POR QUE A ARENA NÃO PODE ELITIZAR O GRÊMIO I

O dia 23/05/2010 marca (ou marcou, dependendo de quando este texto for ou tiver sido lido) o meu 37º aniversário. Frequento o Olímpico desde 1979, aos seis. Posso dizer que, pelo menos desde os oito (isto é, a partir de 1981, ano do nosso primeiro título brasileiro), tenho podido manter uma frequência média de pelo menos 85% dos jogos disputados em casa desde então. Isso significa que, muito provavelmente, de cerca de 1050 a 1080 jogos em casa nesse período de mais de três décadas (chutando baixo, pois 36 jogos em casa/ano é certo), eu tenha vivenciado mais de 910. E, mais do que as conquistas (estive presente em todos os títulos conquistados em casa desde 1979), particularmente me orgulho de ter estado ao lado do Grêmio quando ele mais precisou, isto é, tive 100% de assiduidade em ambas as campanhas na Série B, tanto em 1992 como em 2005. Portanto, alguma experiência pra avaliar certas práticas eu acredito que deva ter.

Mais do que torcer, o Grêmio me traz muita satisfação. Porém, como tudo na vida possui dois lados, minha paixão e meu maior lazer trazem consigo uma grande preocupação acerca do seu futuro. Quando o estádio não lota, a imortalidade pode sofrer algum revés. E eu gostaria muito de tentar compreender por que os gremistas nem sempre precisam enfrentar filas para entrar no estádio ou procurar um lugar para se posicionar nas arquibancadas e nas cadeiras. Se isso ocorre no Olímpico, o que dirá na futura Arena, caso não se procure entender os motivos socioeconômicos e culturais responsáveis pelo tamanho do público em cada partida.

Quando o time vai muito mal dentro de campo ou quando é fim de mês, a ociosidade maior é triste, porém compreensível: pois nenhum torcedor consegue se divertir quando não se sente otimista e esperançoso. E nenhum torcedor pode deixar de pagar aluguel, escola, plano de saúde, prestação do veículo ou deixar faltar comida em casa só por causa do futebol. Afinal de contas, para poder torcer adequadamente, é preciso saber subsistir com dignidade.

Partindo dessa percepção, observei que o jogo contra o Fluminense pela Copa do Brasil signficava, técnica, financeira e emocionalmente, muito mais do que o Grenal – muito embora o título gaúcho conquistado três dias antes tenha funcionado como uma injeção de autoestima tão necessária quanto bem-vinda. No entanto, entendo que a função mais adequada para um título gaúcho é a de tão-somente nos direcionar rumo a voos maiores. Pois mesmo sendo início de mês e sucedendo uma conquista de título, fiquei decepcionado com o público. Pensei: por que apenas 25000 e não a repetição dos 44000 do domingo anterior?

O acirramento da disputa doméstica aliado à – talvez – única chance de muitos verem o Grêmio erguer uma taça ao vivo durante o ano inteiro podem explicar essa preferência por um jogo que vale muito menos.

Dentre tantos fatores, credito a culpa ao horário de “boite” em função da subserviência do clube ao contrato leonino da TV com o C13 (mais sobre isso aqui, aqui e aqui). Para muitos, isso não faz diferença mas, para a esmagadora maioria dos sócios-torcedores que depende muito mais do que os autônomos da máxima “tempo é dinheiro”, falta ônibus tanto na ida como na volta para a Zona Norte.

Eu, por exemplo, vou e volto quase sempre de T2. Não por acaso, desde que Fogaça assumiu, aboliu-se a designação de ônibus extras para o estádio, nessa política burra de cortar “gastos” para aumentar o desconforto do eleitor-pagador de impostos. Além disso, os veículos das duas últimas novas frotas são de acabamento e material inferior aos antigos por serem mais baratos. Logo, para torcer, muitos precisam sofrer desnecessariamente.

A tentativa de compensar esse desconforto é enganosa, pois desvia o desconforto para um outro n’No Brasil atual, não está mais barato comprar um carro e, sim, financiar um carro. O trânsito está pior e muitos não percebem que um carro de 20 mil em 60x custa quase dois carros. Sem contar que é quase impossível ficar sem seguro. O do meu Celta 2004 sai 1000 e poucos reais em 4x. Embora seja um carrinho que quase não incomode (baixo custo de manutenção), para uso urbano básico, precisa de 400 reais de combustível/mês. Pois justamente a parcela do público responsável por tornar o Olímpico Monumental como um palco temido pelos adversários e que faz com que o Grêmio verdadeiramente mande na sua casa não pode sustentar esse verdadeiro casulo motorizado.

