TÉCNICAS DE REPORTAGEM NO TELEJORNALISMO

Embora simplista e até mesmo preconceituoso em alguns casos, infelizmente não posso negar que a minha observação acerca da reportagem em telejornalismo costuma desembocar na realidade vista acima.

A necessidade de o repórter saber empostar a voz, possuir um vocabulário com uma quantidade maior de sinônimos e de correção vernacular do que a média das pessoas e o trabalho de iluminação, roupa, maquiagem, pesquisa, apuração das versões e domínio do tempo na edição ficaram de fora do vídeo acima.

Mesmo assim, a mesmice e o tratamento “Homer Simpson” que a maior parte da audiência recebe por parte do emissor ignoram que os instrumentos e a prática sociotécnica estão cada vez mais acessíveis a todo bom observador.

Independentemente da escolaridade, somos todos muito mais interagentes do que receptores. A linguagem que irá nos convencer acerca da credibilidade, do carisma e da relevância da informação midiatizada possuem um sentido de percepção muito mais individual do que coletivo.

A era das massas está sendo, aos poucos, superada.

O PAPEL DA CRÍTICA

Não é nada fácil definir ou categorizar conceitos e práticas sociais. Porém, a despeito de qualquer escola ou corrente científica, darei uma opinião estritamente pessoal. Afinal de contas, todos temos lado – mesmo que nossa defesa ou ataque a algo ou a alguém se dê sob diferentes graus de conhecimento de causa, de conservadorismo ou de liberalismo.

Adianto que não citarei nenhum autor e não me considero profissional da área. Contudo, basta se esmerar na investigação, nas fontes e nos contatos para se tornar um conhecedor minimamente competente. Seja no mundo acadêmico, seja no chamado “mercado” de trabalho, acredito que ler, discutir, ponderar, e investigar não são prerrogativas nem legitimizantes e tampouco deslegitimizantes de parte a parte. Da mesma forma, possuir um título de cientista, um certificado de qualidade ou prêmios homologados por instituições cujas reputações se devem a uma série de fatores aos quais não irei discutir aqui também não garantem qualidade. Concordo que, normalmente, esse conjunto de fatores de reconhecimento gera uma expectativa e valoriza uma marca que, não-raro, costumam ser atendidas. Contudo, nem toda especialização é suficientemente crível, assim como nem toda não-especialização é limitada.

A maior dificuldade da crítica reside da necessidade de um indivíduo dotado de interesses e de conhecimentos que deseja transmitir com uma determinada assiduidade necessariamente ter lado e – na maior parte das vezes em que se manifesta – sentir-se obrigado a escondê-lo.

Independentemente do fato de esse crítico ter que agradar a uma entidade de classe, a um campo profissional ou aos interesses econômicos, políticos e simbólicos de quem quer que seja, enquanto houver audiência, ele também estará agradando a si mesmo. Afinal de contas, o seu lugar estará garantido, a sua palavra estará sendo espraiada e ele terá também um retorno financeiro.

Duro é o próprio crítico crer em imparcialidade e em isenção: caso ele mesmo creia nesses valores utópicos, será ou oportunista, ou ingênuo. Afinal de contas, todos temos valores. Neste caso, os valores são emocionais, sentimentais e percebidos. Logo, são subjetivos, graduados e categorizados em função de nossas expectativas e interesses. Ora, se defendo e ataco a uma série de questões de diferentes formas e com diferentes motivações, por mais honesto, justo e bem informado que seja, é impossível que eu deixe de transmitir meus próprios valores ao comentar essas questões.

Muitas vezes, sequer conseguimos definir a nossa própria coerência. Desde que se escreva bem e se saiba sobre o que estamos falando, existe uma margem de posições e de opiniões divergentes, incoerentes e contraditórias que não chegam sequer a arranhar a credibilidade do crítico.

A crítica pode, sim, ser feita por alguém que não vivencia uma determinada prática. Porém, é fundamental que a observação da prática e o contato frequente com quem a executa e vivencia devem ser constantes. Seja jornalística, acadêmica (ou sob a tônica de qualquer outro ambiente de discussão, de debate ou de arguição existente), a crítica não perde a sua legitimidade quando não é feita por alguém diplomado ou com registro profissional.

