OS ANOS DE OURO DO FUTEBOL DE GANA


History of Football – Football Culture Ghana

A história é a ciência humana que mais reverencio. A partir dela, costumo constatar que nada surge por acaso.

No início do documentário acima, a narração do vídeo pressupõe que Gana é o país mais bem-sucedido do continente no futebol e que a sua história começou com o já extinto clube Excelsior, em 1903 (Por acaso o ano indica alguma coisa aos gremistas? E o atual fornecedor esportivo, hein?!). Os britânicos fundaram a Football Association of Gold Coast em 1922. Pra quem não sabe, até a sua independência em 1957, Gana era então chamada de Costa do Ouro pelos colonizadores ingleses. Hoje, Gana é o segundo maior produtor de cacau do planeta. O maior produtor é a Nigéria.

O clube ainda existente mais antigo de toda a Àfrica Ocidental é o Hearts of Oak (Corações de Carvalho – a árvore), de 1910, campeão africano de 2000. O Hearts foi o primeiro campeão nacional profissional, em 1956. Porém, um perigoso rival do norte também passou a merecer todas as atenções: é o Asanté Tokoto, de Kumasi, campeão africano de 1970. Não-raro, ambos são os representantes mais assíduos de Gana na CAF Champions League. Embora haja outros clubes nas mesmas cidades, em princípio, o futebol ganês desenvolveu-se  a partir de torneios locais mais especificamente em Acra e em Kumasi. Daí o enorme contraste usualmente verificado na tábua de classificação do campeonato nacional entre os times de Acra e Kumasi em relação aos demais.

O futebol africano floresceu da mesma forma que ocorreu no Brasil (não por acaso o segundo maior contingente negro do mundo, não por acaso uma terra de péssima distribuição de renda): pelos campos de chão batido, sem chuteiras nem arquibancadas, a juventude se unia e todos assistiam maravilhados aos jogos dos times adultos.

Em meio aos festejos da independência em 1957, a lenda do futebol inglês, sir Stanley Mattews, participou de um jogo com os Hearts em Acra e foi então coroado como o “Rei do futebol em Gana”. Era interessante ver que – na maioria dos jogos –mesmo em estádios de chão batido (a maioria deles sem arquibancadas), o público parecia respeitar bastante o jogo e não tinha cara de quem invadia o campo antes do apito final.

O presidente de Gana, o Dr. Kwame Nkrumah (1909-1972), percebeu dois detalhes: 1) pipocavam independências políticas de várias ex-colônias inglesas e francesas por todo o vasto continente africano entre o final da década de 1950 e o início da década de 1960; 2) havia uma enorme diversidade cultural, distâncias geográficas bastante consideráveis e muitas barreiras linguísticas; 3) considerava positivo tentar unir a África em uma grandiosa nação. Para isso, apostou que o futebol seria o grande catalisador para a fundação dos Estados Unidos da África. Portanto, o presidente ganês pretendeu – sem sucesso – realizar uma atualização do chamado Panafricanismo. Com esse intuito, criou o seu próprio time com interesse político, o The Real Republicans, no início da década de 1960. Nkrumah formou seu time a partir da base sólida do vitorioso plantel dos Hearts. Em 1958, houve inclusive uma reunião entre vários líderes do continente  para tratar do assunto – não por acaso com sede em Gana…

Em se tratando de um dos raros países africanos que, entre meados da década de 1950 e meados da década de 1960 pouco sofreu com ditaduras e guerras civis mesmo dentro de uma pequena área superpopulosa com várias etnias e seus diferentes dialetos transitando livremente, o ambiente pareceu bastante favorável para a aparição de um futebol de qualidade – ainda que pecasse pela falta de organização administrativa, financeira e  tática, além de uma desscoberta muito tardia de seus principais valores pelos principais polos futebolísticos europeus.

Enfim… Como diz o vídeo, o futebol era uma forma de autoexpressão diante do poder colonial e das idiossincrasias do tribalismo.

