GOOGLE MAPS, GOOGLE MAP MAKER E O PAPEL DA GEOGRAFIA PARA A SOCIEDADE

Na mesma linha da palestra que comentei no post anterior sobre a fala de Tim Berners-Lee relacionada ao uso dos mapas para a solução de n problemas sociais via internet, a apresentação do indiano Lalitesh Katragadda (engenheiro do Google que estudou na venerável Carnegie Mellon University) no TED conclama os internautas a utilizarem o aplicativo Google Map Maker para ajudar-nos a completar o geomapeamento de 70% dos locais do planeta que ainda não estão disponíveis na rede.

Dei uma breve olhada no Map Maker: trata-se de um “programinha” bem barbada de se usar. Editar e acrescentar locais a partir daquela interface simples e conhecida (bastante parecida com a do Google Maps, porém com a adição de ferramentas específicas) é realmente uma baba.

Nesse ponto, apesar de todas as minhas restrições em relação à segurança e à vigilância dos dados que o Google indexa sem parar, é inegável que esse outro lado do apoio à iniciativa de seus funcionários rumo à criação de ferramentas colaborativas é algo cuja disseminação só é possível em um ambiente de desenvolvimento no qual o lucro financeiro não provém diretamente da revenda de aplicativos.

Outro dia, o porteiro mais antigo do prédio onde @heliopaz e @lubelskina moram (um senhor de 62 anos de idade que já foi empresário e tinha mãe poliglota, porém perdeu a sua gráfica, não atualizou-se tecnologicamente e preferiu ser halterofilista na juventude) me perguntou:

– Por que uma pessoa que não irá exercer a profissão precisa estudar Geografia? Afinal de contas, eu nunca fiz uso das informações que decorei na escola como, por exemplo, o Rio Amazonas e seus principas afluentes…

Pois bem: hoje, mais do que nunca, independentemente da falta de um piso salarial decente, de um plano de carreira minimamente aceitável, da falta de investimento em infraestrutura e atualização pedagógica, mais do que nunca, a Geografia passa a ter um papel CRUCIAL para o desenvolvimento da humanidade.

O Google Map Maker, o Google Maps e a facilidade de inserir e de cruzar dados torna quaisquer índices estatísticos relevantes quando o objetivo é localizar e aperfeiçoar serviços públicos e processos sociais.

Mais do que nunca, a escola passa a ter um papel preponderante (como se alguma vez tivesse deixado de ter) na formação integral do cidadão do presente e do futuro, pois só o reconhecimento do próprio sujeito em uma determinada sociedade o tornará consciente e atuante.

Tanto os locais nos quais nos criamos como aqueles para onde gostaríamos de conhecer tornam-se signos identitários muito fortes. A consciência de que uma sociedade em rede, auto-organizada e repleta de focos de atividade emergente em todos os campos do conhecimento é um ponto de partida bastante atual para podermos tocar o mundo adiante.

TIM BERNER-LEE: MAPEAMENTO GLOBAL PARA A SOLUÇÃO DE PROBLEMAS

Considero o TED uma parada obrigatória para encontrarmos ideias que merecem ser amplamente difundidas. Em sua maioria, os palestrantes oferecem (ou, no mínimo, nos levam a refletir sobre) soluções inovadoras para questões gravíssimas com as quais precisamos conviver.

O futuro da humanidade depende da apropriação cidadã, criativa e ágil das TICs – sobretudo em um meio urbano e conectado, repleto de cidades nada planejadas, onde impera o caos e onde a auto-organização infelizmente não impera.

O criador da WWW, Tim Berners-Lee (ora envolvido em um projeto de longuíssimo prazo e ainda inconclusivo chamado web semântica) levantou importantes fatos e questões sobre a necessidade de utilizarmos o cruzamento de bancos de dados a partir de um mapeamento geográfico global. Já existem muitas ferramentas fornecidas em uma infinidade de web sites com diferentes finalidades, que tornam não apenas a vida do consumo mais fácil como também nos ajudam a encontrar e a contactar ajuda praticamente em tempo real.

