POLÍTICA DE ALTO NÍVEL

Ao contrário do que muitos pensam, todo homem é político.

Todo homem é político porque é obrigado a fazer escolhas.

Toda escolha envolve a opção entre uma perda e um ganho, pois não se pode ganhar nem perder tudo: obrigatoriamente, deve-se abrir mão de uma coisa para poder ter outra.

A sociedade é coletiva: as pessoas não são iguais, mas compartilham o mesmo espaço e umas dependem das outras para sobreviver. É por isso que cada um tem uma habilidade diferente – para que a sociedade seja rica, plural, diversa, de forma que todos aprendam e, na medida do possível, dividam tarefas sem que a maioria precise ser sobrecarregada em benefício de poucos.

Por uma questão de sobrevivência, devemos tornar o ambiente pacífico. Para isso, é fundamental que as diferenças individuais sejam postas em segundo plano para que a prioridade represente um conjunto de ações e de normas que permeiem um interesse comum.

Mas que fique bem claro: a decisão da maioria não irá agradar a todos e nem tampouco resolver todos os problemas. Porém, é preciso ser respeitada sempre que for legítima.

E por falar em decisão, é sempre melhor que todos tenham direito de escolha do que deixar a decisão nas mãos de um ou de poucos. Afinal de contas, a decisão de uma minoria não raro consiste em uns poucos advogando em causa própria com o uso da boa fé da maioria.

Logo, é muito mais seguro ser representante de si e ter a consciência dos motivos pelos quais se outorga a representação da tua palavra a um punhado de escolhidos do que omitir-se de reivindicar e de propor algo diretamente.

A quem se considera “apolítico”, afirmo que vocês gostam e precisam de política o tempo inteiro. Sabem por que?

1) Porque a briga com o irmão menor pelo colo da mãe ou por um brinquedo e é mediada para evitar que um bata no outro é política;

2) Porque, independentemente do gosto pessoal na hora de optar entre um saco de feijão e um quilo de carne no supermercado, quando não se pode ter os dois em função da falta de dinheiro, essa escolha econômica tem origem na política que não permite que todos os cidadãos brasileiros tenham direito a comer nem mesmo os alimentos mais prosaicos;

3) Porque o governo que faz vista grossa para o tráfico de drogas aumenta exponencialmente a chance de te apontarem uma arma pra roubar o teu carro;

4) Porque a decisão de quem permite que se construa um arranha-céu defronte da tua casa impedindo o sol de alcançar a tua janela traz várias consequências ruins para a tua vida como, por exemplo: a) aumenta o teu custo com detergente pra limpar o mofo; b) aumenta os gastos com remédios e consultas médicas (pele, doenças respiratórias, alergias); c) te obriga a usar mais roupas e assim por diante.

Embora a propaganda eleitoral e os debates pouco expliquem as diferenças entre pessoas e partidos; e embora o noticiário da mídia corporativa sempre penda para o mesmo lado sem que tu percebas isso, independentemente das tuas referências, é muito importante que tu entendas que, do presidente da república ao vereador, é fundamental votar em pessoas da mesma coligação ou – de preferência – do mesmo partido.

Por que? Porque eles seguem um conjunto de crenças e de práticas permeados pela mesma linha de pensamento. E se tu acreditas que há uma forma de fazer com que a vida de todos melhore (não apenas a tua; não sejas egoísta, por favor – afinal de contas, ninguém ganha ou perde sozinho), desejo que tu te definas pela visão de mundo que mais se aproxima da tua.

Te informa.

Participa.

Não te omite.

Entendas tu que não há neutralidade nem isenção de lado algum e que, se tu não te definires; se tu não mostrares o que defendes e o que não defendes e por que, estarás deixando livre o caminho para que decidam por ti sem que tu tomes conhecimento sobre uma série de decisões que, no conjunto, jamais contribuirão para a melhora da tua vida e da vida da tua coletividade.

PENSA NISSO.

Eu tenho lado: o meu lado está no vídeo acima.

Tenho meus motivos pra acreditar nessa proposta. Mas não irei discuti-los neste post.

Também não me interessa fazer a tua cabeça. Afinal de contas, não mando em ti e não estou te julgando como alguém incapaz de tomar alguma decisão desse vulto.

