POR QUE A ARENA NÃO PODE ELITIZAR O GRÊMIO II

O post anterior tratou de um panorama realista com base em informações que o FAQ e as exposições sobre a Arena não são capazes de proporcionar ao associado do Grêmio. Sempre saliento que os ilustres gremistas que representam o clube na Grêmio Empreendimentos são muito competentes e honestos. Todavia, é fundamental que haja um contraponto à visão de que tudo será perfeito para todos. Afinal de contas, é necessário que se faça ajustes contratuais de maneira que as obrigações impostas ao Grêmio pela OAS sejam menos sacrificantes.

O novo livro do conselheiro Cacaio Azambuja é uma forma de apoiar o clube e de não suscitar nenhuma suspeita sobre ninguém enquanto trata, paralelamente, de oferecer alternativas que podem vir a diminuir o peso do fardo que o Grêmio terá que carregar. Em função de algumas trocas de e-mails, de alguns encontros presenciais com este brilhante advogado com mais de 34 anos de serviços prestados ao clube e deste artigo publicado pelo autor no Espaço Vital, teci várias considerações bastante preocupantes. Contudo, a informação mais grave refere-se talvez à uma nada improvável impossibilidade de os gremistas patrimoniais poderem usufruir da Arena nos moldes que hoje regem os direitos e deveres do usufruto que ora gozam no Estádio Olímpico Monumental.

Por fim, a última leitura longa porém essencial sobre a mudança vertiginosa do público do futebol inglês foi o que me motivou a insistir sobre esta delicadíssima questão: peço por favor para que leiam com muito carinho e atenção ao artigo O ESPORTE QUE VENDEU A SUA ALMA. Por um lado, os fatores socioeconômicos da Inglaterra ainda permitem que exista um público com poder aquisitivo para adquirir carnês antecipados de ingressos por temporada ou por certame.

Todavia, aqui no Brasil, duvido que, por volta de 20/01/2013 (provavelmente a primeira rodada do Gauchão, competição de estreia da Arena do Grêmio) seja possível aos locatários dos camarotes e cadeiras VIP poder financiar preços semelhantes aos atuais para quase 80% dos lugares do estádio.

Se a gente discute aqui e no Grêmio que a OAS não irá rasgar dinheiro; que o Grêmio precisa ter o dobro de sócios em relação à capacidade do estádio para poder viver sem sufoco financeiro, segundo o Irany; se a cultura porto-alegense, gaúcha, brasileira e latino-americana (todas com pontos em comum, porém distintas entre si) não considera o futebol como um espetáculo de teatro nem o seu público com um comportamento parecido com o do tênis, logo, não será possível podermos lotar o estádio e nem tampouco garantirmos 80% da sua lotação nos jogos mais decisivos.

O investimento público viário; o custo do conforto das instalações do estádio e o da qualificação dos serviços tende a não ser lucrativo, pois dificilmente haverá público em quantidade e assiduidade.

Após conversar com o presidente Gabriel Fadel do MGAT, concluí que, em princípio, o cálculo do conselheiro Cacaio Azambuja do repasse de 6 milhões e tanto/ano necessário para bancar 3500 associados é bastante diferente daquele que o Preis demonstrou sobre 7 milhões/19000 torcedores por jogo.

Independentemente de qual equação esteja mais próxima da realidade que se avizinha, a questão nem é mais essa e tampouco sobre se a Arena irá sair ou não ou se será boa ou não: pessoalmente, considero totalmente equivocada a possibilidade de multiplicação do fator de majoração dos ingressos conforme o esperado (seja pela OAS, seja pelo Grêmio) caso pense-se não apenas nos padrões europeus mas, sim, em tentar elitizar para mudar o público do futebol.

Conforme o levantamento do economista Mauro Salvo do Banco Central ao qual tive acesso aqui, apenas 4650 famílias em toda a grande Porto Alegre (universo de 3,4 milhões de habitantes) podem ser consideradas de classe A.

Dessas, digamos que quase metade seja de colorados. Digamos, ainda, que pouco mais da metade dos filhos goste de ir a futebol (bastante plausível se levarmos em consideração o amplo leque de opções de lazer disponíveis exclusivamente para esse seleto público). E digamos que não mais do que 15% das mães goste de ir ao estádio.

Além disso, o problema da violência nos estádios e arredores que têm o futebol como pretexto e/ou desculpa é dezenas de vezes menos significativo em Porto Alegre do que na Inglaterra. Aqui, o futebol como atividade popular é um fator de sociabilidade e de integração entre classes e estamentos bastante significativo. Portanto, a elitização, além de não contar com um público compatível com a necessidade de manutenção das instalações e de previsão de lucratividade de seus investidores, não pode ser aplicada aqui, de maneira alguma, como forma de solução das mazelas urbanas.