Percebam como foi menos árdua e menos sofrida a possibilidade de se encontrar as vítimas e os parentes das vítimas do furacão Katrina no Mississippi em 2004 e como essa técnica já consagrada evoluiu de lá pra cá quando tivemos o terremoto no Haiti em 2010.

A capacidade colaborativa da rede faz com que cada um, mesmo sem um envolvimento presencial direto, ofereça a sua contribuição de uma maneira tão simples quanto significativa: basta alimentar um banco de dados aberto, buscando informar a sociedade.

Como demonstra berners-Lee no vídeo acima, um mapa pode nos  mostrar muita coisa: quantas casas em um determinado bairro tiveram o seu abastecimento de água cortado, por quanto tempo, e aonde surgiu o problema. Essa é uma maneira de informar ao público, que pode determinar um maior envolvimento e uma pressão maior sobre governantes, parlamentares e executivos responsáveis por políticas públicas.

Outro serviço mostrado por Berners-Lee foi o de fracionar pecentualmente e localizar o investimento feito com a arrecadação de impostos no Reino Unido: quem sabe a população agora passa a se mobilizar para que as prioridades dos políticos e das empresas terceirizadas que fizeram lobby junto aos vereadores, deputados e senadores sejam invertidas?

Enfim… Há muito o que se fazer. Porém, as ferramentas já estão aí. Essa pode ser uma maneira bastante eficiente de empoderar os gamers e de torná-los tão heróis e tão competentes na solução de problemas  sociais reais como o são em relação aos problemas virtuais…

…Digo mais: donas de casa, aposentados, crianças e adolescentes de comunidades carentes que estão conectados em escolas públicas, LAN houses e em suas próprias casas têm tudo para resgatar a essência do espírito comunitário que anda tão em baixa graças ao neoliberalismo.

O EMPODERAMENTO DOS GAMERS POR UM MUNDO MELHOR

Tendo a crer na hipótese da fascinante Jane McGonical, desenvolvedora de games, blogueira e pesquisadora. Ela foi palestrante de mais um excelente TED (acima).

Seu discurso aponta que os gamers possuem uma energia e um potencial colaborativo enormes: imaginem se lhes concedêssemos tanto as ferramentas como um ponto de partida teórico-prático capaz de restabelecer a autoestima para aquela parcela de gamers que utiliza os jogos eletrônicos não como uma forma de compensar as suas dificuldades estudantis e de convivência…

Os jogos eletrônicos (a meu ver, sobretudo aqueles do estilo MMORPG como, por exemplo, o venerável World of Warcraft) incluem sociabilidade (só segue adiante quem interage com outros jogadores ou com personagens que estão no meio do caminho para fornecer informações preciosas), soluções de problemas, (tanto de sobrevivência como de locomoção), tarefas árduas, descoberta de novos elementos simbólicos e um aprendizado contínuo acerca das forças e das fraquezas da sua própria personagem e também das demais que fazem parte da equipe do jogador em questão.

Um game social complexo já faz parte do ambiente online, onde a colaboratividade e a ubiquidade são perenes. Portanto, constitui por si só um ponto de partida para o ativismo social e político para uma geração cuja vivência se dá mais em espaços urbanos de classe média alta e dentro de casa do que em um ambiente natural.

No caso, como a própria Jane McGonical fala brevemente no vídeo acima, o game que ela idealizou chamado EVOKE apresenta uma possibilidade de fazer com que os gamers iniciem um processo de judar a salvar o mundo. Entrarei com maior profundidade nele em outros posts – fica atento! ;)

Sugiro a todos os economistas, administradores, juristas, sociólogos, filósofos, comunicólogos, assistentes sociais, educadores e cientistas políticos que ainda consideram o ambiente forjado pela modernidade como a ágora política e social de uma comunidade de massas que passem a ver com carinho a possibilidade de encontrar um modus operandi baseado naquilo que os games podem trazer para a sociedade pós-moderna.

