ANGOLA 4×4 MALI

Nasci no dia 23/05/1973. Minha primeira aparição no estádio foi em 1979. A primeira grande decisão da qual tenho alguma memória foi a decisão do Brasileirão de 1980, entre Flamengo x Atlético MG. O primeiro campeonato que acompanhei pra valer foi o Brasileirão de 1981, quando o Grêmio foi campeão.

Não lembro do lendário Gauchão de 1977, nem dos de 1979 e 1980, quando o Grêmio foi campeão. Tampouco lembro da Copa de 1978. Mesmo na derrota, creio que minha lembrança mais remota de decisão de Gauchão foi aquela do Geraldão (1982?)

Desde então, abertura e estréia de diversos tipos diferentes de campeonatos e torneios oficiais, já vi centenas. E, apesar de não ser infalível, minha memória é muito boa.

Nunca havia visto uma partida em que um clube ou seleção saísse com 4×0 e terminasse com um empate em 4×4. Já havia visto empates e viradas com diferenças de três gols e uma única ocasião na qual um 5×1 virara um 5×5. Mas buscar um 4×0 (ainda mais a partir dos 34′ do 2º tempo) definitivamente nunca.

O futebol africano costumava primar pela ofensividade e pelo vigor físico. A desobediência tática e a falta de traquejo na formação de goleiros, zagueiros, laterais, centromédios ainda prevalece no continente – inclusive em países adiantados que passam por um período de entressafra, tais como Camarões e Nigéria (posso morder a língua, mas é o que vejo nos campeonatos europeus).

O infelizmente paupérrimo Mali possui três valores de alto nível para qualquer clube do planeta: o centromédio barcelonista Seydou Keita (que veio do Sevilla e desbancou o marfinense Yaya Touré), seu companheiro de posição e rival clubístico Mahamadou Diarra (Real Madrid) e o multilaureado centroavante Frèdèric Kanouté (que ainda permanece no Sevilla). Outro bom jogador (porém sem nada de especial) bastante conhecido é o centromédio reserva Mohamed “Momo” Sissoko (ex-Liverpool, atualmente na Juventus).

Do meio para frente e sem desfalques, coloco o Mali entre as quatro seleções mais fortes do continente. Todavia, sua defesa apresenta uma estatura abaixo da média inclusive para os padrões extra-africanos (setor em que, logo abaixo dos países nórdicos, a África apresenta a segunda maior média de altura do planeta – muitas vezes maculada pela exceção de um dos laterais que, em geral, costuma ser bem baixinho).

Angola, por sua vez, possui apenas jogadores de boa qualidade, mas nenhum craque. Só para ficar com aqueles que realmente jogaram bem a estréia, cito o centroavante Flávio, o meia Gilberto e o lateral-esquerdo e capitão Kali. Enquanto os angolanos tiveram pernas e mantiveram-se mentalmente fortes em virtude de uma atuação primorosa em cerca de 70% da partida, os xarás mais velhos de dois dos meus sobrinhos simplesmente destruíram a defesa malinesa: Gilberto foi primoroso na armação pela meia-esquerda, assim como seus cruzamentos de bola parada a partir da intermediária foram muito eficientes. Flávio, por sua vez, é um competente homem-gol, embora seja baixo para um  centroavante. Porém, é bastante movediço e possui boa impulsão.

O que aconteceu? Mais do que o time ter cansado, cada gol sofrido mostrou que o lado emocional dos angolanos é muito fraco: a intensa tranquilidade e a possante autoconfiança foram caindo por terra, resultando em falhas de posicionamento e de marcação bisonhas a partir dos 34′ do 2º tempo. Ficou provado também que os atletas não observaram os toques de seu técnico português e que Angola não possui banco: o time ficou completamente órfão e desqualificado tanto na ofensividade quanto no primeiríssimo combate no campo de ataque.

O Mali, por sua vez, jogou excessivamente aberto, pois Diarra marcou menos e guardou pouco a sua posição, enquanto Keita só entou após o 30º minuto da primeira etapa. Ele estava longe de suas melhores condições físicas. Porém, o inteligentíssimo técnico NIGERIANO Stephen Keshi percebeu que a vaca poderia ir para o brejo cedo demais caso não o pusesse no sacrifício.

Keita também teve a mesma percepção de Diarra: jogou-se mais à frente porque sabe da qualidade de passe e da chegada junto à área adversária que tem, pecando por desguarnecer a sua defesa. O juventino Momo Sissoko, por sua vez, foi poupado. Devido ao susto da estréia e à clara percepção de que Keita é muito melhor do que os meias ofensivos titulares, creio que isso não mais ocorrerá contra Maláui e Argélia pela sequência malinesa de adversários por este Grupo A.

O meia-esquerda angolano Gilberto fez um gol e uma assistência. O centroavante angolano Flávio fez dois gols. O lateral-esquerdo angolano Kali fez toda a diferença junto a Gilberto durante a maior parte do jogo e também colaborou com uma assistência. Senti falta dos meias André Macanga e Zé Kalanga e do atacante Mantorras – todos de boa participação na Copa do Mundo de 2006. A aposta em Manucho (uma ex-promessa que não deu certo no Manchester United) e que não armou nem concluiu decentemente, foi equivocada: o jogador conseguiu apenas cavar o pênalti do 4º gol e, por isso, Gilberto foi benevolente e concedeu-lhe a honra de definir o tento.