Muitos afirmam que o uso das ciências humanas como forma de pesquisar e entender a cultura de um determinado ambiente seria contra o progresso ou que não levaria em consideração a produção de bens e a circulação de dinheiro. No entanto, a realidade mostra que, caso só se pense em receita, despesa, retorno sobre o investimento, markup, impostos, lucro líquido, custos, fixos, custos variáveis, depreciação e valorização, jamais será possível às ciências exatas dar conta da dinâmica das práticas culturais que definem como cada indivíduo e como cada um dos infinitos nichos culturais aos quais pertencem podem influenciar o seu envolvimento com o futebol de alto nível.

Contudo, quem compra, quem vende, quem produz e quem usufrui possui motivos subjetivos para escolher se realiza ou não esses movimentos econômicos. O mercado é definido pelo interesse do consumidor e não pela vontade do produtor. Há ferramentas e técnicas da Publicidade, do Marketing e de Finanças para procurar puxar a sardinha para o assado de quem investe em produtos e serviços. Mas, apesar delas, não há paixão suficientemente forte para fazer com que alguém se obrigue a ter o que não pode comprar.

POR QUE A ARENA NÃO PODE ELITIZAR O GRÊMIO I

O dia 23/05/2010 marca (ou marcou, dependendo de quando este texto for ou tiver sido lido) o meu 37º aniversário. Frequento o Olímpico desde 1979, aos seis. Posso dizer que, pelo menos desde os oito (isto é, a partir de 1981, ano do nosso primeiro título brasileiro), tenho podido manter uma frequência média de pelo menos 85% dos jogos disputados em casa desde então. Isso significa que, muito provavelmente, de cerca de 1050 a 1080 jogos em casa nesse período de mais de três décadas (chutando baixo, pois 36 jogos em casa/ano é certo), eu tenha vivenciado mais de 910. E, mais do que as conquistas (estive presente em todos os títulos conquistados em casa desde 1979), particularmente me orgulho de ter estado ao lado do Grêmio quando ele mais precisou, isto é, tive 100% de assiduidade em ambas as campanhas na Série B, tanto em 1992 como em 2005. Portanto, alguma experiência pra avaliar certas práticas eu acredito que deva ter.

Mais do que torcer, o Grêmio me traz muita satisfação. Porém, como tudo na vida possui dois lados, minha paixão e meu maior lazer trazem consigo uma grande preocupação acerca do seu futuro. Quando o estádio não lota, a imortalidade pode sofrer algum revés. E eu gostaria muito de tentar compreender por que os gremistas nem sempre precisam enfrentar filas para entrar no estádio ou procurar um lugar para se posicionar nas arquibancadas e nas cadeiras. Se isso ocorre no Olímpico, o que dirá na futura Arena, caso não se procure entender os motivos socioeconômicos e culturais responsáveis pelo tamanho do público em cada partida.

Quando o time vai muito mal dentro de campo ou quando é fim de mês, a ociosidade maior é triste, porém compreensível: pois nenhum torcedor consegue se divertir quando não se sente otimista e esperançoso. E nenhum torcedor pode deixar de pagar aluguel, escola, plano de saúde, prestação do veículo ou deixar faltar comida em casa só por causa do futebol. Afinal de contas, para poder torcer adequadamente, é preciso saber subsistir com dignidade.

Partindo dessa percepção, observei que o jogo contra o Fluminense pela Copa do Brasil signficava, técnica, financeira e emocionalmente, muito mais do que o Grenal – muito embora o título gaúcho conquistado três dias antes tenha funcionado como uma injeção de autoestima tão necessária quanto bem-vinda. No entanto, entendo que a função mais adequada para um título gaúcho é a de tão-somente nos direcionar rumo a voos maiores. Pois mesmo sendo início de mês e sucedendo uma conquista de título, fiquei decepcionado com o público. Pensei: por que apenas 25000 e não a repetição dos 44000 do domingo anterior?

O acirramento da disputa doméstica aliado à – talvez – única chance de muitos verem o Grêmio erguer uma taça ao vivo durante o ano inteiro podem explicar essa preferência por um jogo que vale muito menos.

Dentre tantos fatores, credito a culpa ao horário de “boite” em função da subserviência do clube ao contrato leonino da TV com o C13 (mais sobre isso aqui, aqui e aqui). Para muitos, isso não faz diferença mas, para a esmagadora maioria dos sócios-torcedores que depende muito mais do que os autônomos da máxima “tempo é dinheiro”, falta ônibus tanto na ida como na volta para a Zona Norte.