[Taí um bom tema pra investigar: será que as condições políticas e sociais de Gana também não foram semelhantes na Costa do Marfim, na Nigéria e em Camarões? Afinal de contas, as semelhanças são bastante grandes, apesar desses vizinhos não terem tido nenhum presidente com ambições tão grandes quanto as de Nkrumah]

Notem, por volta dos 06″20′ do vídeo que mostra um trecho de um jogo daquela época, que havia uma enorme estrela negra nas costas das camisas dos jogadores da seleção de Gana, caracterizando aí o carinhoso apelido The Black Stars.

[o apelido The Black Stars remete ao navio mercante estadunidense Black Star, que, de 1919 a 1922, influenciado pelo movimento pacifista anti-segregacionista, fez o caminho de volta da América para a África, levando de volta à terra-mãe muitos negros. Por linhas tortas, isso livrou alguns negros do terrível racismo da época, onde imperava o terrorismo racista da Ku Klux Klan, que predominava nos estados do sul dos EUA. O então todo-poderoso do FBI, Edgar Hoover, pôs espiões infiltrados nas viagens do Black Star e encerrou a linha em 1922]

Por incrível que pareça, o momento mais marcante da história do futebol ganês em todos os tempos não consta no documentário: o heróico empate contra o todo-poderoso Real Madrid (de Alfredo Di Stefano, Gento, Puskas, etc.) pentacampeão espanhol e europeu em 1960 por 3×3.

Em 1961, na tentativa de nacionalizar o futebol ganês como exemplo para o panafricanismo, Nkrumah trouxe como técnico um ex-jogador ganês do Hearts vindo do Fortuna Düsseldorf. Seu nome era Charles Kumi Gyamfi. Aliás, em 2006, comemorou-se o cinquentenário do intercâmbio futebolístico entre Gana e Alemanha, no qual usualmente o país africano mandava jogadores e recebia treinadores. O caso de Gyamfi foi sui generis, pois representou a inversão dessa lógica.

[No próximo post, falarei sobre outro fruto desse intercâmbio – o craque Anthony Yeboah, que marcou época na segunda metade da década de 1980 e no início da década de 1990 no Eintracht Frankfurt.]

Os Black Stars eram os embaixadores de Gana: espalhavam a palavra do Panafricanismo que tanto Nkrumah desejava tornar realidade. Em 1963 o pequeno país era então um dos mais prósperos de toda a África: não apenas sediou como ergueu a CAN pela primeira vez. Em 1965, o bicampeonato veio movido pela premiação de uma casa nova para cada atleta, feita pelo presidente Nkrumah.

No mesmo ano, o ex-craque local Osei Kofi relata (por volta de 7′ do vídeo) que os Estrelas negras foram convidados para um amistoso de independência do Quênia e deram uma sonora sumanta no adversário (13×0). Foi a visita mais indigesta que o futebol ganês já realizou. Kofi foi escolhido como o jogador africano do ano e recebeu um televisor e várias honrarias de estado como prêmio.

Porém, o futebol ganês passou por um enorme ostracismo a partir do gole de estado que derrubou Nkrumah em 1966, durante uma viagem à China.

[China -> comunista -> "Estados Unidos da África" -> independência + união = v. Zeitgeist Addendum, especialmente a questão dos "assassinos econômicos]

BLOG HELIOPAZ NA CAN 2010

mascote oficial da CAN 2010 em Angola

Palanquinha: mascote oficial da CAN 2010 em Angola

Pela segunda vez em quase quatro anos de blogagem, serei o amador mais ligado na Copa Africana de Nações em todo o Brasil. A primeira CAN que acompanhei foi a de 1992, no Senegal, vencida pela Costa do Marfim de Traoré e Fofana. Na minha opinião, ambos jogam mais do que todos os parceiros de ataque que o atual ídolo Didier Drogba possui.

