O blog Azul, Preto e Branco também prefere a fórmula de pontos corridos. No entanto, questiona o formato de acesso e descenso entre divisões. Pessoalmente, discordo da sugestão do Thiago por uma série de questões. Vamos a elas.
Comparo o modelo de acesso e descenso da Inglaterra com quem passou de ano por média e recebe o mesmíssimo tratamento dado a alguém que pegou recuperação, não passou e acaba tendo que fazer dependência. A Barclay’s Premier League tem 20 clubes. Os dois últimos são automaticamente rebaixados para a Coca-Cola The Football League Championship (a Série B da Terra da Rainha, com 24 clubes). O 18º colocado da Premier League diputará um mata-mata (ou play-off) com o vencedor do play-off entre o 3º e o 4º colocados da Football League para decidir a terceira e última vaga de acesso à Premier League (que poderá resultar até mesmo na manutenção da vaga do 18º colocado da última temporada).
Esse critério apresenta duas falhas: primeiro, demanda mais datas no calendário e oferece duas chances em três (66%) de o terceiro colocado da Football League ter toda a sua regularidade de 46 rodadas ser jogada fora; segundo, possibilita ao terceiro pior clube da Premier League uma espécie de “dependência” ou de repescagem, premiando um modelo hipócrita de meritocracia.
Na Argentina, a Primera División conta com 18 clubes. Para o acesso e o descenso, disputa-se um play-off entre os vencedores de campeão da Primera B x 18º da Primera División e vice da Primera B x 17º da Primera. Porém, os dois últimos colocados da Primera División podem não ser necessariamente os dois últimos colocados na classificação geral da temporada, pois as posições de descenso são baseadas na soma total de pontos obtidos pelos clubes da Primera División nos três últimos campeonatos cheios (Clausura e Apertura de três anos consecutivos).
Neste caso, dificulta-se ainda mais a vida de quem subiu nesta ou na temporada anterior porque a sua pontuação em um ou nos dois anos anteriores por ele obtidas na Primera B valem quase nada no somatório. Ao mesmo tempo, a prática presume um interesse da AFA, da televisão e dos patrocinadores em manter tanto quanto possível a presença de clubes tradicionais na Primera División. Imaginem esse regulamento aplicado no Brasil: o Grêmio, o Botafogo, o Palmeiras, o Corinthians e o Vasco não teriam tido que “se puxar” pra reduzir a malversação de verbas em suas respectivas gestões, perpetuando modelos falidos e afastando patrocinadores e associados da vida do clube. Na atual temporada, seria um estímulo para que o Fluminense permanecesse totalmente esculhambado, dando ao Tricolor das Laranjeiras a possibilidade de sair impune dessa.
Futebol de sucesso é igual a boa gestão, criatividade e – acima de tudo – simplicidade e valorização do momento aliado à um máximo possível de regularidade durante a temporada. Esses são os degraus de construção de uma tradição.
Normalmente, que tem mais dinheiro + planejamento minimamente decente não tem por que se preocupar com a Série B. Corrupção e má gestão não merecem nenhum respeito ou pena: trabalhou mal, caiu. Senão, vai-se voltar aos tempos do absolutismo, no qual se dizia que os reis possuíam um “poder divino” e se perpetuavam no poder.
Um país de futebol saudável precisa ter clubes de tradição rebaixados senão todos os anos, pelo menos a cada dois anos. Pra aprender, tem que cair. E, eventualmente, um grade clube que cai pode comprovar a sua incompetência ao não conseguir chegar em quarto lugar na Série B dentro de uma competição na qual a esmagadora maioria de seus adversários possui menor torcida e patrocinadores muito mais modestos.
Quanto ao baixo nível técnico: até mesmo entre os sete ou oito que ainda disputam uma vaga à Libertadores e entre os quatro ou cinco que ainda disputam o título o futebol é muito fraco. Basta ver que todas as defesas tem média de gols sofridos superior a um por partida. Salvo o Grêmio, todos os últimos colocados estão entre aqueles de pior desempenho como visitantes.
Se caem quatro e sobem quatro ao invés de três ou dois e se não existe “dependência” nem absolutismo, a fórmula é simples e mantém tão-somente quatro clubes ao invés de cinco ou seis no limbo, isto é, sem Sul-Americana nem rebaixamento. Esse é o principal fator que mantém o campeonato atraente para quase todas as torcidas durante toda a temporada.
Pra terminar, hoje em dia, considero o número de grandes clubes brasileiros bem menor do que a tradição demarca. Hoje, vejo apenas São Paulo, Cruzeiro, Tradicional Adversário, Flamengo, Grêmio, Corinthians, Palmeiras, Vasco e Santos como grandes clubes. Fluminense, Botafogo, Atlético-MG e Bahia são clubes médios, assim como Atlético-PR, Coritiba, Vitória e Goiás. Um pouco mais abaixo, Guarani e Ponte Preta. O resto não possui massa nem tradição em nível nacional.
No próximo post, proporei uma alteraçãozinha mínima nos critérios de desempate, a fim de tornar os campeonatos mais ofensivos e – consequentemente – mais atraentes para o torcedor da arquibancada, do bar e de casa e para que os patrocinadores e a transmissão midiática sejam produtos ainda mais valorizados no mercado internacional.