Eu, por exemplo, vou e volto quase sempre de T2. Não por acaso, desde que Fogaça assumiu, aboliu-se a designação de ônibus extras para o estádio, nessa política burra de cortar “gastos” para aumentar o desconforto do eleitor-pagador de impostos. Além disso, os veículos das duas últimas novas frotas são de acabamento e material inferior aos antigos por serem mais baratos. Logo, para torcer, muitos precisam sofrer desnecessariamente.

A tentativa de compensar esse desconforto é enganosa, pois desvia o desconforto para um outro n’No Brasil atual, não está mais barato comprar um carro e, sim, financiar um carro. O trânsito está pior e muitos não percebem que um carro de 20 mil em 60x custa quase dois carros. Sem contar que é quase impossível ficar sem seguro. O do meu Celta 2004 sai 1000 e poucos reais em 4x. Embora seja um carrinho que quase não incomode (baixo custo de manutenção), para uso urbano básico, precisa de 400 reais de combustível/mês. Pois justamente a parcela do público responsável por tornar o Olímpico Monumental como um palco temido pelos adversários e que faz com que o Grêmio verdadeiramente mande na sua casa não pode sustentar esse verdadeiro casulo motorizado.

Pra quem vai de carro, o posto ex-Touring da Carlos Barbosa cobra 10 a 20 pilas de estacionamento e o posto arrendado que pertence ao Grêmio na Cascatinha com José de Alencar custa de 20 a 30.

Logo, a esmagadora maioria dos frequentadores assíduos precisa de conforto e maior frequência e não de mais estacionamento para ir ao estádio.

Bem ou mal, eu sou um privilegiado e sou sócio proprietário. Mas esse é um custo monstruoso para o perfil predominante entre o sócio-torcedor, como descreverei abaixo.

Por mais que muitos digam que não ou esperneiem, o Sócio Torcedor (cujo investimento atualmente é de 50% da mensalidade do sócio proprietário + 50% do valor do ingresso de cada jogo), é a categoria composta pela esmagadora maioria dos jovens frequentadores da Geral, quase todos vivendo de mesada ou de salário mínimo do primeiro ou segundo emprego). Para eles, mesmo essa conta sai cara, pois não há poder aquisitivo suficiente para que cada um banque a sua frequência no Grêmio como gostaria. No frigir dos ovos, “barbados” de nível superior como os amigos do Movimento Grêmio do Prata são uma raridade na Geral.

Em função disso, a pesquisa que o Minwer ofereceu ao Quadro Social merecidamente reconhecida pela Comissão do Planejamento Estratégico deveria ser aplicada aos 160 mil cadastrados no Exército Gremista para termos uma amostragem bem maior do que a dos 700 e poucos entrevistados que ele conseguiu no Blog do Torcedor. Eu diria que a questão demográfica, de faixa etária e de baixo salário seria predominante se houvesse um leque maior de questões subordinadas às que o Minwer realizou.

Nesse aspecto, caso eu fosse dirigente, pensaria no seguinte quadro:

– Jamais aumentar os ingressos dos mata-mata de Libertadores e Copa do Brasil mantendo-os nos mesmos valores do Brasileirão (que não podem ser diminuídos em função do preço mínimo da CBF).

Por que? Porque a Teoria da Cauda Longa (v. Lei de Zipf na Wikipédia) aponta que, em qualquer situação, existe um padrão matemático que aponta que a quantidade de participantes que consomem ou que investem dezenas ou centenas de vezes mais do que a média são muito poucos, mas que, ao mesmo tempo, mesmo aqueles que consomem pouco, consomem alguma coisa. Sob essa perspectiva, nunca existe o zero e a soma de todos os pequenos é sempre maior do que a soma dos grandes.

O que quero dizer com isso? Que se ganha muito mais dinheiro e se mantém o estádio muito mais cheio cobrando sempre 30 pilas pela Geral do que eventualmente majorando o setor para 40, 50 ou 60. Haverá dezenas de vezes mais gente pagando 30 pilas do que dispostas a pagar 40, 50, ou 60.

Muitos já disseram isso, mas é óbvio que a diferença de 30 pra 40 significa não comer um cachorro-quente e não beber um refri. Independentemente do fato de alguns considerarem essa combinação como um alimento saudável ou não, ela é – na maioria das vezes – a refeição mais rápida e acessível para quem sai do trabalho ou da aula e perde tempo nos engarrafamentos. Também significa um outro fator de sociabilidade, à medida que reune amigos e até mesmo pais e filhos cujos horários de permanência em casa dificilmente coincidem. Já o salto de 30 para 50 reais pode significar a diferença entre poder estacionar o carro no posto ou, então, deixá-lo a pelo menos sete quadras do estádio em uma rua escura à mercê da extorsão dos flanelinhas ou de um risco mais sério na hora da saída. E, finalmente, a diferença de 30 para 60 representa, para dois grandes amigos, um casal de namorados ou um pai e um filho, uma dura opção: “ou eu, ou tu, ou nenhum dos dois vai”.