A vicecampeã Gana merece todos os créditos. Afinal de contas, não apenas perdeu a decisão somente nos pênaltis para os Elefantes como os Estrelas Negras contavam com verdadeiros craques da estirpe de Abédi Pelé (o maestro da Champions de 1991-1992 conquistada pelo Olympique de Marseille), Anthony Yeboah (a quem muito acompanhei na Bunbdesliga dos tempos em que o Entracht Frankfurt era a bola da vez) e a promessa multicampeã nas categorias de base que, infelizmente, não vingou no profissional: Nii Lamptey. Bons e velhos tempos em que a TV Cultura transmitia pelo canal 7 em UHF para Porto Alegre e eu ainda morava na saudosa casa da R. Germano Petersen Jr. 508, no bairro Auxiliadora (a melhor casa da melhor rua do melhor bairro da melhor época da minha vida). Os comentários eram feitos por José Trajano e por Flávio Prado, com reportagens de Helvídio Matos. Não por acaso, Trajano é o diretor de jornalismo dos canais ESPN e Helvídio Matos vai para a sua 11ª CAN!

A experiência anterior na edição de 2008 no Egito foi bastante gratificante, apesar da simplicidade de poder passar em casa assistindo a todos os jogos pela ESPN Brasil blogando e baixando uma torrente infindável de notícias sobre o certame ao mesmo tempo.

Na falta de dinheiro para poder participar ao vivo e também para produzir matérias sobre a realidade da África (que, segundo o brilhante trabalho da série Nova África, cuja pesquisa foi feita com muito carinho pela querida profª Conceição Oliveira, mais conhecida como a blogueira Maria Frô, está nos mostrando semanalmente), restrinjo-me a tecer meus comentários sobre como vejo o futebol. Também procuro intercalar as informações redundantes facilmente obtíveis em todo portal de conteúdo a partir de pesquisas históricas que tenho o prazer de empreender a fim de informar melhor sobre os  ídolos do passado.

Então, temos encontros marcados do dia 10/01 ao dia 31/01 neste mesmo blog ;)

POR UM DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL URBANO NO BRASIL

O Luiz Carlos Azenha postou no Vi o Mundo um post intitulado "O MODELO FALIU. VAMOS CRIAR OUTRO?" Nele, o jornalista convida seus interagentes a assistirem à série de reportagens sobre as mazelas da Marginal Tietê em São Paulo, veiculadas durante esta semana de segunda à sexta no Jornal da Record a partir das 20h em cinco episódios. Os dois primeiros já estão disponíveis no portal R7 aqui.

As últimas semanas tem sido meteorologicamente cruéis com a maior cidade da América Latina por causa do excesso de chuvas. A profusão de concreto e asfalto faz com que o automóvel e a construção civil tenham um valor mais alto do que o da convivialidade. Por isso, as áreas de várzea tem virado habitação de pobres. Por desinteresse das administrações do demotucanato, os alagamentos tem causado perdas irreparáveis para quem mal recebe o suficiente para comer. Pior: tem-lhes trazido doenças medievais. Assistam – porém evitem fazê-lo durante as refeições.


No vídeo do último link, notem que a Globo, apesar de ter feito jornalismo de verdade depois de muito tempo (e de não ter exposto a matéria para o país inteiro - foi apenas no SPTV, o Jornal do Almoço deles), NÃO ENTREVISTOU E SEQUER CITOU O NOME DO PREFEITO, DO GOVERNADOR E NEM TAMPOUCO DE SEUS PARTIDOS.

Mas, para não dizer que não falei de flores, eis o belíssimo exemplo de Seul. Os coreanos, depois de décadas de uma industrialização frenética, pisaram no freio de mão e passaram a considerar o ser humano como fonte de todo desenvolvimento – talvez esteja aí a maior virtude da sua cultura, que não é baseada no moral judaico-cristão e consegue reagir contra o taylorismo-fordismo. A recuperação das margens do rio Han é simplesmente notável e prova que é possível pensarmos assim também para as cidades brasileiras.

