O SONHO DOS JOVENS BRASILEIROS X O DISCURSO ANACRÔNICO DOS BLOGUEIROS DE ESQUERDA NO BRASIL

Sonho Brasileiro from box1824 on Vimeo.

A pesquisa Sonho Brasileiro é um projeto sem fins lucrativos e sem viés de consumo. Fomos para 173 cidades em 23 estados perguntando para jovens de 18-24 anos “Qual é seu sonho para a nossa nação?”

Ajude-nos a divulgar os resultados da pesquisa que sairá em junho com conteúdo 100% aberto e livre na internet.

Música deste vídeo gentilmente cedida por Lucas Santtana

Realização: BOX 1824
Patrocínio: Itaú e Pepsi
Parceiros: RED, Colméia e Aktuell

Apoio: Rede Globo

__________

O fato da minha rotina profissional e de boa parte do ambiente familiar serem partilhados junto ao público-alvo da pesquisa O SONHO BRASILEIRO (leiam-na inteira) me leva a crer que o caminho para uma verdadeira revolução cidadã no Brasil precisa passar por um discurso essencialmente assertivo, desinstitucionalizado, horizontal e – sobretudo – colaborativo. A solidariedade, o engajamento cívico e o reconhecimento do outro como igual dependem da aprendizagem coletiva cujo fruto será o de desfazermos o rótulo de alienação e egoísmo atribuído à nossa juventude.

Essa minha crença não põe em segundo plano a colaboração e os ensinamentos dos bravos heróis da resistência à ditadura militar no país. Porém, o discurso que a maior parte deles conhece e sabe professar via blogosfera segue um modelo linguístico familiar ao seu grupo de interesse, mas que não surte o mesmo efeito diante de quem não vivenciou essa triste realidade e não tem como imaginar um panorama antidemocrático.

Todo e qualquer blogueiro “progressista“, e-blogueiro e mais a galera da Teia Livre e da Rede Liberdade, a despeito de uma série de aprendizagens e de adaptações ao pensamento em rede, infelizmente ainda apresentam uma série de opiniões formadas acerca do mundo dos jovens que não coincide nem com o mundo de quando eram eles próprios os jovens, nem tampouco com o mundo de seus pais e avós, que, salvo raríssimas e honrosas exceções, sequer tem noção do que seja exílio, tortura, censura e prisões. O Brasil “livre” que herdaram está distante demais de poderem compreender o que era não ter direitos nem poderes para fazer quase nada.

Conforme a pesquisa, os jovens entre 19 e 24 anos da atualidade desejam transições tranquilas, sem rupturas. Em oposição aos jovens marginalizados vítimas de todas as nossas mazelas sociais, eles não são de briga e não creem que a solução esteja no embate partidário ou sindical. Essa característica predominante mostra que a maioria dessa geração é mais afeita a realizar algo pelos outros sem muitas delongas ao invés de discutir leis ou de participar de manifestações presenciais de massa.

Infelizmente, os ativistas mais experientes tendem a considerar essa atitude passiva ou, então, incorrem no equívoco de culpar as redes sociais na internet como responsáveis pela “alienação”. Contudo, os resultados da pesquisa mostram que o egoísmo, o consumismo, a ignorância, a alienação, a passividade e uma agressividade projetada sobre objetos distantes do exercício da cidadania são a exceção e não a regra. Portanto, trata-se de uma forma diferente de representar o seu envolvimento social.

De fato, a quantidade de militantes políticos antigos que se tornaram exemplos diretos de ativismo nas ruas, nas ONGs, nas escolas e nas comunidades carentes é muito reduzida: vários deles já morreram, outros desiludiram-se e eles próprios tiveram o privilégio de proporcionar melhores condições a seus filhos e netos. E a pesquisa aponta que, para a galera de 19 a 24 anos em 2011, eles tem como exemplos de vida pessoas simples com as quais convivem no dia a dia. Portanto, o herói urbano de hoje não é alguém que erga uma bandeira mas, sim, alguém que está disponível aqui e agora pra dar o exemplo, para ser um tutor, para deixar fazer de maneira anárquica, sem apresentar-se como uma autoridade.

