
O jogo de ontem foi tão inexpressivo que vou entrar em outra pauta já introduzida pelo Alfredo Carlet nos comentários do blog Sempre Imortal: a arbitragem.
Árbitros bons são raros. Mas não acredito em teoria da conspiração, nem em “pobres gremistas: sempre injustiçados porque estão ‘fora do eixo’ ou porque não jogam o ‘futebol-arte’” nem em “fodam-se porque gaúcho não presta”: como diria o filósofo alemão Immanuel Kant, é preciso discutir de forma que o homem atinja a sua maioridade. Maioridade que não é de idade cronológica nem referente à subjetividade pela qual se considera que fulano atingiu a maturidade por agir da forma A e não da forma B. Kant falava da maioridade do cidadão, do avaliador, do político e da responsabilidade de cada um a partir de uma observação desapaixonada e bastante ampla da realidade social que envolve o ambiente das escolhas coletivas. Portanto, discutir sobre pessoas e sobre suposições sem nenhuma comprovação factual ou científica constitui um ato de menoridade, onde se discute mais sobre pessoas e menos sobre ideias.
Hoje, me nego a discutir que “fulano é ladrão” ou que, ao primeiro sinal de equívoco contra o Grêmio, “que fulano foi comprado” ou que é coisa de “paulista ou carioca”. Se fosse assim, não precisaríamos mais jogar. Não precisaríamos mais acompanhar futebol. O esporte não teria razão de existir como um conjunto de eventos que emociona e que movimenta a economia como uma atividade de alto nível, que envolve dos serviços mais básicos à tecnologia de ponta em vários setores do conhecimento.
Há também a enorme necessidade que alguns veem em despender energia com algo que não vale a pena. Trocando em miúdos: vetar um árbitro é ridículo, pois se o Grêmio consegue que a CONAF não escale mais para os seus jogos o árbitro A, o Flamengo o B para seus jogos, o São Paulo o C e o Cruzeiro o D, quando esses clubes se confrontarem, além de a possibilidade de escala para jogos de tamanha responsabilidade se tornar reduzida, a tendência de que alguém verdadeiramente desqualificado (ou até mesmo facilmente condicionável) seja escalado aumenta vertiginosamente.
Além disso, muitos esquecem-se de que o Grêmio também é muito ajudado pela arbitragem: em 2008, não foi apenas Victor quem nos salvou e nos levou ao vicecampeonato brasileiro. E quem nos tirou o título não foram os três pontos a menos no Grenal (como muitos equivocadamente pensam), nem a mudança de árbitro e de local para Goiás x São Paulo na última rodada. O Grêmio venceu seis jogos nos quais o empate teria sido plenamente aceitável por todos. Porém, vencemos com pequenas ajudas não-intencionais da arbitragem. No geral, desapaixonadamente, a banca paga e também recebe. Porém, como somos todos parciais, não nos damos conta desse “pequeno” detalhe.
Eu vejo a arbitragem da seguinte forma: a ruindade técnica da maioria dos quadros se reflete também pela aceitação pura e simples da manha e da conversa mole do jogador brasileiro. Eles não sabem medir o momento exato de dar trela, de dar uma carraspana ou de serem enérgicos com os boleiros. Isso porque os árbitros em geral se veem como onipotentes e sabem que a sua imagem é televisionada para o mundo inteiro. Então, essa mistura de despreparo com narcisismo faz com que eles avaliem regras objetivas como se fossem interpretativas e regras interpretativas como se fossem objetivas. A falta de cultura geral e até mesmo de uma boa escolaridade gera essas distorções entre erros de fato e erros de direito.
A FIFA não está errada ao afirmar que os erros fazem parte do jogo. Todavia, os erros de escalação, de observação, de posicionamento, de passes, de domínio, de conclusões e de marcação é que são a tônica do esporte. O erro da arbitragem é socialmente inadmissível, pois espera-se que a autoridade seja exercida por doutos. Nestes, por sua vez, depositamos um excesso de confiança e nos preparamos emocionalmente para negarmos a sua falibildade por crermos na suposição de que eles são verdadeiramente preparados para a importante função que exercem dentro de campo.
Se a CONAF e a CBF (diria mais: se a CONMEBOL e se a FIFA) fossem punir a todos por tudo o tempo inteiro, não existiria mais árbitros aptos a trabalhar no futebol profissional. Esse não é um mal brasileiro.
E interpretação cada um faz a sua. Infelizmente (para quem gosta de exatidão), as pessoas não são exatas. E até mesmo os melhores e os mais preparados também erram.
O preparo físico viaja anos-luz além da velocidade dos olhos e da agilidade motora de transformar os cinco sentidos em julgamento, memória e veredicto. Ao mesmo tempo, a arbitragem eletrônica da TV também comete falhas, pois não há garantia alguma de que as câmeras sejam posicionadas em todos os ângulos possíveis. Basta lembrar a Copa de 98, quando somente uma câmera da inexpressiva TV sueca comprovou que o brasileiro Júnior Baiano fizera pênalti sobre um atacante norueguês.