Por mais contraditória que pareça a afirmação acima, quem garante que um crítico seja um competente executor?

O futebol está repleto de exemplos que apóiam essa hipótese: por acaso alguém como o jornalista Wianey Carlet teria condições de ser dirigente, técnico, atleta ou político envolvido com futebol?

Independentemente do juízo de valor que se faça acerca da capacidade e da credibilidade de Wianey, ele recebeu um papel que gosta de desempenhar. A marca do seu empregador (RBS) acumula um capital social que não apenas facilita a exposição da opinião de Carlet como também a legitimiza. De uma maneira bastante simplista, assim como o eslógão publicitário consagrado afirma a respeito de uma determinada categoria de produtos que “Se é Bayer é bom”, até determinado ponto, pode-se tentar uma associação lógica cuja pressuposição básica é: “Pela RBS, o Rio Grande se vê; se Wianey é da RBS, ele é o espelho do Rio Grande”; logo, como também sou do Rio Grande, também me vejo nele”.

O crítico não precisa atingir a todos nem tampouco a uma maioria para ser considerado bom. Acredito que, além da exposição midiática facilitada e legitimada pela mídia corporativa, há ainda outros elementos envolvidos nesse processo de credibilidade.

Um dos fatores menos respeitáveis é o “chute”. A maior parte da audiência espera uma palavra especializada porque possui certas carências no momento de formar a sua própria opinião: ou as pessoas estão atrás de uma opinião diferente acerca de um determinado tema do qual já tomou conhecimento a partir de outras fontes, ou estão perdidas e precisam de uma única posição um pouco mais complexa ou mais eloquente para adotarem (ou não) uma determinada ideia. Se por acaso optar por palpitar mais do que buscar informações profundas e divergentes a fim de ponderar sobre elas na emissão de um parecer, então o crítico dependerá da sorte dos dados, das cartas ou dos búzios para que possa acertar muito mais do que errar e, assim, manter e até ampliar o seu capital social.

O chute sistemático não é crítica: afinal de contas, está-se ponderando ou emitindo um parecer acerca de algo baseado em que?

O jornalismo como um todo padece de dois males. O primeiro, já foi citado no início deste texto: é a dependência comercial de quem financia a estrutura que garante o espaço e a remuneração do crítico. Contra quem põe o pão na mesa, raramente se investiga. Raramente se denuncia. Raramente se compara. Raramente se critica. Normalmente, ou se elogia, ou dá-se um jeito para incluir o eslógão, o nome, o produto ou o que alguém relacionado à empresa ou ao produto do anunciante em alguma nota.

Puxa-saquismo e assessoria de imprensa não são crítica e (para ser ainda mais profundo, polêmico, radical e crítico) pra mim não são sequer jornalismo: essas duas categorias assemelham-se por possuíram um discurso baseado na informação incompleta besuntada com vaselina líquida para um consumo supostamente prazeroso e – mais supostamente ainda – sem grandes preocupações futuras. A técnica de redação é jornalística. Porém, se jornalismo for considerado acima de tudo como apuração completa de versões divergentes com o mesmo espaço para ambas, investigação corajosa e minuciosa e denúncia baseada estritamente em fatos cronológicos devidamente documentados, publicidade, relações públicas e assessoria de imprensa não são jornalismo.

Ainda, a crítica não pode ser misturada nem mesmo de maneira sutil à notícia. O grande mal da inescapável sociedade midiatizada é a má leitura, que acarreta na pior interpretação possível. O que o texto diz e o que o texto faz deveria ser, mas não é a mesma coisa: o efeito causado é completamente diferente em função da assimetria social gerada não apenas pelos valores subjetivos como também pela péssima escolaridade.

