
EM PLENA ERA DA MOBILIDADE E DA INTEGRAÇÃO ENTRE MÍDIAS SOCIAIS E MÍDIA DE MASSA, POR QUE DIABOS SEGUEM DEFENDENDO INSTITUIÇÕES CLIENTELISTAS, PATERNALISTAS E OPORTUNISTAS TANTO À ESQUERDA QUANTO À DIREITA?! POLÍTICA E ECONOMIA NA MÍDIA CORPORATIVA É VASSALAGEM. SINDICALISMO BASEADO NA DICOTOMIA BURGUESIA x PROLETARIADO É LENTO E IGNORANTE P/DAR CONTA DAS NECESSIDADES DA CLASSE AUTÔNOMA.
Pessoalmente, creio que o papel dos sindicatos de quase qualquer classe profissional não consegue – e nem pode mais – cumprir o papel dicotômico, maniqueísta e preconceituoso que o contexto socioeconomico de antigamente assim dele exigia. A despeito da qualidade inegável de muitos profissionais cultuados através dos tempos, o mercado de trabalho na Comunicação, independentemente de haver maior ou menor número de profissionais com 3º grau, sempre foi repleto de despreparo e paternalismo. Forjado e semre mergulhando nessa mesma onda, a função sindical como um todo caducou no Brasil.
Com isso, não quero dizer que os sindicatos não sejam necessários nem que eles não possam modificar a si mesmos. No entanto, eles apenas repetem o modelo que os forjou há muitas décadas atrás sem a necessária adaptação à realidade contemporânea. E isso não se refere apenas à área da Comunicação: o desencaixe (v. Giddens) em função da incompreensão perante a política atual em função da dissociação entre o tempo e o espaço que determinam e são determinadas por novas relações de trabalho decorre do desinteresse das novas gerações pelo sindicalismo. Afinal de contas, não faz mais sentido desejar ou aceitar evangelizar e ser evangelizado por doutrinas que não conseguem mais dar conta de tantas modificações.
Ao contrário do atraso brasileiro nessa área, os EUA já estão reinventando o papel e a forma de atuar dos sindicatos de todas as categorias como reflexo da liderança de Obama, forjada a partir do voluntariado e do sindicalismo de Chicago, uma das cidades com maior população negra e pobre daquele país. O sindicalismo gringo reergue-se sob uma postura menos peleguista em relação ao patronato e passa a contemplar também os autônomos, os freelancers e as pequenas empresas. O discurso perante a postura da mídia corporativa não é mais o de vitimização do funcionário nem tampouco de vilanização pura e simples do empresário.
No nosso caso, o Brasil ainda é um país neoliberal e oligárquico – independentemente da parcela de ações positivas do Governo Lula no combate dessas mazelas. Aqui, o sindicalismo restringe-se tão-somente a considerar os funcionários como vítimas indefesas e os donos da mídia corporativa como o demônio sob a forma humana. Essa postura meramente confrontante e conflituosa de resultados geralmente inócuos decorre do purismo marxista e socialista, que também afasta o interesse de novas lideranças profissionais de atuarem sob o predomínio dessa linha de pensamento. O exemplo que vem do norte mostra que, com assertividade e com o uso da internet como veículo de armazenagem e de troca de informações, os pés de barro do gigante ficam mais expostos.
Informação e intercâmbio é o que não falta. Então, por que os sindicatos brasileiros de jornalistas não integram à sua agenda os diversos níveis econômicos de empresas de mídia?! Quando falo em empresas, falo em funcionários e patrões…
Embora não seja jornalista e não domine o conhecimento das ações da FENAJ, do Sindicato dos Jornalistas do RS e demais entidades do setor, os sindicalistas tradicionais sempre pareceram NÃO executar o que uma classe inteira deles possa esperar. Qual o papel educativo, administrativo, jurídico e representativo que os sindicatos realizam a não ser para o restrito grupo de funcionários da mídia corporativa? Se estiver errado, me perdoem. Todavia, se penso assim por ignorância, são eles que precisam vir à sociedade para não deixar com que alguém como eu tenha essa imagem acerca da instituição. Afinal de contas, mesmo alijados dos veículos de massa, os sindicalistas da Comunicação certamente possuem os meios necessários de divulgar dados suficientemente contundentes a fim de contestar a minha maneira de vê-los.
