TEMPO AO GRÊMIO, TEMPO PELO GRÊMIO

Sobre o Tempo
(Pato Fu)

Tempo, tempo mano velho, falta um tanto ainda eu sei
Pra você correr macio

Tempo, tempo mano velho, falta um tanto ainda eu sei
Pra você correr macio
Como zune um novo sedã

Tempo, tempo, tempo mano velho
Tempo, tempo, tempo mano velho
Vai, vai, vai, vai, vai, vai

Tempo amigo seja legal
Conto contigo pela madrugada
Só me derrube no final

Ah-ah-ah ah-ah
Ah-ah-ah ah-ah

Tempo, tempo mano velho, falta um tanto ainda eu sei
Pra você correr macio
Como zune um novo sedã

Tempo, tempo, tempo mano velho
Tempo, tempo, tempo mano velho
Vai, vai, vai, vai, vai, vai

Tempo amigo seja legal
Conto contigo pela madrugada
Só me derrube no final… oh-oh… oh-oh ah…

Uh… uh… ah au
Uh… uh… ah au
Vai, vai, vai, vai, vai, vai

ARENA DO GRÊMIO: POLÍTICA, ECONOMIA, NEGÓCIO E TORCIDA

1) Teimosia, mau humor, preconceito ou desconfiança na questão da Arena do Grêmio? Por que?

Ser teimoso não é uma falta de qualidade: depende de como, quando, por que e por quem. O mau humor resulta de uma impaciência que precisa ser constantemente reavaliada. O preconceito deve ser abolido em todas as suas formas. E a desconfiança jamais pode ser fruto ou resultar em alguma injustiça, ignorância, ou julgamento pessoal.

Todos devemos ser capazes de aceitar, de compreender, de reconhecer e de pedir desculpas públicas caso sejamos convencidos do contrário em qualquer questão. A teimosia vem da necessidade de querer conhecer cada vez mais temas com uma profundidade maior. É preciso ser eternamente curioso quando se busca conhecer e solucionar um problema qualquer. Por isso, novas amizades, discordâncias e desconfianças são coisas normais. Gosto de fazer novos amigos e de rir bastante – aliás, cultivo o raro e fundamental hábito de rir de mim mesmo.

2) Já assististi a quatro exposições do Adalberto Preis em ambientes e em contextos distintos. Ainda assim, possuo alguma desconfiança. Mais especificamente, sobre quem e/ou sobre o que?

Quero desfazer, de uma vez por todas, os mal-entendidos sobre a minha posição estritamente pessoal. Afinal de contas, o meu ofício depende de saber lidar com as palavras, a fim de poder me comunicar melhor (o que não me impede de incorrer no erro da preguiça, da falta de tempo e/ou da falta de revisão, pois é fácil comer palavras ou deixar que o humor do momento se sobreponha à razão):

2.1 Tenho Adalberto Preis na mais alta consideração. Me criei com ele como vice-presidente de futebol em um período vitorioso do clube, onde outros integrantes do seu repeitável movimento (Grêmio Sempre) também encabeçavam postos-chave na administração do Grêmio: em 1985-1986, ele, o diretor de futebol Saul Berdichevski e o saudoso presidente Irany Sant’Anna (pai do atual e melhor vice de finanças da história do clube – uma pessoa acessível, afável e extremamente competente) ajudaram a recuperar a hegemonia estadual em uma década que terminou fabulosa.

2.2 O fato de crer no gremismo, na honestidade e na competência de Preis, Saul e Evandro Krebs (todos do Grêmio Sempre e integrantes da Grêmio Empreendimentos Ltda.) não implica que eu não possa desconfiar de partes do seu discurso. Ao contrário do que o conselheiro Alexandre Aguiar (do mesmo movimento e também na GE) considerou acerca da minha posição a partir de vários comentários que trocamos em alguns posts do blog Sempre Imortal, desconfiar de partes do discurso evangelizador sobre a Arena e desconfiar de algumas afirmações nas quais eles creem não significa – e nem JAMAIS significou para mim – deixar de crer na integridade, no esforço e na eloquência de nenhum desses conselheiros de relevantes serviços prestados. Nunca me referi à pessoa de nenhum deles com desdém, raiva ou coisa parecida. E, sempre que fui irônico, o fiz por inconformidade ou até mesmo por impaciência e mau humor resultante da maneira com que se insiste em simplificar uma questão a meu ver ainda distante e incerta que não pode ser concluída de uma forma taxativa.

Desconfiar da forma com que certas questões são afirmadas não significa em dicionário algum que se desconfie da integridade de homens maduros, responsáveis e que possuem tantas qualidades. Falo isso porque creio nisso, jamais teria vocação para “vaselina”. Levantar qualquer suspeita nesse sentido seria um equívoco tanto meu em relação a eles como de qualquer pessoa em relação a mim.

Finalmente, nenhuma regra gramatical afirma que o uso da palavra desconfiança precise necessariamente estar ligado nem à confirmação nem à ausência de qualidades como honestidade, integridade ou coerência. Da mesma forma, desconfiança não é sinônimo e nem sempre deve acompanhar falhas humanas comumente entendidas por ingenuidade ou por irresponsabilidade. Se não fui bem compreendido anteriormente, espero que isso fique claro daqui para a frente.