Também não poderia deixar de incluir este documentário na discussão, que envolve consumismo e educação. Afinal de contas, a criança precisa deixar de ser a alma do negócio, pois serão eles quem irão tocar adiante o que deixamos para elas.

Em relação a Porto Alegre, digo que se deve difundir essas informações e evitar, a todo pano, que se altere ou se mantenha o já deturpado PDDUA.

Aliás, conheço arquitetos que devem ter passado por obrigação pelas disciplinas de Urbanismo que pensam que o projeto Pontal do Estaleiro devia ter sido aprovado por causa do lixo e dos "marginais"...

Enfim... O problema é que custa tempo e dinheiro fazer o que seria mais plausível para convencer essa massa de consumistas: elaborar projetos alternativos para locais e necessidades públicas e ambientais ainda mais extremas.

O desafio fica para as faculdades de Arquitetura e Urbanismo e também para as de Comunicação, Direito e Ciências Sociais: já que a maioria da classe média precisa tocar a sua vida no comércio e nos serviços, os pesquisadores e os estudantes precisam divulgar para a sociedade e não apenas para os seus pares a sua criatividade e as suas experiências.

Porém, o individualismo e o consumismo geram o descolamento da sensação de comunidade, de rede e do compartilhamento solidário do espaço que verificamos agora.

Costumamos nos reunir dentro de universidades e aprendemos com os palestrantes acadêmicos. Porém, quantas vezes se para para questionar e cobrar da academia uma atitude mais social?

RESOLUÇÕES DO BLOG HELIOPAZ PARA 2010

2010 está logo ali. E, como não poderia deixar de ser, este blogueiro também tem algumas resoluções e metas para o próximo exercício fiscal. Porém, não estou entre aqueles que creem ou que tudo será “melhor” ou “pior” do que os anos anteriores – muito embora eu tenha tido muito mais erros do que acertos em 2009. Afinal de contas, basta conseguir articular uma conjunção ideal de hora certa, pessoas certas e lugar certo para fazer as coisas acontecerem seja apenas para hoje, seja com reflexos para os próximos anos. Como isso pode – ou não – surgir a qualquer momento, não é o ano em si que determina esses fatores.

Depois de três anos e meio blogando regularmente e sem nutrir nenhum esforço pragmático para me tornar um “problogger“, já escrevi e li muita coisa na blogosfera. Entre erros e acertos, experimentei mudanças de agenda, mudanças de pauta, mudanças de layout, mudanças de estilo e mudanças de endereço. Todas foram escolhas difíceis, pois sempre tive perdas e ganhos bastante significativos. O objetivo agora é definir um foco e obter primeiro, uma regularidade na audiência; depois, obter um crescimento continuado. Porém, é impossível traçar metas mensuráveis, pois a web é altamente fluida.

Apesar do leque de conhecidos e de investidas presenciais cada vez mais frequentes pela sustentabilidade, pela democratização dos meios de comunicação, pela educação mediada por computador e também pela política agora não mais partidária, a minha praia nesse campo é o ciberativismo. Não exatamente relacionado a esses temas mas, sim, na questão da divulgação e da crítica de eventos que considero relevantes. Em termos acadêmicos e sociais, vou investir mais em posts sobre esses temas, pois eu sempre quis contribuir para o empoderamento da sociedade em um momento de extrema fragmentação e descrença.

Durante o mestrado, analisei na minha dissertação 10 blogs gaúchos independentes com viés de esquerda. São amigos inteligentes, sensíveis e totalmente “do bem”, com os quais me relaciono presencialmente e é um enorme prazer tê-los como parte da minha vida. Cada um  traz na sua especificidade e na sua abordagem conhecimentos bastante interessantes. Esse foi um grande ganho que tive ao apostar na minha presença online. Porém, me considero um observador externo pouco competente e um participante pouco ativo, além de acreditar que é necessário utilizar abordagens menos ortodoxas para ampliar o espaço público digital. Acho que é na proposta de novas formas de participação online e na observação presencial dos seus desdobramentos que eu posso contribuir, pois o “mais do mesmo” infelizmente não tem surtido mais efeito nas sociedades urbanas conectadas.