Muitas pesquisas acadêmicas na área da crítica das práticas jornalísticas concluem que a esmagadora maioria dos especialistas convidados a opinar é solicitada com muita frequência e sem a posição contraditória de um outro colega para que a audiência possa confrontá-la. Quando o contraditório se faz presente, o editor infelizmente costuma desqualificar a posição cujos valores não condizem com os valores do dono do veículo e de seus patrocinadores. A omissão, a supervalorização e a minimização acerca de A ou de B necessariamente compõem um juízo de valor pré-determinado mais pela maneira de dizer e pelo que se deixa de dizer do que propriamente pela percepção do conjunto desse conteúdo.

Independentemente da visão de mundo de cada crítico (que, por sua vez, é determinada pela visão de mundo da sua audiência mas, sobretudo, pela de seus patrocinadores e de quem o mantém no ar), seja ou não por má-fé; seja ou não por ignorância, a maioria faz proselitismo. E quem cumpre melhor o papel de “isento”, de “equilibrado”, de “plural” e de “imparcial” é quem prevalece.

Toda informação, para poder ser compreendida por uma grande quantidade de pessoas não-especializadas em uma determinada área do conhecimento ou distantes de um determinado fato, precisa ser despida dos jargões técnicos a partir de uma competente tradução técnica para uma linguagem comum. O BOM jornalismo é a técnica que determina essa linguagem comum, cuja grande virtude é ser capaz de trazer para o cotidiano leigo da maioria uma série de discursos que, anteriormente, permaneciam guardados a sete chaves pelos cânones dos rituais, das cerimônias e dos vocabulários ultraespecializados.

O campo dos mídias é o único que possui a capacidade de absorver a discursividade dos demais campos sociais (médico, militar, político, esportivo, cultural, científico, etc.), de aprender com eles e também de deixar um pouco de si em cada um desses outros campos. Todavia, o jornalismo, por mais especializado e tecnicamente correto que seja, jamais terá condições de absorver tudo. Jamais será capaz de traduzir tudo.

O jornalismo corporativo caracteriza-se por contar UMA ÚNICA VERSÃO de cada história. E, por mais que os jornalistas persigam a imparcialidade, a isenção e a verdade, nenhum desses três predicados realmente existe.

Eu conto a história que eu quiser com a prioridade que eu quiser da forma que eu quiser. E não preciso ser mau caráter, superficial nem mentiroso para ser superficial e mentiroso. As limitações de tempo e espaço inerentes aos meios de comunicação de massa forjados na Era Moderna (rádio, televisão, jornal e revista – talvez o cinema também possa entrar nessa lista) e as limitações da forma de financiamento da rotina industrial desses meios (como falar mal de quem me dá emprego e comida?) definem por si só a completa impossibilidade de existência da verdade e da imparcialidade.

Portanto, ninguém está totalmente errado nem totalmente certo. O problema maior é a falta de capacidade de conectar os pontos, de incluir como dogma a historicidade e de não saber nem esconder o seu lado quando precisa, nem de advogar sem fazer proselitismo.

A multiplicação de opiniões a partir da ubiquidade dos comentários e dos posts em blogs apenas torna clara a polarização social existente em diferentes graus. Não é preciso entrar no campo político para perceber isso: a música, a ciência, o esporte, os direitos humanos, a educação e uma série de outros campos sociais também está repleta de proselitismo.

Dessa forma, acabamos escolhendo a quem seguir e – por outro lado – também nos esforçamos para estabelecermos relacionamento e estreitarmos laços com aqueles que queremos que nos sigam muito mais em função de nossos próprios valores e interesses momentâneos determinados pelo conhecimento e pela cultura que acumulamos até o momento do que necessariamente pela marca, pelo veículo ou pelo nome.

Até agora, estou plenamente convencido de que tanto o modelo econômico como o modelo de democracia que possuímos está longe de proporcionar opinião e equilíbrio à maioria com pluralidade. Dessa forma, enquanto a tendência for a de polarizar, duvido muito que, caso quem pensa a mídia de massa sob uma perspectiva de esquerda fosse econômica, política e simbolicamente hegemônico, deixasse de ser proselitista ou parcial.