Nessa conta, por três pilas de entrada sem consumação (podendo gastar apenas dois refris e uma porção de fritas), vale mais a pena assistir no Museu do Esporte, ou até mais barato em um “cheese” ou num boteco em Pay-Per-View.

Hoje, moro a 4 Km do Olímpico e uma linha de ônibus da Carris (mais limpos, motoristas e cobradores melhor treinados, menos solavancos) que me deixa lá em 25 min. A Arena ficará a 10 Km de casa e, atualmente, aquela zona do Humaitá é atendida por ônibus bem vagabundos da Conorte. Imaginem pra quem mora na Zona Sul ou no extremo norte pra ir ao Olímpico em dois ônibus ruins e pelo menos 50 min. de traslado…

Não é nem uma questão de querer ou de poder ter um carro mas, sim, do custo e do transtorno de chegar e de ter que se incomodar com estacionamento, troco, etc. Esse é um outro custo agregado ao futebol. Essa busca e o tempo perdido para quem não pode ter um box no Olímpico (ou, futuramente, na Arena e no shopping anexo) muitas vezes significam pagar para não se incomodar já se incomodando.

Enfim… Hoje, no Olímpico, a equação não facilita mais a lotação do estádio. A questão é de preço x horário, pois os resultados estão melhorando e a Geral e a Tradição fizeram as pazes.

Apesar do grande aumento dos empregos com carteira assinada para a gurizada e da grande proporção de mulheres sobre o público total no Olímpico, quase tudo encareceu muito de 15 anos atrás. Além disso, muito mais adolescentes trabalham hoje do que antigamente – e o tempo de eles se deslocarem da aula para o trabalho e para o estádio diminuiu MUITO.

A esmagadora maioria da gurizada que frequenta colégios particulares ganha mesadas maiores do que os salários do público médio da Geral. Esse nicho privilegiado não é sócio do Grêmio. Eles êm carro e adoram futebol, mas preferem gastar o seu dinheiro para “azarar as gatas na noite” ou para ir à praia, passar o fim de semana no sítio em churrascadas, no consumo de equipamento de surf e de skate, e em frequentar o cinema semanalmente. Futebol, para eles, é mais interessante comentar e jogar a partir do aluguel de quadras do que propriamente ir ao estádio. Esses só vão em clássicos e decisões, pagam ingresso full e acham caro se associar porque vão a, se muito, um jogo por mês. Eles não pagariam mais só porque haveria maior conforto.

Para que essa juventude se associe (ou para que ela passe a encarar o Grêmio como um programaço), o marketing precisa trabalhar a beleza da gremista e a “azaração” a partir de parcerias com casas noturnas. Pra quem tem namorada(o) e gosta de “fazer um H”, deve-se oferecer isso e mais algumas barbadas em restaurantes da moda. Há muitos points na Calçada da Fama e na Cidade Baixa pra isso. Descontos em quadras esportivas, teatro e shows também seriam muito bem-vindos.

A outra providência que eu tomaria:

– Aumentar a mensalidade do Sócio-Torcedor de 50% do equivalente à mensalidade do Sócio Proprietário para 60% e aumentar o seu desconto no valor do ingresso cheio de 50% para 60% do valor cheio: no final das contas, como os valores da mensalidade e do atual desconto nos ingressos não são iguais, a diferença entre esse pequeno percentual a mais na mensalidade aumenta significativamente o faturamento mensal do clube e minimiza o efeito da maratona de jogos que ocorre de julho até o final de setembro, onde quase todas as quartas e domingos são ocupados (o que dobra o número de jogos no Olímpico nesse período muitas vezes decisivo para o restante do Brasileirão).

Esse é um recado também para a Grêmio Empreendimentos e para a OAS:

- O PODER AQUISITIVO ATÉ DEZ/2012 NÃO IRÁ AUMENTAR GRANDE COISA;

- SE QUISEREM QUE A ARENA LOTE COM FREQUÊNCIA, ALÉM DOS RESULTADOS DE CAMPO, NÃO IRÁ ADIANTAR NADA MAJORAR O VALOR DO INGRESSO E DAS MENSALIDADES PARA TENTAR ELITIZAR AS ACOMODAÇÕES BÁSICAS EM FUNÇÃO DO MAIOR CONFORTO DOS ASSENTOS. Dado o panorama acima exposto, o grande público precisa ter um incentivo que faça com que ele vá a todos os jogos ao invés de ser forçado a escolher em quais jogos “valeria mais a pena” se fazer presente.