Após a goleada de 3×0 do surpreendente Maláui sobre a Argélia, creio que o caldo engrossará demais para os angolanos neste grupo. E o Mali, que achava que não iria longe, poderá, sim, comer pelas beiradas.

Emoção é o que não irá faltar por este Grupo A, de excelente média de gols em sua rodada inicial.

[CAN 2010 A 1ª] PERFIL DE ANGOLA x MALI

A sede da terceira competição continental de seleções mais importante do mundo não poderia ser mais interessante: os anfitriões angolanos desejam mostrar ao mundo que seu país é muito mais do que petróleo, guerra e miséria. Com a economia crescente, construíram alguns belos estádios e estão na mídia mundial.

Apesar do abandono da seleção de Togo em função da triste emboscada sofrida na última sexta-feira e da infeliz manutenção da instável Cabinda como uma das sedes, a competição realizar-se-á de maneira tão normal quanto possível.

Voltando aos times: o futebol angolano só passou a ser respeitado a partir das eliminatórias para  a Copa de 2006, quando os Palancas Negras eliminaram as Super Águias (Nigéria – uma das grandes potências do continente). Na Copa, apesar de não terem se classificado para as oitavas-de-final, não fizeram feio: sua única derrota foi para a forte 4ª colocada, a seleção de Portugal de Felipão, Figo, Simão Sabrosa, Maniche e Cristiano Ronaldo por apenas 1×0. Depois, empatou com o México em 1×1 e com o Irã em 0×0. Aliás, o México quase passou para as quartas  - só foi parado pela Argentina na prorrogação, em um jogaço. Portanto, Angola não demonstrou medo nem um futebol fraco. Sua primeira participação em mundiais foi bastante honrosa, apesar de não ter tido o brilho de Camarões e Argélia em 1982 e do Senegal em 2002.

Dois dos melhores jogadores angolanos, infelizmente, tem lutado contra sérias lesões nos últimos anosȘ Mantorras, atacante do Benfica, e Flávio, centroavante do Al Shabab da Arábia Saudita, estão na CAN. Porém, longe de suas melhores condições físicas. No mais, o lateral Kali (que foi bem na Copa da Alemanha, mas joga apenas no pequeno Arles-Avignon da França); o volante Stélvio (que não esteve na Copa e tem-se destacado no União Leiria em Portugal) e o bom meia Zé Kalanga (Dínamo București) são valores de um plantel parelho, porém sem brilho.

Apesar de não ir à Copa 2010, Angola joga com um país inteiro a motivar o seleccionado nacional. Em que pese a experiência de um Mundial de boa parte do plantel (que, felizmente, não possui uma idade avançada) e a reconhecida competência defensiva, agora parece que Angola possui um treinador ainda mais capacitado, que é o português Manuel José, multicampeão egípcio e africano pelo Al Ahly – onde atuam o meia Gilberto e também já jogou o citado Flávio – esperança de gols do time.

Porém, o Mali possui uma seleção forte. Apesar de nunca ter-se classificado para uma Copa do Mundo e de nunca ter vencido uma CAN, trata-se de uma seleção muito experiente, com alguns destaques que – em alguns casos – são tecnicamente superiores a todos os angolanos. Há pelo menos três destaques importantes: o goleador Kanouté do Sevilla e a dupla de volantes Mahamadou Diarra (Real Madrid) e Seydou Keita (Barcelona, ex-Sevilla). Outros jogadores de valor são o meia Momo Sissoko (Juventus; ex-Liverpool); o meia Abdou Traoré, bem na Champions e líder da Ligue 1 pelo Bordeaux; e os atacantes Diallo (Le Havre) e Bagayoko (Nice).

Enquanto muitos angolanos ainda atuam por clubes locais, apenas um goleiro e um zagueiro malineses ainda atuam no país de origem. Enquanto os três maiores destaques estão na Espanha, mais de 50% dos convocados atuam na França – e quase todos na Ligue 1. Outro detalhe do qual gosto muito na seleção de Mali é que o técnico é africano: o experiente Stephen Keshi, que levou a Nigéria à sua última participação em Copas e obteve belos resultados nas categorias de base do seu país.