2.3 Sempre disse que sinto-me aliviado por ter grande parte do Grêmio Sempre ao invés de alguma liderança ligada ao presidente Odone na condução direta e visível da Grêmio Empreendimentos. Essa afirmação tampouco significa que eu considere que Odone e seus correligionários de Grêmio tenham faltado com a honestidade ou com a competência sobre assuntos tricolores. Saliento esse detalhe sobretudo porque não possuo prova alguma sobre nada que os desabone dentro do Grêmio ou em relação às suas famílias ou trabalho. E nem tampouco a investigação dessas questões chegou algum dia a passar perto do meu interesse como associado interessado na política do clube e disposto a colaborar com as minhas habilidades.

Contudo, a forma com que esse grupo articulou e conduziu a política e a administração do clube me pareceu autocrática. Odone disse na mídia “Queiram ou não, a Arena vai sair na marra.” Alguém perguntou a ele por que? A existência imediata do Grêmio depende dela? Como? De que maneira? Uma imposição dessas sem maiores explicações não é de assustar?!

Embora tenham se tratado de manifestações expressamente pessoais, a responsabilidade sobre eventuais prejuízos que o Grêmio possa ter sofrido em função delas é, a meu juízo, responsabilidade de quem está hierarquicamente acima. Falo das sempre arriscadas bravatas deselegantes de Paulo Pelaipe, que injetou ânimo em vários adversários: desde os inexpressivos (Santa Cruz de Recife) aos médios (Caxias e Atlético-PR) e – pior – passando pelo até então gigante Boca Juniors. Em função da Batalha dos Aflitos (muito mais do que um drama ou um medo, passar por ela não era nada mais do que a obrigação de um bicampeão brasileiro, tetra da Copa do Brasil, bi da Libertadores e uma vez Mundial), todos toleraram esse comportamento que prejudicou a imagem do clube.

O outro aspecto diretamente ligado ao Grêmio que me torna descrente em relação a qualquer gestão que conte com os movimentos que costumeiramente apóiam Odone (e que também apoiaram Guerreiro) é o de que eles preferem apostar um dinheiro do qual não dispõem à procura de um lucro mais político e pessoal do que propriamente para os cofres do clube mais adiante.

Novamente, um outro parêntese: quando falo em apostar um dinheiro que não é deles não afirmo – em nenhum momento – que o dinheiro vá para os seus bolsos mas, sim, que costumam montar times numérica e tecnicamente muito mais desparelhos do que verificamos na atualidade, extrapolando o orçamento do futebol em um patamar quase inadministrável. Falo da Libertadores 2007, quando tal medida só poderia ter sido bem-sucedida em caso de título. Como fomos apenas vice-campeões, não veio a premiação da CONMEBOL, nem os convites para torneios amistosos na Europa e tampouco um aumento nas cotas de televisão e de patrocínio a serem percebidos na temporada seguinte.

Antes que me interpretem de forma errada mais uma vez, quando falo em lucro político me refiro ao uso antiético do Grêmio como trampolim para uma candidatura partidária. E quando falo em lucro pessoal, neste caso, refiro-me tão-somente às vantagens profissionais que resultam da superexposição midiática de uma personagem específica que, não-raro, utiliza-se do trabalho de muitas pessoas para apresentar-se como o “pai da criança”. Sob qualquer hipótese, o Grêmio deveria ser muito maior do que isso.

Até posso sofrer a influência da minha militância política de esquerda quando cito tal fato. Ao mesmo tempo, se, por um lado, alguns dizem que a política partidária deve ser banida de toda e qualquer discussão clubística, considero-a indissociável das decisões e das articulações que implicam na postura e na atuação de quem fecha negócios em nome do Grêmio ou com o Grêmio.

Odone foi um importante defensor do fracassado governo Britto. Hoje, apoia Yeda. Como bem apontou o ex-governador Alceu Collares em recente entrevista, deduzo que, se Odone quis Britto no Grêmio e se ele queria ser o executivo remunerado da Grêmio Empreendimentos, assim como o Estado foi muito mal privatizado por Britto e como Yeda está explodindo as dívidas anteriormente multiplicadas por Britto e como ainda estamos muito longe de poder honrar com todos os compromissos herdados de Guerreiro, não tenho como pensar diferente do velho sábio discípulo de Brizola:

Os integrantes PMDB não são administradores – Não tem uma obra do Fogaça que se veja. Consideremos os governos depois da redemocratização, o Jair Soares, o Pedro Simon, depois o Antônio Britto e Olívio Dutra. O Jair conseguiu um PIB, o Produto Interno Bruto gaúcho, de 14% em relação ao mandato anterior. O Simon foi 0,5% negativo. Tanto que eu digo que o do Simon é um Pibizinho e o meu é um Pibizão. No meu governo, foi de 23,43%.

A soma do PIB dos governos do PMDB não chega a 6% – Então, depois vem o Britto, fez 2%, o Olívio fez 12% e o Rigotto 2,5%. Ou seja, a soma do PIB de 12 anos de governo do PMDB não chega a seis. Ou eles não tiveram sorte ou eram incompetentes. E esse rapaz, o Fogaça, eu tenho medo que seja a mesma coisa. Porque aqui em Porto Alegre ele não fez nada. Qual o projeto que ele tem aqui? O meu mandato foi de três anos e fiz a Usina do Gasômetro, a Avenida Beira-Rio, o prédio da Câmara de Vereadores, a iluminação do Centro, 19 centros integrados de educação, o Ginásio Tesourinha. Um monte de obras em três anos.