No entanto, este blog está repleto de posts que mostram a minha visão política, econômica, social, esportiva e afetiva.

Eu não sou o dono da verdade.

Mas, caso tu me consideres como uma pessoa cuja opinião é válida, pode ser que tenhamos mais pontos em comum do que podemos imaginar. Afinal de contas, a afinidade aumenta a empatia.

Por outro lado, não faz o menor sentido eu te desvalorizar ou tu me desvalorizares caso pensemos a sociedade de uma maneira bem diferente.

Eu te respeito e tu me respeitas.

A única coisa que eu não posso fazer é me furtar de demonstrar por que eu acredito em A e não acredito em B. E, do meu lado, também não posso te negar o direito de expressares a tua posição.

Caso te interesse discutir essa questão comigo, poderemos levar essa pauta para um patamar mais alto: assim, ambos iremos expor as nossas visões de mundo sem xingamentos. Nesse instante, um procurará esclarecer o outro com fatos verdadeiros e detalhados.

Assim se faz política em alto nível.

E é assim que se aprende a conviver pacificamente com o oposto.

Contudo, é preciso saber que nem sempre se perde e nem sempre se ganha. E que, quando se perde, não se pode torcer contra o desenvolvimento da sociedade. Não se pode torcer para estar certo acerca das mazelas e dos erros que se vê no oposto vitorioso.

Não se pode deixar de propor, de acompanhar e de fiscalizar pra fazer patrulha e fofoca.

Afinal de contas, estamos todos no mesmo barco: se houver um rombo no convés, das duas, uma: ou afundamos todos juntos, ou todos ajudam a tapar o buraco.

Eu tenho lado e não me omito. Não te obrigo a te declarar, mas caso queiras tocar nesse assunto comigo, gostaria muito que deixasses bem claro:

– Em que acreditas e por que;

– Em que não acreditas e por que;

– De quais pontos dessa ideologia tu não abres mão;

– O que tu conheces sobre a minha ideologia e a partir de quais fontes;

– O que te faria mudar de ideia;

– Por que tu achas que vale a pena tentar me convencer sobre o teu ponto de vista;

– Até que ponto tu achas que podes me ensinar algo;

– Até que ponto tu achas que podes aprender comigo;

– Como tu achas que podemos conciliar os pontos em comum sobre as nossas ideologias diferentes?

O objetivo de toda esta longa conversa é podermos concordar integralmente acerca de determinados pontos. Mas para que isso aconteça, cada um de nós precisará ceder um pouco.

Infelizmente, não podemos resolver os problemas do mundo de uma vez por todas. Porém, só o fato de haver desprendimento e de um não querer impor suas ideias ao outro com o reprovável uso da desonestidade, da agressividade e do oportunismo significa que queremos verdadeiramente o melhor para a maioria.

Isso feito, saibas que às vezes, estaremos juntos. Mas, na maioria das vezes, não. De qualquer forma, respeito, admiração e solidariedade precisam ser os eixos que compartilharemos sempre.

Justamente por isso, não faz o menor sentido nos afastarmos. Afinal de contas, é mais do que certo de que precisamos uns dos outros – por menos que isso seja percebido no dia a dia…

GRÊMIO CAMPEÃO GAÚCHO DE 2010

Vou falar agora sobre o que interessa, que são os dois grenais. Não sobe cada jogo individualmente mas, sim, sobre as escalações e organizações táticas que fizeram com que as duas partes de uma mesma decisão que coroou a vontade maior do Grêmio fossem tão diferentes.

Começo por ontem: sinceramente, não vejo como ruim, constrangedora e nem tampouco vergonhosa a derrota para eles ontem em casa, em meio a uma festa preparada.

Eles tiveram uma única chance real de gol e não conseguiram forçar o suficiente a ponto de fazer com que o Grêmio errasse ainda mais do que errou. Bem ou mal, a dupla de zaga funcionou. Por outro lado, os nossos dois laterais – a meu ver – fracassaram. Porém, isso não se deu por falhas individuais gritantes mas, sim, pelo fato de não ter havido uma cobertura mais sólida a ambos.