Afinal de contas, todo choque de gerações se dá muito mais pelo estranhamento e pelo conservadorismo dos mais velhos do que pela inconsequência, pela inexperiência e pela impetuosidade da juventude… ;)

POR UM DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL URBANO NO BRASIL

O Luiz Carlos Azenha postou no Vi o Mundo um post intitulado "O MODELO FALIU. VAMOS CRIAR OUTRO?" Nele, o jornalista convida seus interagentes a assistirem à série de reportagens sobre as mazelas da Marginal Tietê em São Paulo, veiculadas durante esta semana de segunda à sexta no Jornal da Record a partir das 20h em cinco episódios. Os dois primeiros já estão disponíveis no portal R7 aqui.

As últimas semanas tem sido meteorologicamente cruéis com a maior cidade da América Latina por causa do excesso de chuvas. A profusão de concreto e asfalto faz com que o automóvel e a construção civil tenham um valor mais alto do que o da convivialidade. Por isso, as áreas de várzea tem virado habitação de pobres. Por desinteresse das administrações do demotucanato, os alagamentos tem causado perdas irreparáveis para quem mal recebe o suficiente para comer. Pior: tem-lhes trazido doenças medievais. Assistam – porém evitem fazê-lo durante as refeições.


No vídeo do último link, notem que a Globo, apesar de ter feito jornalismo de verdade depois de muito tempo (e de não ter exposto a matéria para o país inteiro - foi apenas no SPTV, o Jornal do Almoço deles), NÃO ENTREVISTOU E SEQUER CITOU O NOME DO PREFEITO, DO GOVERNADOR E NEM TAMPOUCO DE SEUS PARTIDOS.

Mas, para não dizer que não falei de flores, eis o belíssimo exemplo de Seul. Os coreanos, depois de décadas de uma industrialização frenética, pisaram no freio de mão e passaram a considerar o ser humano como fonte de todo desenvolvimento – talvez esteja aí a maior virtude da sua cultura, que não é baseada no moral judaico-cristão e consegue reagir contra o taylorismo-fordismo. A recuperação das margens do rio Han é simplesmente notável e prova que é possível pensarmos assim também para as cidades brasileiras.

Também não poderia deixar de incluir este documentário na discussão, que envolve consumismo e educação. Afinal de contas, a criança precisa deixar de ser a alma do negócio, pois serão eles quem irão tocar adiante o que deixamos para elas.

Em relação a Porto Alegre, digo que se deve difundir essas informações e evitar, a todo pano, que se altere ou se mantenha o já deturpado PDDUA.

Aliás, conheço arquitetos que devem ter passado por obrigação pelas disciplinas de Urbanismo que pensam que o projeto Pontal do Estaleiro devia ter sido aprovado por causa do lixo e dos "marginais"...

Enfim... O problema é que custa tempo e dinheiro fazer o que seria mais plausível para convencer essa massa de consumistas: elaborar projetos alternativos para locais e necessidades públicas e ambientais ainda mais extremas.

O desafio fica para as faculdades de Arquitetura e Urbanismo e também para as de Comunicação, Direito e Ciências Sociais: já que a maioria da classe média precisa tocar a sua vida no comércio e nos serviços, os pesquisadores e os estudantes precisam divulgar para a sociedade e não apenas para os seus pares a sua criatividade e as suas experiências.

Porém, o individualismo e o consumismo geram o descolamento da sensação de comunidade, de rede e do compartilhamento solidário do espaço que verificamos agora.

Costumamos nos reunir dentro de universidades e aprendemos com os palestrantes acadêmicos. Porém, quantas vezes se para para questionar e cobrar da academia uma atitude mais social?