Embora Odone jamais tenha tido nenhuma relação com a corrupção e com a apropriação indébita comprovadamente realizadas por Antônio Dorneu Maciel, Flávio Vaz Netto e pelo conselheiro Luiz Paulo Germano, todos os três participaram da sua gestão no Grêmio de maneira direta ou indireta. Um equívoco dessa magnitude felizmente ainda não trouxe consequências no nosso clube (e – tomara – isso nem deva ocorrer). Todavia, seria necessário ter tido muito mais cuidado sobre quem nomear e a quem confiar tamanha responsabilidade. E, nesse caso, a responsabilidade pela desvinculação total desse tipo de suspeita é um tpo de responsabilidade presidencial bastante semelhante à de policiar um discurso de vestiáriomais favorável aos nossos adversários do que a nós mesmos.

Apesar disso, é fato que nada impede legalmente que empresários, políticos, profissionais e religiosos de todos os vieses façam parte da vida político-administrativa do Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense. Inclusive não possuo nenhum sentimento que me impeça de conversar, de rir, de trocar ideias com pessoas que defendam essa forma de administrar. Não preciso olhar feio e nem tampouco esperar ou forçar para que isso ocorra da parte deles em relação a mim. Apenas não irei concordar com a maioria dos pontos que eles defendem de maneira democrática.

Isso posto, mesmo que acredite na competência profissional e na honestidade de propósito de Preis et. al na GE e mesmo que uma grande quantidade de conselheiros de todos os movimentos sejam magistrados e juízes, é inegável que grande parte do acordo com a OAS foi selado a partir das conversações firmadas conforme o modelo de gestão e de trabalho com que os grupos costumeiramente apoiadores desse jeito de governar preferem trabalhar.

3. Isso não é pensar demais de maneira ideológica? Afinal de contas, a política partidária não faz parte da vida o tempo inteiro?

Seja como situação, seja como oposição, a política é a arte do possível. Porém, o possível precisa necessariamente visar o bem comum, não o bem de poucos. Não é preciso ser filiado a algum partido nem dominar teoricamente alguma ideologia para sabermos que, querendo ou não, somos todos atores e coadjuvantes de um processo do qual somos todos responsáveis. Não é preciso ser dicotômico pra entender que o consenso e que o pensamento único representam uma falsa unidade, pois trata-se de um consentimento para evitar dissabores quando falta vontade, tempo ou ânimo para uma discussão de fôlego.

4) Tu és contra a Arena? Ser contra a Arena não seria ser contra o Grêmio?

Desejo MUITO que a Arena dê certo. Quero – mais do que tudo em relação à minha vivência tricolor – que eu esteja completamente enganado. Porém, ainda falta poder crer que possa dormir despreocupado em relação ao nosso futuro. Por uma série de erros políticos, jurídicos, midiáticos e técnicos (falta de conhecimento suficientemente técnico em arquitetura, engenharia, marketing e comunicação) sobretudo do nosso Movimento Grêmio Acima de Tudo (MGAT), foi impossível tentar opor-se com maior veemência ao modelo de negócio e ao contrato assinado a partir de uma proposta alternativa.

Não houve nenhum planejamento que visasse rever esse processo de uma maneira que a sua consecução fosse benéfica para o meio ambiente, para o trânsito e para a qualidade de vida da cidade. Seja na expulsão de pobres do Humaitá, seja na forma artificial de se tentar povoar aquela região quase rural; seja nas desapropriações ao longo das vias do entorno do muito em breve ex-Estádio Olímpico Monumental ou na forçação de barra rumo ao superpovoamento daquela área, considero que o Grêmio não deveria ser o principal vetor de uma mudança socioeconômica e cultural que dificilmente trará uma urbe mais salubre e tranquila seja na Azenha, seja no Humaitá.

Eu não sou mais contra a Arena nem contra a ida do Grêmio para outro bairro como assim defendia anteriormente. Porém, a visão que tenho de Grêmio e a visão que tenho da cidade parecem não coincidir com as visões de quem trabalha para que este empreendimento siga as diretrizes da OAS e não do Grêmio. Pesa muito para mim o fato de que toda a origem do Projeto Arena foi imposta ao CD e, depois de finalmente discutida, está sendo imposta à sociedade. Nem pelo Grêmio se pode passar por cima da democracia quando milhares de famílias terão que mudar de vida num piscar de olhos.

Ainda não foi possível arregimentar massa crítica suficiente a ponto de fazer com que a aparentemente pouca disposição de contestar e de pensar em um Grêmio menos subserviente àquilo que fora acordado por quem tratou a questão antes do presidente Duda assumir possa ser discutida em outros termos pelos amigos da Grêmio Empreendimentos. Para mim (que, ao contrário da esmagadora maioria dos atuais integrantes do Conselho Deliberativo do Grêmio, li o contrato e também tive acesso aos seus anexos), embora jamais desejável, é possível, sim, que o que eles entendem como vantajoso para o Grêmio possa tragicamente vir a ser um negócio da China para a OAS e não uma relação ganha-ganha.

5) Por que escolheste o Movimento Grêmio Acima de Tudo?

Por que? Porque, mesmo que exista o máximo de gremismo, de profissionalismo e de inteligências reunidas em todos os demais movimentos, fui acolhido e convidado com o máximo de consideração, de carinho e de camaradagem. Muito embora tais qualidades também pudessem ser encontradas em outros movimentos, muito me incomoda o papel de claque ao qual muitos bons gremistas tem-se prestado em relação a tudo o que foi respondido acima. Mas me incomoda mais ainda o cunho neoliberal da atual oposição.