Por outro lado, há uma contradição entre o espírito de luta que os antigos militantes apresentam de fato e entre a atitude que gostariam que seus filhos e netos tivessem no atual contexto: primeiro, que as gerações anteriores de ativistas não tinham como pensar nem realizar uma mudança social dialogada porque havia um abismo muito grande entre a liberdade e a violência. Isso posto, não havia (entre 1964 e 1979) como pensar em uma transição suave quando a maior parte desses grupos acostumou-se a conviver com um retrocesso que violentou pelo menos quatro gerações de brasileiros; segundo, que a quantidade de informação disponível é imensurável e cresce exponencialmente dia após dia; terceiro, que a sociabilidade que atravessa e é atravessada pelos ambientes digital e presencial torna as causas pelas quais os jovens resistem dissociadas no espaço e no tempo, isto é, para muitos, é mais importante investir $5.00 contra o apartheid israelense sobre os palestinos via AVAAZ.ORG do que ajudar o filho do vizinho a passar em Química.

Sinto desapontar grande parte dos meus queridíssimos e valiosíssimos AMIGOS de todos esses foruns que se amalgamam por um sentimento bonito e comum, mas até mesmo a solução de problemas locais que afligem os nossos jovens necessitam cada vez mais da experiência de quem vivencia barras semelhantes porém muito mais pesadas em lugares muito pouco aprazíveis por eles descobertas na internet. Ao discuti-las em comunidades virtuais, o excedente cognitivo que produzem gera uma economia não-rival que resulta na adaptação da solução encontrada n’além-mar para a nossa realidade sociocultural sem armas, sem conspirações, sem terem como base o marxismo. E esse mesmo excedente cognitivo é apropriado por jovens de outras paragens com o mesmo intuito: nunca foi tão verdadeira a afirmação de que a soma das partes é cada vez maior do que o todo.

Parte dos ativistas mais experientes que lutaram contra a ditadura ou de seus herdeiros ideológicos – que lhes enchem de orgulho por causa de um modus operandi muito parecido (senão igual) – precisam tomar o cuidado de não esquecerem de que a sua credibilidade está balizada em um ethos que prima pela justiça equânime, pela razão, por balizarem os seus argumentos em uma série de referências mais profundas do que aquilo que a mídia corporativa geralmente costuma oferecer e pela verdade. No entanto, a verdade precisa ser a verdade verdadeira e não a mera verdade que oculta o lado incompetente, burocrático, autoritário, preconceituoso e hipócrita de seus pares que hoje ocupam cargos no atual governo federal.

Por mais difícil que seja apurar, denunciar e serem tão implacáveis na multiplicação da informação contra os “seus”, o grupo político-partidário-sindical que apoiam em função da compatibilidade de afetos e das afinidades, crenças e valores também deve ser desconstruído com o mesmo peso que tem a desconstrução da direita.

Felizmente, sei que a maioria não pensa assim: blogueiros de esquerda de 40, 50, 60 e 70 anos sempre mostram-se bastante dispostos a conhecer ideias novas e a conviver com as gerações mais recentes, que precisam dos mais velhos.

Ambas as gerações possuem diferenças muito grandes acerca de como surge o embasamento teórico e as motivações que envolvem as práticas políticas e sociais de contingentes que não são concorrentes e nem mesmo antagônicos. Nessa questão, a lacuna mais importante a ser preenchida é a do entendimento de que não é porque vivemos em uma sociedade mais consumista, mais individualista, mais competitiva e menos intelectualizada que não é possível pensar e agir de maneira cidadã.

Pra refletir… ;)

POLÍTICA DE ALTO NÍVEL

Ao contrário do que muitos pensam, todo homem é político.

Todo homem é político porque é obrigado a fazer escolhas.

Toda escolha envolve a opção entre uma perda e um ganho, pois não se pode ganhar nem perder tudo: obrigatoriamente, deve-se abrir mão de uma coisa para poder ter outra.

A sociedade é coletiva: as pessoas não são iguais, mas compartilham o mesmo espaço e umas dependem das outras para sobreviver. É por isso que cada um tem uma habilidade diferente – para que a sociedade seja rica, plural, diversa, de forma que todos aprendam e, na medida do possível, dividam tarefas sem que a maioria precise ser sobrecarregada em benefício de poucos.

Por uma questão de sobrevivência, devemos tornar o ambiente pacífico. Para isso, é fundamental que as diferenças individuais sejam postas em segundo plano para que a prioridade represente um conjunto de ações e de normas que permeiem um interesse comum.