Com isso, não defendo de forma alguma quem defende a exclusão e a concentração de renda a seu favor sob quaisquer meios. Porém, como o modelo é falho, aqueles em quem acredito certamente fariam o mesmo. Provavelmente, com menor intensidade e contundência. Mas que fariam, fariam.

Encerro esta longa missiva com a seguinte pergunta:

– SE NÃO HÁ CRÍTICA NEM OPINIÃO INFALÍVEL E SE AQUELES EM QUE CREMOS SERIAM CAPAZES DE FAZER EXATAMENTE AQUILO QUE CRITICAM ÀS AVESSAS, ACREDITAR EM QUEM, POR QUE E SOB QUAIS CONDIÇÕES?

VOTORATY FC, UM TERRÍVEL RIVAL PARA O GRÊMIO

Eis o gol do título do perigoso VOTORATY, campeão da gloriosa COPA PAULISTA 2009, deverá ser o próximo adversário do GRÊMIO na 2ª fase da COPA DO BRASIL 2010.

Segundo a WIKIPÉDIA, o Votoraty Futebol Clube completará apenas cinco anos de existência no próximo dia 12/05.

O mascote do clube é um tigre branco e ele fica na cidade de Votorantim, que fica grudada em Sorocaba.

O Votoraty está na SÉRIE A-2 (Segunda Divisão) da FEDERAÇÃO PAULISTA DE FUTEBOL.

Em princípio, o Votoraty deverá mesmo jogar em casa, pois seu estádio acomoda mais de 10 mil torcedores.

De qualquer maneira, será uma prova de fogo para o time de Silas.

TE CUIDA, GRÊMIO!!! Afinal de contas, “não há mais bobos no futebol”…

POSICIONAMENTO DO BLOG: A AGENDA PARA UM NICHO ESPECÍFICO

Assisti (online) à mesa de debates sobre blogs e política da Campus Party 2010. O tema me é caríssimo, pois considero-me (embora a academia não me considere enquanto não estiver disposta a me dar um lugar) um pesquisador iniciante na área.

Sempre vi os blogs como a maior possibilidade que o cidadão não-profissional e não-sindicalizado possui de tornar a sua opinião conhecida pelo público. Além disso, o olhar de quem descreve, elogia e denuncia está cada vez mais próximo do cotidiano do que as práticas usuais da mídia corporativa de massa. Defendo que a blogosfera é capaz de desconstruir o pseudoenvolvimento e o distanciamento nada sociológico e nada psicológico das reportagens e das opiniões de um sistema de comunicação que procura emitir uma única visão de mundo para todos.

A polarização partidária e ideológica restringe a credibilidade de temas e fatos que deveriam estar na boca de todos. A crítica à edição e à apuração baseados na distorção, na omissão, na supervalorização, na minimização, na escolha do que e como deve ou não ser dito (e, sobretudo, nas bandeiras levantadas a favor dos interesses econômicos dos financiadores da mídia corporativa) principalmente em relação a tudo o que envolve política, economia, lei e moral deve ser sempre denunciada e monitorada. Contudo, creio que a maioria dos blogs independentes erra feio ao fazer dessa pauta a sua principal (muitas vezes até mesmo a sua única) razão de existir.

Dentre os maiores erros da blogosfera política dita independente (porém, na verdade, altamente vinculada a ideários partidários e sindicais) é ainda crer que o mundo ainda é regido pela relação entre capital material e trabalho material e pela consequente “luta” de “classes” acima de quaisquer outros pressupostos que deveriam ser levados em consideração nesse atravessamento que vivemos entre dinâmicas sociais tão complexas e amalgamadas entre si.

É importante salientar que não vejo mais sentido algum em defender o modelo da democracia representativa, o voto obrigatório e ter que necessariamente “torcer” por um lado ou por outro. Obviamente, todos têm um lado e devem expressá-lo claramente. Afinal de contas, transparência e coerência são valores altamente desejáveis no mercado da credibilidade política em mídias digitais. Porém, não adianta nada possuir um vasto repertório intelectual e/ou uma vasta experiência de campo e de militância quando os modelos nos quais crêem apresentam-se como estáticos, ao passo que as misturas informais entre escolas não pode ser vista como má intenção ou incoerência.

