ARGÉLIA 0×3 MALÁUI

Embora não tenha podido assistir a essa histórica e surpreendente partida, há que se destacar uma série de fatos interessantíssimos:

1) Pelo que tenho visto dos jogadores argelinos (sobretudo o falsamente incensado lateral-esquerdo Belhadj do Portsmouth), o time é veloz, porém não se diferencia muito daquele joguinho de toque de bola que tenta, tenta, tenta e consegue muito pouco – bastante observado na Tunísia da Copa de 2006. Classificou-se para a Copa do Mundo muito em função da rivalidade de morte contra o Egito, além de possui uma intimidade muito maior com a adrenalina principalmente quando atua contra equipes similares (Norte da África – principalmente países árabes como Tunísia e Marrocos). É um estilo de jogo que, diferentemente das n configurações étnicas, físicas e anímicas verificadas na África negra, nivela os árabes entre si. Essa rivalidade entre os países saarianos com margens para o Mediterrâneo lhes proporciona uma injeção extra de adrenalina;

2) O provérbio klingon no cartão do início do genial Kill Bill vol. 1 poucas vezes se mostrou tão adequado: “A VINGANÇA É UM PRATO QUE SE COME FRIO”. O Maláui havia sofrido 3×0 da mesma Argélia na CAN de 1984 na fase de grupos. Passou 26 anos comendo um mingau gelado e quase seco, até que, finalmente, a vitória veio. Diga-se de passagem, esta é a décima participação do pequeno e conturbado país do sul da África em uma fase de grupos da CAN e – pasmem – esta foi recém a sua primeira vitória na fase de grupos em todas as edições. Isso justifica a legenda bíblica do criativo produser que postou os gols do vídeo acima no YouTube;

3) Desta vez, a Argélia classificou-se para a Copa do Mundo como jogou o Grêmio de Mano Menezes na Libertadores de 2007: ganhou todas as partidas em casa e perdeu todas menos uma fora. Garra e fator local superaram – e muito – a qualidade técnica da equipe;

4) As Raposas do Deserto estão em pé de guerra: como infelizmente é habitual na África (seja a seleção árabe do norte ou negra subsaariana), os jogadores e o técnico Rabah Saâdane parecem não estar se entendendo bem. É preciso dizer que o velho e bom Saadane foi quem classificou a Argélia para a Copa de 1986. Até prova em contrário, não lembro de outro técnico de seleção africana ter classificado a mesma seleção para mais de uma Copa do Mundo, pois eles trocam de treinador como quem troca de cueca. Um cara que treina a seleção argelina pela quinta vez desde 1981 e que possui em seu currículo passagens pelos grandes clubes africanos Raja Casablanca (Marrocos) e Ètoile du Sahel (Tunísia) definitivamente não é pouca coisa para os padrões continentais.

Saâdane foi zagueiro até do outrora grande clube francês Stade Rennais (equivocadamente conhecido por aqui como Rennes, o nome da cidade). Esse homem foi o primeiro técnico a classificar a seleção Sub-20 da Argélia para um mundial da categoria. Foi no distante ano de 1979, quando este blogueiro estava no jardim da Infância da Escola de Ensino Fundamental General  Daltro Filho em Porto Alegre, no bairro Auxiliadora. Pois essa seleção de cadetes dirigida pelo professor Saâdane atingiu as quartas-de-final da competição, quando parou somente na poderosa Argentina de Diego Maradona (não por acaso a campeã).

No comando do Raja Casablanca, ele foi “apenas” campeão marroquino e campeão da CAF Champions League. “Só” isso.

O costume com os frequentes camaroneses, argelinos, marroquinos, tunisianos, egípcios, nigerianos, ganeses, marfinenses, senegaleses e malineses nas principais ligas européias desde que comecei a acompanhar o futebol africano em 1982 tornou seus nomes e sobrenomes originários de uma plêiade de línguas e dialetos nativos um lugar comum. Porém, a sonoridade e a novidade dos nomes dos malauienses (ou seria malauianos?) é um bálsamo para os ouvidos. Sempre senti uma enorme simpatia por essas palavras que, independentemente do seu significado original (que confesso desconhecer maioria das vezes), fazem com que se queira cada vez mais conhecer a África: Russel Mwafulirwa, Elvis Kafoteka, David Banda (homônimo do bebê aditivo de Madonna).