Mas que fique bem claro: a decisão da maioria não irá agradar a todos e nem tampouco resolver todos os problemas. Porém, é preciso ser respeitada sempre que for legítima.

E por falar em decisão, é sempre melhor que todos tenham direito de escolha do que deixar a decisão nas mãos de um ou de poucos. Afinal de contas, a decisão de uma minoria não raro consiste em uns poucos advogando em causa própria com o uso da boa fé da maioria.

Logo, é muito mais seguro ser representante de si e ter a consciência dos motivos pelos quais se outorga a representação da tua palavra a um punhado de escolhidos do que omitir-se de reivindicar e de propor algo diretamente.

A quem se considera “apolítico”, afirmo que vocês gostam e precisam de política o tempo inteiro. Sabem por que?

1) Porque a briga com o irmão menor pelo colo da mãe ou por um brinquedo e é mediada para evitar que um bata no outro é política;

2) Porque, independentemente do gosto pessoal na hora de optar entre um saco de feijão e um quilo de carne no supermercado, quando não se pode ter os dois em função da falta de dinheiro, essa escolha econômica tem origem na política que não permite que todos os cidadãos brasileiros tenham direito a comer nem mesmo os alimentos mais prosaicos;

3) Porque o governo que faz vista grossa para o tráfico de drogas aumenta exponencialmente a chance de te apontarem uma arma pra roubar o teu carro;

4) Porque a decisão de quem permite que se construa um arranha-céu defronte da tua casa impedindo o sol de alcançar a tua janela traz várias consequências ruins para a tua vida como, por exemplo: a) aumenta o teu custo com detergente pra limpar o mofo; b) aumenta os gastos com remédios e consultas médicas (pele, doenças respiratórias, alergias); c) te obriga a usar mais roupas e assim por diante.

Embora a propaganda eleitoral e os debates pouco expliquem as diferenças entre pessoas e partidos; e embora o noticiário da mídia corporativa sempre penda para o mesmo lado sem que tu percebas isso, independentemente das tuas referências, é muito importante que tu entendas que, do presidente da república ao vereador, é fundamental votar em pessoas da mesma coligação ou – de preferência – do mesmo partido.

Por que? Porque eles seguem um conjunto de crenças e de práticas permeados pela mesma linha de pensamento. E se tu acreditas que há uma forma de fazer com que a vida de todos melhore (não apenas a tua; não sejas egoísta, por favor – afinal de contas, ninguém ganha ou perde sozinho), desejo que tu te definas pela visão de mundo que mais se aproxima da tua.

Te informa.

Participa.

Não te omite.

Entendas tu que não há neutralidade nem isenção de lado algum e que, se tu não te definires; se tu não mostrares o que defendes e o que não defendes e por que, estarás deixando livre o caminho para que decidam por ti sem que tu tomes conhecimento sobre uma série de decisões que, no conjunto, jamais contribuirão para a melhora da tua vida e da vida da tua coletividade.

PENSA NISSO.

Eu tenho lado: o meu lado está no vídeo acima.

Tenho meus motivos pra acreditar nessa proposta. Mas não irei discuti-los neste post.

Também não me interessa fazer a tua cabeça. Afinal de contas, não mando em ti e não estou te julgando como alguém incapaz de tomar alguma decisão desse vulto.

No entanto, este blog está repleto de posts que mostram a minha visão política, econômica, social, esportiva e afetiva.

Eu não sou o dono da verdade.

Mas, caso tu me consideres como uma pessoa cuja opinião é válida, pode ser que tenhamos mais pontos em comum do que podemos imaginar. Afinal de contas, a afinidade aumenta a empatia.

Por outro lado, não faz o menor sentido eu te desvalorizar ou tu me desvalorizares caso pensemos a sociedade de uma maneira bem diferente.

Eu te respeito e tu me respeitas.

A única coisa que eu não posso fazer é me furtar de demonstrar por que eu acredito em A e não acredito em B. E, do meu lado, também não posso te negar o direito de expressares a tua posição.

Caso te interesse discutir essa questão comigo, poderemos levar essa pauta para um patamar mais alto: assim, ambos iremos expor as nossas visões de mundo sem xingamentos. Nesse instante, um procurará esclarecer o outro com fatos verdadeiros e detalhados.

Assim se faz política em alto nível.

