O GRÊMIO E SUA GOVERNANÇA AMADORESCA

Essa de “exército de ferro, exército espartano com a alma castelhana” inventada pelo Pedro Ernesto Denardin é uma construção midiática sensacionalista que forjou uma maneira de pensar o clube como se bastasse ter jogadores baratos e brigadores pra se montar um time. Os resultados comprovam que, infelizmente, o futebol contemporâneo não permite mais competir em pé de igualdade com clubes ricos.

Hoje, o Grêmio é um clube rico em história. Contudo, o que muitos consideram como um valor atávico, intrínseco e naturalizado do nosso tricolor não passa de uma mera construção baseada em coincidências.

A primeira delas conta que o técnico precisa ser gaúcho pro time conquistar campeonatos de nível nacional e internacional. Nunca pararam pra pensar que eestão embutidos dois problemas graves nessa máxima? a) Tal pensamento desestabiliza a confiança e o apoio a um profissional de fora. Resultado: ele acaba ficando menos tempo aqui porque não recebe suporte suficiente para compreender a cultura da instituição e tampouco um plantel minimamente confiável; e b) Sempre que se contrata um treinador gaúcho de competência duvidosa, ele também acaba tendo uma sobrevida que perdoa demais uma série além do tolerável de resultados esquálidos obtidos sob a sua coordenação.

Outra mera coincidência é a de que, para se ganhar uma Libertadores, é necessário ter um “xerife” de origem castelhana: o mais “macho”, o mais forte, aquele que distribui mais pontapés, o mais malandro. De León era bandido?! Arce era mal encarado?!

A terceira grande bobagem tida como virtude: costuma-se dizer que basta termos um centromédio “espanador” e “macho”. Tirando Lucas Leiva e o atual ocupante da posição Adilson, me digam, depois de Dinho (que batia, sim, mas passava que era uma beleza) um outro centromédio que soubesse jogar bola e eu dou um Sonho de Valsa de presente. Nessa posição, é CRUCIAL saber retomar a bola e tocá-la para o armador ou, então, lançá-la para o ataque sem rompantes de Prof. Pardal. Onde se começa a impor o ritmo de jogo e onde se começa a proteger a zaga não se pode contar apenas com a virilidade. Finalmente, mais do que no miolo de zaga ou na armação, a pior posição para se ter um titular expulso ou lesionado é a de centromédio.

Pois bem: tais mitos foram repetidos à exaustão por muitas gestões sem nenhuma comprovação estatística ou científica de sucesso CONTINUADO. A curto prazo, essas escolhas obtiveram resultado. Contudo, trata-se de um modelo que desgasta-se rapidamente. Portanto, a qualidade técnica e a atitude são os fatores que realmente importam na montagem de um plantel vitorioso.

Meu medo no início da temporada está se concretizando: na base da garra sob a  tentativa de montar um time de qualidade juntando um bando de jogadores ruins e sem atitude, a botafoguização do Grêmio é iminente. Com Ruy, Túlio e outros “símbolos” de uma torcida há muito carente, o alvinegro carioca desperdiçou muitas chances de obter uma vaga à Libertadores ou de decidir uma Copa do Brasil nos últimos quatro anos em função da base emocionalmente instável que ora trabalha no Olímpico.

Como já falei no post anterior sobre a questão Maxi López, um olheiro experiente e poliglota com uma rede social ampla (técnicos, dirigentes, jogadores e jornalistas) é um cargo importantíssimo que não pode mais ser negligenciado justamente por poupar muito mais tempo e dinheiro do que se possa imaginar.

Logo, não vou me enganar e nem ao gremista que me dá o privilégio de ler meus textos: o plantel é fraco demais. Ponto. Como diria Mino Carta, é sabido até pelo mundo mineral que o clube está estendendo a latinha na calçada e que, salvo momentos esparsos de contratações baratas e certeiras, essa medida tem que ser vista como um paliativo e não como uma política permanente. Ela é o possível apenas neste triste período pós-ISL tdo qual talvez ainda levemos mais uma década  inteira até podermos nos equiparar a um São Paulo, Cruzeiro ou Inter em termos de frequencia e continuidade no pódio.

