O GRÊMIO E A POLÍCIA

Meu nome é Hélio Sassen Paz. Tenho 36 anos. Minha esposa é Lúcia Isabel da Silva Schenini, 42 anos. Vamos juntos a 95% dos jogos do Grêmio no Olímpico todos os anos desde 1996. Tenho uma frequência no estádio superior a 90% desde 1981, exceto em 1979 e 1980 quando era muito pequeno 2000 e 2001 quando morei no Rio de Janeiro.

Sem rádio no estádio, li na manhã seguinte à partida contra o Cruzeiro (sexta-feira passada) no Correio do Povo que algumas centenas de gremistas com ingresso foram impossibilitadas de entrar na Geral antes do jogo começar – muitos deles sócios-torcedores. Mais tarde, no intervalo, a mesma atitude lamentável deu-se também na Social. O jornal disse que foi um jogo de empurra de um portão a outro: o Grêmio dizia que quem mandou fechar os portões foi a Brigada e a Brigada diz que quem emitiu a ordem foi o Grêmio.

Ingresso caro, jogo decisivo e cercado de expectativa, muitos matando aula e trabalho, outros com imensa dificuldade de chegar calmamente devido ao trânsito. Em qualquer aglomeração, sempre há idosos, mulheres, crianças e portadores de necessidades especiais.

Intervalo: nos portões 1 e 2, pouquíssimos sócios e locatários de cadeiras (a maioria deles com débito em conta ou cartão de crédito – portanto, de contribuição mensal sem atrasos) que normalmente podem acessar o estádio com atraso foram barrados por brigadianos truculentos. O jogo de empurra continuou. Minha esposa, que trabalha ou tem aula até tarde, eventualmente chega no intervalo dos jogos. Pois justamente nesta malfadada porém especialíssima semifinal contra o Cruzeiro foi a única vez em que foi barrada.

Se eu não tivesse encontrado o conselheiro Élvio, ou teria jogado meu copo de Coca-Cola no chão e levado umas cacetadas de algum brigadiano, ido para o HPS e maculado minha ficha limpa, ou teria quebrado a minha carteirinha. Neste último caso, até o devido esclarecimento das responsabilidades, teríamos sido pelo menos três sócios a menos – com profundo pesar e sob efeito do mais inconsolável dos lamentos. Afinal de contas, torcer e participar não pode nunca tornar-se um fardo ou uma obrigação.

Apesar da gentileza do cel. Élvio e apesar de ter tido várias decepções dentro e fora de campo que tiveram como pivôs uma série de atitudes advindas de sucessivas gestões, nunca havia percebido tamanho desrespeito, tamanha ignorância, tamanha incompetência e tamanha estupidez da Polícia. E isso acarreta também na incompetência e no despreparo da própria direção tricolor.

Na volta para casa, no táxi, na Rádio Gaúcha, o depoimento com a voz embargada de um locatário de cadeira maduro, vindo de Bagé, que pegou 5h de estrada e não conseguiu chegar a tempo para o apito inicial. Além de barrado, apanhou feio da Brigada.

A postura fidalga de Duda, Krieger e outros menos votados, em um curto prazo, com ou sem a herança maldita da ISL, enfraqueceu o futebol como um todo do profissional às categorias de base. Para que a responsabilidade não fique somente atrelada ao grupo político que detém o poder na atualidade, o político profissional Paulo Odone, por sua vez, é fiel depositário de um governo estadual corrupto e truculento – o desgoverno responsável pela polícia bandida que defende corruptos e não protege o cidadão nas ruas de uma capital cada vez mais desprotegida.