Agora, um recado para o Grêmio atual, do Olímpico:

- EXIJAM DA PREFEITURA MAIS ÔNIBUS: novas linhas e mais carros para a mesma linha em horários alternativos são mais do que necessários. Seja quando os jogos iniciam cedo demais (19:30h) seja quando terminam tarde demais (23:55h ou até mesmo por volta das 00:45h se houver prorrogação e decisão por pênaltis);

- APRENDAM A NEGOCIAR COM A TV (a economia política da TV no futebol brasileiro 1, 2, e 3): muito em breve, a internet em banda larga tornar-se-á acessível até a última milha, isto é, será um serviço essencial como o são a coleta de lixo, o abastecimento de água potável, o saneamento básico e a energia elétrica. Caso os clubes consigam desatrelar pelo menos a exclusividade da transmissão de seus jogos do portal de notícias do mesmo grupo midiático detentor dos direitos de televisão, cada clube poderá gerar muito mais empregos na área de Comunicação a partir de uma assinatura muito barata, suprindo a necessidade do torcedor de conhecer a história, os ídolos e o futuro (isto é, os novos valores das categorias de base) a partir da produção de conteúdo próprio.

PODEM CONFIAR: A ARENA É UMA BOA PARA O GRÊMIO

Sou um cara muito difícil de ser convencido. Embora não tenha deixado meus valores, minhas crenças, meus princípios e a minha ideologia de lado e seja pouco flexível em relação a isso, estou sempre aberto ao diálogo. Independentemente do ambiente e das pessoas, o grande aprendizado que eu tive no mestrado foi exatamente o de aprender a argumentar e ouvir o argumento do outro. Para criticar, é necessário ter conhecimento de causa. E, para elogiar, é preciso reconhecer o mérito – falar bem só porque se acredita em algo ou em alguém ou por mera simpatia não contribui em nada para a sociedade.

Apesar de não poder revelar uma série de informações que poderiam ser utilizadas de uma forma nada favorável (e, aí sim, comprometedora não apenas para os interesses da torcida do Grêmio mas para aspectos verdadeiramente positivos para a nossa cidade), hoje, depois de quase três anos e meio de ceticismo, desconfiança e extrema preocupação, pude finalmente compreender a complexidade que é encontrar uma forma que não prejudique a cidade e tampouco a existência do Grêmio como clube.

Quem fique bem claro: assim como não ganhava e não perdia nada enquanto mantive a minha posição contrária à Arena do Grêmio, da mesma forma, não irei ganhar nem perder nada apoiando a sua realização (que está mais próxima do que se possa imaginar, além de não ser mais uma mera animação de computador).

Em princípio, eu não cria na gestão técnica, estratégica, administrativa e financeira da Arena do Grêmio tocada por Paulo Odone e Eduardo Antonini (assim como também não creio na sua forma de fazer política na Secretaria Municipal da Copa 2014, mesmo com interesses diferentes dos da relação da dupla com o Grêmio). Felizmente – a meu juízo e para meu gosto – a condução do projeto ficou a cargo de Adalberto Preis.

Aliás, preciso falar sobre o Preis não como conselheiro nem como presidente da Grêmio Empreendimentos Ltda.: me arrependo de ter apoiado Odone na eleição presidencial de 2004, pois o clube poderia estar em um outro patamar de confiabilidade e de respeitabilidade.

Com isso, não quero dizer que – para o Grêmio e exclusivamente dentro do Grêmio – Odone não tenha sido importante. E, inegavelmente, ele foi um dirigente vitorioso e capaz, sim. Contudo, sua personalidade e a sua atitude não dão indícios públicos de que ele seja suficientemente democrático, nem tampouco que ele permita uma ação transparente e independente de quem estiver subordinado a ele.

O fato de ele ter ameaçado largar a presidência do clube caso ele não viesse a ser o presidente da Grêmio Empreendimentos Ltda. e de ter tentado impor o nome do conselheiro omisso e segundo pior gestor público da história do Rio Grande do Sul Antônio Britto mostra que esgotou-se a sua contribuição direta nos altos escalões do clube. Então, mesmo que sempre mereça respeito como cidadão e como gremista, mesmo que haja algumas dezenas de conselheiros antigos que pensam e agem sob essa mesma dinâmica, esse é um tipo de caciquismo que não poderia mais ter espaço dentro do clube.

O conselheiro Carlos Josias (uma pessoa que conheço há pouco tempo, por quem nutro um grande apreço) descreveu muito bem as relações entre os próceres, caciques ou cardeais e alguns dos seus escudeiros mais próximos nos últimos 25 anos no blog Grêmio Sempre Imortal. Assim como em Brasília, que meu pai descreveu como uma grande confraria na qual o pau só canta na hora de propor e de votar alguma lei, no Grêmio também há relações que se estremecem mas que retornam a um bom termo e vice-versa a um ritmo espantoso.