O Grêmio não vai à Libertadores em 2010. O Grêmio não vai passar pelo Cruzeiro. E não é porque eu não quero, nem porque eu sou vidente: é porque depende da sorte e não de sua competência. Mas eu não deixo de ir aos jogos. Por que? Porque, ao invés da “imortalidade” e do “alento custe lo que custe”, eu adoro correr o risco de ter dito uma grande besteira, de estar redondamente enganado, de ver o time, o técnico e a direção me fazerem morder a língua.

Enfim: pensamentos mágicos não são de agora. E não são coisa do presidente Duda, assim como segui-los não representou nenhum sucesso absoluto da gestão Odone. Em 1983, tínhamos pratas da casa (dentre os quais o maior gênio da história do futebol mundial) e craques experientes. Em 1985, tínhamos pratas da casa excepcionais, dois jovens talentos desperdiçados por Vasco e Flamengo (o que é cada vez mais comum naquela “zona” que se chama futebol carioca) e um técnico que dispensa maiores apresentações.

De lá pra cá, se tem gastado muito por jogadores bons a razoáveis que não deram certo no exterior, que ficam somente uma temporada por aqui. Isso nos obriga a remontarmos o plantel para a temporada seguinte. Porém, a falta de um especialista faz com que as negociações sejam lentas e evitam que o Grêmio consiga encontrar todas as opções disponíveis em função do seu escasso orçamento.

Enfim… Nos vemos obrigados a conviver com uma entressafra de idéias e de pessoas dentro de um contexto de penúria financeira. O Grêmio da primeira década do século 21 repete o Inter da década de 1990 e o Inter atual repete o Grêmio da primeira metade da década de 1980 e da segunda metade da década de 1990 porque, lá, houve uma verdadeira renovação. Quem havia ouvido falar de Vittorio Piffero, Fernando Carvalho ou de uma gestão de marketing composta por um vice-presidente e por mais seis ou sete diretores especializados há 10 anos atrás como protagonistas do clube vizinho?

O Grêmio, infelizmente, ainda vive ou de dinastias, ou de agregados dessa dinastias. A pretensa “democracia representativa” é tão farsesca e hipócrita dentro do clube que todo associado interessado em ser conselheiro é praticamente obrigado a rezar a cartilha desses clãs sob pena de não obter apoio para nada.

O Grêmio é um grande PMDB. Quando digo isso, não é necessariamente porque as pessoas sejam predominantemente incompetentes, porque apelem para conchavos e para o “jeitinho” ou porque sejam parentes de velhos conselheiros. Apesar desse fator ser clientelista, paternalista e oportunista, o que mais pesa nessa questão é a falta de objetivos, de plataformas, de metas e de conhecimento técnico qualificado. Quando falo em conhecimento qualificado, não me refiro a advogados, engenheiros, médicos, administradores, comunicadores e economistas mas, sim, de uma visão holística do clube. O que quero dizer com isso? Que uma doença financeira não pode ser curada com uma medida profilática voltada exclusivamente ao simplismo do binômio receita/despesa e do corte de gastos desimportantes mas, sim, a partir da conscientização e do culturamento de funcionários pagos, de dirigentes abnegados e de dirigentes profissionalizados acerca do que é e do que significa o Grêmio. Isso existe, mas precisa ser intensificado e naturalizado.

Ao mesmo tempo, a terceirização de diversos setores para não onerar o pagamento de impostos é uma das maiores mentiras do neoliberalismo econômico: na maioria das empresas públicas ou privadas com no mínimo 30 anos de atuação no mercado, tem-se a média de aumento de gastos na ordem de quase 300% com o custeio de serviços externos em detrimento da montagem de equipes funcionais especializadas dentor do próprio clube. Não, a intenção não é a de criar um cabide de empregos nem de desconfiar da competência dos contratados externos: isso, sim, é economia E investimento, já que o terceirizado, mesmo que seja gremista, não terá a obrigação nem o sentimento de ser e de fazer parte da instituição: quando sua tarefa terminar, é tchau e bênção.

Enquanto isso não mudar, as oscilações e os riscos tenderão a ser maiores do que as estabilidades e os ganhos.