Pra quem vai de carro, o posto ex-Touring da Carlos Barbosa cobra 10 a 20 pilas de estacionamento e o posto arrendado que pertence ao Grêmio na Cascatinha com José de Alencar custa de 20 a 30.

Logo, a esmagadora maioria dos frequentadores assíduos precisa de conforto e maior frequência e não de mais estacionamento para ir ao estádio.

Bem ou mal, eu sou um privilegiado e sou sócio proprietário. Mas esse é um custo monstruoso para o perfil predominante entre o sócio-torcedor, como descreverei abaixo.

Por mais que muitos digam que não ou esperneiem, o Sócio Torcedor (cujo investimento atualmente é de 50% da mensalidade do sócio proprietário + 50% do valor do ingresso de cada jogo), é a categoria composta pela esmagadora maioria dos jovens frequentadores da Geral, quase todos vivendo de mesada ou de salário mínimo do primeiro ou segundo emprego). Para eles, mesmo essa conta sai cara, pois não há poder aquisitivo suficiente para que cada um banque a sua frequência no Grêmio como gostaria. No frigir dos ovos, “barbados” de nível superior como os amigos do Movimento Grêmio do Prata são uma raridade na Geral.

Em função disso, a pesquisa que o Minwer ofereceu ao Quadro Social merecidamente reconhecida pela Comissão do Planejamento Estratégico deveria ser aplicada aos 160 mil cadastrados no Exército Gremista para termos uma amostragem bem maior do que a dos 700 e poucos entrevistados que ele conseguiu no Blog do Torcedor. Eu diria que a questão demográfica, de faixa etária e de baixo salário seria predominante se houvesse um leque maior de questões subordinadas às que o Minwer realizou.

Nesse aspecto, caso eu fosse dirigente, pensaria no seguinte quadro:

– Jamais aumentar os ingressos dos mata-mata de Libertadores e Copa do Brasil mantendo-os nos mesmos valores do Brasileirão (que não podem ser diminuídos em função do preço mínimo da CBF).

Por que? Porque a Teoria da Cauda Longa (v. Lei de Zipf na Wikipédia) aponta que, em qualquer situação, existe um padrão matemático que aponta que a quantidade de participantes que consomem ou que investem dezenas ou centenas de vezes mais do que a média são muito poucos, mas que, ao mesmo tempo, mesmo aqueles que consomem pouco, consomem alguma coisa. Sob essa perspectiva, nunca existe o zero e a soma de todos os pequenos é sempre maior do que a soma dos grandes.

O que quero dizer com isso? Que se ganha muito mais dinheiro e se mantém o estádio muito mais cheio cobrando sempre 30 pilas pela Geral do que eventualmente majorando o setor para 40, 50 ou 60. Haverá dezenas de vezes mais gente pagando 30 pilas do que dispostas a pagar 40, 50, ou 60.

Muitos já disseram isso, mas é óbvio que a diferença de 30 pra 40 significa não comer um cachorro-quente e não beber um refri. Independentemente do fato de alguns considerarem essa combinação como um alimento saudável ou não, ela é – na maioria das vezes – a refeição mais rápida e acessível para quem sai do trabalho ou da aula e perde tempo nos engarrafamentos. Também significa um outro fator de sociabilidade, à medida que reune amigos e até mesmo pais e filhos cujos horários de permanência em casa dificilmente coincidem. Já o salto de 30 para 50 reais pode significar a diferença entre poder estacionar o carro no posto ou, então, deixá-lo a pelo menos sete quadras do estádio em uma rua escura à mercê da extorsão dos flanelinhas ou de um risco mais sério na hora da saída. E, finalmente, a diferença de 30 para 60 representa, para dois grandes amigos, um casal de namorados ou um pai e um filho, uma dura opção: “ou eu, ou tu, ou nenhum dos dois vai”.

Nessa conta, por três pilas de entrada sem consumação (podendo gastar apenas dois refris e uma porção de fritas), vale mais a pena assistir no Museu do Esporte, ou até mais barato em um “cheese” ou num boteco em Pay-Per-View.

Hoje, moro a 4 Km do Olímpico e uma linha de ônibus da Carris (mais limpos, motoristas e cobradores melhor treinados, menos solavancos) que me deixa lá em 25 min. A Arena ficará a 10 Km de casa e, atualmente, aquela zona do Humaitá é atendida por ônibus bem vagabundos da Conorte. Imaginem pra quem mora na Zona Sul ou no extremo norte pra ir ao Olímpico em dois ônibus ruins e pelo menos 50 min. de traslado…

Não é nem uma questão de querer ou de poder ter um carro mas, sim, do custo e do transtorno de chegar e de ter que se incomodar com estacionamento, troco, etc. Esse é um outro custo agregado ao futebol. Essa busca e o tempo perdido para quem não pode ter um box no Olímpico (ou, futuramente, na Arena e no shopping anexo) muitas vezes significam pagar para não se incomodar já se incomodando.