Em relação à OAS, obviamente, jamais me esquecerei das informações que li na revista Caros Amigos. Também não deixo de me preocupar com as questões ambientais e urbanas de Porto Alegre. Todavia, um processo é um processo e um contexto é um contexto: enquanto não ocorrer nada comprovadamente favorável ou desfavorável no empreendimento em relação a Porto Alegre, ao Rio Grande do Sul, ao erário ou ao Grêmio, apesar de haver algumas considerações bastante graves no que tange à especulação imobiliária, à leniência e à ignorância dos vereadores e à omissão da sociedade, também é preciso admitir que o movimento feito por pessoas e entidades que resistem à esse tipo de pressão talvez associem elementos dissociados ou dissocie elementos que poderiam ser encaixados tanto para a compreensão desses fenômenos quanto para a articulação institucional e legal necessária a fim de evitar equívocos que perdurarão por muitas décadas prejudicando a nossa salubridade.

Há muito o que dizer. Porém, infelizmente, não tenho autorização para fornecer maiores detalhes. Na hora certa, vocês estarão a par de uma série de acontecimentos. O máximo que posso adiantar é o seguinte:

1) O Grêmio não vai acabar e tampouco se apequenar;

2) Muitos técnicos já fizeram a OAS reformular as suas pretensões leoninas: as receitas do Grêmio não serão canibalizadas enquanto o estádio pertencer à OAS, o número de vagas no estacionamento será parelho com o que hoje existe no Olímpico e o Grêmio terá mais votos com poder de veto nas reuniões de trabalho do que o que fora previamente anunciado;

3) A Arena terá alto padrão de qualidade e de materiais garantida. E, mesmo precisando seguir as normas técnicas da FIFA em termos de acomodações, estrutura de alimentação, vias de acesso, iluminação, limpeza, visibilidade, comodidade e segurança, não haverá luxo;

4) Embora a questão do associado ainda deva ser discutida somente mais adiante, a tendência é a de que a mesma hierarquização de direitos e deveres relacionados às modalidades hoje existentes e às mais antigas acabe sendo obedecida. Talvez essa seja o quesito que deva ser mais fiscalizado por todos os gremistas;

5) A imprensa mente, distorce, omite, ignora, informa mal e não possui interesse nem capacidade de traduzir a informação técnica necessária à compreensão do torcedor. Assim como nas questões política e econômica é mais do que certo de que o pior jornalismo do país é o gaúcho, o mesmo se reflete no esporte;

6) O projeto existe. O terreno está tapumizado. A posse está tomada. Os acordos de transferência das instituições com imóveis e atuação social no Humaitá já estão definidos;

7) A quantidade e a altura dos prédios do entorno da Arena terão altura menor do que a esperada. Isso não tem nada a ver com a Arena ou com o Grêmio, pois são projetos da OAS com escritórios de arquitetura e com empresários locais. Da mesma forma, o que será construído na Azenha assim que a Arena estiver pronta e a OAS tomar posse da área do glorioso Estádio Olímpico Monumental refere-se tão-somente à OAS e aos seus parceiros. Portanto, em termos de PDDUA, EIA-RIMA, cone de aproximação aérea, etc., qualquer desobediência – ou tentativa de – não terá relação alguma com o Grêmio Football Portoalegrense nem com a Grêmio Empreendimentos Ltda. (não, não será uma S.A.);

8) A Arena do Grêmio será meno sustentável do que se gostaria, porém muito mais sustentável do que se espera. Uma das empresas que foi contratada pelo Grêmio para fiscalizar o andamento do projeto e para fiscalizar também as ações tanto das empresas envolvidas como do poder público caracteriza-se pela enorme preocupação com o meio ambiente. Um dos diretores responsáveis conhece estádios sustentáveis ao redor do mundo e pretende interferir no projeto a fim de tornar realidade algumas possibilidades que já estão sendo desenhadas como, por exemplo:

a) Cisternas para aproveitamento da água das chuvas;

b) Uma empresa alemã especializada em placas fotovoltaicas já entrou em contato para implantar o seu trabalho na cobertura da Arena do Grêmio.

Diante de todas essas informações, mesmo sem partilhar daquela paixão e daquela torcida pela Arena sobre a Arena em si e sem JAMAIS desvalorizar ou desdenhar do pensamento do querido dr. Hélio Dourado a favor de uma reforma do Olímpico técnica e financeira inviável, considero necessária a atenção, a fiscalização e, acima de tudo, a necessidade de todos os gremistas procurarem fazer com que tudo corra melhor do que a encomenda.

