DESIGN + MARKETING SOCIAL = PROJETOS IMATERIAIS APARTIDÁRIOS

Graças à popularização da edição do conteúdo de blogs, a dinâmica das interações gera conversações em vários ambientes simultâneos dentro de um mesmo espaço [1][2].

Um serviço online voltado para a conversação e para a troca consiste num lugar virtual de compartilhamento de conteúdo e de relacionamento. Cada serviço apresenta um design específico, a fim de diferenciá-lo dos demais a partir de um projeto de atribuição de sentido baseado no posicionamento, na interação, na estética e na funcionalidade [3] dos elementos multimídia contidos nesse espaço.

Esse projeto, cuja estética e função são usualmente propostas por um projetista profissional, também pode definir-se via apropriação coletiva e des-hierarquizada de produção e criação, independentemente dos interesses e dos propósitos sob diferentes graus de domínio sociotécnico [4].

Dentro da blogosfera, temos como identificar diferentes ambientes de conversação. Os mais comuns são os links dentro do próprio post; os comentários (com ou sem adição de conteúdo audiovisual externo); a lista de links recomendados (o blogroll) e as citações do post de um blog dentro dos posts ou comentários em outros blogs [5].

O hipertexto possibilita a convergência de várias mídias digitais, que potencializam a disseminação de uma determinada informação. Extrapolando o atravessamento entre os ambientes contidos em um ou mais blogs, surgem como outros ambientes paralelos de interação mediada por computador as interfaces do Twitter (que pode ser dividida em links twittados no tuíte, em tuítes dialógicos, em tuítes declaratórios; na lista de seguidores; na lista de seguidos; nas listas feitas pelo tuiteiro em questão ou onde esse tuiteiro está listado, etc.), do Facebook (no status, nos comentários do status e em n outros ambientes internos ao FB), do You Tube, do Flickr e de várias outras mídias sociais.

Isso posto, projetos de financiamento social em rede (crowdfunding) como o Catarse.me; ou de resgate da memória, denúncias e sugestões de melhorias urbanas e sociais e um vislumbre de como projetar o futuro de uma dada cidade como o Porto Alegre.CC e de conscientização, debate e aprendizagem política sob a dinâmica da nova sociedade como, por exemplo, a Rede Liberdade e a Teia Livre, constituem em tentativas exploratórias com algum resultado prático: coletivamente, cada um desses projetos representa – para os seus respectivos nichos – um espaço de discussão repleto de ambientes nos quais as pessoas se atravessam. Todos produzem afetos e tensionamentos, de forma que a aprendizagem e a intenção de colaborar sejam constantes.

Não existe perda de dinheiro nem tampouco desperdício de tempo: o desprendimento, o comprometimento e a capacidade de difundir a informação ali compartilhada multiplicam o valor de cada uma dessas redes. Ao longo do tempo, essa dinâmica certamente resultará em uma superação do modelo gráfico, de arquitetura da informação e de usabilidade ora existentes, inclusive aperfeiçoando a simplicidade da interação desses sites com várias redes sociais.

Uma tendência é a de internacionalizar o processo, de forma que, apesar das suas particularidades e das questões socioculturais inerentes à realidade da maioria de seus interagentes, venhamos a formar um híbrido entre o Ushahidi, a The Real News Network e o Global Voices.

Dentro desse espectro, destaco como atores importantes a Coolmeia, que tende a estar mais próxima da realização não-burocrática com resultados sociais mais rápidos do que os proporcionados pelo Estado; o Gabinete Digital do Governo do Estado do Rio Grande do Sul (via @tarsogenro), por ser uma iniciativa em rede diferenciada articulada pelo Poder Público com o intuito de tentar radicalizar a democracia representativa e a CUFA (Central Única das Favelas), como fator de inclusão social, econômica e de reconhecimento da cidadania. Finalmente, em termos ideológicos e de excelência na prática do compartilhamento de trabalho imaterial, há, ainda, a riqueza imensurável da comuidade do Software Livre como o fio condutor sociotécnico e ideológico de uma rede cuja união e multiplicação depende prioritariamente do apartidarismo formal.

Todavia, a convergência sociotécnica e os exemplos a serem pinçados das iniciativas desses atores precisam necessariamente tomar o caminho da DEMOCRACIA EMERGENTE.