Infelizmente, a população brasileira é predominantemente covarde e omissa. Os ricos, porque locupletaram-se desde o “descobrimento”; a classe média, porque tem os ricos como exemplos de sucesso e os pobres como a materialização do terror de perder o pouco que têm; e os pobres porque sempre foram bombardeados por práticas e mensagens que sempre visaram o sumo rebaixamento da sua autoestima.

Essas pessoas batem boca. Elas têm uma visão absurdamente simplista e incrivelmente genérica sobre tudo e sobre todos. Futilidades e reacionarismos à parte, todo brasileiro é médico, técnico de futebol, engenheiro, advogado, funcionário público ou empresário. A única forma de eles compreenderem algo de maneira mais complexa é sabendo produzir conteúdo posicionado, sim. Porém, não posicionado para o confronto: informação, opinião e ideologia, mas sem nenhum traço de evangelização.

A meu ver, uma sociedade covarde e egoísta se interessa mais pelo confronto sobretudo em duas situações que parecem bastante nítidas: ou quando o pivô do conflito está relacionado à sua vida cotidiana e afeta diretamente a sua qualidade de vida; ou, então, como uma forma de catarse e de desabafo em um ambiente agonístico e lúdico, porém competitivo.

Percebam nesta segunda situação a importância do esporte de alto rendimento: o campo esportivo é aquele cuja midiatização apresenta da maneira mais direta possível os conflitos e as virtudes mais comumente observados em todos os demais campos sociais: política, afetividade, sucesso, fracasso, doença, empreendedorismo, justiça, moral, religiosidade e assim por diante.

A seriedade do futebol define-se a partir da sua importância como elemento identitário, cultural e de pseudo igualdade social em um país extremamente desigual. No Brasil, a cultura oral suplanta a cultura letrada em um país de péssima escolaridade. Esse quadro favorece a fixação de lições de convivência e de modelos positivos e negativos de conduta social mais ou menos como uma fábula ou um conto. A diferença é que o cacique hoje atende pelo nome Televisão, o papa por Craque, a igreja por Estádio e as principais formas informais de transformação desse ecossistema atendem pelo nome de Mídias Sociais.

O problema-chave para mim desde que comecei a blogar politicamente é o seguinte: se eu não sou conhecido; se eu não sou jornalista, sociólogo nem cientista político e se eu não sou líder comunitário nem filiado a nenhum partido, de onde virá a minha credibilidade e a subsequente expansão da minha rede de interagentes?

A quantidade de entrevistas e de observações de campo é muito pequena. Portanto, não sou um repórter típico.

Procuro na blogosfera e nos portais uma série de opiniões e de notícias sobre os quais me interessa analisar. No entanto, se um jornalista possui uma visão limitada, densamente filtrada, generalista e – normalmente – bastante afastada de fatos e pessoas relacionadas a estes últimos, o que dizer da minha visão, que é a de quem faz a crítica da crítica e está regularmente afastado até mesmo de quem critica por estar distante?

Por isso, a visita sistemática a blogs que parecem ser mais críticos e mais jornalísticos e o uso do Twitter para disseminá-los me parece muito mais significativa do que eu escrever sobre as mesmas coisas. A minha participação como comentador nesses blogs parece ser muito mais legítima, crível e relevante do que se eu postar o mais do mesmo, ainda que de uma maneira só um pouco diferente.

Isso me traz à cultura de nichos: se eu gosto de política, do Grêmio e de esportes em geral, devo trazer a democracia emergente e a crítica das práticas da mídia corporativa para esse âmbito. Tudo o que eu tenho a aprender e a realizar dentro desse pequeno segmento em particular tende a trazer resultados mais relevantes para o ecossistema dessa coletividade em especial.