O plantel do Tradicional Adversário é, sim, de muita qualidade. A eles, falta um centroavante de área, pois o pivô movediço tão perigoso e eficiente quanto o nosso satisfatório e perigoso Borges é Walter. A eles, falta alguém equivalente ao Jonas (por favor, não comecem de novo), isto é, alguém veloz porém consciente na hora de prender a bola e eficiente nos cruzamentos e tabelamentos.

Mesmo que Ozéia tenha jogado direitinho ontem e que também tenha correspondido às expectativas no Maracanã diante do Flu, ainda assim o entrosamento de Victor aos volantes (setor predominantemente defensivo), é notável o desentrosamento gerado pela ausência de Mário Fernandes.

Como se isso não bastasse, não foi apenas a falta de um único titular incontestável que fez a diferença no posicionamento, no tempo da bola e na decisão sobre a iniciativa de exercer a carga sobre o adversário X ou Y mas, sim, o retorno de um antigo titular cujo futebol só funciona em uma curtíssima faixa do campo, pois ele não é alto, não é veloz, não é habilidoso e é menos forte do que sua posição normalmente exigiria de um jogador. Falo de Ferdinando.

O retorno do volante ex-Avaí prejudicou severamente a movimentação tricolor: afinal de contas, ele é uma peça que altera – e muito – o posicionamento e a movimentação de quase meio time. Ficou claro que o único volante que conseguiu sair jogando com poucos erros e com bastante efetividade foi o “alemão” Adílson. Willian Magrão esteve totalmente perdido, pois sua única postura eficiente foi ao fechar a entrada da área pelo meio, a fim de evitar novos arremates de longa distância.

Se Magrão não conseguia progredir nem permanecer em uma faixa do campo mais ou menos determinada, isso interferiu também no aproveitamento de Douglas: faltou ao nosso meia de ligação verdadeiramente habilidoso a necessária parceria capaz de fazer com que o time obtivesse mais espaços para municiar Jonas e Borges mais frequentemente.

Aí, chegou no segundo ponto de desarranjo no meio-campo: Leandro, que não é meia de ligação nem atacante, que possui habilidade mas que não possui nem uma posição definida, nem é capaz de flutuar livremente com uma boa coordenação associada à dinâmica da movimentação de todos do meio para a frente.

Isso posto, considero imprescindível hoje a presença de – pasmem – Fábio Rochemback no lugar de Ferdinando e de, na impossibilidade do titular absoluta Maylson, Hugo.

Hugo foi o nome do Grêmio no 2º tempo: ele alterou o jogo a nosso favor, pois minimizou muito a forte marcação exercida pelo gigante Sandro sobre Douglas.

Voltemos à escalação do T.A. ontem: eles não escalaram a “reba” ou a “baba” mas, sim, homens que proporcionaram um conjunto de opções táticas e técnicas bastante diferentes, como uma tentativa de nos surpreender. Comparem com outros clássicos: por acaso alguém viu alguma lógica quando o Mano Menezes inventou aquele 3-6-1 apenas com Rômulo no ataque e a invenção do lateral Alessandro naquele grenal em que Diego Souza destruiu com eles no Aterro? Lembrem-se de que, até então, Alessandro vinha sendo contestado, pois era um lateral que não apertava na marcação e que não apoiava decentemente.

Todos os reinos (animal, vegetal, mineral, etc.) estão carecas de saber como eles jogam com Andrezinho e/ou D’Alessandro e com Guiñazu: leveza do meio para a frente sem marcação na saída de bola do adversário, cruzamentos perigosíssimos pingados entre a marca do pênalti e a pequena área (exatamente no ponto onde é quase impossível um goleiro conseguir sair) e muitos chutes de fora da área. Reparem também na grande diferença de estatura que o Grêmio enfrentou ontem: foi um T.A. bem mais alto em todos os setores do campo, exceto pela opção por Taison.

Ronaldo fez um bom Brasileirão. E ele é bem mais jovem do que Índio, Bolívar e Fabiano Eller. Se é mais fácil destruir do que construir, ao invés de atuar num 4-4-2 com a iniciativa de atacar como o fez no Beira-Rio, Fossati optou por um 3-5-2, sabendo que precisava experimentar jogar no contra-ataque superpovoando a defesa com medo de Jonas e Borges, além de tentar brecar a qualidade de Douglas.