E é assim que se aprende a conviver pacificamente com o oposto.

Contudo, é preciso saber que nem sempre se perde e nem sempre se ganha. E que, quando se perde, não se pode torcer contra o desenvolvimento da sociedade. Não se pode torcer para estar certo acerca das mazelas e dos erros que se vê no oposto vitorioso.

Não se pode deixar de propor, de acompanhar e de fiscalizar pra fazer patrulha e fofoca.

Afinal de contas, estamos todos no mesmo barco: se houver um rombo no convés, das duas, uma: ou afundamos todos juntos, ou todos ajudam a tapar o buraco.

Eu tenho lado e não me omito. Não te obrigo a te declarar, mas caso queiras tocar nesse assunto comigo, gostaria muito que deixasses bem claro:

– Em que acreditas e por que;

– Em que não acreditas e por que;

– De quais pontos dessa ideologia tu não abres mão;

– O que tu conheces sobre a minha ideologia e a partir de quais fontes;

– O que te faria mudar de ideia;

– Por que tu achas que vale a pena tentar me convencer sobre o teu ponto de vista;

– Até que ponto tu achas que podes me ensinar algo;

– Até que ponto tu achas que podes aprender comigo;

– Como tu achas que podemos conciliar os pontos em comum sobre as nossas ideologias diferentes?

O objetivo de toda esta longa conversa é podermos concordar integralmente acerca de determinados pontos. Mas para que isso aconteça, cada um de nós precisará ceder um pouco.

Infelizmente, não podemos resolver os problemas do mundo de uma vez por todas. Porém, só o fato de haver desprendimento e de um não querer impor suas ideias ao outro com o reprovável uso da desonestidade, da agressividade e do oportunismo significa que queremos verdadeiramente o melhor para a maioria.

Isso feito, saibas que às vezes, estaremos juntos. Mas, na maioria das vezes, não. De qualquer forma, respeito, admiração e solidariedade precisam ser os eixos que compartilharemos sempre.

Justamente por isso, não faz o menor sentido nos afastarmos. Afinal de contas, é mais do que certo de que precisamos uns dos outros – por menos que isso seja percebido no dia a dia…

HÉLIO DOURADO É UM JOVEM DE 80 ANOS

sábado, 11 de setembro de 2010 09:35:50

O senhor da foto acima possui 80 anos de idade e 69 de associado ao Grêmio.

Ele foi presidente do clube de 1976 a 1981.

Pegou o clube endividado e desacreditado, em uma época na qual o Tradicional Adversário (T.A.) havia sido octacampeão gaúcho e, na sequência, chegou ao tricampeonato brasileiro.

Em nível nacional, o nosso Tricolor dos Pampas possuía, até então, um status não mais respeitável do que o de um Coritiba.

Éramos apenas um clube médio.

Hélio Volkmer Dourado, o menino que perdeu o pai aos cinco anos e veio de Santa Cruz do Sul para Porto Alegre junto com a mãe.

Maravilhosa mãe que deu-lhe um presente fabuloso aos 11 anos: um título de sócio do Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense.

Mal sabia ela que esse guri viajaria pelo mundo, conheceria centenas de milhares de gremistas e arrecadaria pessoalmente centenas de toneladas de tijolos, cimento, tábuas, pregos, areia, argamassa, fiação e canos para concretizar o caldeirão mais assustador que o futebol brasileiro já viu – o nosso estádio Olímpico Monumental.

Mal sabia ela que esse guri, nas horas vagas, seria um dos maiores cirurgiões de sua época, merecidamente laureado com o prêmio Bisturi de Ouro.

Mas o que ele sabia operar melhor eram os sonhos da incontável nação gremista.

Ontem, um sábado em que desabou o céu sobre Porto Alegre, dirigente exemplar compareceu para votar na chapa 2. Foi uma eleição perdida nas urnas, mas ganha no coração (ver o próximo post).

Aos 80 anos, ele chegou DIRIGINDO.

Infelizmente, a juventude não tem memória. Para muitos, ele é tão-somente um velhinho que já está ultrapassado.

Se este velhinho não existisse, o Grêmio não teria sido campeão brasileiro, da América nem do mundo e teríamos um estadiozinho de clube pequeno.

Ele pode não carregar os louros da glória sozinho. Afinal de contas, foi ajudado por muita gente. Mas como líder e como realizador, foi um empreendedor memorável.