Considero extremamente importante que as formas de agregação e de convergência tenham como base para discussão os três projetos acima, que são bem-sucedidos e longevos. Isso pode nos aproximar mais da necessidade de atrair a classe média urbana e o jovem para o centro da discussão.

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[1]  No início do conceito que desenvolvi, chamo o blog de espaço autoral. Na sequência, proponho, dentro desse espaço, uma divisão em três ambientes distintos que caracterizam tipos de interação e de conversação em função da colocação de seus autores e dos atravessamentos gerados por esses relacionamentos. Tal decisão surgiu após a necessidade de observar que as relações estabelecem-se ora dentro de cada um desses espaços, ou circula entre eles. Portanto, ora encontramos cruzamentos de conversas entre diferentes compartimentos, ora as conversas restringem-se a um desses espaços em particular. (v. PAZ, H.S. 2009a, p. 27). 

[2] Se defendo o motto macluhaniano-johnsoniano-manovichiano da Comunicação Digital de que “o meio é a mensagem”, da cultura da interface, da emergência e de que vivemos em um mundo no qual grande parte das nossas relações pessoais e da nossa produção e transformação da informação se dá em grande parte através da interação de, com e para com os bancos de dados em rede, logo, entendo que não posso chamar aplicativo e software mediador de afetos, de trabalhos e de lazer compartilhado de “ferramenta”. Isso traz ao meu discurso uma conotação pós-moderna e não moderna, já que o que importa mais a mim é a fluidez e a organicidade das relações e não o formão, a tinta, o martelo ou o serrote que constroem as peças da casa. Afinal de contas, a sua existência material só faz sentido a partir do uso funcional e afetivo que seres humanos fazem desse espaço. Portanto, o meu lugar na pesquisa não se refere ao código, ao número, ao comando, ao algoritmo e à programação mas, sim, `a apropriação eminentemente social do produto.

[3] O Prof. Dr. Wilton Azevedo entrou em contato comigo reclamando por ter suposto que eu teria me apropriado indebitamente do conceito de design que esse excelente pesquisador cunhou em seu livro “O Que é Design?” na seguinte coluna que eu tive a honra de ver publicado no WebInsider. Declaro categoricamente que essa JAMAIS foi a minha intenção. Eu tão-somente cometi o equívoco de ter dado a ele os devidos créditos naquela ocasião. Já me desculpei pessoalmente, mas lamento muito pela abordagem nada assertiva que recebi. Por outro lado, hoje, meu trabalho ainda incipiente na EDU (sigam @designunisinos) e a leitura de algumas apresentações do prof. dr. Gustavo Fischer  (sigam @gusdf) ampliaram o meu conhecimento. Hoje, creio que, além do conceito do prof. dr. Wilton Azevedo (design = estética + funcionalidade agregadas a produtos), percebo que design é projeto e que esse projeto também pode ser voltado para produtos e serviços imateriais.

[4] v. SHIRKY, Clay, 2011 p. 70-80, sobre a questão da estética, do trabalho e do modo de produção amador em rede. O autor define o atual momento histórico como “a cultura da participação“, na qual a motivação e o resultado de um esforço coletivo empreendido em rede não precisam ser nem estética e nem funcionalmente brilhantes, desde que sejam suficientemente divulgados e possuam um apelo suficientemente forte a ponto de que tal produto produza alguma diferença para a sociedade.

[5] Blog: unidade potencial de construção, manutenção, reforço e abandono de relações contida em um espaço autoral individual ou coletivo que espalha-se na rede através do diálogo, da conversação, da discussão e do debate proporcionados por três ambientes – blogroll; posts (links, citações e conteúdo próprio)e comentários – que caracterizam o lugar desse ser e a sua forma de interagir em um ambiente marcado pela remediação. (PAZ, H.S. 2009a, p. 27). 

