POR QUE A ARENA NÃO PODE ELITIZAR O GRÊMIO II

O post anterior tratou de um panorama realista com base em informações que o FAQ e as exposições sobre a Arena não são capazes de proporcionar ao associado do Grêmio. Sempre saliento que os ilustres gremistas que representam o clube na Grêmio Empreendimentos são muito competentes e honestos. Todavia, é fundamental que haja um contraponto à visão de que tudo será perfeito para todos. Afinal de contas, é necessário que se faça ajustes contratuais de maneira que as obrigações impostas ao Grêmio pela OAS sejam menos sacrificantes.

O novo livro do conselheiro Cacaio Azambuja é uma forma de apoiar o clube e de não suscitar nenhuma suspeita sobre ninguém enquanto trata, paralelamente, de oferecer alternativas que podem vir a diminuir o peso do fardo que o Grêmio terá que carregar. Em função de algumas trocas de e-mails, de alguns encontros presenciais com este brilhante advogado com mais de 34 anos de serviços prestados ao clube e deste artigo publicado pelo autor no Espaço Vital, teci várias considerações bastante preocupantes. Contudo, a informação mais grave refere-se talvez à uma nada improvável impossibilidade de os gremistas patrimoniais poderem usufruir da Arena nos moldes que hoje regem os direitos e deveres do usufruto que ora gozam no Estádio Olímpico Monumental.

Por fim, a última leitura longa porém essencial sobre a mudança vertiginosa do público do futebol inglês foi o que me motivou a insistir sobre esta delicadíssima questão: peço por favor para que leiam com muito carinho e atenção ao artigo O ESPORTE QUE VENDEU A SUA ALMA. Por um lado, os fatores socioeconômicos da Inglaterra ainda permitem que exista um público com poder aquisitivo para adquirir carnês antecipados de ingressos por temporada ou por certame.

Todavia, aqui no Brasil, duvido que, por volta de 20/01/2013 (provavelmente a primeira rodada do Gauchão, competição de estreia da Arena do Grêmio) seja possível aos locatários dos camarotes e cadeiras VIP poder financiar preços semelhantes aos atuais para quase 80% dos lugares do estádio.

Se a gente discute aqui e no Grêmio que a OAS não irá rasgar dinheiro; que o Grêmio precisa ter o dobro de sócios em relação à capacidade do estádio para poder viver sem sufoco financeiro, segundo o Irany; se a cultura porto-alegense, gaúcha, brasileira e latino-americana (todas com pontos em comum, porém distintas entre si) não considera o futebol como um espetáculo de teatro nem o seu público com um comportamento parecido com o do tênis, logo, não será possível podermos lotar o estádio e nem tampouco garantirmos 80% da sua lotação nos jogos mais decisivos.

O investimento público viário; o custo do conforto das instalações do estádio e o da qualificação dos serviços tende a não ser lucrativo, pois dificilmente haverá público em quantidade e assiduidade.

Após conversar com o presidente Gabriel Fadel do MGAT, concluí que, em princípio, o cálculo do conselheiro Cacaio Azambuja do repasse de 6 milhões e tanto/ano necessário para bancar 3500 associados é bastante diferente daquele que o Preis demonstrou sobre 7 milhões/19000 torcedores por jogo.

Independentemente de qual equação esteja mais próxima da realidade que se avizinha, a questão nem é mais essa e tampouco sobre se a Arena irá sair ou não ou se será boa ou não: pessoalmente, considero totalmente equivocada a possibilidade de multiplicação do fator de majoração dos ingressos conforme o esperado (seja pela OAS, seja pelo Grêmio) caso pense-se não apenas nos padrões europeus mas, sim, em tentar elitizar para mudar o público do futebol.

Conforme o levantamento do economista Mauro Salvo do Banco Central ao qual tive acesso aqui, apenas 4650 famílias em toda a grande Porto Alegre (universo de 3,4 milhões de habitantes) podem ser consideradas de classe A.

Dessas, digamos que quase metade seja de colorados. Digamos, ainda, que pouco mais da metade dos filhos goste de ir a futebol (bastante plausível se levarmos em consideração o amplo leque de opções de lazer disponíveis exclusivamente para esse seleto público). E digamos que não mais do que 15% das mães goste de ir ao estádio.

Além disso, o problema da violência nos estádios e arredores que têm o futebol como pretexto e/ou desculpa é dezenas de vezes menos significativo em Porto Alegre do que na Inglaterra. Aqui, o futebol como atividade popular é um fator de sociabilidade e de integração entre classes e estamentos bastante significativo. Portanto, a elitização, além de não contar com um público compatível com a necessidade de manutenção das instalações e de previsão de lucratividade de seus investidores, não pode ser aplicada aqui, de maneira alguma, como forma de solução das mazelas urbanas.

Muitos afirmam que o uso das ciências humanas como forma de pesquisar e entender a cultura de um determinado ambiente seria contra o progresso ou que não levaria em consideração a produção de bens e a circulação de dinheiro. No entanto, a realidade mostra que, caso só se pense em receita, despesa, retorno sobre o investimento, markup, impostos, lucro líquido, custos, fixos, custos variáveis, depreciação e valorização, jamais será possível às ciências exatas dar conta da dinâmica das práticas culturais que definem como cada indivíduo e como cada um dos infinitos nichos culturais aos quais pertencem podem influenciar o seu envolvimento com o futebol de alto nível.

Contudo, quem compra, quem vende, quem produz e quem usufrui possui motivos subjetivos para escolher se realiza ou não esses movimentos econômicos. O mercado é definido pelo interesse do consumidor e não pela vontade do produtor. Há ferramentas e técnicas da Publicidade, do Marketing e de Finanças para procurar puxar a sardinha para o assado de quem investe em produtos e serviços. Mas, apesar delas, não há paixão suficientemente forte para fazer com que alguém se obrigue a ter o que não pode comprar.