Todavia, essa opção de pauta não impossibilita – nem diminui o meu interesse – por outros assuntos. É como ter o Bovinão e a Libertadores pra disputar ao mesmo tempo: é preciso priorizar a competição que traz resultados mais significativos ao clube. ;)

COMO ESCREVER UM BLOG E FAZER BOM JORNALISMO AO MESMO TEMPO

No último sábado do evento, assisti (online) à mesa de debates sobre blogs e política da Campus Party 2010. Me impressionei bastante com a argumentação do jornalista Adriano Silva, publisher da versão nacional do blog profissional de tecnologia mais conhecido do mundo, o Gizmodo Brasil. Silva também tem um blog no Portal Exame e faz eventuais porém interessantes intervenções via Twitter.

Sempre vi os blogs como a maior possibilidade que o cidadão não-profissional e não-sindicalizado possui de tornar a sua opinião conhecida pelo público. Além disso, o olhar de quem descreve, elogia e denuncia está cada vez mais próximo do cotidiano do que as práticas usuais da mídia corporativa de massa. Defendo que a convergência entre várias mídias sociais (blogs, Twitter, YouTube, Flickr, podcasts, Slideshare, Scribd, etc.) – quando realizada com um verdadeiro cunho político, social e comunitário – constitui-se em um conjunto de técnicas suficientemente capaz de desconstruir o falso envolvimento e o distanciamento comumente verificados nas reportagens e no conjunto de opiniões emitidas por um sistema de comunicação que, via de regra, propõe uma única visão de mundo para todos.

Embora seja muito difícil de percebermos por estarmos diretamente envolvidos nessa prática, é preciso admitir que a polarização partidária e ideológica também é praticada pela blogosfera independente de esquerda. Apesar de uma série de avanços que temos verificado nos últimos anos, esse comportamento restringe a credibilidade de temas e fatos que deveriam estar na boca de todos. Logo, temos, sim, como aumentarmos o nosso alcance, expandindo o nosso público interagente para redes de contato que superem o nosso nicho ideológico.

A crítica à edição e à apuração baseados na distorção, na omissão, na supervalorização, na minimização, na escolha do que e como deve ou não ser dito (e, sobretudo, nas bandeiras levantadas a favor dos interesses econômicos dos financiadores da mídia corporativa) principalmente em relação a tudo o que envolve política, economia, lei e moral deve ser sempre denunciada e monitorada. De maneira geral, esse serviço é realizado com sucesso.

Contudo, creio que a maioria dos blogs independentes erra feio ao fazer dessa pauta a sua principal (muitas vezes até mesmo a sua única) razão de existir. Falta apresentar o bom, o belo, o que funciona. Contar mais histórias com personagens não-políticas, mas que melhoraram de vida a partir de ações políticas de esquerda.

Dentre os maiores erros da blogosfera política dita independente (porém, na verdade, altamente vinculada a ideários partidários e sindicais), percebo que ainda há a crença predominante de que o mundo é regido pela relação entre capital material e trabalho material e pela consequente “luta” de “classes”.

Com isso, não quero dizer que Marx estava errado ou que já foi superado: porém, o tipo de luta e de classe que se tinha como homogêneas na modernidade hoje se travam a partir da resistência da multidão e da emergência da sociedade de nichos. Por isso, cada blogueiro atinge um público diferente, mesmo que tenha uma visão de mundo parecida.

É importante salientar que não vejo mais sentido algum em defender o modelo da democracia representativa, o voto obrigatório e nem mesmo em ter que necessariamente “torcer” por um lado ou por outro. Vejo-me preso a essa arapuca justamente pelo fato de que o único modelo democrático legalmente praticado e imbricado na rotina da maioria é o que ora se apresenta. Precisamos discutir seriamente a democracia emergente, que contempla os atravessamentos sociais, políticos e econômicos compartilhados nos ambientes digital e presencial. Para essa lógica, a lei ainda está muito atrasada. Essa pauta é fundamental, mas deve ser tratada em outros posts.

Enfim… Todos têm um lado e devem expressá-lo claramente. Afinal de contas, transparência e coerência são valores altamente desejáveis para a credibilidade da política nas mídias digitais. Porém, não adianta nada possuir um vasto repertório intelectual e/ou uma vasta experiência de campo e de militância quando os modelos nos quais muitos ainda crêem apresentam-se como estáticos. Enquanto isso, as hibridizações socioculturais que ocorrem informalmente e sem nenhum controle hierárquico não podem ser vistas como fruto de má intenção, confusão ou incoerência.