OS DITADOS DO PT PRAGMÁTICO

 

Núcleo central: links + visitados; in-continente: links que apenas referenciam o hub do núcleo central, mas não recebem links dele; out-continente: links referenciados pelo núcleo central, porém sem caminho de volta; tubos: vias diretas entre links dos continentes in e out sem passar pelo núcleo central; tendris: penínsulas dos continentes in e out com uma via de mão única de e do núcleo central; ilhas: não possuem link algum com os continentes. Sarney está no núcleo central. Os petistas históricos que não pensam em rede estão nos tendris ou nas ilhas. Em suma: não participam do jogo nem em seu lado bom, nem em seu lado ruim.

 

 

Meu querido amigo @miltonribeiro (disparado, top 5 da blogosfera gaúcha – adicionem aos favoritos, assinem via RSS e leiam-no todo dia) me propôs um exercício: escrever sobre o pragmatismo do PT tendo como mote a parceria com o coronel Sarney no MA (leia-se aliança com as hienas camaleônicas do PMDB) em no máximo duas horas.

Não sei se ficou bom. Porém, para este post (agora, com mais tempo), corrigi alguns erros de concordância e modifiquei-o um pouquinho, pois nunca considero nenhum conteúdo digital como algo estanque ou acabado.

Baixem o pau nos comentários à vontade. Retuítem e postem em seus blogs. Porém, não esqueçam de pôr os créditos. E, por favor: não copiem o texto integralmente, não ponham nos meus dedos palavras que eu não teclei e, finalmente, utilizem citações do meu texto como uma forma de ampliar a discussão. Enfim… Sejam originais e criativos: criem, reconstruam-no, contestem-no e, caso concordem com o que eu escrevi, o maior elogio seria vê-los acrescentar informações que eu certamente esqueci. Melhor: corrijam-me! ;)

O senso comum considera o escritor italiano Niccolò Machiavelli como uma espécie de precursor do lobby sem escrúpulos. No célebre livro O Príncipe, esse homem multidisciplinar que viveu apenas 58 anos entre os séculos XV e XVI nos faz lembrar que a história pulsa. Portanto, podemos verificar facilmente que muitas articulações e conclusões seculares se repetem no cotidiano sociotécnico do século XXI apenas com outra roupagem.

Maquiavel tornou célebre uma frase bastante utilizada por indivíduos pragmáticos, frios, calculistas e – não-raro – maus caracteres de algumas gerações atrás:

“OS FINS JUSTIFICAM OS MEIOS.”

Na simplicidade da citação acima, o autor definiu a necessidade da negociação política que vigora desde sempre nas sociedades primatas: se houver uma disputa por poder, seja do mimo da mãe ao envio de exércitos para pilhar as riquezas naturais “de gente cujo jeito não querem que a gente entenda direito”, toda conversação é política.

Hoje temos Lula e Sarney irmanados em uma mesma emoção. Como é que, após décadas de “luta”, um líder sindical, um torneiro mecânico com o ensino fundamental incompleto (pior: um imigrante do agreste que foi preso durante um mês nos porões da ditadura) resolveu aderir ao ditado “SE NÃO PODES VENCER TEU INIMIGO, JUNTA-TE A ELE”?

Ih, é agora que eu não entendo mais nada: essa não era a máxima do eternamente situacionista PMDB?!

Precisamos aprender a pensar fora do nosso mundinho hermeticamente fechado, repleto de valores simplistas sustentados por uma série de preconceitos antes de sairmos por aí a dizer que “os políticos são todos iguais”.

Ora, se os fins justificam os meios e se os anéis são espetaculosos demais até mesmo dentro de um ambiente repleto de Armanis e Rolexes comprados com dinheiro sujo, que vão-se os anéis e fiquem os dedos.

Os acordos com atores políticos do naipe de um Sérgio Cabral (RJ); de um José Sarney (MA); de um Hélio Costa (MG); de um Gedel Vieira Lima (BA); de um Jader Barbalho (PA); de um Henrique Meireles (GO) e até mesmo de um Osmar Dias (PR), ao contrário do que possa indicar o resultado favorável obtido em curto prazo pelas famílias midiáticas, pelas oligarquias e pelos títeres estrangeiros que sustentam e são alimentados por todos esses senhores feudais, na verdade, possui um objetivo muito mais nobre, embora de lenta resolução social: o de desconcentrar e multiplicar a riqueza do país.