Uma última atualização: embora seja comentador assíduo no blog Sempre Imortal e tenha participado de vários encontros presenciais junto a diversos grupos de conselheiros que compõem hoje o G6 (base de sustentação do presidente Duda Kroeff), infelizmente não soube de um encontro realizado em maio com o presidente da futura Grêmio Empreendimentos Ltda. Adalberto Preis. Marcos Almeida, Raul Iserhard e Eduardo Bernardon são três gremistas que conhecem várias nuances internas ao Grêmio e também possuem conhecimento técnico em áreas importantes que são cruciais para a confiabilidade no Projeto Arena.

Na seguinte entrevista, eles trazem informações mais antigas, de maio, sendo que algumas delas já evoluíram em uma direção ainda mais favorável ao Grêmio.

Se a questão do associado não for resolvida de maneira satisfatória, a culpa será única e exclusiva do conselho deliberativo do Grêmio Football Portoalegrense e não da OAS ou da Grêmio Empreendimentos Ltda.

Posso estar sendo otimista, mas, sinceramente, hoje duvido que o clube rasgue dinheiro, reputação e confiabilidade.

Portanto, leiam: parte 1, parte 2 e parte 3.

Finalmente, não considero que tenha desistido da luta. O que mudou foi o meu estado de espírito, pois creio que não se pode ser pessimista e desconfiado contra tudo e contra todos. O papel de informação e de fiscalização não pode ser realizado sem o reconhecimento de que o Grêmio não está pedindo penico. O Grêmio não é e nunca foi um coitado nessa questão.

A ECONOMIA POLÍTICA DO FUTEBOL BRASILEIRO III

Nos dois últimos posts, tratei: a) do contexto político, esportivo e econômico que atrai os organismos internacionais para o Brasil, bem como do esperado novo papel internacional do nosso país – ainda sem entrar em questões sociais e midiáticas; b) das iniciativas de expansão da rede social dos clubes de futebol com objetivos comerciais mais vultosos e menos dependentes do oligopólio da mídia corporativa nacional – sobretudo em relação aos direitos de televisionamento; e c) dos principais patrocinadores das principais entidades do futebol mundial e sobre a política de distribuição do faturamento por parte da CBF em relação às seleções e aos clubes.

Ressalto que toda a exposição de dados que constam nos dois posts anteriores carecem de uma análise mais intensa acerca das imbricações sociais e econômicas que perpassam a relação direta entre anunciante, mídia, clubes e federações. A expansão das redes e os acordos mais complexos envolvendo outros tipos de troca (até mesmo junto ao Poder Público e a outros grupos de interesse privado em negócios particulares dos executivos do futebol em diversos outros setores) merece uma análise muito mais complexa que demanda tempo. Mas isso será feito.

Em função de tudo o que já foi dito, a crescente credibilidade do Brasileirão resulta de um calendário claro e de uma fórmula de disputa simples, que facilita sobremaneira a sua comercialização. Na temporada de 2009, ocorreu um fator inverso de atração de patrocínio, público e de visibilidade do Brasileirão no exterior: ao invés do simples êxodo de nossos jogadores mais jovens para o exterior e do corriqueiro retorno de jogadores veteranos que pouco ou nunca tenham passado pela Seleção e de jogadores que haviam “desaparecido” em campeonatos obscuros dos pontos-de-vista técnico e midiático (muitos deles tendo passado por lesões graves e cirurgias delicadas em uma ou mais articulações), houve o caríssimo retorno de duas celebridades de indiscutível capacidade técnica, cujo carisma e reputação internacionais superam quaisquer fases de queda de rendimento: Adriano para o Flamengo e Ronaldo para o Corinthians. Não raro, os clubes das duas maiores torcidas do país, das duas maiores cidades brasileiras e ambos como os únicos clubes nacionais que possuem o mesmo fornecedor de material esportivo da Seleção Brasileira. Ronaldo foi peça-chave nos títulos Paulista e da Copa do Brasil (que rendeu ao Corinthians uma vaga à próxima edição da Copa Santander Libertadores em 2010, ano do centenário do clube) no primeiro semestre, assim como Adriano tem sido o principal goleador e o grande pivô da inesperada ascensão do rubro-negro carioca rumo ao G4 – e, quem sabe, até mesmo ao título.

Apesar da importância dos resultados de campo de cada clube a fim de que o mesmo mantenha-se em alto nível nas disputas, outro fator de atração de torcedores para o consumo material, simbólico, presencial e midiático dos produtos relacionados ao futebol é a solidariedade diante da miséria: assim como o Palmeiras e o Botafogo em 2004, o Grêmio em 2005, e o Corinthians em 2007, o Vasco de 2009 tem tido um apoio formidável, tendo lançado um plano de sócios nos moldes dos bem-sucedidos planos do Grêmio e do Internacional, que faz dos dois clubes gaúchos dois entes cada vez menos dependentes das verbas da televisão ao julgarem ser possível obter uma exposição e rendimentos mais vantajosos do que aqueles ora proporcionados pela Globo.

