
Núcleo central: links + visitados; in-continente: links que apenas referenciam o hub do núcleo central, mas não recebem links dele; out-continente: links referenciados pelo núcleo central, porém sem caminho de volta; tubos: vias diretas entre links dos continentes in e out sem passar pelo núcleo central; tendris: penínsulas dos continentes in e out com uma via de mão única de e do núcleo central; ilhas: não possuem link algum com os continentes. Sarney está no núcleo central. Os petistas históricos que não pensam em rede estão nos tendris ou nas ilhas. Em suma: não participam do jogo nem em seu lado bom, nem em seu lado ruim.
Meu querido amigo @miltonribeiro (disparado, top 5 da blogosfera gaúcha – adicionem aos favoritos, assinem via RSS e leiam-no todo dia) me propôs um exercício: escrever sobre o pragmatismo do PT tendo como mote a parceria com o coronel Sarney no MA (leia-se aliança com as hienas camaleônicas do PMDB) em no máximo duas horas.
Não sei se ficou bom. Porém, para este post (agora, com mais tempo), corrigi alguns erros de concordância e modifiquei-o um pouquinho, pois nunca considero nenhum conteúdo digital como algo estanque ou acabado.
Baixem o pau nos comentários à vontade. Retuítem e postem em seus blogs. Porém, não esqueçam de pôr os créditos. E, por favor: não copiem o texto integralmente, não ponham nos meus dedos palavras que eu não teclei e, finalmente, utilizem citações do meu texto como uma forma de ampliar a discussão. Enfim… Sejam originais e criativos: criem, reconstruam-no, contestem-no e, caso concordem com o que eu escrevi, o maior elogio seria vê-los acrescentar informações que eu certamente esqueci. Melhor: corrijam-me! ;)
O senso comum considera o escritor italiano Niccolò Machiavelli como uma espécie de precursor do lobby sem escrúpulos. No célebre livro O Príncipe, esse homem multidisciplinar que viveu apenas 58 anos entre os séculos XV e XVI nos faz lembrar que a história pulsa. Portanto, podemos verificar facilmente que muitas articulações e conclusões seculares se repetem no cotidiano sociotécnico do século XXI apenas com outra roupagem.
Maquiavel tornou célebre uma frase bastante utilizada por indivíduos pragmáticos, frios, calculistas e – não-raro – maus caracteres de algumas gerações atrás:
“OS FINS JUSTIFICAM OS MEIOS.”
Na simplicidade da citação acima, o autor definiu a necessidade da negociação política que vigora desde sempre nas sociedades primatas: se houver uma disputa por poder, seja do mimo da mãe ao envio de exércitos para pilhar as riquezas naturais “de gente cujo jeito não querem que a gente entenda direito”, toda conversação é política.
Hoje temos Lula e Sarney irmanados em uma mesma emoção. Como é que, após décadas de “luta”, um líder sindical, um torneiro mecânico com o ensino fundamental incompleto (pior: um imigrante do agreste que foi preso durante um mês nos porões da ditadura) resolveu aderir ao ditado “SE NÃO PODES VENCER TEU INIMIGO, JUNTA-TE A ELE”?
Ih, é agora que eu não entendo mais nada: essa não era a máxima do eternamente situacionista PMDB?!
Precisamos aprender a pensar fora do nosso mundinho hermeticamente fechado, repleto de valores simplistas sustentados por uma série de preconceitos antes de sairmos por aí a dizer que “os políticos são todos iguais”.
Ora, se os fins justificam os meios e se os anéis são espetaculosos demais até mesmo dentro de um ambiente repleto de Armanis e Rolexes comprados com dinheiro sujo, que vão-se os anéis e fiquem os dedos.
Os acordos com atores políticos do naipe de um Sérgio Cabral (RJ); de um José Sarney (MA); de um Hélio Costa (MG); de um Gedel Vieira Lima (BA); de um Jader Barbalho (PA); de um Henrique Meireles (GO) e até mesmo de um Osmar Dias (PR), ao contrário do que possa indicar o resultado favorável obtido em curto prazo pelas famílias midiáticas, pelas oligarquias e pelos títeres estrangeiros que sustentam e são alimentados por todos esses senhores feudais, na verdade, possui um objetivo muito mais nobre, embora de lenta resolução social: o de desconcentrar e multiplicar a riqueza do país.