Apesar de ter inventado o desesperado 4-2-4 nunca treinado ao final do clássico anterior e também contra o Banfield, vocês poderão até me jogar ovos (não, não façam isso: há muita gente faminta e essa brincadeira não tem graça!), mas considero Fossati um bom técnico, sim.

Mesmo que tenha entrado apenas ao final da partida, o meia Tiago Humberto, também foi muito bem no hoje Grêmio Prudente (ex-Barueri). Foi uma tentativa válida de tentar mudar o toque e a cadência da bola, pois eles precisavam de outro gol e a marcação do Grêmio foi bem-sucedida, principalmente no 2º tempo. Felizmente, também não deu certo.

Eu vi Sandro e Giuliano em todos os jogos do Mundial Sub-20 no ano passado. A maturidade e a qualidade técnica de ambos sobra. Hoje, diria que são muito mais jogadores do que Andrezinho e D’Alessandro (no caso de Giuliano) e que, a exemplo da possível intromissão de um jogador menos qualificado do que outro em uma posição adjacente, diria que, sim, o idolatrado Guiñazu atrapalha – e muito – os movimentos de Sandro.

O Grêmio celebrou o fato de que – aparentemente – a ausência dos meias de ligação considerados titulares (D’Alessandro e o injustiçado 12º jogador colorado, Andrezinho) não nos ameaçariam. Por desconhecimento do vasto plantel vermelho, não houve, por parte da nossa comissão técnica, uma rápida percepção acerca da dinâmica completamente inesperada posta por Jorge Fossati em campo ontem no Olímpico.

Após muito tempo de críticas às vezes até injustas, passei a perceber que Silas costuma arrumar melhor o time no intervalo. E, como de costume, assim o foi: Hugo fez Jonas (muito, muito marcado) jogar um pouquinho mais, assim como também colaborou com uma aparição mais perigosa de Borges (este, uma peça diferenciada em nível nacional). Douglas, por sua vez, ainda deixava a desejar, graças à atuação de Sandro. Porém, Hugo trouxe ao Grêmio uma presença ofensiva maior e uma posse de bola que poupou a nossa zaga dos erros e de um desgaste físico maior ao final da partida.

Neuton não foi surpreendente nem ofensivo como o fora no Beira-Rio. Também não foi notado dentro de campo como ocorrera no Maracanã. Contudo, não atuou mal: embora não tenha a mesma velocidade nem o estupendo tempo de bola do Mário Fernandes, foi excelente ao impedir que Taison conseguisse ser veloz e perigoso.

Enfim… Conquistamos nosso 36º Gauchão em nossa 13ª decisão direta contra eles e, a exemplo dos tempos de Dorinho, eles ganharam o último clássico sem uma vantagem suficientemente capaz de retirar o nosso título.

Hoje, começa uma nova caminhada: os quatro primeiros meses do ano, que significaram a adaptação de uma porção de novos atletas e de uma nova comissão técnica à cultura do clube, da mídia e da nossa sociedade, acabou. O torneio que representa a primeira etapa em um processo de desenvolvimento físico, técnico e tático contra adversários pouco expressivos agora retorna somente em 2011.

Silas pediu reforços. Ele sabe que outros meninos além dos dez que ora são profissionais precisarão ser maturados e que o nosso celeiro de craques tende a nos trazer novas revelações quase na metade do segundo semestre. Também ficou claro que alguns dos jogadores trazidos para compor o grupo são insuficientes para a exigência do Brasileirão. Como se isso não fosse uma exigência suficientemente forte, também estamos diante da primeira Copa do Brasil em vários anos cujos oito remanescentes hoje à espera da partida de volta das quartas-de-final são todos times de Série A. Como há muito não se via, há um Atlético-MG com um plantel experiente, com um Luxa motivado e com uma massa ávida por um título após o pesadelo da Série B. Como há muito não se via, há um grande clube carioca procurando mudar a sua maneira de pensar o futebol buscando dar um salto de qualidade (o Fluminense de Muricy) e, finalmente, como há muito não se via, há um time muito chato, veloz, insinuante, correndo como franco atirador, que irá incomodar muita gente durante o resto do ano (o Atlético-GO, de Geninho).