No Brasil, a meu ver, freelancers, autônomos e pequenas empresas de Comunicação Social (mais especificamente, neste caso, de Jornalismo) são vistos pelos sindicatos da área como uma subclasse ou como privilegiados que não necessitam de seus serviços como os funcionários dos grupos da mídia de massa precisam.
Eis aí a grande contradição do modelo, responsável pelo visível desinteresse de novas lideranças da área em relação a uma futura participação sindical: os sindicatos de jornalistas tem como origem o socialismo. O socialismo puro é uma ideologia de esquerda. Porém, tudo aquilo que a esquerda prega (solidariedade, pró-atividade, transparência, diversidade, igualdade, etc.) está sendo sumariamente ignorado pelos próprios sindicatos de jornalistas. Por que? Porque o mercado em constante expansão formado por freelancers, autônomos e pequenas empresas do setor não compõe mais um pequeno nicho. Esses profissionais não estão enquadrados na única divisão classista com a qual os sindicatos tradicionais sabem se relacionar (categoria que, para quem trabalha em nível superior, inexiste – o “proletariado”). Porém, quem trabalha por conta ou trabalha em empresas de pequeno porte não pode ser considerado privilegiado nem em termos políticos, nem em termos econômicos.
O modelo sindical praticamente exclui do debate um significativo grupo que, queiram ou não, pertence à mesmíssima categoria profissional. Dessa forma, verifica-se uma grave falta de acesso igualitário aos benefícios que um sindicalismo sério deveria oferecer. Portanto, estamos diante de uma segregação dentro da própria categoria. Sob o mesmo modus operandi, o pensamento de defesa dos interesses da classe não segue essa cartilha ortodoxa e parada no tempo. E a defesa intransigente dessa maneira caduca de fazer sindicalismo repete o mesmo peleguismo sempre tão condenável, só que do lado oposto da moeda. Sem perceber, os sindicalistas acabam endossando o lado dos donos da mídia corporativa e de seus mecenas. E isso não vem de hoje.
Outro grupo interessado na manutenção do diploma de jornalista é o grupo de quem leva a formação de novos profissionais e, acima de tudo, de cidadãos mais conscientes acerca do contexto sociocultural em que vivem: o medo de todo professor, de todo estudante e de todo reitor (sobretudo das universidades particulares que vivem do valor das mensalidades) é o de que, com a abolição da obrigatoriedade do diploma para jornalista, os cursos de Jornalismo percam a razão de existir. Contudo, ao contrário do que muitos pensam, não são nem a questão do diploma e tampouco a relativa juventude da existência da profissão e da sua consequente indústria os principais fatores de dificuldade da consolidação da Comunicação como um campo social no significado bourdieuano da palavra: por tratar-se de uma disciplina técnica e teórica enquadrada tanto científica como mercadologicamente sob uma faceta multidisciplinar, os ritos, a natureza vicária e a especialização supostamente inimitável por integrantes de outros campos sociais (p. ex.: jurídico, militar, religioso, médico, político, esportivo, financeiro, etc.) já é, na prática, descentralizada e pulverizada. Apesar desses problemas, felizmente, a procura pela aprendizagem e pelo domínio de uma técnica capaz de traduzir os discursos vicários de cada um dos demais campos sociais de uma maneira que toda a sociedade seja capaz de decodificar mensagens tão específicas tem sido cada vez maior ao longo do tempo. Afinal de contas, sem conhecimento e sem empenho, não existe competitividade nem autopreservação em um meio selvagem. No momento em que essa visão se tornou um lugar comum, os riscos de demolição das bases responsáveis pela credibilidade percebida dos mídias de qualquer porte não interessam aos empresários sérios, enquanto reforçam a autonomia de quem trabalha por conta própria.