Está claro que há muitos pontos em comum entre vários movimentos. Sabe-se que há muitas divergências entre si, mas que falta imposição, conhecimento do clube e até mesmo coragem para dizê-las “na lata”. Quando a rebeldia e a indignação é guardada apenas junto de seus pares, então não existe franqueza.

Hoje, o MGAT trabalha mais próximo dos interesses do associado que paga em dia e que mais consome produtos oficiais do clube do que aqueles que se dizem novos ou independentes (com todo o respeito às pessoas, discordo muito de grande parte de suas ideias). E eu aprendo e admiro cada vez mais à maior lenda viva do nosso clube, que é o eterno presidente Hélio Dourado.

6) Se muitas das etapas às quais tu te posicionas com temor e com severas críticas não podem mais ser revertidas, como fazer com que o Grêmio FBPA possa ter maior poder de decisão sobre o seu futuro mesmo tendo em breve como o seu maior credor a construtora OAS?

Se houver um mínimo de sensibilidade, gostaria muito que as questões que levantei acerca da nada razoável iminência da elitização do clube em função da Arena pudessem ser avaliadas com carinho e atenção. A quem quiser lê-las, deixo o meu convite:

http://heliopaz.com/2010/05/07/por-que-a-arena-nao-pode-elitizar-o-gremio/
http://heliopaz.com/2010/05/07/por-que-a-arena-nao-pode-elitizar-o-gremio-ii/
http://heliopaz.com/2010/05/07/por-que-a-arena-nao-pode-elitizar-o-gremio-iii/

A bandeira que levanto a partir desses posts resulta de uma compreensão maior acerca do papel da nossa casa como um fator diferencial único a nosso favor, que resulta na aceitação da importância do lado positivo das manifestações de alento e de entusiasmo do Sócio Torcedor da Geral, que é o verdadeiro trem pagador do clube, do qual não podemos correr o menor risco de abrir mão: se esses jovens não puderem fazer a nossa casa rugir, não importará mais onde nem como ela será.

Pra terminar, dois recados especiais aos amigos de dois jovens movimentos de associados entusiasmados e atentos que deejam também poder decidir as questões a favor do clube:

– Ao Grêmio do Prata: as crenças de vocês são nobres e as suas dúvidas e desconfianças são legítimas. Fiquem atentos e mantenham o foco! A impetuosidade de vocês é extremamente benéfica para o clube!

– Ao Grêmio Democrático: tão importante quanto manter ótimas relações com todos os movimentos e manter a cativante cortesia e fidalguia de vocês é crer que, mesmo diante de excelentes intenções, problemas acontecem e é necessário sermos propositivos e críticos. Vocês têm tido uma postura admirável!

POR QUE A ARENA NÃO PODE ELITIZAR O GRÊMIO III

Aparentemente, não existe público pra lotar aquelas dependências na Grande POA. E é muito difícil o valor pago pelas cadeiras gold e camarotes subsidiar valores semelhantes ou apenas um pouco mais elevados do que os de hoje.

Caso já houvesse um volume de público classe AB suficiente, duvido que ainda não tivesse havido um clamor público para a) “Encadeirar” todo o anel inferior e b) Melhorar substancialmente a qualidade dos serviços oferecidos pelo clube. Se o Olímpico fosse assim, as cadeiras lotariam sempre.

No entanto, não é o que podemos verificar no estádio: o último Grenal teve o maior público do Olímpico desde 2007. Foram pouco mais de 44000 pessoas. A capacidade total é de pouco mais de 55000 expectadores. Por medida de segurança, não se pode pôr mais do que 51000. 90% dos 7000 lugares vagos estavam nas cadeiras (cativas, centrais e laterais).

Se o valor dos ingressos fosse viável, como era início de mês, decisão de campeonato e clássico em um horário acessível, teria que ter lotado.

Na Arena, pode-se garantir receita para o clube e obter tanto quanto possível o Lucro Líquido Ajustado, a fim de evitar prejuízos (leia-se devolver parte dos 7 milhões anuais subsidiados pela OAS) desde que seja possível não apenas conquistar mas, sim, manter pelo menos o dobro de sócios em relação à quantidade de assentos da Arena.

O problema é que futebol = resultado. Uma maneira de compensar esse problema é o que o marketing está acertadamente proporcionando ao associado: a percepção de que a soma de descontos em serviços relevantes oferecidos por parceiros de qualidade seja maior do que o valor da mensalidade do clube.

Então, para que o Grêmio realmente fature pra valer (isto é, obtenha lucro independentemente do repasse da OAS e de eventuais devoluções a esta quando o público for baixo), será fundamental que, passado o inferno das férias de verão, da fase que leva do nada a lugar nenhum no Gauchão e da ausência de jogos de volta contra adversários inexpressivos das duas primeiras fases da Copa do Brasil ou de um ou dois jogos pela fase de grupos da Libertadores contra galinhas mortas, lá pela metade/fim de março até o fim de novembro (quando termina a temporada), a média de público terá que superar quase sempre 65%-70% da lotação da Arena.

É esse o problema de se dizer amém para quase tudo o que a OAS exige.

O momento é de ajuste dessas questões. Se isso não for visto agora, a trolha estourará somente do lado do Grêmio. Nos sete primeiros anos, o Lucro Líquido Ajustado será todo do Grêmio. Só que isso não significa que tenhamos LLA todos os meses. A brincadeira só começará a ficar boa a partir da metade de abril. Ou, seja, na melhor das hipóteses (se o time estiver bem), serão quatro meses sem lucro, mesmo que o prejuízo não venha a ser significativo e possa ser compensado depois.