Infelizmente, a população brasileira é predominantemente covarde e omissa. Os ricos, porque locupletaram-se desde o “descobrimento”; a classe média, porque tem a ilicitude de grande parte dos ricos como exemplo de sucesso, enquanto enxerga os pobres como a materialização do terror de perder o pouco que têm; já os pobres, de sua parte, foram induzidos à covardia e à omissão devido ao bombardeiro midiático que despolitiza e mercantiliza as suas vidas a partir de mensagens que sempre visaram o sumo rebaixamento da sua autoestima.

Todas essas pessoas batem boca. Devido à despolitização, elas têm uma visão absurdamente simplista e incrivelmente genérica sobre tudo e sobre todos. Futilidades e reacionarismos à parte, todo brasileiro é político, médico, técnico de futebol, engenheiro, advogado, funcionário público ou empresário. A única forma de eles compreenderem algo de maneira mais complexa é produzir conteúdo posicionado. E ideologicamente posicionado não implica em um posicionamento voltado para um confronto entre classes: deve-se primar pela informação, pela opinião balizada e pelo detalhamento da ideologia do blogueiro. Contudo, ele deve concentrar esforços para evitar a evangelização partidária.

Adriano Silva não diz que somente jornalistas com diploma devam blogar. Contudo, salienta que a credibilidade de qualquer blog (que, por sua vez, resulta em maior credibilidade, audiência e, quem sabe, até mesmo a possibilidade de blogar profissionalmente) depende acima de tudo do BOM JORNALISMO. Como o publisher do Gizmodo Brasil havia dito na Campus Party, solicitei a ele as diretrizes de bom jornalismo nas quais crê. Como poderão ver logo abaixo, elas servem de reflexão para a blogosfera em geral:

Credulidade

Temos comprado muito fácil um monte de informações em relação às quais o bom jornalismo demanda distância. “O sujeito fez determinada dieta e nunca mais adoeceu”. Não se pode jamais dizer isso na voz da revista, como afirmação do repórter. É impossível sabê-lo. O correto: “O sujeito afirma ter feito determinada dieta e, segundo diz, não voltou a adoecer.” As pessoas mentem muito. É saudável praticar o ceticismo ao ouvi-las. Cruzar informações, apurar. E, depois, deixar claro ao leitor qual é a voz que está dizendo aquilo. Poucas coisas podem ou devem ser enunciadas – o que significa serem endossadas – pela revista.

Ingenuidade

O embevecimento com determinada tese é um risco grande para o jornalista. Ainda mais em revistas como Vida Simples e Religiões, que embutem uma certa simpatia em relação aos assuntos de que tratam. (Quero dizer: não são tão céticas quanto a Super, Mundo Estranho e História são e têm que ser, por exemplo).

Tenho dito que a posição da Super é não ter posição. Não interessa ao leitor a posição do repórter – mas a posição dos especialistas ouvidos pelo repórter. É isso que difererencia reportagem de opinião.

E, salvo as áreas de opinião de nossos títulos, o que fazemos é reportagem. Aí é fundamental que o leitor termine de ler a matéria sem adivinhar a crença pessoal de quem a escreveu. Porque ela simplesmente não importa, não interessa. 

Se ficou claro para o repórter que a tese A é melhor do que a B, mostremo-las como são ao leitor que ficará claro para ele também.

A pior coisa que podemos fazer em jornalismo é o panfleto, o proselitismo. É não ouvir o outro lado. Ao perigoso romantismo do velho jornalismo, de tutelar os leitores e conduzi-los à “verdade” eleita na Redação, contraponhamos boa dose de ceticismo em relação a tudo, inclusive às nossas próprias crenças e aos nosso próprios paradigmas. É preciso desconfiar deles também.

 De boas intenções o inferno jornalístico está cheio.

