A minha querida amiga Cláudia Cardoso postou no Dialógico (que ela divide com as incríveis charges do Eugênio Neves) um artigo interessantíssimo chamado “O Comprometimento da Mídia Guasca com Yeda Crusius“.
Nesse post, os comentadores* Miguel Grazziotin e Turquinho consideram a hipótese bastante plausível de que a blindagem da corrupção do atual desgovnerno bovino não se deva apenas à preservação pura e simples dos interesses econômicos e simbólicos dos patrocinadores da mídia corporativa do RS, mas também a uma espécie de contrato social de baixo nível entre corruptores e corruptos. Segundo essa premissa, não seria nada difícil supor que a RBS e todas as suas concorrentes tenham se envolvido no processo de articulação responsável pela maior dilapidação que este estado já viu.
Ora, se a blogosfera possui (ao contrário do que o prof. Celso Schröder me levou a crer em debate recente – mas isso fica para um post que estou devendo) apuração, reportagem, investigação, denúncia e opinião responsável e metodologia de documentação a partir de jornalistas, sociólogos, filósofos, geógrafos, historiadores e uma série de cidadãos críticos e responsáveis, não é impossível desconstruir essa blindagem. Se essa blindagem for rompida por um necessário aumento do espectro que essa desconstrução atualmente em curso possa vir a alcançar, logo, tornar-se-á impossível à mídia corporativa manter a sua credibilidade perante a maioria da população.
No final do post, a Cláudia escreveu algo que me levou a uma preocupação. Preocupação esta que levarei à minha cunhada Rosângela Oliveira, aos professores de cursinho da minha Lu (que vai prestar vestibular para História) e para o já quase historiador Rodrigo Cardia do Cão Uivador.
Disse a Cláudia:
“…Quem recorrer aos jornais impressos, daqui há alguns anos, não poderá avaliar a situação dramática do RS nesse período…”
Nós, leigos em História, em Biblioteconomia, em Museologia e em Arquivologia, estamos todos acostumados a reunir jornais e revistas como documentação factual devido à facilidade de acesso e à cronologia que esse suporte de informação cotidiano nos fornece há pelo menos um século e meio no Brasil.
No entanto – e aí preciso do socorro do pessoal da área de História – parece que muitos historiadores prudentemente apresentam muito cuidado para evitar tanto quanto possível a relação direta entre a confiabilidade do conteúdo jornalístico como fonte histórica e a devida transformação desse material bruto em História. consagrada. Pessoalmente, creio que isso se deva a uma série de fatores:
1) A informação mediada sempre serve aos patrocinadores da mídia corporativa – que, por sinal, são aqueles que detém o status quo. Logo, tudo o que não interessa ou é omitido, ou é manipulado, ou, ainda, não é analisado com a devida profundidade;
2) O procedimento cuidadoso leva os historiadores a terem a imprensa como uma referência menos importante – ou, então, apenas como mais uma referência dentre tantas outras amostras documentais e testemunhais. Dessa forma, me parece que, tanto quanto possível, o processo historiográfico deve buscar reunir, além das provas materiais e documentais mais corriqueiras, um conjunto de depoimentos de protagonistas, antagonistas e de herdeiros relacionadas a um determinado contexto;
3) Em um futuro não muito distante, os jornais e revistas cujo suporte material ora é o papel ou o plástico estarão em desuso por causa da dificuldade de conservação, desse material, do alto custo de armazenagem de material com volume e peso significativos e, obviamente, também em função da sustentabilidade por uma questão de sobrevivência.
Isso posto, toda a informação que circula e pode ser reproduzida digitalmente não depende mais de nenhum suporte material. Todavia, a existência e o consumo da informação digitalizada só são percebidos a partir do momento em que esse conteúdo é reproduzido em uma série de interfaces cujos suportes são todos necessariamente alimentados por uma série de formas de energia que se transformam em eletricidade. Sem energia, o que está armazenado não pode ser recuperado nem tampouco reproduzido. Em outras palavras, a informação “desenergizada” não é informação. Afinal de contas, sob essas condições, todo e qualquer conteúdo não passará de um amontoado de bits presos em suportes sintéticos impossíveis de ser recuperados.
Por exemplo: o que é um HD? O que é um pen drive? O que é um cartão de memória? O que é um DVD? A apropriação básica para a qual esses produtos foram criados perde totalmente o sentido quando o seu conteúdo não pode ser visualizado.
Então, mesmo que o problema não seja um colapso energético involuntário, podem haver cortes de energia arbitrários que funcionariam como a Inquisição da Idade Média – os apagões seriam o poder do clero e da nobreza “queimando” os “livros” da pós-modernidade.