Lula não é o meu herói, assim como também não será a sua herdeira política. Dilma Rousseff, uma ex-pedetista amplamente respeitada e muito bem aceita pela direita e pelo empresariado gaúcho em geral, já consegue mostrar aos pares desse poderoso grupo de interesse espalhados por todo o território nacional que o PT acha que Deus escreve certo por linhas tortas. Afinal de contas, se o presidente disse recentemente em uma entrevista para a cúpula do jornalismo político e econômico da Band “Resolvam os problemas do trânsito com pontes, estradas… Só não venham me pedir pra parar de vender carros” e se a famigerada usina hidrelétrica de Belo Monte (da qual Dilma é a maior evangelista) irá alagar um trecho de aproximadamente 100 Km do Rio Xingu onde há atualmente uma biodiversidade maior do que a de toda a Europa, logo, o Brasil seguirá investindo pesado em commodities (vide o Pré-Sal e as linhas de financiamento do BNDES e do Banco do Brasil muito mais generosas voltadas para o latifúndio do que para o pequeno agricultor) como uma forma de obter divisas para empreender as mudanças sociais que – espera-se – sejam capazes de aproximar do presente aquele futuro idealizado para o eterno “país do futuro”.

Divaguei demais… Voltemos aos anéis e aos dedos: não é nada pessoal: acredito que nem Lula e tampouco a cúpula do PT considerem como ingratos, falsos ou inconvenientes nomes de alto potencial eleitoral e de décadas de serviços prestados ao Partido dos Trabalhadores como como Fernando Pimentel (MG), João Paulo (PE), Lindberg Farias (RJ), Antônio José (PI) e Ideli Salvatti (SC); os migrantes Flávio Dino (PC do B-MA), Luíza Erundina (PSB-SP) e Heloísa Helena (PSoL-AL). Nesse grupo, incluo até um aliado significativo como Roberto Requião (PMDB-PR).

Todavia, o PMDB está repleto de poderosos conectores de rede (os chamados hubs) com acesso a uma rede imensurável de contatos no Brasil e no exterior capazes de, se ninguém “bulir” com o seu rico patrimônio.

O conteúdo programático e a ideologia dos dedos ainda faz com que o ato de vestir os anéis rememore o afeto e traga à tona a ressignificação do sentido de pertença que os une. Todavia, esses anéis não possuem laços fortes com atores sociais a quem o PT tradicionalmente tapava o nariz para não sentir o cheiro, apertava as mãos vestindo luvas de amianto ou, então, costumava usar máscara de soldador para esconder que não interessava olhar dentro dos olhos “dessa gente”.

Se há um objetivo de conhecer pessoalmente Barack Obama e de manter com o “líder do ‘mundo livre’” uma relação extremamente amistosa com um mínimo de subserviência; se existe a ambição de reduzir a violência, aumentar o crédito, diminuir o desemprego e, finalmente, de tornar o Brasil um exportador de produtos de alto valor agregado (leia-se ciência e tecnologia de ponta), é preciso aprender a ver um lado que ninguém vê em pessoas anteriormente tidas como “do mal”. Ao mesmo tempo, também é preciso aceitar que as pessoas “do bem” nem sempre são capazes de conectar grupos de interesse altamente distintos – pra não dizer antagônicos.

Embora eticamente contraditório, esse pensamento em rede pode ser comparado – naturalmente em uma escala milhões de vezes maior – a uma pequena hipocrisia que cumprimos e mal percebemos:

- Sabem quando vamos a uma festa e encontramos uma pessoa com quem não vamos com a cara mas é muito amiga de alguém que a gente adora? Não dá pra ser sincero o tempo inteiro quando não se deseja chamar a atenção para um fato que tende a nos prejudicar muito mais do que nos ajudar.

Gostemos ou não, o PT aderiu à realpolitik, como dizem os alemães. Afinal de contas, em bom português, a política nada mais é do que “a arte do possível”…

A RESISTÊNCIA PELO COMUM

O mais lamentável na política partidarizada, sindicalizada e classista de TODOS OS MATIZES IDEOLÓGICOS e também em relação àqueles que costumam criticar as práticas da mídia corporativa e da publicidade sem um mínimo de domínio técnico, econômico, administrativo, jurídico e, sobretudo, SOCIAL do setor é que a polarização tem aumentado vertiginosamente como reflexo dos equívocos do uso dos poderes político, econômico, coercitivo e comunicacional por todo o país.