Legibilidade

Não há nada mais agradável para o leitor do que texto preto, em letras de corpo 10/12, sobre fundo branco. Isto posto, sempre que nos afastarmos daí, por razões estilísticas, temos que ter em mente que, aonde quer que decidamos ir, temos que levar a legibilidade conosco como uma preocupação prioritária. Ainda temos publicado páginas em que a decisão de design zomba do texto, ignora a necessidade de leitura, é cruel com o olho do leitor.

Uma das funções básicas do design de revista é facilitar a leitura. Antes uma página bonita e altamente legível do que uma página estupenda e sem legibilidade.

Ignorância vs. novidade

É fundamental não confundir uma coisa com a outra tanto na hora de definir as pautas quanto na hora de apurá-las, de dar um enfoque a elas. “Dez coisas que você não sabe sobre Che Guevara”, um stretch que eu propus, uma licença poética que eu sugeri ao Celso, soou estelionatário em relação às dez coisas que a matéria efetivamente trazia.

Segundo o próprio Adriano Silva: “Outro material fundamental para reflexão e prática. Escrito por Paulo Nogueira em parceria com seu mentor, José Roberto Guzzo, o melhor jornalista da sua geração, de novo, a meu ver. Guzzo fez a Veja ser o que é. Assumiu a direção da revista em meados dos anos 70 com pouco mais de 100 000 exemplares de circulação e a deixou em 1990 com mais de 1 milhão de exemplares vendidos a cada edição. Hoje Guzzo é colunista de Exame.”

Pequeno Manual Prático do Jornalista”, por José Roberto Guzzo e Paulo Nogueira.

1. Seja Simples

Palavras curtas são melhores que palavras longas.  Frases curtas são melhores que frases longas.  Verbos simples são melhores que verbos pomposos.

Paulo diz” ou “Paulo afirma” é melhor que “Paulo explica” ou “Paulo ensina”.

2. Seja Desconfiado

As pessoas mentem. Cheque informações relevantes ou se proteja com uma técnica adequada de redação.

Paulo diz que caminha uma hora por dia” é melhor que “Paulo caminha uma hora por dia”.

3. Seja Econômico

Evite palavras desnecessárias.

A situação é grave” é melhor que “A situação é muito grave”.

Estou preocupado” é melhor que “Estou bastante preocupado”.

“Muito” e “bastante” são, quase sempre, dispensáveis.


4. Seja Original

Responda rápido: existe início de matéria mais desinspirado que “responda
 rápido”?

Fuja dos clichês e dos lugares comuns.

Brasileiro” é melhor que “brazuca”.

A busca da originalidade vale tanto para o texto como a matéria em si. Qualquer matéria sobre uma nova tendência é melhor que uma matéria sobre a morosidade da justiça.

5. Seja Plagiador

Leia sistematicamente, pedagogicamente as publicações internacionais que sejam referência para o tipo de revista em que você trabalha. Isso encurta o caminho. Preste atenção em tudo: das chamadas de capa às legendas.

6. Seja Versátil

O jornalista ideal é o que é capaz de apurar, escrever e editar. Ele vale por três. E pode ganhar por três.

7. Seja Engraçado

Senso de humor é fundamental, qualquer que seja a natureza da revista.

Instruir e divertir: este é o nome do jogo.

8. Seja Humano

Pessoas estão por trás de tudo sobre que escrevemos, de ciência e TI a hotéis e times de futebol.

A presença de gente nas matérias só as melhora.

9. Seja Claro

Só termine de apurar quando você entender de verdade o que apurou.

Só comece a escrever quando tiver certeza de entender o que estará escrevendo.

10. Seja Consciente

Você precisa saber exatamente o que quer escrever.

11. Seja Lógico

“Comece pelo começo; vá direto até o fim; aí pare.” (Lewis Carroll, em “Alice”)

Concordo 100% com a última assertiva que Do Adriano no final do gentil e-mail que me enviou:

“A BLOGOSFERA PRECISA URGENTEMENTE DE MAIS JORNALISMO. NÃO NECESSARIAMENTE DE MAIS JORNALISTAS. E DE BOM JORNALISMO. COMO O QUE ESTÁ ESCRITO E DECANTADO ACIMA.”