No frigir dos ovos, o problema é o tamanho das obrigações e o custo muito maior do que o esperado (ou imaginado) para o Grêmio. Afinal de contas, Marketing, Comunicação, Quadro Social, Finanças… Todos esses departamentos precisarão rebolar pra valer pra poderem manter toda a estrutura acima em um patamar viável.

O público que vai ao estádio é classe C+ e B-. Além disso, não temos a questão da violência nos estádios em um nível de barbárie nem uma classe AB suficientemente numerosa pra considerar o futebol como o seu lazer primordial. Portanto, a elitização seria um tiro no pé.

Será que, além das preocupações jurídicas, contábeis, de engenharia e de arquitetura houve algum tipo de estudo de impacto mercadológico? Será que houve alguma preocupação minuciosa a respeito da demografia e da cultura do extrato social que compõe o público predominante na Arena?

Segundo as palavras do conselheiro Cacaio Azambuja, até segunda ordem, gostaria de estar enganado:

Há, entre algumas informações cifradas que colhi para informar algumas partes do meu livro, uma afirmativa interessante, a qual irrelevei porque o tema então abordado era tangente ao assunto.
Trata-se de um estudo de marketing – o mercado do estádio Arena – que deveria ter sido incorporado ao tal Plano de Negócios e não foi., ou, pelo menos, teria deixado de revestir-se de mais extensão e profundidade. A incumbência era de  uma empresa, designada como  Gismarket. Se houve ou não esse trabalho tampouco tenho notícias.

O mundo liberal dos negociantes e dos rentistas não prevê o lado humano que define as prioridades pessoais e familiares responsáveis pelo sustento da economia: afinal de contas, eles se esquecem de que a soma dos pequenos é sempre maior do que o todo…

POR QUE A ARENA NÃO PODE ELITIZAR O GRÊMIO II

O post anterior tratou de um panorama realista com base em informações que o FAQ e as exposições sobre a Arena não são capazes de proporcionar ao associado do Grêmio. Sempre saliento que os ilustres gremistas que representam o clube na Grêmio Empreendimentos são muito competentes e honestos. Todavia, é fundamental que haja um contraponto à visão de que tudo será perfeito para todos. Afinal de contas, é necessário que se faça ajustes contratuais de maneira que as obrigações impostas ao Grêmio pela OAS sejam menos sacrificantes.

O novo livro do conselheiro Cacaio Azambuja é uma forma de apoiar o clube e de não suscitar nenhuma suspeita sobre ninguém enquanto trata, paralelamente, de oferecer alternativas que podem vir a diminuir o peso do fardo que o Grêmio terá que carregar. Em função de algumas trocas de e-mails, de alguns encontros presenciais com este brilhante advogado com mais de 34 anos de serviços prestados ao clube e deste artigo publicado pelo autor no Espaço Vital, teci várias considerações bastante preocupantes. Contudo, a informação mais grave refere-se talvez à uma nada improvável impossibilidade de os gremistas patrimoniais poderem usufruir da Arena nos moldes que hoje regem os direitos e deveres do usufruto que ora gozam no Estádio Olímpico Monumental.

Por fim, a última leitura longa porém essencial sobre a mudança vertiginosa do público do futebol inglês foi o que me motivou a insistir sobre esta delicadíssima questão: peço por favor para que leiam com muito carinho e atenção ao artigo O ESPORTE QUE VENDEU A SUA ALMA. Por um lado, os fatores socioeconômicos da Inglaterra ainda permitem que exista um público com poder aquisitivo para adquirir carnês antecipados de ingressos por temporada ou por certame.

Todavia, aqui no Brasil, duvido que, por volta de 20/01/2013 (provavelmente a primeira rodada do Gauchão, competição de estreia da Arena do Grêmio) seja possível aos locatários dos camarotes e cadeiras VIP poder financiar preços semelhantes aos atuais para quase 80% dos lugares do estádio.

Se a gente discute aqui e no Grêmio que a OAS não irá rasgar dinheiro; que o Grêmio precisa ter o dobro de sócios em relação à capacidade do estádio para poder viver sem sufoco financeiro, segundo o Irany; se a cultura porto-alegense, gaúcha, brasileira e latino-americana (todas com pontos em comum, porém distintas entre si) não considera o futebol como um espetáculo de teatro nem o seu público com um comportamento parecido com o do tênis, logo, não será possível podermos lotar o estádio e nem tampouco garantirmos 80% da sua lotação nos jogos mais decisivos.

O investimento público viário; o custo do conforto das instalações do estádio e o da qualificação dos serviços tende a não ser lucrativo, pois dificilmente haverá público em quantidade e assiduidade.

Após conversar com o presidente Gabriel Fadel do MGAT, concluí que, em princípio, o cálculo do conselheiro Cacaio Azambuja do repasse de 6 milhões e tanto/ano necessário para bancar 3500 associados é bastante diferente daquele que o Preis demonstrou sobre 7 milhões/19000 torcedores por jogo.

Independentemente de qual equação esteja mais próxima da realidade que se avizinha, a questão nem é mais essa e tampouco sobre se a Arena irá sair ou não ou se será boa ou não: pessoalmente, considero totalmente equivocada a possibilidade de multiplicação do fator de majoração dos ingressos conforme o esperado (seja pela OAS, seja pelo Grêmio) caso pense-se não apenas nos padrões europeus mas, sim, em tentar elitizar para mudar o público do futebol.