Os Meninos da Vila, que formam o time de futebol mais ofensivo, bonito e assustador do país, estão no caminho do Galo, assim como o Tricolor das Laranjeiras está no nosso. Fora esses, vimos, com a final do Gauchão, que não se pode tirar o Tradicional Adversário para compadre sob hipótese alguma. Há ainda Mano Menezes tentando se consagrar com um Brasileirão em um clube que investiu muito neste ano d centenário, assim como a manutenção da espinha dorsal do São Paulo dos últimos anos.

Ainda não estamos prontos. Mas o nosso norte é, após muito tempo, bastante nítido.

RACISMO NOS CLUBES: DISCUTINDO PROCESSOS E NÃO PESSOAS

Todo clube social é excludente e possui uma origem racista. O Inter, o Grêmio, o Leopoldina Juvenil, o União, a Sogipa e tantos outros possuem, em parte de seus fundadores e conselheiros atuais herdeiros desses fundadores, um ranço racista.  Tolerar, conviver junto e aproveitar-se das qualidades e dos benefícios que funcionários e jogadores negros oferecem não é o mesmo que buscar tratá-los de forma igual.

Quem não é, não sabe o que quem é sente quando é agredido. No episódio que recente que está tirando o Grêmio para Cristo, digamos que Maxi López possa até não ter dito o que disse com uma conotação racista. Digamos também que  Elicarlos não tenha tentado fazer um bolo pra provocar a expulsão do adversário. Como defesa anti-repulsa ao Grêmio e anti-racista ao nosso atacante, a palavra de uma professora de espanhol do Instituto Cervantes, que é uruguaia e cita um dicionário de insultos argentinos. Como justificativa (seja contra ou a favor de Maxi), no calor do jogo, se diz tudo, assim como tem gente que se aproveita da lei provocando situações de má fé.

Embora não creia que o Grêmio deva dar satisfações a quem quer que seja por não ter sido um ato institucional, definitivamente, nosso clube não é o mais racista, nem o precursor do racismo, nem o incentivador do racismo no futebol, seja dentro ou fora dos gramados. E o fato não teve respaldo nem endosso da direção ou dos atletas.

Quanto a acusar ou não a mídia corporativa especializada, além de não entender nada sobre o assunto e de procurar especialistas voltados à defesa do status quo, ela ora bate, ora assopra, segundo os interesses comerciais de seus anunciantes. Não tenho achado que seu trabalho neste momento seja necessariamente antigremista nem colorado. Basicamente, vejo a ignorância em relação a uma questão socialmente complexa e delicada.

Quanto ao Inter, não adianta ter o rótulo de popular e ter um saci como mascote porque o tratamento dispensado aos negros é igual.

Em qualquer clube (seja de futebol, de bocha, de botão ou de chá), pode até nem se falar nisso nas reuniões do CD. Mas dentro de grupos políticos, em conversas informais puxadas por amigos de tempos, isso pode acontecer, seja como piada, seja como tentativa de valorizar o seu argumento e de minimizar a importância do que o outro falou usando racismo, sexismo, etc. como uma forma de justificar o injustificável.

De maneira geral, a forma carinhosa ou até mesmo os insultos trocados por jogadores antigos eram tirados de letra porque, além do peso dos insultos ser menor, o nível de escolaridade era bem superior ao atual. Havia famílias mais estruturadas e menos fragmentadas em todos os estamentos, havia muito menos desemprego e a concentração de renda era muito menor. hoje em dia, tudo – absolutamente tudo – o que é discutido por leigos, isto é, segundo a forma que o senso comum encontra de afirmar a sua visão limitada sobre qualquer assunto, é dicutido na base da ponta de faca.

Como parte integrante de uma sociedade multifacetada e envolta nas mais diversas contradições, o Grêmio não pode ser visto como a única nem como a maior coisa da vida de um torcedor. O Grêmio, como uma instituição composta por pessoas extremamente diferentes, não poderia ser diferente de ninguém: nem melhor, nem pior. A crítica que faço ao Grêmio não é prioritariamente voltada ao Grêmio nem ao Maxi mas, sim, ao gaúcho como um todo: infelizmente, vivemos no lugar mais racista e reacionário do país.