Lula não é o meu herói, assim como também não será a sua herdeira política. Dilma Rousseff, uma ex-pedetista amplamente respeitada e muito bem aceita pela direita e pelo empresariado gaúcho em geral, já consegue mostrar aos pares desse poderoso grupo de interesse espalhados por todo o território nacional que o PT acha que Deus escreve certo por linhas tortas. Afinal de contas, se o presidente disse recentemente em uma entrevista para a cúpula do jornalismo político e econômico da Band “Resolvam os problemas do trânsito com pontes, estradas… Só não venham me pedir pra parar de vender carros” e se a famigerada usina hidrelétrica de Belo Monte (da qual Dilma é a maior evangelista) irá alagar um trecho de aproximadamente 100 Km do Rio Xingu onde há atualmente uma biodiversidade maior do que a de toda a Europa, logo, o Brasil seguirá investindo pesado em commodities (vide o Pré-Sal e as linhas de financiamento do BNDES e do Banco do Brasil muito mais generosas voltadas para o latifúndio do que para o pequeno agricultor) como uma forma de obter divisas para empreender as mudanças sociais que – espera-se – sejam capazes de aproximar do presente aquele futuro idealizado para o eterno “país do futuro”.
Divaguei demais… Voltemos aos anéis e aos dedos: não é nada pessoal: acredito que nem Lula e tampouco a cúpula do PT considerem como ingratos, falsos ou inconvenientes nomes de alto potencial eleitoral e de décadas de serviços prestados ao Partido dos Trabalhadores como como Fernando Pimentel (MG), João Paulo (PE), Lindberg Farias (RJ), Antônio José (PI) e Ideli Salvatti (SC); os migrantes Flávio Dino (PC do B-MA), Luíza Erundina (PSB-SP) e Heloísa Helena (PSoL-AL). Nesse grupo, incluo até um aliado significativo como Roberto Requião (PMDB-PR).
Todavia, o PMDB está repleto de poderosos conectores de rede (os chamados hubs) com acesso a uma rede imensurável de contatos no Brasil e no exterior capazes de, se ninguém “bulir” com o seu rico patrimônio.
O conteúdo programático e a ideologia dos dedos ainda faz com que o ato de vestir os anéis rememore o afeto e traga à tona a ressignificação do sentido de pertença que os une. Todavia, esses anéis não possuem laços fortes com atores sociais a quem o PT tradicionalmente tapava o nariz para não sentir o cheiro, apertava as mãos vestindo luvas de amianto ou, então, costumava usar máscara de soldador para esconder que não interessava olhar dentro dos olhos “dessa gente”.
Se há um objetivo de conhecer pessoalmente Barack Obama e de manter com o “líder do ‘mundo livre’” uma relação extremamente amistosa com um mínimo de subserviência; se existe a ambição de reduzir a violência, aumentar o crédito, diminuir o desemprego e, finalmente, de tornar o Brasil um exportador de produtos de alto valor agregado (leia-se ciência e tecnologia de ponta), é preciso aprender a ver um lado que ninguém vê em pessoas anteriormente tidas como “do mal”. Ao mesmo tempo, também é preciso aceitar que as pessoas “do bem” nem sempre são capazes de conectar grupos de interesse altamente distintos – pra não dizer antagônicos.
Embora eticamente contraditório, esse pensamento em rede pode ser comparado – naturalmente em uma escala milhões de vezes maior – a uma pequena hipocrisia que cumprimos e mal percebemos:
- Sabem quando vamos a uma festa e encontramos uma pessoa com quem não vamos com a cara mas é muito amiga de alguém que a gente adora? Não dá pra ser sincero o tempo inteiro quando não se deseja chamar a atenção para um fato que tende a nos prejudicar muito mais do que nos ajudar.
Gostemos ou não, o PT aderiu à realpolitik, como dizem os alemães. Afinal de contas, em bom português, a política nada mais é do que “a arte do possível”…
O oportunismo e o sectarismo são dois extremos perigosos que a esquerda tem que evitar. O caso do PT foi o primeiro. Ele seria a nossa social-democracia retardária que, como seus avós, terminou do lado das classes dominantes.
Óbvio que há diferenças históricas e conjunturais na chegada e traição da social-democracia européia ao poder no início do século XX e a do PT no início do XXI. A primeira tinha um plano de reformar o capitalismo e terminou primeiro apoiando a I Guerra Mundial, depois aceitando a colaboração com a burguesia internacional no pós-Guerra! Criaram o Welfare State, que nas palavras do próprio Hayek, só existiu por causa da URSS.
Dissolvida a URSS começou-se a aprofundar a dissolução do Welfare State também. E adivinha quem está colaborando com essa empreitada? Ela mesma: a social-democracia!
O PT, que nunca teve claro o que faria (se reformaria o capitalismo, se o superaria, etc), chegou ao poder já cheio de vícios institucionais e com muitos de seus dirigentes muito bem acomodados no regime, além de do ponto de vista conjuntural encontrar um capitalismo com outro desenvolvimento das forças produtivas e que não aceita mais ser reformado.
Sugiro que leias sobre o SPD alemão e o embate de Rosa Luxemburgo contra o giro oportunista de seus dirigentes. Lenin também refletiu sobre isso até porque, Kautsky era muito lido pelos bolcheviques. Ajuda a entender um pouco o giro oportunista do PT.
My recent post Europa aprova perseguição política
Menos mal, que a própria candidata Dilma, em discurso no dia de sua aclamação no congresso do PT, falou na necessidade da reforma política!
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