Obviamente, muitos interagentes já perderam o interesse parcial ou definitivo no meu blog por eu ter optado por falar mais em futebol. Porém, não há assunto mais apaixonante para mim do que o esporte bretão. Acho que acumulo bastante conhecimento e uma visão diferenciada acerca da apropriação social e midiática do esporte. Então, sinto que as análises técnicas e táticas sob o meu olhar precisam ser feitas com um viés diferente do dos comentaristas profissionais. Do contrário, serei apenas mais um a repetir a mesma ladainha.

Gosto muito, acompanho e respeito demais os blogs gremistas cujo objetivo seja atiçar a torcida e conversar mais intimamente com a gurizada. Eles possuem um papel muito importante. Contudo, prefiro mostrar como eu enxergo o nosso Grêmio a partir de uma perspectiva mais política, mais mercadológica e mais propositiva. Afinal de contas, o meu papel de torcedor, de fã, de extravasar a emoção e de evangelizar novas gerações de torcedores se faz no olho no olho, no Olímpico e contribuindo mensalmente com o clube. O algo a mais está aqui nos meus textos, na interação nos comentários do Sempre Imortal e  em contribuições profissionais voluntárias ou não sempre que for solictado.

Em um período mais despreocupado no qual não tinha grande preocupação com o futuro, realizei muitas experiências e blogava mais frequentemente. Obtive grande visibilidade mundial  durante a Copa de 2006 e também no acompanhamento da UEFA Champions League, da Premier League (Inglaterra), da Bundesliga (Alemanha) e nos posts que retratam um pouco sobre ídolos imortais (p. ex.: Mathias Sindelar e Rabah Madjer) e também momentâneos espalhados pelo mundo. Tanto o factual global como a abordagem histórica me fascinam, pois demandam atualização constante e paixão pela pesquisa. Hoje, com menos tempo disponível, essas pautas serão retomadas pontualmente.

Há um monte de assuntos bem diferentes e atrasados pra tratar lá: outras pautas sobre o Grêmio; a retomada do acompanhamento que faço sobre o futebol africano com a proximidade da CAN (Copa Africana de Nações); exemplos de publicidade esportiva bem utilizada no exterior; mais considerações sobre as eleições no Flamengo (que valem como exemplo e como reflexão para o Grêmio) e assim por diante.

Sou independente, pois não pertenço a nenhum grande grupo midiático. Sinceramente, os temas e a abordagem que me interessam dificilmente agradam a comentaristas de resultados que se acham estrelas e espantam os patrocinadores tradicionais. Dá trabalho, não ganho um centavo com o blog e ele toma tempo das minhas atividades acadêmicas que, muitas vezes, ficam prejudicadas. Mas estou em busca de uma maneira de viabilizar financeiramente esse trabalho. Afinal de contas, quero viajar, conhecer gente, aprender muito sobre futebol com um viés mais global pra poder contribuir com o Grêmio e poder bancar vários cursos, tais como o de Gestão Esportiva que nossos ídolos Roger e Danrlei estão cursando na atualidade; a nova turma de 2010 para o curso Kick Off (Jornalismo + Business) da Perestroika que o Minwer concluiu recentemente e outros; patrocínios para cobrir eventos no exterior, etc. Tudo isso custa muito dinheiro e, infelizmente, ainda não posso viabilizar.