YEDA, CPI, CONJUNTURA, PT, AÇÃO SOCIAL

O Agente 65 pergunta o seguinte no post que originou o que mais abaixo escreverei:

“Minha opinião é que sai a CPI, deputados renunciarão, secretários pedirão demissão, Yeda abdica do trono e muita gente vai pra cadeia. Duvida?”

Respondi a ele nos comentários que adoraria não duvidar. Porém, não confio no Judiciário, que é tão oligárquico quanto os corruptos que mandam no RS há zilhões de anos. Não adianta: o Judiciário é tão viciado quanto o jornalismo corporativo porque a origem econômica e social dos funcionários mais destacados é similar à dos donos da indústria para a qual produzem.

A necessária mudança na mentalidade e no perfil conservador e preconceituoso do grosso dos integrantes atuais dos campos jurídico e midiático só se dará no Brasil quando pelo menos duas gerações de novos juristas e de novos magistrados for oriunda do Bolsa Família, do ProUni e da tão esperada quanto lenta e gradual qualificação do magistério público no Brasil.

Por semelhança de valores e por não existir imparcialidade em absolutamente nenhuma questão humana, a referência de todos costuma ser sempre a da proximidade (comunitária, étnica, religiosa, profissional, etc.): quanto mais parecido for o réu, a testemunha ou o acusador com o advogado, com o juiz, com o desembargador, com o procurador e assim por diante, maiores serão as suas chances de ser culpado ou inocente, dependendo da situação.

Sou do tempo em que figuras lamentáveis que estão em evidência no cenário político-partidário gaúcho há anos possuíam seus 45, 55 anos. Nesse sentido, vendo-as hoje com 70 a 80 anos e repletas de sucessores estúpidos e menos inteligentes, percebo um tom positivo: afinal de contas, parece que a sucessão “real” passará mesmo a ser uma sucessão mais democrática caso as leis de financiamento de campanha reduzam a possibilidade de caixa dois.

Voltando à questão: como tudo isso irá demorar, na minha opinião, não menos do que duas décadas, por ora, o PT não tem como se coligar com nenhum dos grandes partidos por duas razões: primeiro, porque a esquerda como um todo se fragmentou; segundo,  porque não adianta nada o Tarso ter 35% contra 28% do Fogaça agora (acho que essa diferença não aumenta nem diminui grande coisa até as eleições), já que a direita se junta e derrota a esquerda quase sempre.

Contudo, o pior desse quadro é o fato de que a prática da mídia corporativa tende a se manter muito semelhante à prática atual em função de ainda não verificarmos uma pressão considerável do Governo Federal contra as concessões públicas concentradas nas mãos de poucos. Quero crer que o projeto secreto do qual Eduardo Guimarães fala que está agilizando com um determinado grupo de interessados (que, a meu ver, não precisava ser secreto) e que a Conferência Pró-Democratização da Comunicação (não sei se o nome é bem esse – estou com pressa de procurar), que envolve concessões bem mais flexíveis e baratas para rádio e TV digitais juntamente com a aceleração na instalação de banda larga nas periferias realmente decolem. Do contrário, a emergência de ações políticas, sociais e econômicas contundentes na direção da satisfação das demandas da base da pirâmide oriunda das Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs) ainda não se dará no mesmo nível em que ocorrem nos EUA pelo menos desde 2004.

Continuando essa estrutura conjuntural da mídia e do Direito no ponto em que nos encontramos hoje, infelizmente, preciso dizer que as chances do Desgoverno Yeda cair de vez antes do final de seu mandato será pequena. Caso Yeda caia, Feijó será governador. Em um lance rápido, poderá privatizar tudo. Portanto, não adianta entrarem os suplentes de possíveis deputados afastados pela  ação de uma lenta CPI. Os comprovadamente culpados de corrupção, tráfico de influência e outros tipos de crimes só serão julgados anos após o final de seus mandatos.  Mesmo assim, uma quantidade considerável dos meliantes se safará dessa em função do Judiciário que temos.

Se quem julga e quem é julgado pensa o mundo de maneira muito parecida e costuma fazer parte das mesmas redes sociais, independentemente de nomes, partidos, intenções pessoais e de não terem absolutamente nada contra si na Justiça, a tendência é a de que a maioria dos suplentes que porventura venha a ocupar os cargos vagos será conivente por interesse. Nesse caso, a conivência por interesse é irmã do “calar e consentir”. Normalmente, essa prática é muito mais nocivo ao sistema do que o ladrão direto e explícito: afinal de contas, não é preciso meter a mão na grana pra se beneficiar largamente.

