Caríssimo interagente,
Gostaria de saber se estás disposto a financiar esse projeto, pois irei tocá-lo adiante independentemente de conseguir entrar no doutorado ou não e independentemente do fato de obter uma bolsa de estudos ou não, caso aprovado. Trata-se de um trabalho investigativo que exige dedicação exclusiva e demanda algumas viagens para entrevistas e para apresentação de artigos em congressos nacionais e internacionais da área da Comunicação, investimento na aquisição de livros e – obviamente – um certo valor para subsistir dignamente.
Creio que há uma parcela substancial do pequeno comércio local, das apaixonadas torcidas, de grande parte dos dirigentes e até mesmo da mídia corporativa com dificuldade de conseguir compreender uma maneira diferente de mudar a correlação de forças dentro dessa disputa. É um trabalho que – certamente – interessa tanto à academia quanto ao mercado.
Há poucas semanas, escrevi três posts sobre a economia política da comunicação no futebol brasileiro. Sugiro a leitura dessas partes (I, II e III) a fim de te situares dentro da abordagem preliminar de onde parte a investigação do meu projeto de tese de doutorado.
Minha intenção é proporcionar aos clubes brasileiros uma chance real de contribuir para que eles deixem de ser o lado mais fraco da corda ou por conveniência, ou por subserviência a outros interesses contidos dentro dessa relação com a TV – imagino eu sob condições que podem trazer-lhes vantagens a curto ou a longo prazo que ora desconhecemos.
Embora saiba que há uma ampla gama de profissionais das áreas do Direito, da Economia e da Administração diretamente envolvidos nessa dinâmica, creio que posso oferecer uma contribuição diferenciada.
Na tese (que durará entre 30 e 48 meses) abordarei as relações econômicas e políticas entre o cartel que transmite o Brasileirão composto pela Rede Globo (SporTV, Net, Sky, GloboEsporte.com) + Band. Ainda não sei ao certo se haverá tempo e conteúdo suficiente para poder abordar vários – ou até mesmo todos – os integrantes do Clube dos 13 e se poderei estender a pesquisa também para quem transmite os principais campeonatos estaduais, a Copa do Brasil e a Libertadores da América (isto é, a totalidade das competições televisionadas para todo o território nacional envolvendo os grandes clubes do futebol brasileiro).
Muito provavelmente, deverei me restringir ou apenas ao Brasileirão, ou apenas à relação entre Grêmio, mídia especializada, torcedor/associado/consumidor nessa dinâmica de tensão econômica e social entre o esporte que representa um dos maiores fatores de identidade regional e nacional em relação ao campo social que potencializa a publicização dos atos do campo futebolístico.
Caso parta para a investigação acerca das relações entre TV e clubes que envolvam outros campeonatos, terei então que analisar a dinâmica que envolve outros atores. Por exemplo: a Rede Globo transmite Brasileirão, Copa do Brasil e Libertadores; os clássicos e as finais dos campeonatos Paulista e Carioca para todo o país. Já os campeonatos Gaúcho, Catarinense, Paranaense, Carioca, Paulista, Mineiro, Baiano e Pernambucano são transmitidos pelas emissoras locais, todas elas afiliadas à Rede Globo. Com isso, a estrutura do Pay-Per-View (Pague Para Ver) vinculada à Net (operadora de TV a cabo com parte de seu capital proveniente da Rede Globo) permanece verticalizada. No caso do RS, a RBS – que já foi detentora dos direitos do Gauchão com exclusividade – hoje precisa dividir espaço com a Rede Record. E, recentemente, a Globo também precisou dividir com a Record e com a ESPN Brasil a transmissão da Copa do Brasil pelo menos até 2011.
No caso da Copa Libertadores (principal certame de clubes das Américas), a exclusividade da Globo é bastante prejudicial aos interesses dos torcedores dos clubes brasileiros nela envolvidos: embora o SporTV transmita toda a competição – inclusive jogos entre clubes estrangeiros – sem vender jogos pelo sistema PPV, os jogos em TV aberta pela Rede Globo e suas afiliadas contemplam quase sempre os mercados demográfica e economicamente mais prósperos do Brasil, veiculando massivamente apenas os jogos de ou entre clubes do eixo RJ-SP, deixando de lado até mesmo clubes tradicionais na competição vindos de outros estados, em prejuízo dos clientes e dos aficcionados de Grêmio, Cruzeiro e do Tradicional Adversário.