Conforme o levantamento do economista Mauro Salvo do Banco Central ao qual tive acesso aqui, apenas 4650 famílias em toda a grande Porto Alegre (universo de 3,4 milhões de habitantes) podem ser consideradas de classe A.

Dessas, digamos que quase metade seja de colorados. Digamos, ainda, que pouco mais da metade dos filhos goste de ir a futebol (bastante plausível se levarmos em consideração o amplo leque de opções de lazer disponíveis exclusivamente para esse seleto público). E digamos que não mais do que 15% das mães goste de ir ao estádio.

Além disso, o problema da violência nos estádios e arredores que têm o futebol como pretexto e/ou desculpa é dezenas de vezes menos significativo em Porto Alegre do que na Inglaterra. Aqui, o futebol como atividade popular é um fator de sociabilidade e de integração entre classes e estamentos bastante significativo. Portanto, a elitização, além de não contar com um público compatível com a necessidade de manutenção das instalações e de previsão de lucratividade de seus investidores, não pode ser aplicada aqui, de maneira alguma, como forma de solução das mazelas urbanas.

Muitos afirmam que o uso das ciências humanas como forma de pesquisar e entender a cultura de um determinado ambiente seria contra o progresso ou que não levaria em consideração a produção de bens e a circulação de dinheiro. No entanto, a realidade mostra que, caso só se pense em receita, despesa, retorno sobre o investimento, markup, impostos, lucro líquido, custos, fixos, custos variáveis, depreciação e valorização, jamais será possível às ciências exatas dar conta da dinâmica das práticas culturais que definem como cada indivíduo e como cada um dos infinitos nichos culturais aos quais pertencem podem influenciar o seu envolvimento com o futebol de alto nível.

Contudo, quem compra, quem vende, quem produz e quem usufrui possui motivos subjetivos para escolher se realiza ou não esses movimentos econômicos. O mercado é definido pelo interesse do consumidor e não pela vontade do produtor. Há ferramentas e técnicas da Publicidade, do Marketing e de Finanças para procurar puxar a sardinha para o assado de quem investe em produtos e serviços. Mas, apesar delas, não há paixão suficientemente forte para fazer com que alguém se obrigue a ter o que não pode comprar.

POR QUE A ARENA NÃO PODE ELITIZAR O GRÊMIO I

O dia 23/05/2010 marca (ou marcou, dependendo de quando este texto for ou tiver sido lido) o meu 37º aniversário. Frequento o Olímpico desde 1979, aos seis. Posso dizer que, pelo menos desde os oito (isto é, a partir de 1981, ano do nosso primeiro título brasileiro), tenho podido manter uma frequência média de pelo menos 85% dos jogos disputados em casa desde então. Isso significa que, muito provavelmente, de cerca de 1050 a 1080 jogos em casa nesse período de mais de três décadas (chutando baixo, pois 36 jogos em casa/ano é certo), eu tenha vivenciado mais de 910. E, mais do que as conquistas (estive presente em todos os títulos conquistados em casa desde 1979), particularmente me orgulho de ter estado ao lado do Grêmio quando ele mais precisou, isto é, tive 100% de assiduidade em ambas as campanhas na Série B, tanto em 1992 como em 2005. Portanto, alguma experiência pra avaliar certas práticas eu acredito que deva ter.

Mais do que torcer, o Grêmio me traz muita satisfação. Porém, como tudo na vida possui dois lados, minha paixão e meu maior lazer trazem consigo uma grande preocupação acerca do seu futuro. Quando o estádio não lota, a imortalidade pode sofrer algum revés. E eu gostaria muito de tentar compreender por que os gremistas nem sempre precisam enfrentar filas para entrar no estádio ou procurar um lugar para se posicionar nas arquibancadas e nas cadeiras. Se isso ocorre no Olímpico, o que dirá na futura Arena, caso não se procure entender os motivos socioeconômicos e culturais responsáveis pelo tamanho do público em cada partida.

Quando o time vai muito mal dentro de campo ou quando é fim de mês, a ociosidade maior é triste, porém compreensível: pois nenhum torcedor consegue se divertir quando não se sente otimista e esperançoso. E nenhum torcedor pode deixar de pagar aluguel, escola, plano de saúde, prestação do veículo ou deixar faltar comida em casa só por causa do futebol. Afinal de contas, para poder torcer adequadamente, é preciso saber subsistir com dignidade.

Partindo dessa percepção, observei que o jogo contra o Fluminense pela Copa do Brasil signficava, técnica, financeira e emocionalmente, muito mais do que o Grenal – muito embora o título gaúcho conquistado três dias antes tenha funcionado como uma injeção de autoestima tão necessária quanto bem-vinda. No entanto, entendo que a função mais adequada para um título gaúcho é a de tão-somente nos direcionar rumo a voos maiores. Pois mesmo sendo início de mês e sucedendo uma conquista de título, fiquei decepcionado com o público. Pensei: por que apenas 25000 e não a repetição dos 44000 do domingo anterior?

O acirramento da disputa doméstica aliado à – talvez – única chance de muitos verem o Grêmio erguer uma taça ao vivo durante o ano inteiro podem explicar essa preferência por um jogo que vale muito menos.

