GRÊMIO: PERDA DO APOIO SUPERA IMPORTÂNCIA DOS RESULTADOS

Não vou me furtar a comentar o resultado de campo ou a fazer a análise tática do Grenal 378 ocorrido ontem no estádio José Pinheiro Borda. Minhas observações vem de longe. Aliás, se alguém tiver informações mais aprofundadas e até mesmo mais corretas acerca do que as que descreverei abaixo, por favor, não se furtem de debater ou de acrescentar dados.

O público médio do Grêmio no Olímpico no Brasileirão caiu de 31000 (2008) para pouco mais de 19000 (2009). Hipóteses (talvez até mesmo nessa ordem de importância):

1) Não sou eu quem invento: muitos comentaristas e repórteres da RBS e da Record já falaram e escreveram muito sobre esse fato. Na gestão anterior, a Geral tinha sala, vendia produtos piratas e recebia ingressos e passagens para uma série de viagens. Por uma série de pisadas na bola em termos disciplinares e também para fazer justiça com as ainda existentes torcidas organizadas mais antigas, ela não recebe mais benesse nenhuma na atual administração. Consequentemente, as críticas à atual direção parecem pesar muito mais nesse sentido do que propriamente por causa da falta de bons resultados;

2) Uma quantidade minoritária porém bastante representativa de torcedores da Geral insatisfeitos com quem apoiava as benesses acima fundaram a Tradição. Como resultado, temos dois gritos diferentes, dois volumes de barulho diferentes, dispersão e falta de uma liderança positiva para “puxar o bonde” e manter o estádio inteiro motivado;

3) Os ingressos da Arquibancada Inferior (antiga ou vulga Geral) foram majorados. Com isso, encareceu a entrada de muitos Sócios Torcedores – que pagam mais caro do que na Social para levar sol na cara, frequentar bares menores e acomodar-se em degraus mais baixos do que os da Social. Via de regra, um setor de acomodação pior deveria significar ingressos mais baratos no montante mensal do torcedor;

4) Excesso de zelo na relação entre clube e Brigada Militar no triste episódio contra o Cruzeiro na semifinal da Libertadores afastou totalmente – ou quase – milhares de torcedores do interior e de perfil “família” do Olímpico. A omissão e a covardia do Comando da Brigada Militar não remediam e sequer compensam pontos, sangue, braços quebrados, cavalos, espadas e escudos contra pessoas desarmadas EM PAZ e a apropriação de um espaço privado (o pátio do Estádio Olímpico Monumental) contra mulheres, idosos e crianças que queriam tão-somente assistir a uma partida de futebol. O excesso de dedos junto da gestão Duda junto ao poder coercitivo não foi e jamais será perdoada por muitos. Querendo ou não, a cicatriz desse episódio manchará para sempre as vidas dos envolvidos. Portanto, não culpo quem “pegou nojo” nem do Grêmio, nem da Brigada Militar;

5) Apesar da maravilha dos ruídos e do apoio, a torcida predominantemente mais jovem é também mais imatura e mais passional do que era antigamente. Querendo ou não, em certos momentos ela faz coro aos anciãos corneteiros da Social, pois preferem o imediatismo do resultado de agora e ainda creem em uma série de falácias – de que só técnico gaúcho pode dar certo no Grêmio; de que só jogador que dá porrada é bom e de que, se eles não creem na estratégia adotada pelo futebol, é sinal de que não há estratégia;

6) Antes um diferencial de orgulho copiado por várias outras torcidas brasileiras, hoje, a imitação dos cânticos das torcidas argentinas tira a identidade do clube. Ter garra, ser copeiro e “imortal” não é forçar a barra pra transformar a história do clube naquilo que ela não é. Além do racha na Geral, percebe-se que o estádio não canta mais com a Geral porque, para muitos, o ARGENTINISMO JÁ ENCHEU O SACO. Diga-se de passagem, nem mesmo a própria Geral canta mais. Esse foi um ciclo até interessante e mobilizador – porém efêmero, – que parece estar se encerrando. Chegou o momento da Geral se reinventar;

7) Relacionado a todos os ítens anteriores, acho que a torcida e os conselheiros perdem tempo e gastam energia demais se preocupando com o que ocorre lá no outro lado: hoje em dia, a rivalidade e o parâmetro que se deve traçar a fim de tornar-se um clube profissionalizado e de alcance global não é o Tradicional Adversário. Se eles ganham ou perdem, que comentários restrinjam-se única e exclusivamente à corneta, mas que JAMAIS voltem a balizar as ações DO CLUBE dentro e fora de campo.

Por fim, uma constatação: a de que pouquíssimos percebem que não se tem muito dinheiro mas que, nas mãos de quem já fracassou DUAS VEZES EM GESTÕES SEGUNDINAS (Meira), não vai haver criatividade nem motivação.