A CBF tem dinheiro para treinar operadores de câmera e para pôr câmeras suficientes ao redor dos gramados de todos os estádios das séries A a D do futebol brasileiro. Boa parte das federações estaduais, que são cabos eleitorais de Ricardo Teixeira, também o poderiam fazer. Aliás, as que não podem, teriam como exigir: afinal de contas, foram eleitoras dele.
Mais especificamente no caso do RS, o presidente da FGF, Francisco Novelletto Neto, embora seja conselheiro do Tradicional Adversário, não pode ser acusado de prejudicar deliberadamente ao Grêmio. Porém, o seu reinado depende do clientelismo dos clubes do interior ao invés de procurar lutar em busca de uma fundamental coerência nos calendários e nos portes das competições das quais seus filiados participam.
Fico pasmo ao ver que os conselhos deliberativos de todos os grandes clubes brasileiros possuem predominantemente advogados em sua composição e que, apesar de defenderem ou de acusarem com maestria em uma série de causas das mais diversas naturezas, quando o assunto é o árbitro de futebol, esquecem-se do princípio básico de que todos são inocentes até prova em contrário.
Pior: de que nem sempre existe um réu e um caso juridicamente formais.
"rocando em miúdos: vetar um árbitro é ridículo, pois se o Grêmio consegue que a CONAF não escale mais para os seus jogos o árbitro A, o Flamengo o B para seus jogos, o São Paulo o C e o Cruzeiro o D,"
o interessante é que a CONAF/CBF VETA arbitros p/ pedidos de SPFC, Fla, Corinthians… mas se o cara "erra" bizonhamente a favor destes times ou contra times de PR, RS, MG, etc, não acontece nada… isso é um fato.
Curioso vc usar a imagem do melhor juiz do planeta, o italiano Roberto Rossetti. Post Perfeito, sempre falo a mesma coisa. Alguns jogos são claramente suspeitos, mas a maioria é dotada de arbitragens péssimas.
Pois é: usei o Rossetti justamente porque acho que a função merece e exige respeito, embora precise "fazer por onde". Os erros vêm em cascata por causa de uma falha estrutural no sistema.
Valeu!
[]'s,
Hélio
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Ah! Um outro detalhe: o grande problema em relação ao título brasileiro do Corinhthians da Era Kia, apesar da influência direta da arbitragem do Márcio Resende de Freitas no resultado do jogo entre vocês e eles, não foi a suspeitíssima – porém, infelizmente, impossível de ser comprovada – injusta expulsão do Tinga e as (até prova em contrário) coincidências de escalar um árbitro vaidoso, veterano e em final de carreira para apitar jogos decisivos que, não-raro, envolveram quase sempre um clube do eixo RJ/SP e outro de algum outro estado não é o cerne da questão.
Eu creio que pode até haver a intenção eventual de favorecimento dos clubes do centro do país. Mas isso não ocorre predominantemente por corrupção de dirigentes, de federações ou de árbitros. Creio que, por causa do fato de 40% da audiência, da torcida e dos grandes anunciantes em nível nacional do futebol televisionado estarem no eixo Rio-São Paulo, tanto não é bom que o mesmo clube ganhe tudo o tempo inteiro como que nenhum deles conquiste pelo menos um título importante a cada cinco anos.
De qualquer forma, ninguém poderia imaginar que Palmeiras, Vasco e Corinthians caíssem para a Série B. Hoje, pode ser que o Cruzeiro sente na graxa como nunca, pois os irmãos Perrella foram pegos pela Polícia Federal por tráfico de influência e outros crimes gravíssimos. Portanto, bem ou mal, é bem possível que, caso um Flamengo da vida não se emende (ou até mesmo – mas aí é bem mais difícil por causa do nível de organização atual – um Inter, um São Paulo ou um Cruzeiro), também possa cair.
A CBF vive de clientelismo e não reparte o bolo, pois obteve, apenas como lucro, mais de 140 milhões de reais em 2009. A CONAF não recebe investimento e não há vontade política para cursos mais sérios e para níveis de exigência mais severos sobre aqueles que se candidatam a um curso de arbitragem. E o Clube dos 13 não passa de um cartório de registros de contratos de cessão de direitos da imagem de mídia de seus filiados e também de um balcão de renegociação de dívidas mediante antecipação do resgate das verbas de patrocínio.
Enfim… Responsabilidade fiscal para presidentes e dirigentes responsáveis pela contabilidade dos clubes ainda é muito pouco. O Governo Federal já deu arrego demais aos clubes ao permitir a renegociação de suas dívidas com INSS e Imposto de Renda em suavíssimas prestações, além da Timemania que não traz retorno e da banalização da Loteca, que já foi uma fonte de premiação e de "chula" muito interessante quando eu era piá.
É fácil demais fazer caca nos clubes, pois o dinheiro nunca é do dirigente. A falha é estrutural.
[]'s,
Hélio
My recent post NIKE COPA 2010: WRITE THE FUTURE
Caro Hélio,
É consenso a existência de dois estilos de arbitragem. A do árbitro localista, sensível às pressões, como a grande maioria.. Esse eu quero no Olímpico.
O insensível ao fator local ( Sandro Meira Ricci ) me serve longe de casa.
Os colorados lidam muito com isso.
Abraços,
Alfredo.
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