O conselheiro Antônio Carlos “Cacaio” Azambuja defendeu com argumentos que não podem ser desrespeitados nem tratados como algo que careça de seriedade o direito a voto para conselheiros jubilados. Ele falou sobre a possibilidade de aumentar o número de conselheiros, citando como exemplo o milhar do Flamengo e realmente não lhe pode tirar a razão quando pensa em conselheiros que estão com idade avançada e possuem serviços inestimáveis prestados ao clube. Pensou até na compensação entre a admissão de jubilados e a entrada de novos conselheiros. Nenhum de seus argumentos é injusto ou oportunista. Deve-se observar com bastante atenção os ítens finais de sua explanação – os aspectos formal e de mérito.
Quem é conselheiro está careca de saber que, segundo o site oficial, e conforme o estatuto atual, a instância política máxima do clube é representada pelo
CONSELHO CONSULTIVO – seus integrantes possuem mandato vitalício. É composto pelos ex-presidentes do clube, pelos atuais presidente e vice do Conselho Deliberativo, bem como por todos os ex-presidentes e ex-vice-presidentes do CD. Normalmente, é convocado pelo atual presidente do clube para decisões mais polêmicas e, normalmente, é de caráter fechado, cujo teor dificilmente vem a público. Seria a chamada “câmara alta”, cuja decisão funciona como um desempate. Atualmente, é composta por 15 membros, todos bastante conhecidos:
Adalberto Preis
André Luiz A. Krieger
Fábio André Koff (1982-83; 1993-94-95-96)
Flávio Obino (1969-70-71, 2003-4)
Hélio Volkmer Dourado (1976-77-78-79-80-81)
Jayme Eduardo Machado
José Alberto Machado Guerreiro (1999-2000-1-2)
Luiz Carlos P. Silveira Martins (1997-98)
Mauro Knijnik
Oly Érico da Costa Fachin (pres.1972-73)
Paulo Odone Chaves de Araújo Ribeiro (1987-88-89-90; 2005-6-7-8)
Pedro da Silva Pereira Filho (1961-62)
Rafael Bandeira dos Santos (1991-92)
Raul Régis de Freitas Lima
Rudi Armin Petry (pres. 1966-67)
Como se vê, são 10 ex-presidentes, que acumulam 39 anos como mandatários máximos do clube. No caso do Grêmio, é uma feliz coincidência o fato de que todos os presidentes dos anos em que conquistamos nossas maiores glórias ainda estão vivos.
O presidente Hélio Dourado já foi candidato a deputado federal pela ARENA e viajou por vários estados do país coletando a colaboração de milhares de gremistas no fechamento do Olímpico Monumental. Anos depois do seu mandato de seis anos, meu pai que, se vivo fosse, teria a sua idade, não deixava de cumprimentá-lo e de conversar com ele brevemente nos muitos sábados que ele me levava para assistir aos treinos. Assim como meu pai, centenas de sócios faziam a mesma coisa. E o mais impressionante é que o dr. Hélio raramente obteve exposição midiática após o fim de seus anos na presidência do Grêmio.
Isso se chama capital social. O capital social na Sociologia (não no Direito, que é completamente diferente) baseia-se no somatório do reconhecimento de alguém como uma liderança ou referência que surge de várias formas: a partir do seu trabalho, aparência física, carisma ou de um único evento pontual que uma quantidade considerável de pessoas considere como significativo. Trata-se de um valor subjetivo, mas que define o seu peso como formador de opinião.
O ex-presidente Cacalo está no Sala de Redação e no Diário Gaúcho frequentemente. sua personalidade é bem diferente da do dr. Hélio. Cacalo é reconhecido pelo sucesso como vice-presidente de futebol na década mais fantástica da história do Grêmio.
Já outro eterno presidente, Fábio Koff, atingiu um patamar de reputação ainda maior, pois é hoje o presidente do Clube dos 13. Lembro que, na eleição para o CD em 2004, ele contatou o presidente da Vivo, que nos emprestou quatro celulares com tempo livre para podermos fazer ligações do comitê sem custo algum. Sua rede social e o seu poder, exercidos de uma maneira muito discreta, moveu uma ação que, até aquele momento, era complicada porque estava custando muito caro aos voluntários da então chapa 2 Grêmio Vencedor.
O ex-presidente Obino, independentemente dos seus péssimos resultados de campo, já foi presidente do Banrisul e também do Jockey Club do RS. Seus contatos com o alto empresariado gaúcho certamente são bastante amplos.
Como último exemplo, o ex-presidente Odone é um político profissional, que conhece como poucos os poderes econômico, político e coercitivo que dominam a cena gaúcha.
Todos os citados, sem exceção, independentemente de iniciar/incentivar ou não os vários partidos políticos internos do Grêmio, sempre que necessário, procuram intervir ora para aglutinar, ora para dividir, conforme o contexto. A experiência, a liderança e a credibilidade que várias dezenas de conselheiros atribuem a um, a outro ou a vários desses líderes ao mesmo tempo muitas vezes resulta naquilo que chamo de “pensamento único” e que, num sentido inverso, pode ocasionar divisões excessivas.
Esses já estão eternizados no Conselho Consultivo. Com ou sem voto próprio, eles reúnem a adesão da esmagadora maioria dos conselheiros. Ainda, há conselheiros influentes que nunca foram ou serão presidentes que não necessariamente podem ser chamados de seguidores de A, B, C , D ou E. Em um outro nível (eventualmente até superior ao dos “próceres” acima citados), também apresentam um capital social de dimensões amplas.
Como considero a renovação do CD relativamente baixa, pergunto: apesar da proposta bem fundamentada do conselheiro Cacaio Azambuja, será que o direito a voto de uma camada intermediária entre o Consultivo e o Deliberativo não tenderia a tornar ainda mais lento um processo de renovação?
