POR QUE O PT NÃO VAI GANHAR EM PORTO ALEGRE

Depois de ter lido os COMENTÁRIOS do post do RS URGENTE sobre a pesquisa CORREIO DO POVO/METHODUS para a PREFEITURA DE PORTO ALEGRE, pensei em escrever o seguinte texto:

No dia em que muitas pessoas (que passam por aqui ou não; que são vinculadas a partidos políticos ou não) lerem IMPÉRIO e MULTIDÃO de ANTONIO NEGRI e MICHAEL HARDT e as obras de ZYGMUNT BAUMAN, ELISEO VERÓN, NÉSTOR GARCÍA-CANCLINI (principalmente CONSUMIDORES E CIDADÃOS, CULTURAS HÍBRIDAS, DIFERENTES, DESIGUAIS e DESCONECTADOS, LEITORES, ESPECTADORES E INTERNAUTAS e LATINO-AMERICANOS À PROCURA DE UM LUGAR NESTE SÉCULO) e ALBERT-LASZLÓ BARABÁSI (LINKED) talvez as coisas clareiem um pouco mais.

Não adianta: em uma sociedade na qual a classe média é predominante, ela vai pender sempre à direita, pois julga que, assim, corre menos riscos de perder suas conquistas materiais.

Hoje em dia, como o fluxo constante é muito mais importante do que parar e olhar para os lados e como a função dos sindicatos é, na melhor das hipóteses, controversa à medida que a classe mais excluída, mais injustiçada e mais pobre não é mais composta por “proletários”, a ágora não é mais a praça pública ou a rua. Ninguém dá bola para manifestações, passeatas, piquetes, etc. Mais de 80% de toda a discussão sobre política, economia, direito e cotidiano se dá através da mídia: é através dela que a classe média se identifica e reconhece a sua pertença.

Da mesma forma, os partidos políticos perderam o sentido, pois o Executivo (municipal, estadual ou federal) só considera como cidadão quem possui poder de consumo(ismo). Senão, os latifundiários, as multinacionais, os EUA, os banqueiros, as indústrias do tabaco, do álcool, automobilística e das corporações de mídia derrubam qualquer governo.

A bem da verdade, antigamente havia cerca de 25% de pessoas convictamente identificadas com todas as nuances da esquerda, 25% de reaças assumidos ou enrustidos e os outros 50% pendiam para o lado que representava melhor as suas demandas ou cujo discurso os ludibriava melhor.

Hoje, temos alguns deputados estaduais e alguns vereadores combativos, além de ex-prefeitos como OLÍVIO e RAUL. O resto se bandeou para o lado pragmático de ser, pois crê que é necessário fazer severas concessões ambientais, legais e econômicas aos oligarcas a fim de poder realizar de maneira paulatina e meio às avessas em relação ao estatuto do PT um certo grau de inclusão social.

O PT não vai para o 2º turno em POA, mas pode eleger mais vereadores aqui do que nunca. Que sirva de consolo para daqui a 4 ou 8 anos o cercamento da capital por vários municípios governados pela FRENTE POPULAR: só mesmo a propaganda de boca a boca feita pelas pessoas da GRANDE POA que trabalham e estudam na capital junto a seus amigos e parentes daqui poderá ajudar a reverter esse quadro.

Não dá pra ser ingênuo e achar que o PT está mal em POA só por causa da FARSUL, da FEDERASUL, da RBS e da IURD: muitas comunidades afastadas não tiveram suas demandas satisfeitas pelo OP que, além de tudo, era aparelhado. O fato da maioria dos participantes das assembléias com voz ativa ser composta por líderes sindicais ou filiados ao partido fez com que pessoas apartidárias que só queriam saber quando a escola, a creche, o esgoto ou a calçada seriam construídos na sua comunidade pegaram nojo.

Pra terminar: nos moldes atuais, só creio na resistência pós-moderna da multidão, que é a arma contemporânea que Negri e Hardt vêem como o antagonismo possível ao império.

Quem não sabe agir de maneira descentralizada, desinstitucionalizada, em rede e, de quebra, não aceita que as mesmas pessoas que reúnem-se somente para resolver uma determinada demanda coletiva não queiram (ou não precisem) estar sempre lado a lado em todas as demandas sociais possíveis, não tem condições de fazer política.