Aliás, vale aqui o TROCADALHO infame que poderia ter virado uma bela manchete caso houvesse uma versão brasileira do corneteiro espirituoso diário esportivo argentino Olé cobrindo a CAN 2010 com afinco:

“ARGELIA VIU ‘A’ BANDA PASSAR” ou, ainda, “RAPOSAS DO DESERTO CERCADAS PELAS CHAMAS”.

Melhor dizendo, quem viu toda a fanfarra malauiense passar (e quem mais se chamuscou na brincadeira) foi o goleiro Faouzi Chaouchi. Tudo bem: ele tem 1,94m de altura, apenas 25 anos e raspa a cabeça como qualquer goleiro. Até muito recentemente, ele era um “bancário” com pouquíssima experiência na seleção até o jogo que pôs a Argélia na Copa do Mundo. Enfim, contra o poderoso Egito de Hassan Shehata e Abou Atrika (é assim que está nas costas da sua camiseta e não Aboutrika), chegou a ser escolhido para a seleçao africana da semana pelo site Goal.com.

Porém, o fato de ter tido a sorte de estar no lugar certo e na hora certa não necessariamente é sinônimo de qualidade nem tampouco de estabilidade. Como todos sabem, goleiro é um cargo de confiança, que exige continuidade, ritmo de jogo. Salvo em raríssimas e honrosas exceções, não se troca a titularidade do arco por causa da superstição. Os fatos mostram que o antigo titular, que fora suspenso pelo cartão amarelo para o jogo de desempate em Cartum (Sudão), possui experiência e, acima de tudo, estrela: Lounès Gaouaoui foi tricampeão da Copa da CAF (equivalente à Liga Europa e à Copa Sul-Americana) em 2000/01/02, campeão argelino em 2004 e 2006 pelo Kabylie, o  clube mais popular da Argélia. Foram 43 partidas pela seleção.

Exceção ou não, Chaouchi cometeu contra o Maláui não uma mas, sim, duas presepadas que dificilmente são vistas até mesmo no glorioso Parque Ararigboia – palco da fina flor da várzea portoalegrense e de um sensacional exemplo de cidadania.

Embolou tudo. E o raio não costuma cair duas vezes no mesmo lugar. Angola vem no desespero contra o Maláui, que não pode sequer pensar em se deslumbrar com o resultado merecido porém bastante fortuito de ontem. A Argélia, por sua vez, tende a realizar o jogo mais importante do grupo, contra o encorpado Mali.

Tá bom esse grupo, heinhô, Batista? :P

[EWC'10 CAF G] EGITO x ARGÉLIA É GUERRA

Diante de tanta tradição dentro do continente africano, o que diabos faz o Egito degringolar na hora H? Síndrome de Roth?!

Hoje, a Argélia é o grande rival. No 1º turno, em Argel, os donos da casa enfiaram 3×1 com certa facilidade:

Como não poderia ser diferente, o assunto da semana no Cairo é o jogo decisivo de hoje. Os egípcios precisam vencer por três ou mais gols de diferença para carimbarem seu passaporte para a África do Sul. Uma vitória por dois gols provoca um jogo extra em campo neutro:

Desconheço questões políticas e econômicas que porventura incitem a violência por motivos extra-campo, mas o clima lá está pesadíssimo: o ônibus dos argelinos foi alvejado por pedras em sua chegada ao Cairo e quatro jogadores ficaram feridos. A FIFA exigiu por parte das autoridades egípcias garantias de segurança por escrito para os visitantes.

