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O PAPEL DA CRÍTICA

Não é nada fácil definir ou categorizar conceitos e práticas sociais. Porém, a despeito de qualquer escola ou corrente científica, darei uma opinião estritamente pessoal. Afinal de contas, todos temos lado – mesmo que nossa defesa ou ataque a algo ou a alguém se dê sob diferentes graus de conhecimento de causa, de conservadorismo ou de liberalismo.

Adianto que não citarei nenhum autor e não me considero profissional da área. Contudo, basta se esmerar na investigação, nas fontes e nos contatos para se tornar um conhecedor minimamente competente. Seja no mundo acadêmico, seja no chamado “mercado” de trabalho, acredito que ler, discutir, ponderar, e investigar não são prerrogativas nem legitimizantes e tampouco deslegitimizantes de parte a parte. Da mesma forma, possuir um título de cientista, um certificado de qualidade ou prêmios homologados por instituições cujas reputações se devem a uma série de fatores aos quais não irei discutir aqui também não garantem qualidade. Concordo que, normalmente, esse conjunto de fatores de reconhecimento gera uma expectativa e valoriza uma marca que, não-raro, costumam ser atendidas. Contudo, nem toda especialização é suficientemente crível, assim como nem toda não-especialização é limitada.

A maior dificuldade da crítica reside da necessidade de um indivíduo dotado de interesses e de conhecimentos que deseja transmitir com uma determinada assiduidade necessariamente ter lado e – na maior parte das vezes em que se manifesta – sentir-se obrigado a escondê-lo.

Independentemente do fato de esse crítico ter que agradar a uma entidade de classe, a um campo profissional ou aos interesses econômicos, políticos e simbólicos de quem quer que seja, enquanto houver audiência, ele também estará agradando a si mesmo. Afinal de contas, o seu lugar estará garantido, a sua palavra estará sendo espraiada e ele terá também um retorno financeiro.

Duro é o próprio crítico crer em imparcialidade e em isenção: caso ele mesmo creia nesses valores utópicos, será ou oportunista, ou ingênuo. Afinal de contas, todos temos valores. Neste caso, os valores são emocionais, sentimentais e percebidos. Logo, são subjetivos, graduados e categorizados em função de nossas expectativas e interesses. Ora, se defendo e ataco a uma série de questões de diferentes formas e com diferentes motivações, por mais honesto, justo e bem informado que seja, é impossível que eu deixe de transmitir meus próprios valores ao comentar essas questões.

Muitas vezes, sequer conseguimos definir a nossa própria coerência. Desde que se escreva bem e se saiba sobre o que estamos falando, existe uma margem de posições e de opiniões divergentes, incoerentes e contraditórias que não chegam sequer a arranhar a credibilidade do crítico.

A crítica pode, sim, ser feita por alguém que não vivencia uma determinada prática. Porém, é fundamental que a observação da prática e o contato frequente com quem a executa e vivencia devem ser constantes. Seja jornalística, acadêmica (ou sob a tônica de qualquer outro ambiente de discussão, de debate ou de arguição existente), a crítica não perde a sua legitimidade quando não é feita por alguém diplomado ou com registro profissional.

Por mais contraditória que pareça a afirmação acima, quem garante que um crítico seja um competente executor?

O futebol está repleto de exemplos que apóiam essa hipótese: por acaso alguém como o jornalista Wianey Carlet teria condições de ser dirigente, técnico, atleta ou político envolvido com futebol?

Independentemente do juízo de valor que se faça acerca da capacidade e da credibilidade de Wianey, ele recebeu um papel que gosta de desempenhar. A marca do seu empregador (RBS) acumula um capital social que não apenas facilita a exposição da opinião de Carlet como também a legitimiza. De uma maneira bastante simplista, assim como o eslógão publicitário consagrado afirma a respeito de uma determinada categoria de produtos que “Se é Bayer é bom”, até determinado ponto, pode-se tentar uma associação lógica cuja pressuposição básica é: “Pela RBS, o Rio Grande se vê; se Wianey é da RBS, ele é o espelho do Rio Grande”; logo, como também sou do Rio Grande, também me vejo nele”.

O crítico não precisa atingir a todos nem tampouco a uma maioria para ser considerado bom. Acredito que, além da exposição midiática facilitada e legitimada pela mídia corporativa, há ainda outros elementos envolvidos nesse processo de credibilidade.