Enfim… Hoje, no Olímpico, a equação não facilita mais a lotação do estádio. A questão é de preço x horário, pois os resultados estão melhorando e a Geral e a Tradição fizeram as pazes.

Apesar do grande aumento dos empregos com carteira assinada para a gurizada e da grande proporção de mulheres sobre o público total no Olímpico, quase tudo encareceu muito de 15 anos atrás. Além disso, muito mais adolescentes trabalham hoje do que antigamente – e o tempo de eles se deslocarem da aula para o trabalho e para o estádio diminuiu MUITO.

A esmagadora maioria da gurizada que frequenta colégios particulares ganha mesadas maiores do que os salários do público médio da Geral. Esse nicho privilegiado não é sócio do Grêmio. Eles êm carro e adoram futebol, mas preferem gastar o seu dinheiro para “azarar as gatas na noite” ou para ir à praia, passar o fim de semana no sítio em churrascadas, no consumo de equipamento de surf e de skate, e em frequentar o cinema semanalmente. Futebol, para eles, é mais interessante comentar e jogar a partir do aluguel de quadras do que propriamente ir ao estádio. Esses só vão em clássicos e decisões, pagam ingresso full e acham caro se associar porque vão a, se muito, um jogo por mês. Eles não pagariam mais só porque haveria maior conforto.

Para que essa juventude se associe (ou para que ela passe a encarar o Grêmio como um programaço), o marketing precisa trabalhar a beleza da gremista e a “azaração” a partir de parcerias com casas noturnas. Pra quem tem namorada(o) e gosta de “fazer um H”, deve-se oferecer isso e mais algumas barbadas em restaurantes da moda. Há muitos points na Calçada da Fama e na Cidade Baixa pra isso. Descontos em quadras esportivas, teatro e shows também seriam muito bem-vindos.

A outra providência que eu tomaria:

– Aumentar a mensalidade do Sócio-Torcedor de 50% do equivalente à mensalidade do Sócio Proprietário para 60% e aumentar o seu desconto no valor do ingresso cheio de 50% para 60% do valor cheio: no final das contas, como os valores da mensalidade e do atual desconto nos ingressos não são iguais, a diferença entre esse pequeno percentual a mais na mensalidade aumenta significativamente o faturamento mensal do clube e minimiza o efeito da maratona de jogos que ocorre de julho até o final de setembro, onde quase todas as quartas e domingos são ocupados (o que dobra o número de jogos no Olímpico nesse período muitas vezes decisivo para o restante do Brasileirão).

Esse é um recado também para a Grêmio Empreendimentos e para a OAS:

- O PODER AQUISITIVO ATÉ DEZ/2012 NÃO IRÁ AUMENTAR GRANDE COISA;

- SE QUISEREM QUE A ARENA LOTE COM FREQUÊNCIA, ALÉM DOS RESULTADOS DE CAMPO, NÃO IRÁ ADIANTAR NADA MAJORAR O VALOR DO INGRESSO E DAS MENSALIDADES PARA TENTAR ELITIZAR AS ACOMODAÇÕES BÁSICAS EM FUNÇÃO DO MAIOR CONFORTO DOS ASSENTOS. Dado o panorama acima exposto, o grande público precisa ter um incentivo que faça com que ele vá a todos os jogos ao invés de ser forçado a escolher em quais jogos “valeria mais a pena” se fazer presente.

Agora, um recado para o Grêmio atual, do Olímpico:

- EXIJAM DA PREFEITURA MAIS ÔNIBUS: novas linhas e mais carros para a mesma linha em horários alternativos são mais do que necessários. Seja quando os jogos iniciam cedo demais (19:30h) seja quando terminam tarde demais (23:55h ou até mesmo por volta das 00:45h se houver prorrogação e decisão por pênaltis);

- APRENDAM A NEGOCIAR COM A TV (a economia política da TV no futebol brasileiro 1, 2, e 3): muito em breve, a internet em banda larga tornar-se-á acessível até a última milha, isto é, será um serviço essencial como o são a coleta de lixo, o abastecimento de água potável, o saneamento básico e a energia elétrica. Caso os clubes consigam desatrelar pelo menos a exclusividade da transmissão de seus jogos do portal de notícias do mesmo grupo midiático detentor dos direitos de televisão, cada clube poderá gerar muito mais empregos na área de Comunicação a partir de uma assinatura muito barata, suprindo a necessidade do torcedor de conhecer a história, os ídolos e o futuro (isto é, os novos valores das categorias de base) a partir da produção de conteúdo próprio.