Obviamente, não acredito em “receitas de bolo” e tampouco em imitar o estilo ou a temática dos blogs que admiro. Mas cabe listá-los e indicá-los com bastante entusiasmo. Enfim, fora os blogs do Grêmio, gosto muito do Clube da Bolinha (as gurias são talentosas, criativas e trazem uma visão mais assertiva do futebol), do Almanaque Esportivo (do meu amigo Alexandre Perin que, a exemplo de mim, também não é jornalista de formação e gosta de temas diferenciados) e do Preleção (análises táticas decentes) no ClicEsportes. Considero também vários blogs sobre crítica e sobre curiosidades tais como: Paulo Calçade, Mauro Cezar Pereira, PVC e Futebol no Mundo da ESPN Brasil; Juca Kfouri e Vitor Birner no UOL Esporte; Lédio Carmona, Expresso da Bola, Memória E.C. e Brasil Mundial F.C. no GloboEsporte.com. Uma nota especial vai para o Impedimento, que é 100% independente e de jovens jornalistas aqui do RS.

Enfim, há muito o que fazer. Por hora, preciso de ajuda para articular melhor todas essas questões, pois não sei exatamente a quem recorrer.

PATRÍCIA AMORIM: O QUE A ELEGEU PRESIDENTE DO FLAMENGO?

Adianto que, neste post, não pretendo avaliar se o formato de eleição presidencial do Flamengo é melhor ou pior do que o do Grêmio. Aqui, busco apenas expor as particularidades que foram expostas a partir da eleição de ontem no clube que (por enquanto) ainda conta com a maior torcida do mundo pra podermos traçar um paralelo. Como a quantidade de clubes tradicionais, multicampeões e de massa no Brasil é grande, pra podermos melhorar os processos dentro do Grêmio, considero importante saber o que os outros estão fazendo.

Outro adendo: buscar o aperfeiçoamento não significa afirmar nem que a maioria dos outros está mais adiantada, nem que o Grêmio esteja mais adiantado em relação a outros clubes. Simplesmente vejo como necessária a mudança de tempos em tempos, com o intuito de facilitar a fluência e a transparência nos processos que envolvem a política gremista.

O Alexandre Mello e o Kaspary podem contribuir melhor, assim como os conselheiros responsáveis pela comissão eleitoral quanto à quantidade de associados aptos a votar. Na eleição presidencial tricolor de 2008 que consagrou a vitória do presidente Duda Kroeff, 5365 associados tricolores compareceram às urnas. Segundo o estatuto, a cláusula de barreira de 30% e as articulações que cada chapa conseguiu a seu favor dentro do Conselho Deliberativo filtraram apenas duas candidaturas para a votação direta pelo associado: Kroeff venceu com 2909 votos contra 2452 de Antônio Vicente Martins. Houve apenas um voto em branco e três nulos.

No Flamengo (cujo estatuto contém particularidades bem interessantes das quais falarei em outra oportunidade), de um colégio eleitoral de apenas 5315 associados com suas obrigações em dia, apenas 2342 definiram a vitória da oposicionista Patrícia Amorim.

O clube carioca teve SEIS candidatos à presidência. Contudo, o pleito polarizou-se em torno do situacionista e atual vice-presidente campeão brasileiro Delair Dumbrosk e da presidente eleita. Segundo o GloboEsporte.com, Patrícia recebeu 792 e Dumbrosk 699 votos. Os candidatos minoritários tiveram, respectivamente, 388, 311, 89 e 49 votos. Houve ainda 11 votos em branco e três nulos.

Fiquei estupefato com esses números tão baixos. Afinal de contas, o Flamengo é oito anos mais velho do que o Grêmio e a população do Rio de Janeiro é quase quatro vezes maior do que a de Porto Alegre, além de a Cidade Maravilhosa possuir uma tradição muito maior da prática recreativa de vários esportes (algo que o Grêmio não leva a sério mas que faz parte da vida do flamenguista). Tudo isso sem contar o imensurável apelo midiático de um clube cuja sede coincide com a de um dos centros históricos, culturais, políticos, comerciais e turísticos mais importantes do hemisfério ocidental, berço do rádio e da televisão no país.

