POR QUE A ARENA NÃO PODE ELITIZAR O GRÊMIO III

Aparentemente, não existe público pra lotar aquelas dependências na Grande POA. E é muito difícil o valor pago pelas cadeiras gold e camarotes subsidiar valores semelhantes ou apenas um pouco mais elevados do que os de hoje.

Caso já houvesse um volume de público classe AB suficiente, duvido que ainda não tivesse havido um clamor público para a) “Encadeirar” todo o anel inferior e b) Melhorar substancialmente a qualidade dos serviços oferecidos pelo clube. Se o Olímpico fosse assim, as cadeiras lotariam sempre.

No entanto, não é o que podemos verificar no estádio: o último Grenal teve o maior público do Olímpico desde 2007. Foram pouco mais de 44000 pessoas. A capacidade total é de pouco mais de 55000 expectadores. Por medida de segurança, não se pode pôr mais do que 51000. 90% dos 7000 lugares vagos estavam nas cadeiras (cativas, centrais e laterais).

Se o valor dos ingressos fosse viável, como era início de mês, decisão de campeonato e clássico em um horário acessível, teria que ter lotado.

Na Arena, pode-se garantir receita para o clube e obter tanto quanto possível o Lucro Líquido Ajustado, a fim de evitar prejuízos (leia-se devolver parte dos 7 milhões anuais subsidiados pela OAS) desde que seja possível não apenas conquistar mas, sim, manter pelo menos o dobro de sócios em relação à quantidade de assentos da Arena.

O problema é que futebol = resultado. Uma maneira de compensar esse problema é o que o marketing está acertadamente proporcionando ao associado: a percepção de que a soma de descontos em serviços relevantes oferecidos por parceiros de qualidade seja maior do que o valor da mensalidade do clube.

Então, para que o Grêmio realmente fature pra valer (isto é, obtenha lucro independentemente do repasse da OAS e de eventuais devoluções a esta quando o público for baixo), será fundamental que, passado o inferno das férias de verão, da fase que leva do nada a lugar nenhum no Gauchão e da ausência de jogos de volta contra adversários inexpressivos das duas primeiras fases da Copa do Brasil ou de um ou dois jogos pela fase de grupos da Libertadores contra galinhas mortas, lá pela metade/fim de março até o fim de novembro (quando termina a temporada), a média de público terá que superar quase sempre 65%-70% da lotação da Arena.

É esse o problema de se dizer amém para quase tudo o que a OAS exige.

O momento é de ajuste dessas questões. Se isso não for visto agora, a trolha estourará somente do lado do Grêmio. Nos sete primeiros anos, o Lucro Líquido Ajustado será todo do Grêmio. Só que isso não significa que tenhamos LLA todos os meses. A brincadeira só começará a ficar boa a partir da metade de abril. Ou, seja, na melhor das hipóteses (se o time estiver bem), serão quatro meses sem lucro, mesmo que o prejuízo não venha a ser significativo e possa ser compensado depois.

No frigir dos ovos, o problema é o tamanho das obrigações e o custo muito maior do que o esperado (ou imaginado) para o Grêmio. Afinal de contas, Marketing, Comunicação, Quadro Social, Finanças… Todos esses departamentos precisarão rebolar pra valer pra poderem manter toda a estrutura acima em um patamar viável.

O público que vai ao estádio é classe C+ e B-. Além disso, não temos a questão da violência nos estádios em um nível de barbárie nem uma classe AB suficientemente numerosa pra considerar o futebol como o seu lazer primordial. Portanto, a elitização seria um tiro no pé.

Será que, além das preocupações jurídicas, contábeis, de engenharia e de arquitetura houve algum tipo de estudo de impacto mercadológico? Será que houve alguma preocupação minuciosa a respeito da demografia e da cultura do extrato social que compõe o público predominante na Arena?

Segundo as palavras do conselheiro Cacaio Azambuja, até segunda ordem, gostaria de estar enganado:

Há, entre algumas informações cifradas que colhi para informar algumas partes do meu livro, uma afirmativa interessante, a qual irrelevei porque o tema então abordado era tangente ao assunto.
Trata-se de um estudo de marketing – o mercado do estádio Arena – que deveria ter sido incorporado ao tal Plano de Negócios e não foi., ou, pelo menos, teria deixado de revestir-se de mais extensão e profundidade. A incumbência era de  uma empresa, designada como  Gismarket. Se houve ou não esse trabalho tampouco tenho notícias.

O mundo liberal dos negociantes e dos rentistas não prevê o lado humano que define as prioridades pessoais e familiares responsáveis pelo sustento da economia: afinal de contas, eles se esquecem de que a soma dos pequenos é sempre maior do que o todo…