@EirikurBergmann é politólogo, professor e diretor do Centro de Estudos Europeus da Escola de Ciências Sociais da Bifröst University, da Islândia. A pequena nação nórdica, uma ilha afastada do continente mais próxima da “americana” Groenlândia, sofreu um baque gigantesco devido à crise econômica neoliberal que teve o seu apogeu na maior parte do mundo dito ocidental em 2008.
Na Islândia, o Estado quebrou em proporções tão graves quanto as de países mais conhecidos hoje quase em estado de penúria, como a Grécia e Portugal. Todavia, a solução encontrada para devolver o nível da qualidade de vida da sociedade islandesa foi bastante diferente:
– Primeiro, o país decidiu dar o calote nos bancos: sem essa alternativa normalmente condenável pelos “papas” da economia liberal de controle protagonizada pelos EUA, a Islândia teria se tornado um território permeado pela miséria e pela incapacidade de se gerir autonomamente;
– Segundo, que o governo incentivou uma iniciativa inédita, a fim de regulamentar a nação para que ela passasse a ser controlada pelo cidadão e não pelos chamados “cordéis de fora” capitaneados pelos grandes bancos: uma WIKICONSTITUIÇÃO.
O prof. Bergmann veio ao CONEXÕES GLOBAIS para dar uma breve explanação sobre a sua crença na descentralização do poder dos governos com o intuito de empoderar e gerar co-participação e cooperação e cocriação da população como um todo.
Dessa forma, a população da Islândia passou por várias instâncias de participação popular online, onde foram instigados a contribuir para uma reformulação na constituição do país via Twitter e Facebook, além de outras mídias sociais. Ao longo do tempo, a quantidade de temas mais discutidos foi ganhando relevância, a ponto de estabelecer o limite entre prioridades verdadeiramente públicas em prol da maioria e questões menos coletivas e menos valorizadas.
Essa forma de curadoria é muito importante, pois reduz o peso da mediação das instituições públicas e privadas: o grau de colaboratividade encontrado por cerca de 100 mil cidadãos islandeses na feitura da sua atual versão da carta magna eliminou dramaticamente a possibilidade de o país perder na queda de braço para interesses privados multinacionais, que costumam tornar a entrada e a saída de investimentos bastante volátil em lugares cuja economia não possua ampla demografia de consumidores de seus produtos e serviços, nem uma diversidade significativa de recursos naturais dos quais esses “cordéis de fora” possam se apossar.
A riqueza dessa experiência foi um aprofundamento bastante amplo daquilo que o próprio pesquisador verificou a partir da experiência bastante aclamada no mundo inteiro do que entendemos por democracia participativa ainda offline, tal qual Porto Alegre levou a sério e ajudou a divulgar pelo mundo a partir do já distante ano de 1989.
E essa é uma lição que fica para que consigamos expandir cada vez mais essas experiências, rumo à DEMOCRACIA EMERGENTE.