Até onde avancei no estatuto rubro-negro (ou seria rubronegro sem hífen?), todas as categorias de associação com suas obrigações em dia a partir de dois anos (para sócio proprietário) e a partir de três anos (para as demais categorias) tem direito a voto.

Diferentemente do Grêmio, o Flamengo não é um mero clube de futebol: é um clube social de classe média e alta voltado ao lazer e aos esportes olímpicos, tal qual o União, que é o clube com o maior número de associados em Porto Alegre (mais de 100 mil – todos da espécie Homo sapiens sapiens). Chega a ser inacreditável imaginar apenas 5318 sócios mais três ou quatro dependentes/cada usufruindo do clube mais importante do país, um dos poucos reconhecidos no mundo inteiro.

Creio que esta informação interessa especialmente ao Cacaio Azambuja: o CD do Flamengo possui um número ILIMITADO de membros permanentes, composto pelos membros das categorias Grande-Beneméritos, Beneméritos, Eméritos, Remidos e Proprietários – estes com pelo menos dois anos de vida associativa ininterrupta (Art. 86), sendo que apenas os Proprietários que desejarem ingressar no CD precisam manifestar-se por escrito nos três últimos meses do ano em que houver eleições para o CD (§ 1º). Quanto aos membros transitórios, são, NO MÍNIMO (Art. 87), apenas 120 conselheiros – mas poderão ser mais – pertencentes às categorias Patrimonial, Laureado e Contribuinte.

A pulverização entre seis candidatos trouxe um dado interessante: a exemplo da maioria das eleições político-partidárias, sindicais e classistas, independentemente do tamanho do Conselho Deliberativo, dos regimentos estatutários e do tipo de cláusula de barreira existente, NORMALMENTE o pleito polariza-se em torno de dois nomes – raramente alguém ganha de goleada ou há equilíbrio em torno de três ou mais nomes.

É bom lembrar que Patrícia Amorim tem apenas 40 anos de idade e está no Flamengo desde os oito. Foi nadadora olímpica do Brasil em Seul 1988 e foi vice-presidente de Esportes Olímpicos na gestão que se encerrou com o pleito de ontem. Patrícia não pertence a movimento político nenhum e deseja a participação das melhores cabeças do clube, vindas do movimento que vierem. A ex-atleta só saiu da atual direção porque, ao invés de poder tocar adiante uma série de projetos, houve corte total de verbas para a sua pasta.

Ao contrário do que aparenta, ela está por dentro da gestão do futebol e pretende manter o técnico Andrade e todos os jogadores que a disponibilidade financeira permitir. A idéia é reforçar o plantel da melhor maneira possível para ganhar a Libertadores 2010.

Se ela vai conseguir e se o seu discurso condirá com a prática, só o tempo poderá nos revelar. Porém, o formato de eleição do rubro-negro mais querido do Brasil e o tipo de barreira que define a composição do Conselho Deliberativo, do Conselho de Administração e que permite uma quantidade maior de candidatos à presidência definitivamente não constitui nenhuma bagunça.

Finalmente, a eleição no Flamengo durou TREZE HORAS, foi realizada com voto manual e o escrutínio durou absurdas TRÊS HORAS. Não houve envolvimento direto de nenhuma torcida organizada nem contra, nem a favor de nenhuma candidatura e não foi verificada nenhuma confusão.

No Grêmio, podemos nos orgulhar da parceria com o TRE, que nos permite o uso de urnas eletrônicas. Além disso, a votação durou apenas oito horas e o resultado saiu em cerca de 40 minutos após o fechamento das urnas.

Enfim… O Grêmio precisa sair do próprio umbigo para enxergar outras realidades, a fim de se reinventar. Ninguém precisa ser nenhuma sumidade em área alguma pra analisar um processo eleitoral tão simples e localizado como eu fiz aqui. As conclusões a que cheguei foram bastante suaves e há uma enorme diferença cultural. Porém, creio que A FORMA com que os movimentos políticos do Grêmio se relacionam não está sendo positiva para o clube.