Este post é o resultado da adaptação de um comentário inicialmente publicado no excelente blog Somos Andando, da Cris Rodrigues. ;)
Eu parto de uma perspectiva diferente daquela que resulta no modelo de utopia sobre a necessária e fundamental democratização dos meios de comunicação no Brasil normalmente discutida pela esquerda tradicional partidária e sindicalista. Afinal de contas, ano após ano, a lentidão e as pequenas quantidade e qualidade das conquistas discutidas com e contra qualquer governo recente demonstram que ela não consegue dar conta do entendimento do tipo de sociedade em que vivemos de uma maneira suficientemente ágil para atingir à classe média urbana.
Por que digo isso? Porque a discursividade que predomina nas discussões refere-se a conceitos e a demandas que não atingem a esmagadora maioria da população.
Se discute muito mais sobre como tentar reagir de formas que o sistema econômico, político, coercitivo e legal não permite porque quase todos aceitam o padrão institucional atual assim como ele é ao invés de pensarem e procurarem por em prática alternativas a esse modelo de representatividade chamado democracia representativa.
Uma alternativa é investir na prática, na teoria e na proposta de lei em algo próximo da democracia emergente proposta pelo professor e pesquisador Júlio Valentim.
Ao mesmo tempo, sem perceber, praticamente toda a esquerda, caso tivesse dinheiro e mídia, tenderia a ser totalitária e excludente em relação àqueles que detém a hegemonia do poder. Sob uma perspectiva derridaana, a desconstrução da inclusão e da exclusão não é plenamente possível quando o lado anteriormente excluído toma o poder, pois ele tende a excluir quem antes o oprimia, tornando-se, assim, um opressor às avessas.
O contraponto e a pluralidade só existem se houver uma tensão constante que faça com que se desvele tanto as virtudes quanto as contradições e as mazelas de ambos os lados. A tomada do poder é socialmente positiva a curto prazo, pois realmente provoca mudanças. E um erro pode fazer com que o velho sistema volte com ainda mais força, pois dificilmente poderá ser destituído a partir do uso da razão. Porém, com o passar do tempo, aquela força transformadora e revolucionária (no bom sentido) infelizmente perde a tesão e estabelece um novo regime conservador, de forma a exacerbar a burocracia, a tecnocracia, o apadrinhamento, a corrupção e o predomínio de medidas políticas e econômicas que privilegiem muito mais o capital que financia a casta que ocupa o poder político do que a maioria da sociedade.
Quando a situação chega a esse ponto, tudo o que outrora era objeto de reivindicação e de inconformidade do grupo hoje poderoso agora repete-se de maneira inversa: o panóptico, a vigilância e a punição coercitiva agora ocorrem para manter o status quo destes e não daqueles.
Como todos tem lado e esse lado não é uniforme (isto é, todos, sem exceção, são criativos, combativos e honestos para determinadas crenças e apáticos, covardes e corruptos para outros em diferentes graus), nem a alternativa de poder anterior (a direita neoliberal) e nem a atual (de centro, trabalhista e social-democrata) irão servir. Ao mesmo tempo, para certas demandas, contraditoriamente, ambas terão a sua serventia e legitimidade.
Isso se torna claro inclusive na blogosfera, pois a maioria das pessoas que discutem esses assuntos tem a mesma origem taylorista-fordista e marxista que – repito – hoje mostra-se pouco capaz de resolver problemas sociais e de tentar fazer a maioria da população pensar de uma forma mais solidária porque não condiz com a forma com que a classe média é capaz de assimilar, refletir e transformar o cotidiano.
O mundo não vai deixar de ser capitalista. O Brasil é um país neoliberal light e bem menos solidário do que deveria ser mesmo com o PT no poder. Essa é a prova da falência do modelo. E eu não posso convencer alguém a ajudar se eu disser que ele não deveria andar de carro se passou a vida inteira achando que um carro é sinônimo de liberdade e status. Não há como “educar” nem como “convencer” a tudo e a todos.
O problema da blogosfera (sobretudo a dita política e de esquerda) é que, salvo o período de eleição (com uma defesa ferrenha de seus interesses e da sua ideologia – diga-se de passagem, a meu ver, legítimos) e as denúncias de homofobia, sexismo, corrupção, etc., sobra opinião e faltam fatos.
Do ponto-de-vista jornalístico, tudo o que a esquerda reclama do PiG e dos blogueiros de direita pode, sim, ser dito na mesma moeda para a blogosfera de esquerda.
Por que isso ocorre? Porque o discurso, em geral, fala em classes, em luta e – salvo raríssimas e honrosas exceções – por mais que estude e observe as mudanças na sociedade, entende muito pouco o digital.
