RACISMO NOS CLUBES: DISCUTINDO PROCESSOS E NÃO PESSOAS

Todo clube social é excludente e possui uma origem racista. O Inter, o Grêmio, o Leopoldina Juvenil, o União, a Sogipa e tantos outros possuem, em parte de seus fundadores e conselheiros atuais herdeiros desses fundadores, um ranço racista.  Tolerar, conviver junto e aproveitar-se das qualidades e dos benefícios que funcionários e jogadores negros oferecem não é o mesmo que buscar tratá-los de forma igual.

Quem não é, não sabe o que quem é sente quando é agredido. No episódio que recente que está tirando o Grêmio para Cristo, digamos que Maxi López possa até não ter dito o que disse com uma conotação racista. Digamos também que  Elicarlos não tenha tentado fazer um bolo pra provocar a expulsão do adversário. Como defesa anti-repulsa ao Grêmio e anti-racista ao nosso atacante, a palavra de uma professora de espanhol do Instituto Cervantes, que é uruguaia e cita um dicionário de insultos argentinos. Como justificativa (seja contra ou a favor de Maxi), no calor do jogo, se diz tudo, assim como tem gente que se aproveita da lei provocando situações de má fé.

Embora não creia que o Grêmio deva dar satisfações a quem quer que seja por não ter sido um ato institucional, definitivamente, nosso clube não é o mais racista, nem o precursor do racismo, nem o incentivador do racismo no futebol, seja dentro ou fora dos gramados. E o fato não teve respaldo nem endosso da direção ou dos atletas.

Quanto a acusar ou não a mídia corporativa especializada, além de não entender nada sobre o assunto e de procurar especialistas voltados à defesa do status quo, ela ora bate, ora assopra, segundo os interesses comerciais de seus anunciantes. Não tenho achado que seu trabalho neste momento seja necessariamente antigremista nem colorado. Basicamente, vejo a ignorância em relação a uma questão socialmente complexa e delicada.

Quanto ao Inter, não adianta ter o rótulo de popular e ter um saci como mascote porque o tratamento dispensado aos negros é igual.

Em qualquer clube (seja de futebol, de bocha, de botão ou de chá), pode até nem se falar nisso nas reuniões do CD. Mas dentro de grupos políticos, em conversas informais puxadas por amigos de tempos, isso pode acontecer, seja como piada, seja como tentativa de valorizar o seu argumento e de minimizar a importância do que o outro falou usando racismo, sexismo, etc. como uma forma de justificar o injustificável.

De maneira geral, a forma carinhosa ou até mesmo os insultos trocados por jogadores antigos eram tirados de letra porque, além do peso dos insultos ser menor, o nível de escolaridade era bem superior ao atual. Havia famílias mais estruturadas e menos fragmentadas em todos os estamentos, havia muito menos desemprego e a concentração de renda era muito menor. hoje em dia, tudo – absolutamente tudo – o que é discutido por leigos, isto é, segundo a forma que o senso comum encontra de afirmar a sua visão limitada sobre qualquer assunto, é dicutido na base da ponta de faca.

Como parte integrante de uma sociedade multifacetada e envolta nas mais diversas contradições, o Grêmio não pode ser visto como a única nem como a maior coisa da vida de um torcedor. O Grêmio, como uma instituição composta por pessoas extremamente diferentes, não poderia ser diferente de ninguém: nem melhor, nem pior. A crítica que faço ao Grêmio não é prioritariamente voltada ao Grêmio nem ao Maxi mas, sim, ao gaúcho como um todo: infelizmente, vivemos no lugar mais racista e reacionário do país.