Seja pela ignorância, pela hipocrisia ou pelo oportunismo, muitos creem e difundem os valores da imparcialidade e da isenção como se isso realmente fosse possível. Todos tem um lado. Porém, o fato de ter um lado não significa que se deva cometer a desonestidade intelectual de considerar que os métodos, as práticas e as teorias utilizadas para analisar o quadro social a partir de um conjunto de valores no qual eu creio sejam sempre os melhores e os mais adequados. Do mesmo modo, também não é honesto crer que todas as premissas que desvelam os valores dos quais duvido estejam sempre 100% equivocados ou que todos os que os defendem sejam corruptos, ignorantes ou picaretas.

Percebo que o discurso de justiça e igualdade prioriza – em ambos os polos – aqueles que são mais parecidos. Uns tem mais o jeitão do meu time; outros, não. Com isso, a igualdade vai para o espaço, já que parte do princípio de que uns são mais ou menos iguais aos outros. Com isso, a solidariedade, a comunhão, o respeito e o valor que se dá a cada um passa a ser muito mais individualmente seletivo do que coletivamente inclusivo.

A igualdade – assim como a verdade, a isenção e a imparcialidade – só existem aos olhos de quem os vê e para aqueles que julgam merecê-las.  Nesse ponto, tanto o discurso da “esquerda” como o da “direita” estão desatualizados, descontextualizados e desencaixados.

Por que é tão difícil pensar que não existe nada nem ninguém igual e que temos muito em COMUM?! Não é a igualdade que se deve cobrar mas, sim, a superação do comum por ele mesmo como uma forma de atrair o interesse de cada vez mais pessoas interessadas em dar mais de si para manter a energia desse fluxo a pleno vapor.

O comum é feito para ser compartilhado e compartilhado. O comum reside na cooperação e na solidariedade. O comum não é único nem privado: ele é ubíquo e social. A ele agrega-se o valor da troca de conhecimento a partir do DISSENSO, pois são as diferenças debatidas em um regime de dialética pacífica que agregam valor ao que só pode evoluir a partir do momento em que não mais se repete.

A sociedade capitalista taylorista-fordista e – posteriormente – a neoliberal lidaram com conflitos de classes cuja premissa básica era a detenção dos meios e o fatiamento do bolo de maneira que poucos não fiquem com tudo e muitos não fiquem sem nada.

O comum é o conteúdo e o continente das práticas sociais que buscam fugir de um controle hegemônico. É o produto da resistência, da horizontalização e da auto-organização – que são os valores que grande parte da esquerda deveria utilizar a fim de superar o da luta pela inclusão a partir de um modelo igualmente verticalizado, burocratizado, clientelista, corrupto e sectário inversamente excludente em relação às práticas da direita.

O comum é o ativo que circula na sociedade em rede. Já o bem material ou simbólico cuja propriedade é institucionalizada e definida pelas leis oficiais ou por algum “contrato social” é aquele que gera uma série de passivos em cascata (juros, latifúndio, monopólio, oligopólio, corrupção, desestruturação do campo de ação dos poderes, miséria, fome, devastação do meio ambiente, excesso de industrialização, ignorância, doenças psicossomáticas, etc.)

As lógicas definem os processos que – por sua vez – redefinem as lógicas alteradas em função da dinâmica sociotécnica. A lógica do comum é a lógica daquilo que circula e que passa por todos: essa apropriação coletiva devolve ao fluxo novas contribuições.

O enorme atraso com que partidos de esquerda e sindicatos apenas começam a aderir lentamente ao pensamento em rede tornou o seu discurso quase inócuo em relação àqueles a quem pretendem atingir para transformar e pouco resolve a condição dos seus próprios filiados. Acho que a chave para o insucesso político-partidário é essa: o desejo de socializar a propriedade ao invés de entrar no fluxo de produção e compartilhamento de conhecimento.

