidas mais socializantes e inclusivas não tem funcionado.
Com isso, proponho que se procure fazer do limão uma limonada. Mas que essa limonada não seja aguada, azeda e nem doce demais. A falta de método e de planejamento da esquerda tradicional e a hoje aberração que significa seguir um líder carismático ou procurar fazer de tudo para pertencer a uma determinada classe ou instituição são a sua parcela de culpa por ter deixado o Rio Grande do Sul ter chegado aonde chegou.
Concordo com Cristóvão Feil quando o sociólogo comparou o Acampamento Farroupilha a uma feira medieval. Pois a partir do exemplo de ontem na Redenção, comparo a movimentação de qualquer festividade ou de qualquer fato espetacularizado (Debord) com uma ópera bufa. De agora em diante, o que realmente importa é verificar como, quando, em que ritmo e a que custos (financeiro e, principalmente, social) as melhorias na qualidade de vida da população prometidas serão efetivamente cumpridas ou até mesmo superadas.
[...] Provavelmente em função do protocolo do cerimonial (seja lá por quem tenha sido escrito), insistiu-se muito mais na questão de que o conselheiro Eduardo Antonini era mais o representante da desgovernadora (que, entre tantas desculpas, não deve ter aparecido com medo de ser vaiada) do que propriamente um conselheiro do clube que também responde pelo papel de atual secretário estadual de organização da Copa do Mundo de 2014 no RS. [...]