Dentre tantos fatores, credito a culpa ao horário de “boite” em função da subserviência do clube ao contrato leonino da TV com o C13 (mais sobre isso aqui, aqui e aqui). Para muitos, isso não faz diferença mas, para a esmagadora maioria dos sócios-torcedores que depende muito mais do que os autônomos da máxima “tempo é dinheiro”, falta ônibus tanto na ida como na volta para a Zona Norte.

Eu, por exemplo, vou e volto quase sempre de T2. Não por acaso, desde que Fogaça assumiu, aboliu-se a designação de ônibus extras para o estádio, nessa política burra de cortar “gastos” para aumentar o desconforto do eleitor-pagador de impostos. Além disso, os veículos das duas últimas novas frotas são de acabamento e material inferior aos antigos por serem mais baratos. Logo, para torcer, muitos precisam sofrer desnecessariamente.

A tentativa de compensar esse desconforto é enganosa, pois desvia o desconforto para um outro n’No Brasil atual, não está mais barato comprar um carro e, sim, financiar um carro. O trânsito está pior e muitos não percebem que um carro de 20 mil em 60x custa quase dois carros. Sem contar que é quase impossível ficar sem seguro. O do meu Celta 2004 sai 1000 e poucos reais em 4x. Embora seja um carrinho que quase não incomode (baixo custo de manutenção), para uso urbano básico, precisa de 400 reais de combustível/mês. Pois justamente a parcela do público responsável por tornar o Olímpico Monumental como um palco temido pelos adversários e que faz com que o Grêmio verdadeiramente mande na sua casa não pode sustentar esse verdadeiro casulo motorizado.

Pra quem vai de carro, o posto ex-Touring da Carlos Barbosa cobra 10 a 20 pilas de estacionamento e o posto arrendado que pertence ao Grêmio na Cascatinha com José de Alencar custa de 20 a 30.

Logo, a esmagadora maioria dos frequentadores assíduos precisa de conforto e maior frequência e não de mais estacionamento para ir ao estádio.

Bem ou mal, eu sou um privilegiado e sou sócio proprietário. Mas esse é um custo monstruoso para o perfil predominante entre o sócio-torcedor, como descreverei abaixo.

Por mais que muitos digam que não ou esperneiem, o Sócio Torcedor (cujo investimento atualmente é de 50% da mensalidade do sócio proprietário + 50% do valor do ingresso de cada jogo), é a categoria composta pela esmagadora maioria dos jovens frequentadores da Geral, quase todos vivendo de mesada ou de salário mínimo do primeiro ou segundo emprego). Para eles, mesmo essa conta sai cara, pois não há poder aquisitivo suficiente para que cada um banque a sua frequência no Grêmio como gostaria. No frigir dos ovos, “barbados” de nível superior como os amigos do Movimento Grêmio do Prata são uma raridade na Geral.

Em função disso, a pesquisa que o Minwer ofereceu ao Quadro Social merecidamente reconhecida pela Comissão do Planejamento Estratégico deveria ser aplicada aos 160 mil cadastrados no Exército Gremista para termos uma amostragem bem maior do que a dos 700 e poucos entrevistados que ele conseguiu no Blog do Torcedor. Eu diria que a questão demográfica, de faixa etária e de baixo salário seria predominante se houvesse um leque maior de questões subordinadas às que o Minwer realizou.

Nesse aspecto, caso eu fosse dirigente, pensaria no seguinte quadro:

– Jamais aumentar os ingressos dos mata-mata de Libertadores e Copa do Brasil mantendo-os nos mesmos valores do Brasileirão (que não podem ser diminuídos em função do preço mínimo da CBF).

Por que? Porque a Teoria da Cauda Longa (v. Lei de Zipf na Wikipédia) aponta que, em qualquer situação, existe um padrão matemático que aponta que a quantidade de participantes que consomem ou que investem dezenas ou centenas de vezes mais do que a média são muito poucos, mas que, ao mesmo tempo, mesmo aqueles que consomem pouco, consomem alguma coisa. Sob essa perspectiva, nunca existe o zero e a soma de todos os pequenos é sempre maior do que a soma dos grandes.

O que quero dizer com isso? Que se ganha muito mais dinheiro e se mantém o estádio muito mais cheio cobrando sempre 30 pilas pela Geral do que eventualmente majorando o setor para 40, 50 ou 60. Haverá dezenas de vezes mais gente pagando 30 pilas do que dispostas a pagar 40, 50, ou 60.

Muitos já disseram isso, mas é óbvio que a diferença de 30 pra 40 significa não comer um cachorro-quente e não beber um refri. Independentemente do fato de alguns considerarem essa combinação como um alimento saudável ou não, ela é – na maioria das vezes – a refeição mais rápida e acessível para quem sai do trabalho ou da aula e perde tempo nos engarrafamentos. Também significa um outro fator de sociabilidade, à medida que reune amigos e até mesmo pais e filhos cujos horários de permanência em casa dificilmente coincidem. Já o salto de 30 para 50 reais pode significar a diferença entre poder estacionar o carro no posto ou, então, deixá-lo a pelo menos sete quadras do estádio em uma rua escura à mercê da extorsão dos flanelinhas ou de um risco mais sério na hora da saída. E, finalmente, a diferença de 30 para 60 representa, para dois grandes amigos, um casal de namorados ou um pai e um filho, uma dura opção: “ou eu, ou tu, ou nenhum dos dois vai”.

Nessa conta, por três pilas de entrada sem consumação (podendo gastar apenas dois refris e uma porção de fritas), vale mais a pena assistir no Museu do Esporte, ou até mais barato em um “cheese” ou num boteco em Pay-Per-View.