PÚBLICO x PRIVADO + PROCESSOS: LIÇÃO PARA BLOGUEIROS

Presta muita atenção ao depoimento acima. O ator Pedro Cardoso é um cidadão de primeiríssima qualidade, altamente consciente e nada afetado. O fato de ser carioca da zona sul, de vir de família abonada, de ser ator televisivo exclusivo da Rede Globo e de ser primo do ex-presidente FHC não podem, de maneira nenhuma, desautorizar a sua posição. Até porque ele aparece rarissimamente no programa paparazzo da sua empregadora, o Video Show.

A chamada classe artística deveria mirar-se nesse espelho e aprender a diferenciar o que é notícia de interesse público e o que é prestar-se ao papel de um mero objeto vendável. A bem da verdade, há o predomínio de artistas, jornalistas e políticos que comportam-se como “celebridades”: infelizmente, sujeitam-se a aparecer de qualquer jeito só para ganhar dinheiro. Sua crença na máxima “quem não é visto, não é lembrado” os faz esquecer de que, do mesmo cume do vulcão de onde se mira o horizonte, pode-se morrer com um simples escorregão. E, para chegar a esse triste fim, não é preciso sequer tocar a lava…

A função social dessas criaturas dinheiristas, egocêntricas e – não-raro – de questionável qualidade profissional e cultural remete apenas ao entretenimento: pouco aprendem e pouco ensinam. Nesse sentido, impera a mediocridade responsável pela longa demora do país em poder finalmente alcançar um nível mais alto em sua evolução civilizatória.

Incontáveis exemplos me levam além nessa discussão. Dois deles, em particular:

– MARADONA E A IMPRENSA: longe de mim concordar, aceitar ou incitar a agressão ou a violência. PORÉM, é necessário compreender minimamente o porquê de um Diego Maradona ter ameaçado “periodistas” com um rifle defronte a sua mansão em Buenos Aires num momento delicadíssimo do seu primeiro casamento durante o auge da sua drogadição;

A MORTE DA PRINCESA DIANA: ela e seu namorado Dodi Al-Fayed morreram em um acidente automobilístico em 1997 durante tentativa de fuga não de bandidos, da polícia ou da justiça mas – pasmem – dos infames e onipresentes paparazzi.

Isso posto, vamos ao terceiro e mais importante exemplo dessa conflituosa relação: intrometer-se nos atos de pessoas públicas dentro de seus ambientes privados é fofoca, é ignorância (pelo menos ignorância jurídica), é estupidez (mesmo que não tenha sido movida pela maldade ou pelo oportunismo, o é pelo excesso de parcialidade) e é crime (independentemente da discussão entre o legal e o justo, não se pode corrigir um erro com um outro erro). Mesmo quando essas pessoas são suspeitas ou até mesmo formalmente acusadas de crimes graves e amplamente conhecidos, tal intromissão na vida privada não se justifica.

Nesse ponto, que me perdoem meus amigos blogueiros que estão sofrendo processo em nome dos netos da economista e (momentaneamente) política Yeda Crusius: hoje, o que menos importa é especular se ela quer levar algum, se a sua ação foi orquestrada (quer seja pelo seu advogado, pela classe que a sustenta no poder, pelo seu partido ou, ainda, pela intervenção de sua filha – a mãe das crianças). Importa menos ainda se ela processou inclusive o intelectual orgânico do poder econômico que transforma boa parte da classe média gaúcha em classe mérdia bovina a fim de supostamente devolver ao PIG guasca parte da sua credibilidade perdida…

…Na frieza dos códigos de lei sacramentados e atualmente válidos que determinam direitos e deveres relacionados à essa linha tênue que separa o interesse público do privado, seja para quem torce a favor, seja para quem torce contra ela e as forças que a sustentam no poder, é preciso admitir, respeitar, aceitar e acatar o fato de que –pelo menos neste caso (mesmo que, no frigir dos ovos, possa ser tão-somente neste caso) – ela tem toda a razão social e técnica a seu lado.

Sei que é indignante e quase impossível resistir ao impulso de querer fazer justiça com o próprio teclado. Todavia, há um gigantesco desconhecimento jurídico por parte de jornalistas profissionais (funcionários do PIG ou não) e de opinionistas em geral – principalmente os hoje dispostos na blogosfera, como muitos de nós.