Ou se luta para mudar o sistema representativo político-partidário e para evitar a intersecção de um dos Três Poderes em qualquer um dos outros dois, ou até a palavra luta passa a perder o sentido.

Portanto, eu não creio na tomada do poder mas, sim, em pressionar o poder para satisfazer demandas. Uma oposição de esquerda sem os vícios de sindicatos e de partidos, que siga mais ou menos o que o EDUARDO GUIMARÃES preconiza através do MOVIMENTO DOS SEM-MÍDIA.

Já pararam pra pensar que a maioria das pessoas pode estar satisfeita com o estado das coisas no RS independentemente da RBS e do neoliberalismo ou que, por outro lado, cansaram de tentar porque toda vez que levantaram seus ricos traseiros da cadeira deram com os burros n’água?

A desilusão e a frustração vêm daí.

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INTERNET: CULTURA GLOBAL DE GUETOS EM REDE

Em um primeiro momento, a internet não é aquele espaço tão democrático como se pensava. Em termos técnicos e idealistas (muito em função de o Brasil possuir o maior e melhor programa de inclusão digital do mundo para a população de baixa renda), poder-se-ia até dizer que sim. Contudo, o fato de a internet possuir uma dimensão infinita e de proporcionar maior independência de criação e uma ampla pluralidade de opiniões não significa necessariamente poder e autonomia para todos os plugados.

A maioria esmagadora dos sites é encontrada através de um punhado de ferramentas de busca – ferramentas que põem freqüentemente no topo da página inicial do resultado de qualquer busca não necessariamente os links mais visitados, os mais completos sobre determinado assunto e nem tampouco os preferidos da maioria dos internautas, pois a preferência vai para aqueles que pagam mais para aparecer melhor. Apesar da enorme gama de inteligências e de produtos que vão além do site de buscas, o que vale mesmo é o binômio publicidade e negócio – uma fórmula bem antiga que muitos devem conhecer.

80% dos internautas não passam da primeira página de busca. Apenas 10% passam da terceira. Além disso, a proporção de resultados encontrados em inglês é maior do que a diferença entre a quantidade de sites existentes em inglês e a quantidade de sites encontrados em outras línguas.

À exceção dos sites de órgãos do governo (tanto daqui quanto de qualquer outro país – um serviço muito procurado em todo o planeta) e das grandes universidades, a terceira grande parcela dos sites mais visitados e mais referenciados do mundo são os portais da mídia corporativa.

Apesar da enorme queda na circulação de jornais impressos nos últimos 20 anos no mundo inteiro, da recente porém contínua queda da audiência da TV aberta no Brasil e do envelhecimento do público leitor dos jornalões e que assiste aos telejornais e ouve notícias no rádio, a maioria das pessoas tende a preferir encontrar na internet os mesmos assuntos com o mesmo viés dos seus gostos e valores desenvolvidos no cotidiano e também através da mídia de massa.

De fato, a mudança de hábito de apropriação técnica e de transformação de valores e de discursos pela qual estamos passando trouxe com muita força a percepção da necessidade de um sistema de relacionamento, de troca de informações e de aprendizagem horizontal cujos caminhos são 100% definidos individualmente, descentralizado, infinito e imensuravelmente segmentado imposto de cima para baixo em detrimento de um sistema intrusivo, massivo, segmentado, impessoal e que não lida com o interesse de cada um, apenas com interesses definidos por terceiros que juram que vão conseguir obter o mesmo efeito sobre uma multidão que se move junta somente enquanto for necessário resolver um determinado assunto em comum, mas que preza a liberdade e a individualidade acima de qualquer coisa.

Muito mais do que desencaixes, desencontros, falta de noção de identidade e uma tentativa muitas vezes perdida, desorganizada e até mesmo violenta (neotribalismo) de retornar à afetividade, ao encontro e ao reconhecimento de si, do outro e do mundo justificados por uma crença tardia na teoria hipodérmica, a dificuldade pessoal e coletiva da maioria das pessoas que têm acesso mas que passam longe de um computador é a de aceitar conviver em um ambiente ubíqüo no qual o tempo e o espaço estão dissociados e onde ainda não é possível perceber a relação mediada apenas por três sentidos (visão, audição e fala).