Hoje, moro a 4 Km do Olímpico e uma linha de ônibus da Carris (mais limpos, motoristas e cobradores melhor treinados, menos solavancos) que me deixa lá em 25 min. A Arena ficará a 10 Km de casa e, atualmente, aquela zona do Humaitá é atendida por ônibus bem vagabundos da Conorte. Imaginem pra quem mora na Zona Sul ou no extremo norte pra ir ao Olímpico em dois ônibus ruins e pelo menos 50 min. de traslado…

Não é nem uma questão de querer ou de poder ter um carro mas, sim, do custo e do transtorno de chegar e de ter que se incomodar com estacionamento, troco, etc. Esse é um outro custo agregado ao futebol. Essa busca e o tempo perdido para quem não pode ter um box no Olímpico (ou, futuramente, na Arena e no shopping anexo) muitas vezes significam pagar para não se incomodar já se incomodando.

Enfim… Hoje, no Olímpico, a equação não facilita mais a lotação do estádio. A questão é de preço x horário, pois os resultados estão melhorando e a Geral e a Tradição fizeram as pazes.

Apesar do grande aumento dos empregos com carteira assinada para a gurizada e da grande proporção de mulheres sobre o público total no Olímpico, quase tudo encareceu muito de 15 anos atrás. Além disso, muito mais adolescentes trabalham hoje do que antigamente – e o tempo de eles se deslocarem da aula para o trabalho e para o estádio diminuiu MUITO.

A esmagadora maioria da gurizada que frequenta colégios particulares ganha mesadas maiores do que os salários do público médio da Geral. Esse nicho privilegiado não é sócio do Grêmio. Eles êm carro e adoram futebol, mas preferem gastar o seu dinheiro para “azarar as gatas na noite” ou para ir à praia, passar o fim de semana no sítio em churrascadas, no consumo de equipamento de surf e de skate, e em frequentar o cinema semanalmente. Futebol, para eles, é mais interessante comentar e jogar a partir do aluguel de quadras do que propriamente ir ao estádio. Esses só vão em clássicos e decisões, pagam ingresso full e acham caro se associar porque vão a, se muito, um jogo por mês. Eles não pagariam mais só porque haveria maior conforto.

Para que essa juventude se associe (ou para que ela passe a encarar o Grêmio como um programaço), o marketing precisa trabalhar a beleza da gremista e a “azaração” a partir de parcerias com casas noturnas. Pra quem tem namorada(o) e gosta de “fazer um H”, deve-se oferecer isso e mais algumas barbadas em restaurantes da moda. Há muitos points na Calçada da Fama e na Cidade Baixa pra isso. Descontos em quadras esportivas, teatro e shows também seriam muito bem-vindos.

A outra providência que eu tomaria:

– Aumentar a mensalidade do Sócio-Torcedor de 50% do equivalente à mensalidade do Sócio Proprietário para 60% e aumentar o seu desconto no valor do ingresso cheio de 50% para 60% do valor cheio: no final das contas, como os valores da mensalidade e do atual desconto nos ingressos não são iguais, a diferença entre esse pequeno percentual a mais na mensalidade aumenta significativamente o faturamento mensal do clube e minimiza o efeito da maratona de jogos que ocorre de julho até o final de setembro, onde quase todas as quartas e domingos são ocupados (o que dobra o número de jogos no Olímpico nesse período muitas vezes decisivo para o restante do Brasileirão).

Esse é um recado também para a Grêmio Empreendimentos e para a OAS:

- O PODER AQUISITIVO ATÉ DEZ/2012 NÃO IRÁ AUMENTAR GRANDE COISA;

- SE QUISEREM QUE A ARENA LOTE COM FREQUÊNCIA, ALÉM DOS RESULTADOS DE CAMPO, NÃO IRÁ ADIANTAR NADA MAJORAR O VALOR DO INGRESSO E DAS MENSALIDADES PARA TENTAR ELITIZAR AS ACOMODAÇÕES BÁSICAS EM FUNÇÃO DO MAIOR CONFORTO DOS ASSENTOS. Dado o panorama acima exposto, o grande público precisa ter um incentivo que faça com que ele vá a todos os jogos ao invés de ser forçado a escolher em quais jogos “valeria mais a pena” se fazer presente.

Agora, um recado para o Grêmio atual, do Olímpico:

- EXIJAM DA PREFEITURA MAIS ÔNIBUS: novas linhas e mais carros para a mesma linha em horários alternativos são mais do que necessários. Seja quando os jogos iniciam cedo demais (19:30h) seja quando terminam tarde demais (23:55h ou até mesmo por volta das 00:45h se houver prorrogação e decisão por pênaltis);

- APRENDAM A NEGOCIAR COM A TV (a economia política da TV no futebol brasileiro 1, 2, e 3): muito em breve, a internet em banda larga tornar-se-á acessível até a última milha, isto é, será um serviço essencial como o são a coleta de lixo, o abastecimento de água potável, o saneamento básico e a energia elétrica. Caso os clubes consigam desatrelar pelo menos a exclusividade da transmissão de seus jogos do portal de notícias do mesmo grupo midiático detentor dos direitos de televisão, cada clube poderá gerar muito mais empregos na área de Comunicação a partir de uma assinatura muito barata, suprindo a necessidade do torcedor de conhecer a história, os ídolos e o futuro (isto é, os novos valores das categorias de base) a partir da produção de conteúdo próprio.