A resistência contra um poder hegemônico (econômico, político e coercitivo) conservador, reacionário, oportunista e ignorante é fundamental. Porém, é preciso municiar-se de todas as armas disponíveis para, ao invés de ser um Flik, não passar de um pobre Don Quijote de La Mancha. O risco de errar, de pagar mico, de ser obrigado a gastar um dinheiro que não se tem e de virar a vida de cabeça para baixo em termos profissionais, afetivos e financeiros é muito grande quando não há interesse em buscar assessoria técnica adequada.

Deixo aqui a contribuição de um professor fantástico que me ensina bastante. O conheci graças às amizades que fiz pelo Twitter. Pra quem não conhece, o prof. de Direito da UFMG dr. TÚLIO VIANNA possui um blog no qual discute uma série de questões sobre direitos humanos, cidadania, política, software livre e as imbricações dessas questões com as práticas jornalísticas.

Sigam-no e leiam atentamente o artigo que escreveu junto com Cintia Semiramis sobre calúnia, difamação e injúria.

POR QUE A PARTICIPAÇÃO POLÍTICA PRESENCIAL É PÍFIA?

Embora todo fenômeno social seja complexo e demande uma observação contínua, observo uma cadeia de práticas sociais que podem explicar por que a maioria das pessoas dá de ombros para qualquer mobilização nesse sentido.

Inicialmente, aumenta a crença de que a democracia representativa representa prioritariamente os interesses dos patrocinadores da mídia corporativa, que são os mesmos que garantem a maioria dos empregos da classe média.

Também creio firmemente nessa hipótese, mas isso não impede que eu mantenha a minha determinação em discutir alternativas de aperfeiçoamento da democracia. A grosso modo, a descrença nos políticos e a obrigatoriedade do voto também não podem desvincular os descrentes da participação política e social. Todavia, é mais fácil omitir-se do que fazer parte de algo que trará desgaste. Portanto, são muito poucos os indivíduos dispostos a perceber que o bônus da tensão é a superação de um modelo. Falta tenacidade e coragem para chegar até o fim.

Em paralelo, a esquerda conceitualmente atualizada – que costuma pensar que participa e contribui para a mudança desse quadro de apatia mais do que a maior parte da sociedade – mantém a defesa desse modelo muito em função de estar deslumbrada pela absurda quantidade de acertos em relação aos erros crassos e até inesperados do Governo Lula.

A extrema esquerda (conceitualmente superada e míope em relação ao macroambiente) hoje está ainda mais vinculada aos movimentos sociais do que o próprio PT. Ela também tem obtendo algumas vitórias no que tange à ética, à veracidade e aos critérios das investigações e das denúncias que ora tem protagonizado. Como ela elege seus poucos representantes e – a exemplo do PT – também foi forjada a partir da contestação à ditadura, o sistema parece-lhe justo. A extrema direita (golpista e reacionária), por sua vez, domina há muito tempo o que há de mais conservador entre as culturas regionais e as elites econômicas do país (mais precisamente RS, PR, SP e MG – não necessariamente nesta ordem). Ela tem sido quem mais se beneficia da democracia representativa e é composta por uma parcela da população bem maior do que aquela que a extrema esquerda representa.

Enfim, de todos os lados, a maioria ainda prefere ater-se à crença nesse modelo político-partidário do que preocupar-se em superá-lo paulatinamente a partir de uma alternativa que ofereça o privilégio e o direito de participar sem envolvimento presencial enquanto obriga o cidadão em geral a sentir-se verdadeiramente responsável pelas suas escolhas sociais.

A despeito dessa crise da democracia representativa, onde os políticos representam a todos mas não representam ninguém e onde ninguém presta mas todos decidem algo relevante sob a nossa chancela, a esmagadora maioria do funcionalismo público voltou a reconhecer em si um caráter muito mais técnico do que ideológico.

A bem da verdade, quando não existe um regime de exceção formal, esta costuma ser a prática mais usual da maior parte dos funcionários públicos. Logo, prevalece a consciência de que o funcionário público trabalha para atender aos cidadãos em geral e não a interesses privados – e nem tampouco pessoais. Como promessas a eles jamais foram cumpridas em sua totalidade por nenhum campo ideológico e por nenhum partido, perdeu-se aí aquela aura de combatividade e o sentido de fazer parte de um ideário coletivo.

