SEJAM SOCIALMENTE INDISPENSÁVEIS!

Sobre o insucesso no vestibular, o que eu posso dizer aos jovens bem nascidos porém criados em um ambiente egoísta e competitivo (no pior sentido da palavra) que vivenciam intensamente o consumismo, a lei da selva e as tendências mais reacionárias?

Pra começo de conversa, todos nós possuímos forças e fraquezas: é impossível haver uma pessoa 100% forte e outra 100% fraca. Portanto, não se achem o máximo e também não se mixem! ;)

O xis da questão é encontrar o estímulo externo e a iniciativa interna capazes de levá-los a realizarem-se a partir de suas verdadeiras vocações. A vocação não surge devido à pressão familiar, à escolha bem-sucedida de alguém que sirva de inspiração ou, simplesmente, devido a uma maior possibilidade de passar em algum concurso público.

A vocação não pode vir meramente pelo status, já que nenhuma profissão honesta, socialmente includente, economicamente justa e legalmente digna é “melhor” ou “pior” do que as outras. E a vocação tampouco surgirá pelo fato de o “mercado” oferecer uma demanda maior por certas áreas (isto é, mais vagas e maiores salários).

A verdadeira busca deve ser pelo prazer de aprender, pelo prazer de ajudar, pela gratitude de sentir-se útil, neessário e de poder orgulhar-se do resultado de tornar as pessoas que solicitam a nossa ajuda mais felizes.

Sobre dinheiro: ele não é o começo e nem o fim. Ele é um MEIO. Um meio importante, claro. Mas quando de meio se torna uma meta, o que realmente importa perde a importância. E não é nem de exploradores e muito menos de explorados que o mundo precisa.

Quando se chega a esse ponto, as derrotas serão muito mais doídas: quando se quer o troféu pelo troféu, o prestígio pelo prestígio, a fama pela fama e o dinheiro pelo dinheiro, a ganância toma o lugar da ambição. E, quando isso acontece, vocês se desumanizam – passam a ver os outros ou como ferramentas, ou como ralé. Então, vocês ficam sem rumo: não sabem nem porque ganharam e tampouco por que perderam. Sem saber o que os levou a um resultado ou a outro, repetem os erros e esquecem-se dos acertos. Logo, passam a ganhar menos e a perder mais.

Tanto na vitória quanto na derrota, é tudo com vocês: quem estudou ou deixou de estudar; quem fez as provas; quem sentiu-se tranquilo ou nervoso, foram exclusivamente vocês, não os seus pais, professores, ou “concorrentes”. Quando a culpa ou a esperança recaem sobre deus, o governo e/ou os cotistas, vocês elegem vilões imaginários e, aí, perdem completamente a razão.

Não, vocês são melhores do que isso! E, francamente, faltou-lhes algo mais para passar na UFRGS ou para obter uma nota minimamente decente no ENEM: ponham a mão na consciência e reflitam comigo…

– Vocês são oriundos de escolas particulares e caras com amplo acesso à informação. Portanto, munidos de tempo, dinheiro, espaço, tutoria qualificada e tecnologia suficientes para treinar bastante e com liberdade. Devido a todos esses fatores, a chance de vocês terem algum deficit cognitivo é mínima. Logo, vocês não tem desculpa nenhuma por não terem passado;

 – Pressões emocionais são muito mais impingidas por vocês mesmos do que pela família. O acesso aos resultados dos anos anteriores e às dicas dos professores de cursinho e dos colégios sobre o que cada questão exige de vocês é amplamente divulgado. Conclusão: faltou, sim, maior esforço foco, interesse, prazer e estabilidade emocional. A verdade é que tudo o que vocês fizeram não foi o suficiente. Não desta vez.

Ganhar é sempre bom. Diria mais: a vitória é um importante passo para a autoconfiança. Contudo, a competição mais árdua não é pelo troféu, pelo prêmio em dinheiro e muito menos para demonstrar supremacia exclusiva diante dos pares: essa tende a ser o resultado do egoísmo, da busca pelo glamour, da falta de um interesse social mais amplo. A real competição – sadia consiste na incessante busca por ser cada vez melhor em si mesmo.

Esfriem a cabeça: chegou a hora de esforçarem-se para serem PESSOAS MELHORES.

Ser melhor em si mesmo não é agradar à família. Não é agradar ao patrão. Não é ser arrogante, nem mesmo demonstrar uma falsa humildade servil. Ser melhor é aprender com os próprios erros e aperfeiçoar a si mesmo em todos os sentidos.

Não roubar, não matar, respeitar e saber ouvir não são virtudes e nem mesmo o suficiente para que vocês sejam considerados bons: isso não é mais do que a obrigação.