No caso das universidades e dos professores em particular, a defesa que a maioria faz do diploma refere-se à necessidade sempre presente e justa de haver uma representatividade que proteja os interesses da base da pirâmide que sustenta esse campo social. Além da técnica, os professores técnico-científicos preocupam-se com a ética e com a reflexão acerca dos fazeres em função do contexto sociocultural que os molda e é moldado por esses mesmos fazeres. Já os professores essencialmente técnicos preocupam-se tão-somente em preparar novos profissionais para alimentar a mesmíssima indústria hegemônica. Todo curso de qualidade apresenta essa saudável mistura e não apenas o prevalecimento de um tipo ou de outro.
Para as corporações midiáticas, para os estúdios cinematográficos, para as gravadoras, para as agências de publicidade, para as produtoras web e para as assessorias de imprensa, seria maravilhoso que houvesse apenas meros cursos técnicos profissionalizantes, a fim de que seus novos contratados não sejam nada além de âncoras, repórteres, cinegrafistas, iluminadores, editores, sonoplastas, figurinistas, maquiadores, motoristas, eletricistas, engenheiros, diretores, arte-finalistas, produtores e porta-vozes altamente especializados. Esse modelo é interessante para formar uma enorme reserva de mercado e para incentivar uma competição acirrada pelas vagas dentro dessas marcas que dominam a superestrutura, desunindo os profissionais que preferem viver 100% integrados a esse modelo de mercado.
Portanto, salvo raríssimas e honrosas exceções, os donos, os financiadores e os clientes da indústria midiática sempre preferiram e sempre irão preferir especialistas restritos ao papel de meras engrenagens de um sistema taylorista-fordista de linha de produção. Porém, a perda de credibilidade dos veículos das grandes corporações em função da desvalorização de profissionais experientes que são desprezados como lapidadores de jovens promessas tem resultado na perda de qualidade técnica e de talento no jornalismo. Trabalhar para paquidermes burocratizados repletos de eminências pardas diante da internet e da TV digital definitivamente não é uma boa alternativa.
Nesse aspecto, muitas faculdades de Jornalismo, muitos chefes antigos dentro das corporações e, acima de tudo, a decrepitude metodológica dos sindicatos estão deixando muito a desejar. Portanto, vejo universidades e sindicatos obrigados a aprender rapidamente e com a máxima competência a proporcionar a assistência, a assessoria, a consultoria gratuita ou muito barata, as palestras, os seminários, os congressos, os debates e as missões de visita a órgãos no Brasil e no exterior que sirvam como referência mundial dentro dessa roda viva: é para conhecer advogados de gabarito, para conhecer o SEBRAE, para contar com profissionais de economia e de marketing que deveriam servir as universidades e os sindicatos. Mais do que aenas ajudar os jornalistas a se defender, seu papel deve necessariamente ser o de possibilitar a seus alunos e filiados o conhecimento do empreendedorismo e da administração de um negócio.
Isso posto, jornalista responsável, minucioso, competente, criativo, tecnicamente correto, livre e inovador não precisa nem de uma lei especial para receber privilégios, nem de uma lei que o obrigue a responder por falhas ou por má fé relacionadas à má prática social e econômica de sua atividade. Isso é o mínimo que se espera de QUALQUER profissional. Para isso, com alguns ajustes, ao invés da Lei de Imprensa da década de 1960, basta dar uma garibada no Código Civil.
No mais, com ou sem a obrigatoriedade do diploma para exercer a profissão de jornalista, tanto o público fará a sua seleção natural como o profissional precisará aprender a escolher a opção de vida e de trabalho que o fará sentir-se mais à vontade para preservar a sua autonomia e a sua independência. Se, por outro lado, ele preferir seguir o Lado Negro da Força, todo indivíduo, sem exceção, tem escolha. Afinal de contas, ninguém é obrigado a nada.