[CB'10 SF I] GRÊMIO 4×3 SANTOS

O MAIOR ESPETÁCULO TRICOLOR DOS ÚLTIMOS 40 ANOS

Outro dia, contabilizei que, apesar de ter vindo a apenas um punhadito de jogos em 1979, outro em 1980 e de não ter ido à semifinal de 1981 contra a Ponte Preta (maior público da história do Grêmio, impossível de ser igualado ou superado), à final do Brasileirão contra o Flamengo em 1982 e à final da Libertadores de 1984 contra o Independiente e, finalmente, de ter passado seis meses em 2000 e um mês e meio em 2001 fora de Porto Alegre, se pusermos uma média de – digamos – apenas 32 jogos em casa por ano, salvo de uma a quatro faltas por ano (sendo os anos de um ou dois jogos ausente os mais comuns na última década), Devo ter mais ou menos 600 jogos ao vivo em casa.

Não posso dizer que o de ontem foi o de um Grêmio perfeito. Também não posso dizer que foi o mais pegado em termos anímicos (brigas, expulsões) e nem tampouco o mais polêmico (arbitragem quase nota 10; diretorias, técnicos e atletas com respeito mútuo e constante). Mas, disparado, foi o jogo mais agradável da minha vida em termos de alternâncias de placar favoráveis a nós e de um futebol verdadeiramente técnico, tático, bonito e de qualidade, no qual os erros foram muito mais pontuais e imperdoáveis de parte a parte do que em função de alguma suspeita incompetência, falta de combatividade ou de liderança.

Para os gremistas que têm e ainda terão filhos e netos, que passem adiante a história dessa partida. Desde já, sintam-se gratificados, maravilhados e – mais do que tudo – OBRIGADOS a relatar, mesmo que de maneira épica e romanceada, o que viram ontem à noite no nosso Monumental.

Por respeito ao ambiente como um todo montado em função desta tão sonhada semifinal de Copa do Brasil, ninguém merece aplausos individuais, nem a culpabilidade personalizada. Nem de Grêmio, nem de Santos. As virtudes e o conjunto da obra foram muito superiores às falhas. Para os jovens que não tiveram o prazer de ver Renato ao vivo e para os não tão velhos que não puderam ver Pelé, ontem tivemos um clássico entre o Mosqueteiro portaluppiano e o Peixe pelezino que, de tempos em tempos, incorporam nos jogadores atuais para nos brindar com o melhor o futebol que o Brasil pode oferecer.

Hoje, ao contrário de muitas ocasiões nas quais prevalece em mim o pessimismo crítico fruto da forte influência que sofro dos pensadores franceses, enxergo o copo meio cheio ao invés de meio vazio. O que vi ontem me dá uma esperança real de que, independentemente de que venhamos a vencer o Santos novamente na Vila ou que, tragica e inesperadamente, soframos um sonoro 7×0, vejo muita esperança no restante de 2010  – muito em função da visão preponderante de que o Santos é quem errou e não o Grêmio é que teve qualidade e frieza para reagir a tempo. Até parece…

O jogo de ontem serviu para mostrar não aos gremistas corneteiros e incrédulos que não merecem pisar no fétido estrume do cavalo da Brigada parado no Largo Patrono Fernando Kroeff; nem aos desesperados e patéticos secadores estabelecidos na várzea do Lago Guaíba e tampouco para dar satisfação a uma mídia que só demonstra qualificação nas vozes e nos teclados de muito poucos profissionais dispostos a fazer jornalismo e não fofoca imparcial.

Ainda, tudo o que fizemos ontem não se destina simplesmente a mostrarmos a nossa cara ao centro do país que concentra 40% da economia e da população do país e a esse público e a esses patrocinadores superdimensiona os feitos de seus clubes: o que o Grêmio fez contra o Santos na inolvidável noite de 12/05/2009 no Estádio Olímpico Monumental foi a demonstração mais clara de que não existe garra sem técnica. Não existe arte sem doação. E que aqueles que dão carinho, boa alimentação, preparo físico, elevam a auto-estima e alentam aos nossos jogadores formam um conjunto indissociável de energia pulsante.

A ilha de Lost é aqui: o campo eletromagnético que emana do gremismo suga a rigidez dos metais de quem se atreve a nos desafiar. Quem cai aqui dificilmente consegue sair: a prova maior desse fato foi o aplauso que o jogador Robinho, ídolo-mor do Santos atual e – injustamente – apenas o único jogador de ambos os melhores times brasileiros do primeiro semestre de 2010 convocado para a Copa do Mundo da África do Sul prestou como reverência à nossa Geral. Quando parece que os invasores estão começando a dominar o terreno, nós – os Outros – primeiro os subjugamos para, depois, atrairmos os visitantes já ambientados para o nosso lado.

Se alguém ainda não entendeu o que é viver o Grêmio, que o breve relato deste texto ajude a incitar amor, paixão, doação, entrega, loucura, euforia e inteligência a todos aqueles que precisam – e muito – dessas sensações para sentirem-se cada vez mais vivos.

Pra quem ainda teme pelo jogo de volta, tenho um motivo muito particular pra acreditar que o Grêmio irá passar por mais este desafio. Mas esse eu guardo pra mim!