Todas essas constatações não apontam necessariamente para um mundo melhor e nem pior mas, sim, diferente. Hoje, creio que a questão da concentração dos meios de comunicação nas mãos de poucos é anti-democrática quando a maioria das pessoas humildes acredita piamente na TV ou no rádio e quando o alcance dos jornais feitos para donas-de-casa conservadoras de classe média passa a abarcar uma parcela muito maior da sociedade.

Nesse ponto, a população menos letrada porém mais curiosa é mais crítica. Mesmo com o ensimo público sucateado resultando em semi-analfabetos com 3º grau, há uma série de estímulos que aguçam a inteligência e despertam a pró-atividade rolando através de uma pedagogia informal e, não-raro, não-escolar.

Em função disso, as corporações de mídia precisarão gastar centenas de vezes mais recursos a fim de segmentarem seus veículos para uma audiência não apenas heterogênea e segmentada como quase individual, que prefere receber informações personalizadas. Na internet, isso é fácil e barato. No papel e na TV, mesmo com a TV digital (que também será concentrada nas mãos dos mesmos poucos e irá oferecer um nível de segmentação de conteúdo bem menor do que o da internet, dos jornais e das revistas – não se iludam), é uma brincadeira tecnicamente quase inviável.

Muito se idolatra a liberdade de expressão, a diversidade de opiniões, a criatividade, a multiculturalidade, a transdisciplinaridade, a convergência midiática e uma forma mais sensível de se relacionar através de um ambiente no qual não somos meros receptores mas, sim, produtores/usuários/interagentes ao mesmo tempo. Porém, toda essa liberdade só torna-se evidente no sentido de “cada um faz o seu do jeito que quiser” e “cada um vai atrás do que bem entender na ordem que quiser”.

O fato de executar uma série de ações simultâneas como, por exemplo, postar no blog, enviar o orçamento de um trabalho para um cliente por e-mail, fazer videoconferência com um professor, combinar uma cervejada por mensageiro instantâneo e acompanhar as últimas notícias do seu time no portal tende a pulverizar ainda mais as opiniões.

Dessa forma, creio que a auto-organização das redes sociais (tanto online como presenciais) tende a reproduzir reuniões visando reivindicar uma quantidade cada vez menor de pautas em comum, porém de uma maneira cada vez mais global, a partir de um número cada vez maior e mais heterogêneo de atores.

A isso dou o nome de metaefemeridade, ou uma efemeridade do efêmero, onde eu posso simultaneamente fazer parte de uma multidão que exige plano de saúde integral para todos em uma empresa japonesa, verba municipal para comprar o último terreno baldio da minha rua a fim de cultivar uma horta comunitária, a cabeça do técnico do meu time de futebol na Inglaterra e contribuir com um fundo contra a miséria no Uzbequistão.

Tudo isso se resolve ou não de maneira muito veloz e a simultaneidade de atividades é apenas parcial, assim como a intersecção de indivíduos com mais de um interesse em comum tende a ser cada vez menor.

Enfim, embora a sociedade urbana contemporânea esteja completamente midiatizada, vejo a mídia (tanto a ‘boa’ como a ‘má’) como um instrumento a serviço de um poder maior, ao invés de ser a materialização do poder. Porém, à medida que eu e centenas de milhões de leigos vamos nos apropriando da técnica e da discursividade como produtores e usuários de veículos não-massivos e em rede, grande parte do discurso midiático cai no ridículo.

E não pensem que ele cai no ridículo apenas para os tecnófilos ou para os ricos: do contrário, Serra teria sido eleito presidente – e em 1º turno.

Peço desculpas por não ter citado direta ou indiretamente vários autores que inspiraram este post. Perdoem-me também por não ter aprofundado diversos conceitos dos quais me apropriei, mas acho que pude dar uma idéia geral do que eu penso. Tem um quê de Bauman, Maffesoli, Giddens, Foucault, Marcondes Filho, Fragoso, Lèvy, Hardt e Negri, De Masi, Adorno, Horkheimer e outros.

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