Hoje, discute-se muito a abolição dos direitos autorais, que é uma agenda decisiva. Outra agenda diretamente relacionada a essa é a da democratização e da desconcentração da propriedade e da livre expressão dos mídias. Porém, o que eu trato neste post deverá necessariamente se tornar uma questão crucial para a permanência da memória e para o respeito a todo e qualquer tratado capaz de organizar a sociedade.
Já está mais do que na hora de discutirmos garantias legais que sustentem uma certa materialidade para a informação que – desde o começo deste século – está sendo quase totalmente digitalizada.
Portanto, a democratização da comunicação depende também da preservação do acesso tecnológico necessário aos suportes de todo o conhecimento da humanidade que não cabe mais em bibliotecas, nem nos museus e tampouco nos órgãos do Judiciário.
Com a palavra, os especialistas! ;)
Pois é, Hélio… Esse é um problema com o qual eu me deparo na minha pesquisa para o TCC: minhas fontes são principalmente jornais – e na época da ditadura, quando eram submetidos à censura. Por estar estudando futebol, o problema é um pouco menor, visto que a ação dos censores se dava mais na editoria de política. Mas o futebol não estava completamente livre: naquele famoso jogo Seleção Gaúcha x Seleção Brasileira, em 1972, foram queimadas bandeiras brasileiras no Beira-Rio, e não saiu nada nos jornais.
Sobre o (des)governo Yeda, o pesquisador poderá, no futuro, recorrer aos blogs (os jornais poderiam servir para uma análise quanto ao posicionamento da mídia). Mas, quantos blogs ainda existirão? Não é raro alguém criar um blog, escrever, e acabar deletando-o.
E os depoimentos orais, como sempre se comenta muito na História, se utilizados, o devem ser com o máximo cuidado, e sempre em conjunto com outros tipos de fonte. O relato da pessoa sobre o passado é muito influenciado pela visão adquirida sobre ele posteriormente. Dificilmente, para citar um exemplo, alguém que viveu na Alemanha nazista e apoiou Hitler irá admiti-lo hoje.
No caso do RS, com tanta gente que votou na Yeda não admitindo isso, um historiador que fizesse sua pesquisa baseado apenas em depoimentos chegaria à conclusão de que a eleição de 2006 foi fraudada… Quando, infelizmente, não foi isso que aconteceu, foi bovinagem pura e simples do eleitorado riograndense.
Hélio, não sou especialista na questão da manutenção da memória digital, mas acredito que você pode encontrar alguma coisa lendo esse artigo aqui: http://www.trezentos.blog.br/?p=2813
Também não sou especialista em teoria ou metodologia da história, mas como gosto muito do tema farei algumas considerações básicas sobre a questão das fontes, em particular a utilização das chamadas mídias tradicionais para a pesquisa histórica:
- acredito que a maioria dos historiadores hoje (já foi diferente) não acreditam que as fontes retratem verdades.
- metodologicamente falando, todo fonte está submetida à “subjetividades”, intencionalidades e ideologias daqueles que as produziram. Por isso cabe ao historiador fazer a crítica externa (saber quem fala, pra quem fala, o contexto de produção de determinada fonte) e interna, buscando discutir o documento em si.
- Na construção de seu discurso – sim, pois historiadores são produtores também de discurso – os historiadores também estão submetidos também às ideologias e subjetividades, servindo também o discurso historiográfico como fonte (a história da historiografia trata os discursos historiográficos como fontes) e não sendo um discurso, em última análise, “verdadeiro”. Por este motivo que faz parte do trabalho historiográfico a explicitação da fonte para que outros possam construir discursos (divergentes ou não) utilizando o mesmo material.
- As mídias tradicionais – bem como outros tipos de fontes – podem servir para construção do discurso historiográfico pois são produzidas por agentes sociais. Para além de buscar fatos o historiador está preocupado com a análise do discurso destes agentes sociais dentro de um determinado contexto.
- se eu prosseguir na área de história, fazer mestrado, pretendo utilizar um veículo específico da imprensa escrita (um jornal) como fonte. Nele não procurarei “verdades” com o objetivo de narrar(retratar) um determinado período histórico (isso sim seria um problema mais difícil de ser solucionado, diante desta “crise” por que passam a mídia tradicional), mas sim procurarei analisar o discurso ali representado para construir meu discurso sobre aquele agente social(o jornal).
Não sei se ficaram claros os meus breves apontamentos e sei que são limitados, passíveis de críticas e discordâncias de outros historiadores.
Forte abraço.