Um dos fatores menos respeitáveis é o “chute”. A maior parte da audiência espera uma palavra especializada porque possui certas carências no momento de formar a sua própria opinião: ou as pessoas estão atrás de uma opinião diferente acerca de um determinado tema do qual já tomou conhecimento a partir de outras fontes, ou estão perdidas e precisam de uma única posição um pouco mais complexa ou mais eloquente para adotarem (ou não) uma determinada ideia. Se por acaso optar por palpitar mais do que buscar informações profundas e divergentes a fim de ponderar sobre elas na emissão de um parecer, então o crítico dependerá da sorte dos dados, das cartas ou dos búzios para que possa acertar muito mais do que errar e, assim, manter e até ampliar o seu capital social.

O chute sistemático não é crítica: afinal de contas, está-se ponderando ou emitindo um parecer acerca de algo baseado em que?

O jornalismo como um todo padece de dois males. O primeiro, já foi citado no início deste texto: é a dependência comercial de quem financia a estrutura que garante o espaço e a remuneração do crítico. Contra quem põe o pão na mesa, raramente se investiga. Raramente se denuncia. Raramente se compara. Raramente se critica. Normalmente, ou se elogia, ou dá-se um jeito para incluir o eslógão, o nome, o produto ou o que alguém relacionado à empresa ou ao produto do anunciante em alguma nota.

Puxa-saquismo e assessoria de imprensa não são crítica e (para ser ainda mais profundo, polêmico, radical e crítico) pra mim não são sequer jornalismo: essas duas categorias assemelham-se por possuíram um discurso baseado na informação incompleta besuntada com vaselina líquida para um consumo supostamente prazeroso e – mais supostamente ainda – sem grandes preocupações futuras. A técnica de redação é jornalística. Porém, se jornalismo for considerado acima de tudo como apuração completa de versões divergentes com o mesmo espaço para ambas, investigação corajosa e minuciosa e denúncia baseada estritamente em fatos cronológicos devidamente documentados, publicidade, relações públicas e assessoria de imprensa não são jornalismo.

Ainda, a crítica não pode ser misturada nem mesmo de maneira sutil à notícia. O grande mal da inescapável sociedade midiatizada é a má leitura, que acarreta na pior interpretação possível. O que o texto diz e o que o texto faz deveria ser, mas não é a mesma coisa: o efeito causado é completamente diferente em função da assimetria social gerada não apenas pelos valores subjetivos como também pela péssima escolaridade.

Muitas pesquisas acadêmicas na área da crítica das práticas jornalísticas concluem que a esmagadora maioria dos especialistas convidados a opinar é solicitada com muita frequência e sem a posição contraditória de um outro colega para que a audiência possa confrontá-la. Quando o contraditório se faz presente, o editor infelizmente costuma desqualificar a posição cujos valores não condizem com os valores do dono do veículo e de seus patrocinadores. A omissão, a supervalorização e a minimização acerca de A ou de B necessariamente compõem um juízo de valor pré-determinado mais pela maneira de dizer e pelo que se deixa de dizer do que propriamente pela percepção do conjunto desse conteúdo.

Independentemente da visão de mundo de cada crítico (que, por sua vez, é determinada pela visão de mundo da sua audiência mas, sobretudo, pela de seus patrocinadores e de quem o mantém no ar), seja ou não por má-fé; seja ou não por ignorância, a maioria faz proselitismo. E quem cumpre melhor o papel de “isento”, de “equilibrado”, de “plural” e de “imparcial” é quem prevalece.

Toda informação, para poder ser compreendida por uma grande quantidade de pessoas não-especializadas em uma determinada área do conhecimento ou distantes de um determinado fato, precisa ser despida dos jargões técnicos a partir de uma competente tradução técnica para uma linguagem comum. O BOM jornalismo é a técnica que determina essa linguagem comum, cuja grande virtude é ser capaz de trazer para o cotidiano leigo da maioria uma série de discursos que, anteriormente, permaneciam guardados a sete chaves pelos cânones dos rituais, das cerimônias e dos vocabulários ultraespecializados.

O campo dos mídias é o único que possui a capacidade de absorver a discursividade dos demais campos sociais (médico, militar, político, esportivo, cultural, científico, etc.), de aprender com eles e também de deixar um pouco de si em cada um desses outros campos. Todavia, o jornalismo, por mais especializado e tecnicamente correto que seja, jamais terá condições de absorver tudo. Jamais será capaz de traduzir tudo.

O jornalismo corporativo caracteriza-se por contar UMA ÚNICA VERSÃO de cada história. E, por mais que os jornalistas persigam a imparcialidade, a isenção e a verdade, nenhum desses três predicados realmente existe.