Ser melhor em si mesmo é valorizar a hora certa, o lugar certo e as pessoas certas. É não esperar por ajuda e não culpar a absolutamente nada nem ninguém nem pelos seus sucessos, nem pelos seus fracassos.

A pior coisa que uma pessoa pode fazer por si mesma é achar-se auto-suficiente: afinal de contas, o falso entendimento de que ela sabe tudo a fará ignorar ou desrespeitar a crítica construtiva e o conselho sincero – exatamente aqueles que ajudam a queimar etapas e vem do coração. É vital compreender que todos precisam de todos, pois não existem pessoas munidas nem da completa sapiência, nem da utilidade máxima para todas as situações.

Enfim… Para atingir-se a um determinado objetivo, em primeiro lugar, cada um deve munir-se do maior repertório técnico, teórico e prático possível, a fim de poder concentrar-se nos esforços socioeconômico, cultural, psicológico e cognitivo necessários. Em segundo lugar, é absolutamente fundamental dominar todas as regras legais, entender corretamente o funcionamento social do grupo ao qual se deseja pertencer. Por último (mas não menos importante), deve-se seguir a própria intuição no momento crucial de definir se tal atividade é mesmo aquela que cada um deseja seguir durante muito tempo como a mais importante para si e – acima de qualquer fator – para a sociedade.

O umbigo de vocês não é o mais bonito e o problema de vocês está longe de ser o mais difícil. E, por tudo isso, não desistam jamais: o verdadeiro sonho é aquele que une a fantasia e a concretude.

DESIGN + MARKETING SOCIAL = PROJETOS IMATERIAIS APARTIDÁRIOS

Graças à popularização da edição do conteúdo de blogs, a dinâmica das interações gera conversações em vários ambientes simultâneos dentro de um mesmo espaço [1][2].

Um serviço online voltado para a conversação e para a troca consiste num lugar virtual de compartilhamento de conteúdo e de relacionamento. Cada serviço apresenta um design específico, a fim de diferenciá-lo dos demais a partir de um projeto de atribuição de sentido baseado no posicionamento, na interação, na estética e na funcionalidade [3] dos elementos multimídia contidos nesse espaço.

Esse projeto, cuja estética e função são usualmente propostas por um projetista profissional, também pode definir-se via apropriação coletiva e des-hierarquizada de produção e criação, independentemente dos interesses e dos propósitos sob diferentes graus de domínio sociotécnico [4].

Dentro da blogosfera, temos como identificar diferentes ambientes de conversação. Os mais comuns são os links dentro do próprio post; os comentários (com ou sem adição de conteúdo audiovisual externo); a lista de links recomendados (o blogroll) e as citações do post de um blog dentro dos posts ou comentários em outros blogs [5].

O hipertexto possibilita a convergência de várias mídias digitais, que potencializam a disseminação de uma determinada informação. Extrapolando o atravessamento entre os ambientes contidos em um ou mais blogs, surgem como outros ambientes paralelos de interação mediada por computador as interfaces do Twitter (que pode ser dividida em links twittados no tuíte, em tuítes dialógicos, em tuítes declaratórios; na lista de seguidores; na lista de seguidos; nas listas feitas pelo tuiteiro em questão ou onde esse tuiteiro está listado, etc.), do Facebook (no status, nos comentários do status e em n outros ambientes internos ao FB), do You Tube, do Flickr e de várias outras mídias sociais.

Isso posto, projetos de financiamento social em rede (crowdfunding) como o Catarse.me; ou de resgate da memória, denúncias e sugestões de melhorias urbanas e sociais e um vislumbre de como projetar o futuro de uma dada cidade como o Porto Alegre.CC e de conscientização, debate e aprendizagem política sob a dinâmica da nova sociedade como, por exemplo, a Rede Liberdade e a Teia Livre, constituem em tentativas exploratórias com algum resultado prático: coletivamente, cada um desses projetos representa – para os seus respectivos nichos – um espaço de discussão repleto de ambientes nos quais as pessoas se atravessam. Todos produzem afetos e tensionamentos, de forma que a aprendizagem e a intenção de colaborar sejam constantes.

Não existe perda de dinheiro nem tampouco desperdício de tempo: o desprendimento, o comprometimento e a capacidade de difundir a informação ali compartilhada multiplicam o valor de cada uma dessas redes. Ao longo do tempo, essa dinâmica certamente resultará em uma superação do modelo gráfico, de arquitetura da informação e de usabilidade ora existentes, inclusive aperfeiçoando a simplicidade da interação desses sites com várias redes sociais.

Uma tendência é a de internacionalizar o processo, de forma que, apesar das suas particularidades e das questões socioculturais inerentes à realidade da maioria de seus interagentes, venhamos a formar um híbrido entre o Ushahidi, a The Real News Network e o Global Voices.