Meu trabalho certamente estará concluído antes da Copa de 2014. A título de comparação, certamente trarei dados acerca da relação entre os clubes das séries A da Argentina, da Itália, da Espanha, da Alemanha, de Portugal e da Inglaterra (os mercados mais midiatizados do futebol mundial). Afinal de contas, todos os movimentos dos atores refletem a correlação de forças determinada pelos atores hegemônicos em nível global.
Contudo, a entrada do Estado como protagonista retirando das corporações midiáticas o monopólio das transmissões esportivas na Argentina significa o começo de um novo fenômeno que, de uma maneira ou de outra, poderá até alterar a correlação de forças entre a TV e os clubes não apenas no Brasil, como em outros países.
Ainda munido de poucas informações, já é possível tecer algumas considerações não-conclusivas sobre o trabalho nas indústrias da comunicação e – consequentemente – também sobre o papel da comunicação na criação de uma divisão internacional do trabalho (Mosco 1999 p. 97) nesse nicho relacionado às transmissões dos jogos de futebol profissional dos grandes clubes brasileiros.
Por exemplo:
Ainda sob uma forma muito incipiente, colhi algumas informações junto ao diretor de marketing do Grêmio Cesar Pacheco as quais já postei anteriormente (repito os links novamente: aqui, aqui e aqui). Em um primeiro momento, descobri que:
– Os clubes, sempre endividados, entraram no círculo vicioso de antecipar as receitas de TV que lhes cabem no ano seguinte para fechar o orçamento do exercício atual com o menor prejuízo possível. Assim, tornam-se reféns da corporação midiática, que exige em troca renovações praticamente “automáticas” do contrato, mantendo o monopólio (ou oligopólio) intacto e repleto de poderes;
– A TV exige gramados verdejantes e supõe que, quanto menos jogos forem disputados, menos buracos haverá. Dessa forma, os clubes estão impossibilitados de realizar partidas preliminares com as suas categorias de base. Isso impede que o consumidor direto (isto é, quem paga ingresso e/ou mensalidade de sócio e comparece aos estádios) reconheça as revelações do futuro e impede os clubes de exporem seu patrimônio móvel e intangível para o grande público. De certa forma, esse poder de fogo da televisão detentora dos direitos de transmissão das partidas de um determinado certame retarda ou até mesmo reduz o potencial de venda das revelações que poderão render aos cofres das agremiações de futebol profissional um montante capaz de proporcionar a elas um percentual na estimativa de receitas anual bem mais gordo do que aquele que é pago pelas emissoras;
– Segundo pesquisa de mercado elaborada por uma ampla rede de marketing ligada ao Grêmio, um dos grandes atrativos para os pais de pequenos torcedores fomentarem a sua paixão (que, consequentemente, gerará mais consumo dos produtos do clube) é a possibilidade de o clube proporcionar uma recordação inesquecível: permitir que os pequenos entrem em campo junto com os jogadores antes do início das partidas. Essa pequena atitude pode render a associação de muitos torcedores que vivem em cidades distantes da sede do time de coração. Até recentemente, pelo menos o Grêmio e o Tradicional Adversário costumavam permitir a entrada de algumas centenas de torcedores mirins com os seus times em campo. Informações ainda desencontradas que chegaram até mim dizem que ou o consórcio detentor dos direitos televisivos ou o Ministério Público Federal (ou ambos – talvez até mesmo com influência de um sobre o outro) só permitem agora que os clubes só deixem 22 crianças entrarem em campo.
Acho que é necessário investigar mais as tensões entre os poderes de quem banca e de quem faz o futebol. Os dados divulgados e o atual rateio para os clubes leva a conclusões simplistas. Afinal de contas, o assunto é extremamente complexo e possui relevância e seriedade absolutas em função do fato de alterar profundamente relações políticas, socioeconômicas, ambientais e culturais de variados sistemas, desde a cidade-sede de um clube de futebol até um estado ou até mesmo um país.
Isso sem contar que seremos sede de uma Copa do Mundo e de uma Olimpíada na próxima década, em um intervalo de apenas dois anos.
Repito novamente o pedido inicial: gostaria de saber se há alguém disposto a financiar esse projeto, pois irei tocá-lo adiante independentemente de conseguir entrar no doutorado ou não e independentemente do fato de obter uma bolsa de estudos ou não, caso aprovado.