Eu conto a história que eu quiser com a prioridade que eu quiser da forma que eu quiser. E não preciso ser mau caráter, superficial nem mentiroso para ser superficial e mentiroso. As limitações de tempo e espaço inerentes aos meios de comunicação de massa forjados na Era Moderna (rádio, televisão, jornal e revista – talvez o cinema também possa entrar nessa lista) e as limitações da forma de financiamento da rotina industrial desses meios (como falar mal de quem me dá emprego e comida?) definem por si só a completa impossibilidade de existência da verdade e da imparcialidade.

Portanto, ninguém está totalmente errado nem totalmente certo. O problema maior é a falta de capacidade de conectar os pontos, de incluir como dogma a historicidade e de não saber nem esconder o seu lado quando precisa, nem de advogar sem fazer proselitismo.

A multiplicação de opiniões a partir da ubiquidade dos comentários e dos posts em blogs apenas torna clara a polarização social existente em diferentes graus. Não é preciso entrar no campo político para perceber isso: a música, a ciência, o esporte, os direitos humanos, a educação e uma série de outros campos sociais também está repleta de proselitismo.

Dessa forma, acabamos escolhendo a quem seguir e – por outro lado – também nos esforçamos para estabelecermos relacionamento e estreitarmos laços com aqueles que queremos que nos sigam muito mais em função de nossos próprios valores e interesses momentâneos determinados pelo conhecimento e pela cultura que acumulamos até o momento do que necessariamente pela marca, pelo veículo ou pelo nome.

Até agora, estou plenamente convencido de que tanto o modelo econômico como o modelo de democracia que possuímos está longe de proporcionar opinião e equilíbrio à maioria com pluralidade. Dessa forma, enquanto a tendência for a de polarizar, duvido muito que, caso quem pensa a mídia de massa sob uma perspectiva de esquerda fosse econômica, política e simbolicamente hegemônico, deixasse de ser proselitista ou parcial.

Com isso, não defendo de forma alguma quem defende a exclusão e a concentração de renda a seu favor sob quaisquer meios. Porém, como o modelo é falho, aqueles em quem acredito certamente fariam o mesmo. Provavelmente, com menor intensidade e contundência. Mas que fariam, fariam.

Encerro esta longa missiva com a seguinte pergunta:

– SE NÃO HÁ CRÍTICA NEM OPINIÃO INFALÍVEL E SE AQUELES EM QUE CREMOS SERIAM CAPAZES DE FAZER EXATAMENTE AQUILO QUE CRITICAM ÀS AVESSAS, ACREDITAR EM QUEM, POR QUE E SOB QUAIS CONDIÇÕES?

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2 Comments

  1. heliopaz says:

    Caro Anônimo,

    Seria melhor se tu te identificasses, pois duvido que uma dúvida/preocupação nesse sentido possa te comprometer de alguma forma.

    Até onde sei, parece que os termos não são exatamente esses. Se houvesse alguma outra cláusula prevendo sanções a alguma das partes caso ocorra algum litígio judicial e caso houvesse algo chamado Direito Material Brasileiro, aí seria algo preocupante.

    Não li o contrato e não sou advogado. Mas, de qualquer forma, esses detalhes me soaram estranhos.

    De qualquer forma, vou procurar descobrir isso durante o mês de março, certo?

    []‘s,
    Hélio

  2. Anonimo says:

    Hélio,

    Como sabes bastante sobre o Grêmio, solicito confirmares se esta clausula que circula por ai existe mesmo no contrato do Grêmio com a OAS. A cláusula estaria assim redigida.
    24.1. Quaisquer litígios oriundos do presente Contrato ou de sua execução, mesmo que venha a ocorrer após o término do mesmo, assim como quaisquer litígios sobre sua a validade ou não validade, deverão ser dirimidos pela via amigável, com exclusão da via judicial. A tentativa de acordo amigável será considerada fracassada quando uma das partes contratantes informar a outra parte nesse sentido, por escrito.
    24.2. Se um acordo amigável tiver fracassado, o litígio será decidido em caráter definitivo de acordo com o Regulamento de Arbitragem da Câmara de Comércio Brasil-Canadá em São Paulo, por um tribunal composto por três árbitros nomeados em conformidade com as referidas regras.
    24.3. Todos e quaisquer litígios em conexão com o presente negócio serão decididos com base no direito material brasileiro, sendo vedado o recurso a qualquer outro direito material, bem como o julgamento por eqüidade.
    24.4. O tribunal de arbitragem tem seu foro em São Paulo (Brasil).
    24.5. A sentença arbitral será por escrito e deverá ser fundamentada e não ficará sujeita a qualquer recurso ou homologação pelo Poder Judiciário. O Tribunal de Arbitragem decidirá também sobre o pagamento das custas do processo de arbitragem, bem como sobre os honorários dos árbitros.

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