Com isso, os clubes estão-se tornando mais criativos e passam a investir cada vez mais em marketing e comunicação: vários clubes do país já possuem rádios e TVs vinculadas ao próprio site oficial enquanto também procuram conhecer melhor o seu associado através do uso de redes sociais na internet, como  é o caso do EXÉRCITO GREMISTA que – aos poucos – tem feito um uso crescente e estratégico das mídias sociais (blogs, comunidades no Orkut, canais de vídeo no You Tube e de fotos no Flickr) a partir de um conjunto de ações coordenadas entre os departamentos de Marketing e Comunicação e de TI (informática) do clube.

Retomando a importância da expansão da rede de contatos com vista ao incremento do consumo; da menor dependência ao oligopólio da mídia corporativa nacional; da obtenção de novos patrocínios, de financiamentos públicos, de mudanças favoráveis na infraestrutura viária e em alterações favoráveis à valorização de seu patrimônio imobiliário em suas respectivas cidades, os clubes movem-se ora em conjunto (Clube dos 13), ora individualmente. No caso do Grêmio, o ex-presidente (1987-1990 e 2005-2008) e deputado estadual Paulo Odone (PPS; aliado do Governo Yeda Crusius – do PSDB – no RS e do prefeito José Fogaça – do PMDB, com breve passagem pelo PPS – em Porto Alegre) é secretário estadual extraordinário da Copa 2014 em Porto Alegre; o conselheiro do clube e ex-membro do Conselho de Administração (2007-2008) Eduardo Antonini é o vice. Já a secretaria extraordinária municipal da Copa 2014 em Porto Alegre é exercida pelo vice-prefeito e conselheiro do Grêmio José Fortunatti, do PDT (ex-PT). Os ministérios dos Esportes, das Cidades e a Casa Civil (pasta da candidata a presidente em 2010 Dilma Rousseff – ex-PDT, hoje PT).

Recentemente, o diretor de Marketing do Grêmio, conselheiro Cesar Pacheco, deu CTGs (Cartões de Torcedor Gremista) ao presidente da CBF Ricardo Teixeira e ao presidente de honra da FIFA João Havelange.

Não por acaso, o estádio José Pinheiro Borda (mais conhecido por Gigante da Beira-Rio) do Sport Club Internacional – subsede de jogos da Copa 2014 em Porto Alegre – enfrenta um processo judicial que o impede de negociar seu valioso terreno do antigo estádio dos Eucaliptos a fim de obter fundos para as obras exigidas pela FIFA a fim de poder sediar competições internacionais de alto padrão. O deputado estadual Beto Albuquerque (PSB), conselheiro do clube e assessor do presidente colorado Vittorio Piffero (um ator significativo no setor da construção civil gaúcha) está pleiteando um empréstimo a juros baixos com um prazo de carência e quantidade bastante generosa de prestações junto ao BNDES cujo interesse inicial beneficiaria apenas aos únicos três estádios particulares do país (além do Beira-Rio, beneficiar-se-iam também o Cícero Pompeu de Toledo – o Morumbi – do São Paulo Futebol Clube e a Arena da Baixada, do Clube Atlético Paranaense).

Nessa mesma toada, o Grêmio depende da aprovação de um empréstimo para a construtora OAS (vinculada à família Magalhães da Bahia) e da aprovação definitiva do aumento no índice construtivo da área ocupada pelo Estádio Olímpico Monumental desde 1954, a fim de poder entregar esse terreno hipervalorizado como interessa à OAS, para construir a tão falada Arena do Grêmio no bairro Humaitá.

Todos esses acordos políticos e comerciais alteram a identidade e o fluxo urbano (comércio, indústria, escolas, hospitais, praças, transporte coletivo, transporte privado e meio ambiente). Diversas entidades de bairro questionam esses projetos que, por jurisprudência, poderão permitir a liberação da construção de prédios residenciais com 10, 15 ou até mesmo mais de 2 andares em bairros onde o atual Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano e Ambiental (PDDUA) de Porto Alegre atualmente não o permite.

A mídia de massa tem minimizado o impacto de todas essas transformaçõs iminentes em Porto Alegre sem que haja a possibilidade de pensar-se em um desenvolvimento econômico e social alternativo. Essa suspeita recai sobre o Grupo RBS em função de dois fatores: primeiro, porque ele possui uma construtora de imóveis para a classe A chamada MAIOJAMA ; segundo, porque a maior lucratividade do seu caderno de classificados parece vir exatamente dos anúncios de imóveis novos e usados feitos por imobiliárias e construtoras.