Classe mérdia bovina, obrigado por tudo. Ontem, hoje e durante mais um bom tempo…

Enquanto isso, sigo o verso da canção Caio no Suingue do grupo de percussão carioca Pedro Luís e A Parede:

SE TODOS REALIZAM ALGO, O MUNDO SEGUE O SEU CAMINHO.

É por isso que, embora necessária e por mais que eu seja ideologicamente identificado com a esquerda; por mais que eu siga votando no PT por identificação programática e por simpatia pessoal com muitas pessoas, gostaria de ter opções mais sólidas, que fizessem menos concessões e conseguissem ter peito de agilizar mais as reformas em curso no país.

Nesse ponto, confio mais na ação do voluntariado, nas redes sociais, no uso das TICs e na mudança de um discurso menos partidário e menos evangelizador, voltado para a juventude através de uma linguagem mais imagética do que textual.

Pressionar o poder institucionalizado é muito mais eficiente do que fazer parte dele. Afinal de contas, sem envolvimento partidário direto, é muito mais fácil preservar a integridade dos valores e aglutinar pessoas próximas com objetivos comuns a fim de meter a mão na massa e desburocratizar as ações enquanto estivermos vivendo sob este contexto.

PIG + GOVERNO x BLOGS GAÚCHOS

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Tal quadro me leva a crer que a emergência (v. Steven Johnson) da blogosfera como uma mídia social capaz de roer os pés de barro da mídia corporativa já põe em xeque reputações de marionetes outrora tidas como formadores de opinião.

Quando o discurso hipócrita, raso e ineficiente de seus funcionários celetistas e terceirizados é desmascarado, eles que se virem. Mas quando esse discurso devassa a palavra oficial do PIG, entra na jogada a maior conjunção de poderes (econômico, coercitivo, político e midiático) que este mundo já viu.

PIG e os governos autoritários não percebem é que tanto esses processos absurdos como suas campanhas publicitárias desesperadas que buscam resgatar a credibilidade perdida já não encontram o eco que encontravam antigamente perante a classe média urbana.

Gigantes: queiram ou não, vocês precisam necessariamente fazer jornalismo investigativo. Entrevistar referências profissionais fora de seus pares é muito fácil, desde que não se tenha preconceito. Apurar até o fim o desdobramento de um fato qualquer antes de publicá-lo é o mínimo que se pede. Finalmente, corrigir o erro rapidamente desculpando-se em letras garrafais demonstra maior capacidade de assimilar o golpe e voltar a ter uma imagem crível.

Não sei se sou pessimista demais ou se já passei da idade de acreditar em Papai Noel. Mas ainda acho que posso assistir em vida à transformação desse círculo vicioso em um círculo virtuoso.

Um último recado: não confundam críticas à qualidade técnica, histórica e ao respeito factual ou ficcional de uma dada informação e a denúncia de práticas comprovadamente antiéticas ou ilegais com algo passível de calúnia, difamação ou injúria. Deem-se ao trabalho de nos conhecer e de dialogar de maneira saudável.

Afinal de contas, todo debate inicia-se a partir de um estranhamento. As diferentes opiniões podem até ser incapazes de mudar aquela versão jogada aos leões. No entanto, a versão seguinte tende a dar um salto de qualidade, proporcionando reflexão e crescimento.

Já falei disso aqui e repito: o modelo autoritário e centralizador da modernidade não tem mais vez na pós-modernidade. Quem não se dispõe a aceitar que pode melhorar e ser muito mais útil à sociedade é, para Kant, menor. Quem se força a ser menor, não amadurece. Mas sabe-se que até os gigantes contentam-se com a menoridade, pois não é fácil crescer…
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SAIBA MAIS:

POLÍBIO BRAGA x NOVA CORJA
FELIPE VIEIRA x NOVA CORJA
(DES)GOVERNO YEDA x NOVA CORJA
RONALDO BERNARDI (aka. RBS) x PONTO DE VISTA
LETICIA WIERZCHOWSKI x MILTON RIBEIRO