Aonde quero chegar com essa comparação aparentemente sem pé nem cabeça? Em primeiro lugar, a gestão Duda não possui imbricações diretas no centro de decisão política do Estado. Em termos, tal postura ameniza o peso da participação do clube no seio de interesses clientelistas, corporativistas, estamentais e excludentes vinculados à macroestrutura. No entanto, isso aponta para uma gravíssima constatação: será que, para evitar as constantes arbitrariedades da Brigada Militar sobre os frequentadores de QUALQUER evento público dentro de recinto privado, é necessário haver algum integrante ou ex-integrante do poder coercitivo como parte do corpo diretivo de um clube de futebol a um grupo de escoteiros?!

No caso de a Brigada Militar ter-se tornado uma instituição politicamente desvalorizada e socialmente desrespeitada, será que essa triste constatação não ocorre exatamente por causa da gestão de mentes doentias no Desgoverno do Estado?

Se a “Máfia do Detran” teve peças-chave dirigindo o Grêmio até o ano passado e se eles subscrevem os desmandos da trupe de Yeda, isso significa que, por acaso, a gestão Odone tinha mais condições de segurar o facho da Brigada por fazer parte do círculo do poder da macroestrutura guasca?

Mais uma vez, repito: a democracia representativa apodrece todas as instituições. Se é um regime menos pior do que qualquer ditadura, monarquia, feudalismo ou patriarcado tribal, por outro lado apresenta de maneira camuflada tudo o que de pior existe em todos esses outros sistemas políticos e seus benefícios tornam-se muito menos significativos do que poderiam ser.

Na 1ª edição do SportsCenter na ESPN Brasil (meio-dia da sexta dia 03/07), o repórter Vinícius Nicoletti estima entre 1500 e 2000 o número de associados tricolores barrados e covardemente agredidos pela polícia (ver as quatro matérias relacionadas aquiaqui, sem nos esquecermos dos verdadeiros excessos, que não foram coibidos pela BM aqui e aqui também).

Muito me admira a falta de coragem e de reconhecimento dos direitos de cidadão dos agredidos: munidos de câmeras digitais e com um monte de repórteres por perto, além da presença do juizado especial junto ao portão 6, era plenamente possível que muito mais fotos e vídeos tivessem inundado a internet. O registro do crachá de agentes públicos concursados e muito bem treinados para NÃO fazer o que fizeram e a busca do nome do responsável direto pela corporação que tratou da “proteção” ao torcedor há uma semana atrás poderiam ter resultado em algo muito mais significativo para a sociedade gaúcha do que o mero medo de apanhar de cassetetes, de levar um tiro ou de ser pego na rua à paisana.

Não tenho nada contra a Polícia. Muito pelo contrário. Porém, ela faz parte da sociedade e não está nem acima e tampouco abaixo da lei. Aos gremistas agredidos que guardaram os nomes de seus agressores, eis o contato da CORREGEDORIA para denúncias.

Pra terminar, os cidadãos precisam necessariamente conhecer, exigir, cobrar, sugerir e esclarecer todas as suas dúvidas relacionadas à proteção policial institucionalizada entrando em contato com o comand0 geral da Brigada Militar.

Outros blogs que discutem essa questão com seriedade são o Alma da Geral e o Grêmio Libertador.

POLÍCIA PARA QUEM PRECISA II

No final das contas, a atividade policial (ou policialesca, como queiram) ocorre contra os movimentos sociais porque eles possuem um grau de politização e um alto grau de conscientização do seu papel SOCIAL. Contudo, o método secular de manifestações públicas e da discussão política presencial hoje estabelecem uma quebra no fluxo que a classe média urbana não aceita de jeito nenhum (seja pela crença no medo forçado pela mídia corporativa, seja por puro individualismo). Tal processo, que vem da economia, da política, da internet, da midiatização e dos infinitos usos da técnica e do discurso que possibilitam a circulação de bens simbólicos mundo afora, é inevitável, pois não é necessariamente imposto e nem tampouco fruto de um pensamento único. Isso seria simplificar demais a questão.