Na prática, a maioria dos funcionários públicos que não é CC (esse grupo, sim, ou se beneficiam, ou se ferram) deve necessariamente atender a duas pontas simultaneamente:

1) As diretrizes gerais do seu ofício, que decorrem de um projeto de estado que independa de partidos e da persona do executivo: referem-se ao cumprimento do estatuto da empresa pública, ministério, secretaria de estado ou de município ou autarquia para a qual foram concursados;

2) As diretrizes pontuais relacionadas ao método de execução e aos objetivos traçados pela ideologia que ora é governo – o que determina o uso de um dado conjunto de técnicas voltadas ao cumprimento de planos que o chefe e seus parceiros do momento consideram mais eficientes.

No momento em que não se vive em uma ditadura, até mesmo as fiscalizações técnicas de auditores e corregedores voltam-se tão-somente ao cumprimento de leis e protocolos que, em princípio, devem evitar ao máximo expor e manchar a reputação da instituição.

Creio que tais diretrizes técnicas resultam em uma postura que segue alguns passos.

a) A crença do senso comum (isto é, o argumento não-técnico e não-especializado da maioria que não possui laços fortes com o poder público) no apoio ou na criminalização de uma determinada questão é altamente subjetiva, pois depende tanto da reputação de quem fornece a informação como do interesse de cada um em procurar – ou não – opiniões divergentes. Portanto, a opinião de cada indivíduo será formada tanto em função daquilo que acompanha na mídia de massa como nas mídias sociais, aliado ao depoimento de contatos presenciais com laços fortes junto ao poder público. E tão desvinculada da realidade será essa opinião pública quanto aumentar o seu interesse por questões das quais estiver desvinculada geográfica, técnica e socialmente – eis o porquê da ignorância agrária, da não-aceitação da Olimpíada de 2016 e do não-envolvimento com a corrupção no RS, por exemplo.

De maneira geral, o conservadorismo da classe média urbana reproduz o pior legado da ditadura militar e da formação oligárquica do estado brasileiro de uma forma exponencialmente superior à idealizada pelos seus mentores: a da conciliação hipócrita. A maioria da classe média é predominantemente medrosa, pouco crítica e profere opiniões vazias não por causa do individualismo e do ludismo pós-moderno, nem por causa do analfabetismo funcional, da miséria ou de um poder (a meu ver) exagerado atribuído à mídia corporativa mas, sim, por que acostumou-se à política dos panos quentes.

Independentemente da valoração que atribuímos à confiabilidade do noticiário e das opiniões encontradas tanto na mídia corporativa quanto na blogosfera (incluindo também o principal, que é composto pelo que NÃO foi dito), mesmo diante de tantos indícios exaustivamente denunciados publicamente – em particular, os indícios e as provas relacionadas à corrupção no desgoverno Yeda ( com ou sem blindagem midiática); as CPIs abafadas no desgoverno Serra e a censura  do desgoverno Aécio – a crença na democracia representativa está ligada à descrença nos atores político-partidários e no Judiciário, pois quase tudo acaba em pizza. Ainda, a classe média em geral não deixa de estar consciente das prerrogativas de que “todos são inocentes até prova em contrário” e que “o ônus da prova é de quem acusa”.

Diante da hiperexposição midiática da corrupção (isso independe de quem e de como seja direcionado quando analisa-se friamente os fatos), cada um fica na sua para se proteger.

Finalmente, a esmagadora maioria das pessoas que possuía maior interesse em envolver-se diretamente em política nos moldes tradicionais ou já morreu, ou está aposentada. Inclusive grande parte de seus herdeiros de militância (a maioria na faixa dos 45 a 55 anos) insiste em seguir a mesma toada, sem perceber o quanto o mundo mudou.

Métodos superados, teorias superadas, práticas superadas, desconhecimento das armas do inimigo e por aí afora.

É preciso ser mais lúdico. É preciso ser mais assertivo. É preciso ser mais digital. É preciso ser menos panfletário.

Do contrário, tanto as mobilizações públicas como a do último domingo em Porto Alegre contra Yeda como o “célebre” Cansei – apesar de legítimas – permanecerão sendo quixotescas.