Como sempre, eu tenho lado: por mais que seja apaixonado por egiptologia como um profundo admirador das ciências humanas, sou algeriano desde pequenininho. Se querem saber por que, tenho várias razões para pensar assim:

1) O Egito é a grande pedra no sapato de Camarões;

2) Quem formou sua paixão por seleções a partir da Copa de 1982, é torcedor do Porto e viu Madjer acabar com Alemanha, Bayern, Peñarol e Nigéria não pode pensar diferente;

3) O Egito deixou uma péssima imagem no pior grupo F da história das Copas: Egito, Inglaterra, Holanda e Irlanda empataram cinco de seis jogos em 1990 na Itália, quando os hooligans foram isolados na Sicília e na Sardenha.

Vamos ver no que dá. Com paz, por favor! ;)

A ARGÉLIA DE MADJER

RESOLVI RECICLAR ESTE POST A PARTIR DA ATUALIZAÇÃO DE LINKS E DE BREVÍSSIMAS ALTERAÇÕES NO TEXTO ORIGINAL, POSTADO EM 23/01/2008 (afinal de contas, a Argélia está na Copa 2010)
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Fico até emocionado de lembrar da participação da Argélia na Copa de 1982. Na inesquecível tarde de 16/06 em Gijón, venceram a Alemanha Ocidental por 2×1, gol de Madjer e Belloumi (cuja figurinha eu tinha no álbum Ping-Pong da Copa de 1982 – saudade dos meus nove anos!)

Depois da estréia histórica, no dia 21/06, uma derrota por 0×2 para a Áustria em Oviedo. Finalmente, uma nova vitória contra o fraco Chile em 24/06 – também em Oviedo. Em um jogo de compadres, Alemanha x Áustria proporcionaram um combinadíssimo 1×1 e ficaram tocando a bola para os lados e para a frente sem atacar um ao outro depois que o resultado já estava consumado.

Foi a maior vergonha da história das Copas. Pra mim, nem se compara ao roubo que a Alemanha sofreu na final da Copa de 1966 nem à quase certa compra de alguns jogadores peruanos por parte da ditadura argentina em 1978. Em função dessa tramóia, a Algéria só ficou de fora da segunda fase em função do saldo de gols.

O meia Rabah Madjer (que irá completar 50 anos no próximo dia 15/02) foi o grande ídolo nacional durante mais de uma década. Ele fez fama no querido FC do Porto (meu time em Portugal), ao marcar o gol do título mundial portista contra o CA Peñarol, em 1987, com uma bola laranja que mal ultrapassou a linha do gol em um gramado coberto de neve. O resultado? 2×1, só pra variar, como em quase todas as decisões importantes das quais Madjer foi o protagonista…

Antes, porém, marcou o gol do título da então Copa dos Campeões da UEFA (desde 1992, Liga dos Campeões ou UEFA Champions League) contra o meu time na Alemanha, o FC Bayern München, por 2×1.

Madjer disputou nada mais nada menos do que NOVE Copas Africanas de Nações, obtendo o título em casa, em Argel’90. Na ocasião, Madjer marcou dois gols na goleada de estréia por 5×1 contra a Nigéria. Ele assinalou os dois primeiros gols, aos 36′ e aos 58′. Na decisão, os dois primeiros do Grupo A encontraram-se novamente e, dessa vez, o título veio com um sofrido 1×0, na maior festa que o futebol argelino já viu:

Em entrevista ao canal FRANCE 24, o craque disse uma grande verdade, que é o principal motivo pelo qual escrevo tanto sobre o futebol africano aqui noblog: a CAN é o primeiro evento futebolístico em exposição midiática após a Copa do Mundo, a Euro e a UEFA Champions League. Atrai muito mais olheiros e cobertura da imprensa européia do que a Copa América, por exemplo.

Para vocês terem uma idéia, somente na English Premier League, foram mais de 40 desfalques em mais de 70% das equipes, sendo o Portsmouth o mais prejudicado, pois conta com muitos jogadores africanos em seu plantel (leia post anterior sobre o caso).

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