Passei o início da tarde desta terça-feira – véspera da partida contra o perigosíssimo Avaí – no Olímpico. Depois de um papo com a Bianca Ramos do Departamento de Comunicação e Marketing. Pra quem ainda não sabe, a Bianca é a jornalista responsável pela ação junto a blogueiros e moderadores de comunidades virtuais para a divulgação do EXÉRCITO GREMISTA (por sinal, aliste-se já!).
Em meio ao papo sobre mídias sociais, já havia ouvido um borburinho dentro do departamento: eram gritos de meninas, principalmente. Pouco depois, entrou um senhor com um filhinho pequeno, que perguntara sobre o final do horário do treino e se haveria uma janela para poder tirar uma foto do jogador com a sua filha que estava lá fora junto ao alambrado, como uma surpresa para seu aniversário de 15 anos.
Na saída, assisti a um trecho do levíssimo treino técnico no gramado suplementar. Junto ao alambrado, havia muitos adolescentes, famílias inteiras e algumas crianças – todos com sotaque do interior. Em um dia qualquer da semana, tinha a impressão de que só encontraria meninos de Porto Alegre, que acalentam o sonho de acompanhar os ídolos do seu clube de coração no dia a dia. Com a amostragem de hoje, vi que o Grêmio atrai excursões de fãs também durante a semana, não apenas aos sábados. Eram cerca de 30 pessoas grudadas na tela – os menorezinhos estavam empoleirados no trilho que serve como corrimão ou peitoril atrás da goleira mais próxima do pórtico.
Uma menina loira estava lendo em voz alta o SMS que havia recebido (talvez de alguém de sua cidade), perguntando se ela estava no treino do Grêmio. Ela respondeu também cantando suas palsvras em voz alta: “Sim, estamos no Grêmio e o Victor está na minha frente!”
Aí, eu olhei para o campo. Embora todo o treinamento fosse bem leve, o trabalho dos jogadores de linha divididos em dois grupos me pareceu muito menos interessante do que o dos goleiros. Lá no fundo, junto à área de costas para a Av. Cascatinha, metade do grupo estava com o técnico Autuori em duas filas com aqueles minicones de borracha. Outra metade estava no meio do gramado, sob a supervisão do auxiliar.
A proximidade dos goleiros e a emoção da menina me chamaram a atenção. Victor “The Wall“, Marcelo Grohe e Alessandro (que me surpreendeu pela sua estatura pouco imponente em comparação ao titular e ao seu reserva imediato) estavam catando cruzamentos da intermediária e do escanteio, todos chutados pelo preparador de arqueiros Francisco Cersósimo.
Eles estavam bem próximos da gente: coisa de três metros. O exercício funcionou muito mais como um aquecimento do que como um teste de reflexo, concentração, pressão, impulsão e técnica. Foi pouco emocionante, mas deu pra perceber que, naquelas sequências de três intervenções para cada goleiro, Victor Muralha é não apenas o mais alto, mas o de personalidade mais marcante: todos os três são bons e discretos, mas o “EU!” do Victor quando vai para a bola era dito com uma voz mais forte do que os outros dois.
Dali, peguei um T2 na Cascatinha e vim embora, à espera do próximo T2 no final da tarde de amanhã, quando estarei me dirigindo para o jogo válido pela 32ª rodada do Brasileirão 2009.
Não sei se aprendi alguma lição em meio a um treino sem graça diante de um público tão pequeno. Mas pude perceber detalhes que – normalmente – passariam despercebidos:
– Apesar da assistência discreta (não ouvi ninguém gritar, cantar, aplaudir ou chamar nenhum atleta), aquelas pessoinhas vieram de fora de Porto Alegre só para ver uma movimentação banal. Mas, mais do que isso, estavam muito perto de seus ídolos vivenciando o clima do Estádio Olímpico Monumental. Como muitos daqueles provavelmente não sejam sócios e/ou não venham com frequência para cá, sua presença nos jogos deve ser bastante eventual. Enquanto isso, independentemente do momento ruim na tabela de classificação e de mais um ano sem títulos, muitos torcedores que estão aqui reclamam de barriga cheia de uma série de coisas que não são importantes. Digo isso num sentido social mais amplo, não em relação ao Grêmio em si;
– Não importa se o jogador é high profile tipo Beckham ou low profile tipo Cafu: deve fazer um bem danado ao ego ser tietado com respeito e com carinho por milhões de desconhecidos que deles só exigem simpatia, um pouquinho de atenção e (acima de tudo) que cumpram com a sua obrigação dentro de campo. Deles é só isso o que se espera;
– Seja no Real Madrid, seja no Galo da Borborema, essa rotina de treinos muda muito pouco. O que é aperfeiçoado por especialistas mais qualificados e o que flui mais rapidamente em função de uma infraestrutura mais adequada são detalhes. Esse trabalho todo é fundamental, sim. Mas ele é um momento extremamente maçante, repetitivo e distante da realidade do jogo. Metodologias à parte, se passa algumas décadas da vida em meio a um rol de atitudes mecânicas voltadas para aquele objetivo;
– Pra terminar, penso se o Victor Muralha, por mais que ele confiasse no seu taco e fosse ambicioso imaginaria um dia estar aqui no Olímpico e na Seleção Brasileira vindo do interior de São Paulo sem ter passado antes por um grande clube do centro do país e sem estar atuando no exterior. O Souza, então? Menino pobre lá da Paraíba, um sujeito simples e franco…
Quando se passa um filme da vida do torcedor, do dirigente e do atleta, acho que esses detalhes ordinários também ficam…