Infelizmente, ainda prevalece um pensamento predominante na esquerda brasileira (e não apenas aqui no país) de que só quem é meu companheiro tem a capacidade de me entender, de me aceitar, de pensar como eu e de tentar resolver problemas sociais como eu.
A direita também pensa e age dessa forma. Contudo, a esquerda tem a faca e o queijo na mão e não aproveita.
Enquanto não se entender que as pessoas se unem para satisfazer determinadas demandas individuais ou coletivas e que elas são muito diferentes entre si (sendo que, inclusive, há a possibilidade de a única coisa que vários indivíduos possam ter em comum seja essa única demanda) e se separam logo em seguida, será difícil produzir diferença na velocidade, com a quantidade e com a qualidade necessárias.
Não sei se tu conheces o http://portoalegre.cc . É uma iniciativa da Unisinos com a Prefeitura Municipal de Porto Alegre. Não nos importa que a maior parte das pessoas que fazem solicitações, deem sugestões, tragam informações e registrem suas queixas sobre a cidade inicialmente sejam de classe AB. Não nos importa se a prefeitura é de centro-direita. O que importa é que algo precisa ser feito.
A nossa proposta tenta fazer com que a população entenda que pode e deve assumir as rédeas da cidade e que os vereadores não são representantes legítimos, dignos e competentes para deliberarem sobre qualquer assunto apenas porque receberam o endosso da maioria a partir do voto.
Nunca vi em nenhum encontro da esquerda tradicional (pelo menos no programa ou na pauta daqueles para os quais recebi convite e pude ou não comparecer) discussões acerca de questões como E-Governo, democracia emergente, emergência, multidão, cultura da interface, mídias locativas.
Iniciativas como a Avaaz.org e o Global Voices são muito mais assertivas e apresentam resultados muito maiores. Inclusive se gastou uma grana para a Blue State Digital do Ben Self na campanha da Dilma, mas parece que não se entendeu direito como ocorreu a vitória de Obama.
Por que isso? Porque comunicadores tradicionais, políticos tradicionais, publicitários e assessorias de imprensa tradicionais fizeram de melhor foi uma campanha na TV. Começou-se tarde demais na internet. E ocupou-se um espaço muito menor do que o que poderia ter sido ocupado. Mas o que mais complicou foi o fato de não ter sido feita uma pesquisa de opinião online (portanto, de custo baixíssimo) para entender que não importam conceitos de direita ou esquerda mas, sim, o que as pessoas pensam sobre religião, aborto, sexualidade, investimento, educação, saúde, etc.
É preciso entender que não há ferramentas e que o pensamento operário tende a ser luddita. Há preconceito e a crença de que a Rede é feita de máquinas e que os aplicativos são ferramentas quando, sob uma perspectiva macluhaniana e manovichiana, tanto o meio é a mensagem como as relações sempre entre pessoas (amizade, afeto, trabalho, lazer, estudo) hoje possui, em paralelo ao ambiente presencial, o ambiente digital, que não é virtual (porque virtual vem do latim virtus, falso) e não substitui o presencial mas, sim, funciona como um ponto de encontro que contém em si um desejo latente de quase todos os interagentes em realizar encontros presenciais.
Não existe militante de passeata nem militante de teclado e sofá: cada um milita aonde e como souber se comunicar, produzir e consumir informação melhor.
Não dá pra ser luddita. Não dá pra ser apocalíptico. O PNBL e o Creative Commons, para a democratização das mídias, são mais urgentes do que uma Ley de Medios à brasileira, pois a expansão da presença do ambiente digital certamente irá acelerar as discussões e pegar o PIG de saia justa.
Enquanto não houver prazer, fruição, hábito e sentido na convivência em ambientes digitais de informação, ainda estaremos no chão de fábrica. A questão vai muito além de simplesmente assistir a um tutorial, ler um manual ou assistir e ler matérias na mídia de massa sobre o que é blog, Facebook, Twitter, iPad, iPhone, etc.: o que vai trazer um salto de qualidade política e social quanto a todas essas discussões refere-se ao fato de VIVENCIAR os vários ambientes de interação.
Pra terminar, as perspectivas da crítica das práticas jornalísticas e publicitárias, da Economia Política da Comunicação e da análise do discurso não são suficientes para dar conta do quadro atual da Comunicação no mundo. As mídias de massa sozinhas não operam mais o que operavam antes da internet porque dela dependem e a ela fomentam pautas, assim como as mídias sociais e o pensamento em rede também dependem dessa convergência de uma maneira integrada e não-rival.
Enfim… Era isso! ;)