Apesar da despolitização e da des-historialização de nossos jovens, ainda há  uma importante fatia dessa juventude de associados e de torcedores que ainda reverencia, respeita e traz como exemplo de gremismo o nosso querido patrono do Movimento Grêmio Acima de Tudo

OS DITADOS DO PT PRAGMÁTICO

 

Núcleo central: links + visitados; in-continente: links que apenas referenciam o hub do núcleo central, mas não recebem links dele; out-continente: links referenciados pelo núcleo central, porém sem caminho de volta; tubos: vias diretas entre links dos continentes in e out sem passar pelo núcleo central; tendris: penínsulas dos continentes in e out com uma via de mão única de e do núcleo central; ilhas: não possuem link algum com os continentes. Sarney está no núcleo central. Os petistas históricos que não pensam em rede estão nos tendris ou nas ilhas. Em suma: não participam do jogo nem em seu lado bom, nem em seu lado ruim.

 

 

Meu querido amigo @miltonribeiro (disparado, top 5 da blogosfera gaúcha – adicionem aos favoritos, assinem via RSS e leiam-no todo dia) me propôs um exercício: escrever sobre o pragmatismo do PT tendo como mote a parceria com o coronel Sarney no MA (leia-se aliança com as hienas camaleônicas do PMDB) em no máximo duas horas.

Não sei se ficou bom. Porém, para este post (agora, com mais tempo), corrigi alguns erros de concordância e modifiquei-o um pouquinho, pois nunca considero nenhum conteúdo digital como algo estanque ou acabado.

Baixem o pau nos comentários à vontade. Retuítem e postem em seus blogs. Porém, não esqueçam de pôr os créditos. E, por favor: não copiem o texto integralmente, não ponham nos meus dedos palavras que eu não teclei e, finalmente, utilizem citações do meu texto como uma forma de ampliar a discussão. Enfim… Sejam originais e criativos: criem, reconstruam-no, contestem-no e, caso concordem com o que eu escrevi, o maior elogio seria vê-los acrescentar informações que eu certamente esqueci. Melhor: corrijam-me! ;)

O senso comum considera o escritor italiano Niccolò Machiavelli como uma espécie de precursor do lobby sem escrúpulos. No célebre livro O Príncipe, esse homem multidisciplinar que viveu apenas 58 anos entre os séculos XV e XVI nos faz lembrar que a história pulsa. Portanto, podemos verificar facilmente que muitas articulações e conclusões seculares se repetem no cotidiano sociotécnico do século XXI apenas com outra roupagem.

Maquiavel tornou célebre uma frase bastante utilizada por indivíduos pragmáticos, frios, calculistas e – não-raro – maus caracteres de algumas gerações atrás:

“OS FINS JUSTIFICAM OS MEIOS.”

Na simplicidade da citação acima, o autor definiu a necessidade da negociação política que vigora desde sempre nas sociedades primatas: se houver uma disputa por poder, seja do mimo da mãe ao envio de exércitos para pilhar as riquezas naturais “de gente cujo jeito não querem que a gente entenda direito”, toda conversação é política.

Hoje temos Lula e Sarney irmanados em uma mesma emoção. Como é que, após décadas de “luta”, um líder sindical, um torneiro mecânico com o ensino fundamental incompleto (pior: um imigrante do agreste que foi preso durante um mês nos porões da ditadura) resolveu aderir ao ditado “SE NÃO PODES VENCER TEU INIMIGO, JUNTA-TE A ELE”?

Ih, é agora que eu não entendo mais nada: essa não era a máxima do eternamente situacionista PMDB?!

Precisamos aprender a pensar fora do nosso mundinho hermeticamente fechado, repleto de valores simplistas sustentados por uma série de preconceitos antes de sairmos por aí a dizer que “os políticos são todos iguais”.

Ora, se os fins justificam os meios e se os anéis são espetaculosos demais até mesmo dentro de um ambiente repleto de Armanis e Rolexes comprados com dinheiro sujo, que vão-se os anéis e fiquem os dedos.