O resultado mais observado em todas as esferas sociais é a passividade induzida por uma falsa sensação de que tudo na sociedade é devidamente dialogado e de que não vivemos sob um império global, contra o qual dever-se-ia resistir de maneira global, descentralizada e em rede. O estado nacional está enfraquecido, assim como a guerra é de todos contra todos e é constante. Na verdade, o regime normal é a pax americana, enquanto o regime de exceção é inadmissível por quase toda a sociedade, que acredita ser livre e autônoma.

A esmagadora maioria dos funcionários públicos, funcionários privados, estudantes e (o maior exemplo de todos) atletas são um reflexo dessa passividade.

Porém, isso não se contorna meramente criticando a intenção da mídia corporativa, já que muita gente não acredita piamente nela, e nem meramente conhecendo pessoas, empresas e o seu respectivo poder econômico, coercitivo e simbólico: é preciso conhecer como eles se articulam e fazer ainda melhor.

Portanto, para evitar esse tipo de confronto infrutífero, inútil, derrotista e incompetente, falta COMPETITIVIDADE, OBJETIVOS CLAROS e um CAMINHO ARTICULADO à esquerda contemporânea.

Não quero mais ver atitudes quixotescas dos movimentos sociais.

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POLÍCIA PARA QUEM PRECISA I

Tenho uma suposição a fazer em relação à consciência (ou falta de) no papel dos brigadianos que, via de regra, são tão maltratados quanto os movimentos sociais. Por dever do ofício, sentem-se forçados a agredir irmãos, semelhantes, pessoas que vivem uma realidade tão dura quanto a dos membros subalternos da corporação.

MICHEL FOUCAULT explica bem essa questão em seu texto OS CORPOS DÓCEIS (um capítulo do brilhante VIGIAR E PUNIR), que eu interpreto da seguinte forma: a rigidez da disciplina, os movimentos coordenados, a exaustão do treinamento físico e a coreografia da força (marcha, cassetetes nos escudos, avanço em linha) são, muito mais do que a vontade pessoal e coletiva de cada soldado em agredir ou em proteger quem quer que seja, uma demonstração daquilo que quem elaborou as leis do país e dirige a sociedade política e economicamente deseja para manter a ordem e o status a seu favor.

Não é a favor da maioria das pessoas mas, sim, a seu próprio favor.

Contudo, desde que o Homo sapiens surgiu, infelizmente, ainda não foi possível estabelecer um sistema de proteção que, de maneira clara, honesta, justa, óbvia e legal, fosse capaz de solucionar a necessidade de auto-proteção individual a partir de um padrão consensual.

Os soldados, aparentemente fortes, são, na verdade, singelos corpos dóceis, trabalhados para servirem a um senhor de maneira servil, obediente, sem contestação de seus métodos e pior: sem capacidade de negar-se a fazer o que não quer; de negar-se a bater em quem não quer bater; de negar-se a prender quem acha que não merece ser preso; de não contestar a lei brasileira, que privilegia a criminalização de pretos, pobres e putas e a manutenção dos mesmos de sempre no poder.

Portanto, dentre todos os excluídos e quase excluídos do Brasil, infelizmente, os homens de farda (até mesmo os de alto escalão e das Forças Armadas), estão entre os menos livres e os mais bitolados.

ELES TEMEM SEUS SUPERIORES.
ELES TEMEM AOS POLÍTICOS.
ELES DESCONHECEM HISTÓRIA.
ELES DESCONHECEM OS CORDÉIS DE FORA.

Tenho uma colega de mestrado que foi pequena agricultora, assim como seu marido (que hoje é doutor em Ciências da Comunicação) e possui muitos amigos no MST.

Ela foi visitar um casal de amigos violentamente agredido na manifestação “tiro no pé” no supermercado Nacional.

Relataram a ela que, no início, os sem-terra chegaram lá e havia um contingente policial bastante calmo. Um dos soldados, amigo de um dos militantes, avisou:

- Por enquanto, tudo normal. Mas na hora em que o Mendes chegar, por favor, se mandem daqui!

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