Dentro desse espectro, destaco como atores importantes a Coolmeia, que tende a estar mais próxima da realização não-burocrática com resultados sociais mais rápidos do que os proporcionados pelo Estado; o Gabinete Digital do Governo do Estado do Rio Grande do Sul (via @tarsogenro), por ser uma iniciativa em rede diferenciada articulada pelo Poder Público com o intuito de tentar radicalizar a democracia representativa e a CUFA (Central Única das Favelas), como fator de inclusão social, econômica e de reconhecimento da cidadania. Finalmente, em termos ideológicos e de excelência na prática do compartilhamento de trabalho imaterial, há, ainda, a riqueza imensurável da comuidade do Software Livre como o fio condutor sociotécnico e ideológico de uma rede cuja união e multiplicação depende prioritariamente do apartidarismo formal.

Todavia, a convergência sociotécnica e os exemplos a serem pinçados das iniciativas desses atores precisam necessariamente tomar o caminho da DEMOCRACIA EMERGENTE.

Considero extremamente importante que as formas de agregação e de convergência tenham como base para discussão os três projetos acima, que são bem-sucedidos e longevos. Isso pode nos aproximar mais da necessidade de atrair a classe média urbana e o jovem para o centro da discussão.

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[1]  No início do conceito que desenvolvi, chamo o blog de espaço autoral. Na sequência, proponho, dentro desse espaço, uma divisão em três ambientes distintos que caracterizam tipos de interação e de conversação em função da colocação de seus autores e dos atravessamentos gerados por esses relacionamentos. Tal decisão surgiu após a necessidade de observar que as relações estabelecem-se ora dentro de cada um desses espaços, ou circula entre eles. Portanto, ora encontramos cruzamentos de conversas entre diferentes compartimentos, ora as conversas restringem-se a um desses espaços em particular. (v. PAZ, H.S. 2009a, p. 27). 

[2] Se defendo o motto macluhaniano-johnsoniano-manovichiano da Comunicação Digital de que “o meio é a mensagem”, da cultura da interface, da emergência e de que vivemos em um mundo no qual grande parte das nossas relações pessoais e da nossa produção e transformação da informação se dá em grande parte através da interação de, com e para com os bancos de dados em rede, logo, entendo que não posso chamar aplicativo e software mediador de afetos, de trabalhos e de lazer compartilhado de “ferramenta”. Isso traz ao meu discurso uma conotação pós-moderna e não moderna, já que o que importa mais a mim é a fluidez e a organicidade das relações e não o formão, a tinta, o martelo ou o serrote que constroem as peças da casa. Afinal de contas, a sua existência material só faz sentido a partir do uso funcional e afetivo que seres humanos fazem desse espaço. Portanto, o meu lugar na pesquisa não se refere ao código, ao número, ao comando, ao algoritmo e à programação mas, sim, `a apropriação eminentemente social do produto.

[3] O Prof. Dr. Wilton Azevedo entrou em contato comigo reclamando por ter suposto que eu teria me apropriado indebitamente do conceito de design que esse excelente pesquisador cunhou em seu livro “O Que é Design?” na seguinte coluna que eu tive a honra de ver publicado no WebInsider. Declaro categoricamente que essa JAMAIS foi a minha intenção. Eu tão-somente cometi o equívoco de ter dado a ele os devidos créditos naquela ocasião. Já me desculpei pessoalmente, mas lamento muito pela abordagem nada assertiva que recebi. Por outro lado, hoje, meu trabalho ainda incipiente na EDU (sigam @designunisinos) e a leitura de algumas apresentações do prof. dr. Gustavo Fischer  (sigam @gusdf) ampliaram o meu conhecimento. Hoje, creio que, além do conceito do prof. dr. Wilton Azevedo (design = estética + funcionalidade agregadas a produtos), percebo que design é projeto e que esse projeto também pode ser voltado para produtos e serviços imateriais.

[4] v. SHIRKY, Clay, 2011 p. 70-80, sobre a questão da estética, do trabalho e do modo de produção amador em rede. O autor define o atual momento histórico como “a cultura da participação“, na qual a motivação e o resultado de um esforço coletivo empreendido em rede não precisam ser nem estética e nem funcionalmente brilhantes, desde que sejam suficientemente divulgados e possuam um apelo suficientemente forte a ponto de que tal produto produza alguma diferença para a sociedade.

[5] Blog: unidade potencial de construção, manutenção, reforço e abandono de relações contida em um espaço autoral individual ou coletivo que espalha-se na rede através do diálogo, da conversação, da discussão e do debate proporcionados por três ambientes – blogroll; posts (links, citações e conteúdo próprio)e comentários – que caracterizam o lugar desse ser e a sua forma de interagir em um ambiente marcado pela remediação. (PAZ, H.S. 2009a, p. 27).