22 jan, 2010
A TECNOLOGIA EVOLUI MAIS RÁPIDO DO QUE A EDUCAÇÃO
O vídeo acima trata-se apenas do vislumbre de um grupo de editores de livros didáticos produzido pelo site CourseSmart sobre como eles imaginam a interação dos estudantes com e-books a partir de uma interface que – esperam – seja a da tablet da Apple.
A partir da dica do excelente blog MacMagazine capitaneado pelo meu amigo Rafael Fischmann; de uma série de tuítes trocados com a profª Sônia Bertocchi e da minha participação no IV Congreso de la Cibersociedad em novembro de 2009, passaram a me ocorrer uma série de preocupações acerca da velocidade do desenvolvimento da educação brasileira por meio do nosso atravessamento com as TIC.
Sempre que surge uma possibilidade concreta como as do New York Times e de várias editoras de livros acadêmicos nos EUA unirem-se à Apple e a alguma operadora de telefonia a fim de garantir o sinal da internet com a máxima velocidade e com o mínimo de interrupções possível segundo aquela realidade, sou paralelamente dominado por duas sensações contrárias:
1) O meu lado de pioneiro da internet; a minha admiração pela evolução da tecnologia digital; a minha confiança no lado visionário de Steve Jobs e, por fim, nos designs de produto e de interface insuperáveis da Apple nesse setor, indicam que o futuro da educação é não apenas promissor como brilhante: afinal de contas, tudo o que precisamos é de estímulo e novidade tanto para professores como para os estudantes. Na sequência, uma forma de transformar o conteúdo estático e enfadonho em um mashup de formas de associar a informação e estimular a criatividade e o raciocínio, acumulando o máximo de informações em um espaço de tempo cada vez menor. Por fim, a relevância e a originalidade da maneira com que cada indivíduo irá processar e transformar esses bits que navegam através de ondas eletromagnéticas contidos em pedaços de plástico, metal e silício. Isso me leva a crer no One Infinite Loop que dá origem ao endereço do campus principal da Apple em Cupertino, Califórnia: UMA VOLTA RUMO AO INFINITO;
2) Segundo, na avassaladora dificuldade econômica e social não apenas das pobres famílias da esmagadora maioria de nossos jovens estudantes, mas também daqueles que – em tese – deveriam sempre estar devidamente preparados, treinados, capacitados, habilitados e, sobretudo, interessados, estimulados e curiosos: os mestres facilitadores e instrumentalizadores do futuro do Brasil.
Acho que não vale a pena ser repetitivo descrevendo, comentando ou criticando as mazelas sociais mais comuns (violência doméstica, falta de comida, desemprego, falta de instrução dos pais, falta de um mínimo de conforto e segurança no vestuário, na alimentação e na moradia, etc.). Também não dá pra me estender demais nas questões políticas, financeiras, burocráticas e técnicas capazes de impulsionar a CORRENTE DO BEM necessária à obrigatória e urgente elevação dos índices de escolaridade (o conservadorismo da pedagogia tradicional; o sucateamento da educação pública; a falta de dinheiro e de treinamento; a ausência de um plano setorial e geográfico para a inserção de docentes em todos os níveis, dentro outras).
De qualquer forma, devo alertar para outros fatores que me preocupam muito dentro desse mesmo contexto:
– Manuel Castells já escreveu que um determinado conjunto de fatores técnicos, econômicos e sociais pode, sim, fazer com que as sociedades menos desenvolvidas aprendam rápido e sejam capazes de queimar etapas em seu desenvolvimento a partir do domínio da nova técnica que – felizmente – não chega mais com atraso até nós. Em termos de Cultura Digital e de formação e prática em Ciências da Computação e em Comunicação, é mais do que certo que o Brasil não está para trás de EUA, Japão e Europa Ocidental. Porém, há diferentes graus e ritmos de adoção da tecnologia. Padecemos por um letramento tardio e lento, que não atinge a todo o conjunto de nossos quase 200 milhões de habitantes na mesma medida. Além disso, uma tablet, um notebook, a estrutura de conexão à internet e um bom celular que utilize toda essa estrutura são inacessíveis para a maioria.
Todavia, sabemos que não podemos parar tudo para alfabetizarmos decentemente as pessoas. Sabemos melhor ainda que não podemos esperar para que seja possível subsidiar equipamento ou esperar que o poder de compra cresça para aqueles que mais precisam. E, o que é pior, não existe estrutura logística e nem tampouco quantidade de recursos humanos suficiente para prestar um serviço de assistência e psicologia social capazes de colaborar para que todas as vítimas desse sistema predominantemente desorganizado e corrupto possam aprender bem, com a cabeça mais aliviada de seus graves problemas pessoais.
Nesse ponto, embora eu seja sempre a favor de reverter a lógica do consumismo e de fazer de cada um um agente da sua própria aprendizagem a partir da elevação da autoestima e da coragem de assumir responsabilidades em busca da superação de uma série de desafios que surgem pelo caminho, percebo que há, sim, limites terríveis.
Conversei recentemente com um grupo de amigos professores ou estudantes do ensino médio público. Quando perguntam em uma turma de 30 alunos quem irá prestar vestibular, normalmente não mais do que oito levantam a mão. Ontem, conversei com minha cunhada e com o marido da prima dela, que são professores de História. Diferentes grupos de convivência ligados à Educação infelizmente concluem que prevalece a lógica da falta de confiança e da ignorância acerca do quanto cada um poderá evoluir.
Por mais que pareça ignorância, imobilismo ou pessimismo de minha parte, como há casos pontuais em que a educação no Brasil realmente tem dado alguns saltos de qualidade e também há situações em que torna-se quase inacreditável a impossibilidade de evoluir conforme o planejado, a clássica pergunta de Lênin vem à tona em pleno 2010:
– O QUE FAZER?
Particularmente, não creio mais no quadro negro, no livro-texto, no videocassete ou no DVD. Não creio mais em aulas essencialmente teóricas nem em aulas essencialmente práticas ainda moldadas pela educação verticalizada e hiearquizada constituída na modernidade histórica. Ao mesmo tempo, não há um único ritmo nem um único caminho rumo à ubiquidade, ao pensamento e à ação em rede.
Por fim, me nego terminantemente a ser determinista e sectário como na Suíça, onde as crianças fazem um teste ainda em meio ao equivalente ao nosso ensino fundamental que define categoricamente quem poderá ser direcionado para o ensino superior e quem poderá adquirir no máximo o ensino técnico.
Crianças e jovens aprendem muito rápido. A primeira geração de nativos digitais já está prestes a entrar na universidade. Essa realidade independe de classe social. Contudo, as alternativas para os idosos e para os adultos mais conservadores e mais afastados de uma necessidade econômica e intelectual de conviver com as TICs de forma natural fazem com que seja necessário investir em EJAs voltados não à alfabetização formal mas, sim, ao letramento digital.