INCIDENTE COM TOGO PRÓXIMO A CABINDA

Além das imagens repetitivas de medo e insegurança acima, procurei uma série de matérias em várias fontes diferentes da África e da Europa (Sapo, de Moçambique; EuroSport; AllAfrica e GloboEsporte.com) – muito mais fontes do que aquelas que aqui cito. Como o tempo é curto, vou resumir o conjunto de fatos coincidentes que formou a minha opinião, pois considero as eventuais e pequenas divergências como detalhes verdadeiramente irrelevantes:

– O território cabindense não é contíguo a nenhuma das demais 17 províncias angolanas, pois há uma faixa litorânea pertencente à República Democrática do Congo que as intercala. Trata-se de um status de soberania semelhante aos do Alasca e do Havaí em relação aos EUA;

– Cabinda é uma região riquíssima em petróleo (70% do petróleo que enriquece o país inteiro vem dessa região), que é responsável por grande parte do crescimento econômico verificado no pós-guerra – especialmente nesta década;

– Desde a guerra civil que culminou na independência tardia do país em relação a Portugal no ainda relativamente próximo ano de 1975, as Forças de Libertação do Estado de Cabinda/Posição Militar (FLEC/PM) realizam n ações terroristas com o objetivo de tornar a província independente de Angola. Portanto, AS FRONTEIRAS entre Cabinda e República Democrática do Congo (sul e leste) e Congo (norte) sempre foram alvo de milícias;

– No momento em que o técnico de Burkina Fasso já instalado em Cabinda afirma que o governo angolano recomendou o transporte aéreo Qualquer Lugar – Luanda – Cabinda, pressupõe-se que os responsáveis pela logística da seleção de Togo cometeram um erro imperdoável por terem crido que a belicosidade do contexto miliciano fronteiriço da província não lhes afetaria. No caso, foi a típica economia burra.

A PERGUNTA QUE NÃO QUER CALAR: se o próprio presidente da Federação Togolesa de Futebol afirmou à AP que a delegação deveria ter viajado de avião, quem deu a ordem para a viagem de ônibus? Qual o tom de sua declaração: de arrependimento, de indignação ou de lamento? O grande problema do futebol africano não está dentro de campo mas, sim, no absurdo amadorismo da sua cartolagem.

– A organização e o clima geral para a competição estavam excelentes segundo o padrão angolano. As notícias que vinham até o incidente de ontem eram todas positivas. O país está engajado, as pessoas pretendem ser grandes anfitriãs e tanto o Governo quanto o COCAN (comitê de organização da CAN) trabalham duro para que assim o seja: percebam como são bonitos e modernos o estádio, o aeroporto e a ponte sobre o Rio Zaire, além de políticas econômicas voltadas à pesca e também à instalação de uma universidade em Cabinda.

Em princípio, creio que a intenção do Governo Federal de Angola não parece demagógica. Apesar de ser uma matéria meramente frívola sem a profundidade dos programas que estamos acostumados a assistir na série Nova África (by Maria Frô, Luiz Azenha e Baboon Filmes), parece que a importância sociocultural de Cabinda está sendo lembrada. Acompanhem:

Por outro lado, não podemos esquecer de que há uma fortíssima oposição à integração da pequena porém riquíssima Cabinda com o restante do vasto território angolano. O vídeo abaixo nos dá uma breve noção acerca desse impasse. Cabe descobrirmos se essa realidade ainda se verifica no presente com tamanha intensidade:

– O site oficial do COCAN peca por ser única e exclusivamente institucional. Na minha opinião, jornalismo misturado à publicidade e às relações públicas não é jornalismo, pois omite fatos negativos e não realiza investigações e apurações. Assessoria de imprensa é apenas uma forma de fazer com que um representante institucional diga aquilo que os outros querem ouvir de forma que a sua imagem seja o menos maculada possível por eventuais deslizes. Logo, não há nenhuma informação a respeito do incidente com os togoleses.

Diante do ocorrido (três mortos na comissão técnica e dois jogadores feridos), Togo definitivamente não possui estrutura emocional para seguir na competição e desistiu oficialmente da sua participação. Como poucos de seus atletas são valiosos e como não há nenhum prejuízo nem em relação ao ranking da FIFA e tampouco em relação à sobrevivência dos atletas, é mais do que aceitável – sob todos os ângulos – que a seleção desista de competir.

Por outro lado, apesar do Manchester City ter no seu plantel o único jogador togolês de ponta, o centroavante Emmanuel Adebayor (ouça o depoimento dessa ilustre vítima), mesmo com a volta deste à Inglaterra, não há razão para nenhum clube inglês exigir a volta de todos os seus jogadores.

Já vi jornalistas indignados afirmando que o país não possui condições de sediar o evento, que o incidente mancha até mesmo a reputação da África do Sul em relação à Copa do Mundo em junho próximo e assim por diante.

Pois eu discordo. E digo que o único senão é que Togo deveria ser substituído pela seleção de Marrocos, que foi a menos pior quarta colocada entre os quatro grupos das eliminatórias, alterando-se as datas dos jogos do Grupo B que envolveriam Togo (e, a meu ver, Marrocos) em um ou dois dias a mais em cada rodada do grupo, a fim de dar tempo para que cheguem e possam atuar.

O que traria um desequilíbrio técnico à competição seria Togo sair e seus jogos serem considerados como W.O. a favor de Gana, Burkina Fasso e Costa do Marfim. Dessa forma, todos disputariam uma partida a menos, correndo menos riscos de lesões e suspensões, possibilitando aos classificados chegarem às quartas-de-final mais descansados do que qualquer outro adversário.