Os acordos com atores políticos do naipe de um Sérgio Cabral (RJ); de um José Sarney (MA); de um Hélio Costa (MG); de um Gedel Vieira Lima (BA); de um Jader Barbalho (PA); de um Henrique Meireles (GO) e até mesmo de um Osmar Dias (PR), ao contrário do que possa indicar o resultado favorável obtido em curto prazo pelas famílias midiáticas, pelas oligarquias e pelos títeres estrangeiros que sustentam e são alimentados por todos esses senhores feudais, na verdade, possui um objetivo muito mais nobre, embora de lenta resolução social: o de desconcentrar e multiplicar a riqueza do país.

Lula não é o meu herói, assim como também não será a sua herdeira política. Dilma Rousseff, uma ex-pedetista amplamente respeitada e muito bem aceita pela direita e pelo empresariado gaúcho em geral, já consegue mostrar aos pares desse poderoso grupo de interesse espalhados por todo o território nacional que o PT acha que Deus escreve certo por linhas tortas. Afinal de contas, se o presidente disse recentemente em uma entrevista para a cúpula do jornalismo político e econômico da Band “Resolvam os problemas do trânsito com pontes, estradas… Só não venham me pedir pra parar de vender carros” e se a famigerada usina hidrelétrica de Belo Monte (da qual Dilma é a maior evangelista) irá alagar um trecho de aproximadamente 100 Km do Rio Xingu onde há atualmente uma biodiversidade maior do que a de toda a Europa, logo, o Brasil seguirá investindo pesado em commodities (vide o Pré-Sal e as linhas de financiamento do BNDES e do Banco do Brasil muito mais generosas voltadas para o latifúndio do que para o pequeno agricultor) como uma forma de obter divisas para empreender as mudanças sociais que – espera-se – sejam capazes de aproximar do presente aquele futuro idealizado para o eterno “país do futuro”.

Divaguei demais… Voltemos aos anéis e aos dedos: não é nada pessoal: acredito que nem Lula e tampouco a cúpula do PT considerem como ingratos, falsos ou inconvenientes nomes de alto potencial eleitoral e de décadas de serviços prestados ao Partido dos Trabalhadores como como Fernando Pimentel (MG), João Paulo (PE), Lindberg Farias (RJ), Antônio José (PI) e Ideli Salvatti (SC); os migrantes Flávio Dino (PC do B-MA), Luíza Erundina (PSB-SP) e Heloísa Helena (PSoL-AL). Nesse grupo, incluo até um aliado significativo como Roberto Requião (PMDB-PR).

Todavia, o PMDB está repleto de poderosos conectores de rede (os chamados hubs) com acesso a uma rede imensurável de contatos no Brasil e no exterior capazes de, se ninguém “bulir” com o seu rico patrimônio.

O conteúdo programático e a ideologia dos dedos ainda faz com que o ato de vestir os anéis rememore o afeto e traga à tona a ressignificação do sentido de pertença que os une. Todavia, esses anéis não possuem laços fortes com atores sociais a quem o PT tradicionalmente tapava o nariz para não sentir o cheiro, apertava as mãos vestindo luvas de amianto ou, então, costumava usar máscara de soldador para esconder que não interessava olhar dentro dos olhos “dessa gente”.

Se há um objetivo de conhecer pessoalmente Barack Obama e de manter com o “líder do ‘mundo livre’” uma relação extremamente amistosa com um mínimo de subserviência; se existe a ambição de reduzir a violência, aumentar o crédito, diminuir o desemprego e, finalmente, de tornar o Brasil um exportador de produtos de alto valor agregado (leia-se ciência e tecnologia de ponta), é preciso aprender a ver um lado que ninguém vê em pessoas anteriormente tidas como “do mal”. Ao mesmo tempo, também é preciso aceitar que as pessoas “do bem” nem sempre são capazes de conectar grupos de interesse altamente distintos – pra não dizer antagônicos.

Embora eticamente contraditório, esse pensamento em rede pode ser comparado – naturalmente em uma escala milhões de vezes maior – a uma pequena hipocrisia que cumprimos e mal percebemos:

- Sabem quando vamos a uma festa e encontramos uma pessoa com quem não vamos com a cara mas é muito amiga de alguém que a gente adora? Não dá pra ser sincero o tempo inteiro quando não se deseja chamar a atenção para um fato que tende a nos prejudicar muito mais do que nos ajudar.

Gostemos ou não, o PT aderiu à realpolitik, como dizem os alemães. Afinal de contas, em bom português, a política nada mais é do que “a arte do possível”…